Paulo Lima
Renan Dissenha Fagundes

por Paulo Lima
Renan Dissenha Fagundes
Trip #266

Marília Gabriela nunca foi da turma do marasmo. Na sua hipermovimentada carreira, chegou a ter programas de entrevistas na TV em três canais diferentes. Aos 69 anos, porém, resolveu descansar

Existem alguns números que Marília Gabriela Baston de Toledo prefere não saber. No médico, por exemplo, ela sobe na balança de costas, para não ver quanto pesa. Não que exista espaço para algum receio: aos 69 anos, recém-­completados no dia 31 de maio, Gabi não é menos esbelta do que quando estreou na televisão, como estagiária do Jornal Nacional. E isso foi em 1969, há quase 50 anos – mas esse é outro número do qual a jornalista, atriz, cantora e escritora não quer nem ouvir falar. "Ai, que barbaridade! Essa conta eu não faço!", diz ela, na voz encorpada e envolvente que ficou conhecida por todo o Brasil.

Gabi exibe a forma invejável correndo pelo palco na peça Constelações, que está em cartaz em São Paulo. Na montagem, dirigida por Ulysses Cruz, Gabi é Marianne, uma física quântica que vive uma história de amor com um apicultor, Roland (Caco Ciocler e Sérgio Mastropasqua se alternam no papel). "Se você assistir à minha peça, vai ver que tenho uma flexibilidade muito tranquila", garante. Tal flexibilidade, nessa "provecta idade" – como ela mesma diz –, Gabi explica com as aulas de pilates que faz há 12 anos. Ela tem, porém, outros segredos para a juventude. Um deles é tomar 1 litro e meio de água depois de acordar ("são seis copos d’água, em jejum", ela explica). Outro é um implante de hormônios. "É isso que me ajuda no tônus muscular, na energia, no dia a dia", conta.

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Reposição hormonal é um tema importante na vida de Gabi, e não é por conta da idade. Ela usa pílulas para não menstruar desde a década de 70, quando conheceu o médico e cientista baiano Elsimar Coutinho, autor de Menstruação – a sangria inútil. "Para mim, aquilo foi a descoberta da vida. Passei a ser feliz a partir daí, fazendo muito sexo, me divertindo muitíssimo", lembra. Elsimar, que tem 87 anos, é seu médico até hoje, e há algum tempo avisou a paciente que os hormônios tinham mudado de função: eram agora para evitar os sintomas da menopausa. "E eu nunca tive nenhum", diz ela.

A peça de teatro (sextas, sábados e domingos), o pilates (de segunda a sexta) e os seis copos d’água matinais (todo dia) são hoje alguns dos principais compromissos de Gabi. É que ela, que viveu intensamente as últimas décadas e chegou a ter programas de TV em três canais diferentes ao mesmo tempo (De frente com Gabi, no SBT, Roda Viva, na TV Cultura, e Marília Gabriela entrevista, no GNT), resolveu que é hora de descansar. "Sentar na frente de alguém e falar com a pessoa ainda me dá prazer, mas eu não quero mais o entorno, a função, o trabalhar, a obrigação, o compromisso, as reuniões de pauta. Já deu", afirma.

Preguiça boa

A última investida de Gabi como jornalista foi pelo YouTube, mas a experiência terminou em março (a entrevista derradeira do canal é justamente com seu médico, Elsimar Coutinho). "Percebi que estava repetindo a televisão", ela diz. Não que faltem propostas. É que ela realmente está em outra sintonia. "Outro dia o [publicitário] Joca Guanaes conversou comigo, chamou a tropa dele – ele tem uma tropa jovem, que sabe tudo de internet. Me mostraram números, painéis, fotos, o diabo. Saí de lá falando ‘é verdade, é verdade’, mas aí veio aquela preguiça", conta Gabi. "Passei a minha vida trabalhando. Desde 1969: trabalhando, trabalhando, trabalhando. Eu acho que chegou a hora de realmente descansar."

Nessa fase nova, de calmaria, Gabi não encontrou apenas sossego: encontrou a si mesma. "Agora olho e falo: ‘Eu sou isso’. Inclusive, parei de ir ao analista, porque não tem mais jeito, pô. Eu sou o que sou." O tempo que não é para ficar com ela mesma é para os amigos e a família – ela tem dois filhos, Christiano Cochrane, 45, e Theodoro Cochrane, 38, e uma neta de 6 anos, Valentina, filha de Christiano com a atriz Danielle Valente. Sem relacionamentos longos desde o fim do casamento com Reynaldo Giannechini, em 2006 (seu namoro mais recente foi em 2013, com o executivo italiano Riccardo de Angelis), Gabi não vê problemas em estar sozinha. "Tenho uma solidão que eu busquei", ela diz. "Ainda saio, mas são pequenos encontros. Quando tenho que sair, tenho essa preguiça... Mas é uma preguiça boa, quase aquela pregui­ça Dorival Caymmi, manja? Aquela preguiça que resulta em música." Na entrevista a seguir, concedida ao editor Paulo Lima, Gabi conta mais sobre sua desacelerada, o poder dos hormônios, a luta por direitos femininos e a teoria de universos paralelos da física quântica.

Trip. Você sempre teve aquela pilha de fazer 200 coisas ao mesmo tempo. Agora, parece estar mais serena, suave. Faz sentido? 

Marília Gabriela. Faz total sentido. Acho que o que aconteceu – o que está acontecendo comigo – é a tal da chamada maturidade. Quer dizer: imagino que seja isso. Passei minha vida inteira pelejando, inclusive contra mim mesma, e estava sempre querendo mais porque simplesmente não sabia o que eu queria ser ou fazer na vida. Continuo não sabendo. Mas agora me sinto confortável. Agora olho e falo: "Eu sou isso". Inclusive, parei de ir ao analista, porque não tem mais jeito, pô. Eu sou o que sou.

Você fez uma redução bem drástica de sua exposição na mídia, mas já chegou a estar no ar no SBT, no GNT e na TV Cultura ao mesmo tempo. Sua vida não teve uma época meio maluca? Ninguém prestou muita atenção nessa condição, e eu acho que era muito rara: eu estava em três canais de televisão, sendo que dois, a TV Cultura e o SBT, são canais abertos. E no GNT, onde eu fiquei durante 20 anos. Eu fiz isso em 2010.

A diminuição da exposição não tem a ver com esse conforto que você está sentindo? Pode ser. E com certeza tem um componente que ajuda nesse conforto, que é o fato de eu não estar escondendo o que eu sou, o quanto eu sou parecida com todo mundo. Antes, eu tinha uma aflição. Quando estava mais exposta era quando eu tinha a maior preocupação em não estar exposta. Eu tinha visibilidade, estava em todos os lugares, e, quando você está em todos os lugares, ainda que você não queira, as pessoas inventam coisas a seu respeito, dizem, julgam. É um movimento muito problemático. É uma guerra. Porque você vive de se expor e aquela exposição traz de volta mentiras, traz de volta recalques. E qualquer movimento que você faça contra o que está acontecendo é considerado uma agressão. Você não pode se defender desses julgamentos. É complicado mesmo. Pode ser que tenha a ver. Mas você sabe de uma coisa? Eu desmistifiquei aquela pessoa que eu era de uma maneira muito simples. Eu não me dou muito bem com rede, não consigo – estou falando de redes sociais. Mas tenho no Instagram, sei lá, 280, 285 mil seguidores, que vão entrando aos poucos, porque eu me permito, ali. De que maneira? Outro dia botei uma foto da porta da minha geladeira. Um detalhe da geladeira, dos ímãs que estão lá e que estão lá há mil anos. Falei: "Olha, esses ímãs olham para a minha cara há muitos anos, minha cara amarrotada quando vou abrir a geladeira – e cadê o meu suco verde? Bom dia, foi isso, pensei em vocês". Então é um cotidiano que diz para as pessoas "eu sou igual a você". E o engraçado, uma coisa que eu percebi, é que ser igual às pessoas nessas coisas mais simples tira delas a agressividade.

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Humaniza você, né? É isso. Quando você, ainda que involuntariamente, se excede na sua exposição, se excede na sua glória, no seu prazer, no seu viver em excesso ou em desperdício, as pessoas se ressentem.

Você é conhecida primeiro como jornalista, mas também gravou três discos como cantora e tem feito uma carreira no teatro, no cinema e na televisão como atriz. Tenho impressão de que essa migração para as artes cênicas mexeu bastante com a sua relação com o público. Você descobriu uma outra dimensão? Não sei. Não sei se foi isso. Eu não sei muita coisa. Eu tinha vontade de atuar desde quando ainda morava em Ribeirão Preto e frequentava os ensaios da minha irmã mais velha, que fazia teatro universitário. Assim que entrei na faculdade, também comecei a fazer. Quando vim para São Paulo, as pessoas desse universo já viam alguma coisa em mim. Me lembro de Raul Cortez me pegando pela mão para me levar a um teatro escuro onde estava Vitor García [diretor teatral argentino que trabalhou no Brasil]. Raul me apresentou porque queria que eu fizesse um teste para entrar em uma peça.

Virar atriz não aconteceu naquela época? Quando cheguei em São Paulo, parecia que estava escrito: fui pedir um trabalho no Jornal Nacional e me falaram para ir no dia seguinte para um estágio, pois um repórter tinha faltado. Virei imediatamente repórter do Jornal Nacional. Depois, tinha o Bruno Barreto me convidando para fazer cinema. Eu dizia não, não e não. Um dia, no final dos anos 90, enquanto eu entrevistava Gerald Thomas, ele me convidou para fazer uma peça. Recusei e, quando cheguei em casa, meus amigos quase me bateram por ter negado. Depois de um mês, pensei: "Por que não?". E aceitei [a peça, Esperando Beckett, estreou em 2001]. Percebi que eu adoro estar em cena sendo outra pessoa. Adoro correr o risco fantástico. Como o [Antonio] Abujamra dizia: "Quando sobe ao palco, você está sempre olhando o abismo". Acho excitante a ideia de fazer essa travessia, de sair ilesa e tirar todas as máscaras que me protegem desde muito cedo, botando só a da personagem. Creio que os mais puros de alma logo me aceitaram como atriz. Mas acho que agora, mais do que nunca, e em especial nessa peça dirigida pelo Ulysses Cruz, é que as pessoas que antes me viam com alguma insegurança respeitaram e viram que não estou de brincadeira. Me refiro a profissionais do teatro e da mídia. Mas também entendo que eles tenham sempre ficado cuidadosos devido à minha imagem. Imagina o que é alguém que começou a trabalhar em 1969, cara?

Já existia trabalho nessa época? [Risos.] É, então [risos]. Eu sou a "Marília Gabriela da televisão" porque eu nunca tive nenhum outro nome desde 1969. Me lembro uma vez de uma conversa que tive com Walmor Chagas, quando eu ainda fazia TV Mulher [programa da Rede Globo que ficou no ar entre 1980 e 1986]. Ele me disse assim: "Tenho muita inveja, porque você é você. Você sabe se as pessoas gostam diretamente de você ou não. Você não tem uma personagem". Depois disso, o Walmor foi fazer um programa na TV Cultura no qual ele fazia um apresentador que era ele mesmo. Meu trabalho sempre vendeu a todo mundo a minha imagem. Eu sou Marília Gabriela. Eu estou Marília Gabriela, três vezes ao dia em reprises na televisão e, de repente, subo no palco e digo que sou outra pessoa. E aí? Sempre achei que havia uma injustiça comigo, mas, agora que estou mais confortável com tudo, acho que as pessoas tinham razão. Como dissociar Marília Gabriela da personagem que ela está fazendo no palco? É muito difícil.

Você já estava abrindo espaço em redações machistas mesmo antes do TV Mulher. Hoje tem muita mulher, na época em que entrei, tinha poucas...

A sua trajetória é, sem dúvida, icônica no sentido de mostrar que a mulher pode fazer o que quiser. Deve ter dado um trabalho enorme ser pioneira nisso. Você sente que carregou um piano? Não. Porque eu não pensava nisso. Fui fazendo. Eu não contestava, pois nunca havia passado pela minha cabeça que poderia ser vítima de preconceito. Devia ser, mas a minha linguagem com os homens com quem trabalhei era muito parelha. Eu fui a primeira repórter do Jornal Nacional em São Paulo. No Rio, já havia uma mulher na chefia, a Alice Maria, e a repórter na Europa era a Sandra Passarinho, que até hoje atua de forma fantástica. Um dia, um diretor de jornalismo me chamou e pediu para eu ficar sentada quando fosse entrevistar alguns políticos. Não foi para me colocar no meu lugar, mas porque eu era muito mais alta do que eles. [Risos.] Ele dizia: "Gabi, por favor, não fique em pé". E eu falava até com o governador, Abreu Sodré, à época. Eu também não podia entrar em campo porque era época das micro microssaias. Eu usava essa roupa, com botas. Saíamos às ruas despidas, praticamente. Ele dizia para por favor não entrar em campo e eu questionava: "Como eu não posso entrar se todos os repórteres entram?". Hoje, acho que, de fato, seria um elemento perturbador entrar ali em meio àqueles senhores cheios de hormônios, correndo de lá para cá de saiote. Então simplesmente me afastava e concordava com as advertências. Nunca tive grandes embates por esse motivo, talvez porque nem sequer prestasse atenção. Sempre fui senhora de mim e entendo perfeitamente que existam personalidades e personalidades. Há mulheres que, seguramente mais interessantes do que eu, são mais frágeis, mais delicadas. Mas sempre fui um trator. Era uma maneira de me defender na cidade grande sendo uma caipira do interior.

Neste momento, se está discutindo a forma como a sociedade trata a mulher, o que você acha dessa movimentação? Eu acho que é um fenômeno da era digital, a era digital é responsável pela conscientização. Vejo como um imenso despertar, pegando mulheres do mundo todo em um movimento globalizado. A web conseguiu isso, com certeza. Uma por todas e todas por uma. Se não estivéssemos sendo discriminadas, não teria vindo com a força e a evidência que veio. Então estou de acordo. Era necessário. A gente recebe, lendo os jornais, acompanhando o noticiário, seja por onde for, a gente vê atrocidades cometidas contra as mulheres, em sociedades distantes ou próximas. Outro dia fomos bombardeadas por mais um estupro coletivo de uma menina de 12 anos do Rio de Janeiro. E aí vai ter que passar por aquela peregrinação de delegacia, de outra vez culpar a menina por ser uma mulher e estar perto desses homens. Nós mulheres ainda estamos batalhando por direitos básicos, mínimos. A verdade é essa. Eu falei que entrei metendo o cotovelo e o pé na porta, mas não sei mais se hoje em dia isso é possível. Hoje os recursos são outros, a forma de conseguir um lugar ao sol tem que ser muito mais objetiva, legalizada, porque somos muitas e há atrocidades sendo cometidas.

Você ficou um ano com um canal semanal no YouTube e, há uns dois meses, parou de renovar conteúdo. Como foi essa experiência? Eu achei, e ainda acho, que estamos vivendo uma outra época, e eu tava tentando adquirir o chip dos jovens que estão aí, totalmente adaptados. É outra gente, é outra raça. Falei, vou entrar nisso, mas de repente percebi que estava repetindo a televisão. Fazia nesse formato porque não me sentia confortável à maneira do pessoal que sucede na internet, que é essa coisa espontânea. E eu lá preocupada com a luz, a locação, o equipamento etc. e tal. Mas queria saber como é que era isso.

Você ganhou algum dinheiro? Quando me dispus a experimentar a internet, eu disse: "Não me importo em não ganhar". Vou ganhar experiência. Mas eu não contava com a despesa. E custa caro. Quando veio a conta, eu falei: "Opa!" [risos]. Não ganhar para trabalhar é uma escolha que aceitei. Agora, pagar para trabalhar é uma escolha que eu não quero ter. Entendeu? Achei que tava caro e dei uma parada. Não tive patrocinadores. Tinha uma boa audiência. Me parece que as minhas entrevistas que entraram no YouTube têm um número grande de views, mas tinha uma equipe jovem cuidando desse cotidiano pra mim. Enfim, pagar pra trabalhar, não. Não quero mais, não.

Você tem outros projetos? Agora entrei na fase da preguiça, de uma preguiça real e verdadeira. Outro dia, o Joca Guanaes conversou comigo, chamou a tropa dele – ele tem uma tropa jovem, que sabe tudo de internet. Me mostraram números, painéis, fotos, o diabo, saí de lá falando "é verdade, é verdade", mas aí veio me voltando aquela preguiça. Passei a minha vida trabalhando. Desde 1969: trabalhando, trabalhando, trabalhando. Criei filhos, fiz tudo que quis, juntei meu dinheirinho. Agora acho que é normal, é natural, que eu sinta essa preguiça. Eu acho que chegou a hora de realmente descansar. Fazer teatro me dá um imenso prazer, porque é uma outra forma de lidar comigo. Sentar na frente de alguém e falar com a pessoa ainda me dá prazer, mas o entorno, a função, o trabalhar, a obrigação, o compromisso a cumprir, as reuniões de pauta, aquela batalha, não quero mais. Já deu. Agora é descansar, viajar, fazer nada. Nada. Só coisas agradáveis.

Hormônios são o tema desta edição da Trip. Como eles influenciam a sua vida? Você já fez ou faz reposição hormonal? A minha vida foi superinfluenciada pela reposição hormonal. Em 1974, fui até a Bahia fazer uma entrevista com um gênio, um cientista, que é o Elsimar Coutinho. Ele é meu médico até hoje. Fui lá e ele tinha esses implantes hormonais para não menstruar. Para mim, aquilo foi a descoberta da vida, porque eu sempre achei menstruação uó. Ele me disse: "Eu tenho um implante aqui que você fica um mês sem menstruar, tem outro que fica três meses, e tem outro que fica um ano". Eu falei: "Me implante o que fica um ano!" [risos]. E passei a ser feliz a partir daí, fazendo muito sexo, me divertindo muitíssimo, porque eu não menstruava. Tensão pré-menstrual é uma barbaridade. Briguei com tanta gente, saí de tanto emprego, porque estava sob influência desse raio dessa TPM. Só tirei o implante para ter o meu segundo filho, o Theodoro [em 1978], e engravidei imediatamente.
Depois fiquei um tempo desequilibrada, aí voltei e falei: "Implanta!". E fui implantando, até um dia em que ele me falou: "Agora não é mais para não menstruar, agora é para não sofrer sintomas da menopausa". E nunca tive, até hoje, nenhum sintoma de menopausa. Eu implanto testosterona e estradiol, e é isso que me ajuda na sexualidade, no tônus muscular, na energia, no dia a dia, no ir e vir. E continuo implantando até o dia em que eu, puf, acabar.

Como é sua rotina hoje? Um dia que tenha peça, como é? Você acorda tarde, acorda cedo? Eu acordo cedo sempre. Acordo todos os dias às 8 horas. Quando vou dormir um pouco tarde, levanto às 8 e meia. Mas eu tenho rituais, rituais que me mantêm um pouco inteiraça na provecta idade em que me encontro [risos].

Quais são os publicáveis? Olha, não! Não é assim. Eu acordo e tomo 1 litro e meio de água, todos os dias.

Um litro e meio? É, em seguida: pá, pá, pá. Você se acostuma. São seis copos d’água. Isso em jejum. Aí eu fico uma hora conferindo o noticiário, na internet. Claro, já tomei meu primeiro shot de café, e depois de uma hora eu tomo café da manhã, lendo jornais.

Impresso mesmo? Impresso. Mas já passei pela internet. Quer dizer: atualização já fiz, agora vou pegar as análises. E aí eu faço pilates. Todos os dias, de segunda a sexta-feira. Faço pilates avançado. Faço isso desde 2005, o que acho que me dá essa flexibilidade. Se você assistir à minha peça, vai ver que tenho uma agilidade, uma flexibilidade muito tranquila. E a postura e tudo mais – isso é o pilates que me dá, com certeza. E depois, o resto do dia... Vamos supor, nos dias de teatro: eu sou bem CDF. Vou pro teatro, no mínimo, quatro horas antes. Às sextas-feiras, normalmente o espetáculo é com o Sérgio Mastropasqua, que é o alternante do Caco. Caco está fazendo novela no Rio e faz os espetáculos aos sábados e domingos. E aí eu passo com o Sérgio, fazemos a peça e volto pra casa. Eu estou virando um bicho extremamente doméstico. Saio muito pouco.

Você costumava tomar muitas vitaminas. Ainda usa esses suplementos? Depois que eu li que a gente ajudava a fazer a fortuna das grandes farmacêuticas, que investem em vitaminas, liguei para o Dráuzio [Varella] para conferir. Eu tomava muitas mesmo. Ele falou: "Pode parar. Essa é bobagem, essa é isso, essa é aquilo". Agora só tomo quando os médicos pedem. Meu oftalmologista pede uma mesma há anos, um multivitamínico para a visão, e tomo vitamina D porque eu sou a loira que nunca pega sol – não pego exatamente para não envelhecer [risos].

Como você lida com o envelhecimento hoje? Com aceitação – mas uma aceitação criteriosa, porque tenho consciência de que sou privilegiada. Eu tenho uma genética privilegiada e cuido dela. Faço pilates, tenho uma alimentação superequilibrada, e por aí vai. Então, envelhecer tem doído muito menos do que eu imaginava quando era jovem.

Mas depois da peça, não tem aqueles jantares do elenco? Mas que elenco? [Risos.] Dois! Olha, nós fizemos as leituras todas na minha casa. Eu tenho espaço suficiente pra isso, e foi muito agradável. Depois a gente passou pra um pequeno teatro, para ver como é que ia ficar, e depois já pra entrar em cena, no Sesc Santana, onde estreou em palco italiano. Agora, estamos no Tucarena, como queríamos, em teatro de arena, com 360 graus pra atuar e combinar com todo mundo. É isso meu dia a dia. Tenho livros, tenho jornais, tenho séries pra ver e tenho as viagens. Assim que acabar essa peça, eu vou viajar. Estou querendo ir pro Japão no começo do outro ano. Quero ver as cerejeiras, que é um sonho desde sempre e nunca fui.

Conta um pouco o que é a peça Constelações. Vou contar primeiro como nasceu a peça, para já atiçar a curiosidade. O Nick Payne, que é o autor, é um jovem talento de 30 e pouquíssimos anos. Inglês. No começo dos anos 2010, ele tinha uma peça encomendada para um teatro de lá, e o pai dele morreu. Ele ficou supermal – isso ele disse numa entrevista. Ficou mal e ficou em casa, desanimado, triste porque deixou de ter com o pai conversas que queria ter tido. Tava lá, vendo televisão, e um dia assiste a uma palestra de um físico especializado em cosmologia quântica. E aí ele tomou conhecimento dessa teoria, a teoria das cordas, que fala de universos paralelos. Por exemplo, não sei se a entrevista está dando certo aqui [risos], mas se não estiver, pode estar dando em algum universo paralelo, quem sabe. Ele diz na entrevista que aquilo trouxe um conforto pra ele, porque ele pensou: "Que bom, talvez eu possa estar tendo a conversa que não tive com meu pai num universo paralelo". E sentou e escreveu essa peça linda que é uma grande história de amor. Ele já vinha fazendo uma carreira de sucesso, mas Constelações estourou, é uma peça premiada.

E é uma história de amor? É uma história improvável de amor entre um apicultor e uma física especializada em cosmologia quântica. Eu acho que é a história de duas pessoas inadequadas, socialmente inadequadas. Costumo dizer que eu tenho isso da Marianne: me sinto inadequada. Sempre fui e tentei driblar isso, mas hoje admito. Socialmente inadequada. Então são duas pessoas que se encontram e é uma história do encontro, da conquista, da paixão, da traição, da separação, do reencontro... Até o final, que é um final que eu não preciso contar, mas que é um final. Digamos que é uma vida inteira de um amor. Agora, é uma linguagem quase digital que ele fez, porque são cenas curtas, algumas mais longas. Nas mais longas, você vai costurando a história que seria, vamos dizer, a história que está sendo contada de fato, como se fosse essa a real. E as outras são possibilidades: se você tivesse dito uma palavra que não era a certa, se você estivesse vivendo uma situação que naquele momento não permitiria aquele encontro...

Universos paralelos. É. Universos paralelos. São essas pequenas cenas que, no começo, nos primeiros minutos, as pessoas geralmente olham com estranhamento, tentando entender o que está acontecendo. E aí a história vai se formando. Vai se formando na sua cabeça – não é que a gente vá facilitando a construção. A sua cabeça vai construindo e percebendo o que tá se passando. É uma comédia dramática e é muito linda. É uma peça rápida também, de uma hora e pouco... Depende, com o Sérgio Mastropasqua dura uma hora e dez, com o Caco Ciocler dura uma hora e 25, por aí. São dois atores com duas energias masculinas completamente diferentes. O Mastropasqua é uma coisa...

Um bloco. É, um bloco. Você vê um touro. E ele é sensual. Ele é um bloco. Vamos dizer que a energia masculina do Roland do Caco seja mais reflexiva, mais sensível. Então é um jogo mais de pensar. O Caco adora pensar, refletir. É outra aproximação. São dois Rolands com quem eu me caso todo fim de semana, e é muito emocionante porque tenho que ficar lá, sabendo como responder à solicitação de cada um.

Você sente uma magia no palco, como se entrasse em um universo paralelo, ou você é mais pragmática e fica conectada com o texto? O [Antonio] Fagundes está fazendo uma peça no Tuca e eu, no Tucarena. Fomos jantar outro dia. Ele estava falando sobre meu trabalho como entrevistadora. Começou a fazer observações sobre meu trabalho que eu, praticando, como você está praticando aí, jamais parei pra pensar. Mas eu levei do meu trabalho como jornalista para o palco o que tenho de melhor: o ouvido. Na verdade, não só o ouvido, o olhar. Como entrevistadora, eu poderia estar enfurecida com outras coisas, mas, quando sentava lá, como até hoje quando converso com alguém, estava inteiramente naquilo. Fico vendo o que a pessoa quer me dizer pelo que estou ouvindo, pelo que estou olhando. Com esse tempo todo de prática, eu sei – posso até arriscar dizer – quando uma pessoa está mentindo pra mim, quando está fugindo, essas coisas. Eu trouxe para o palco comigo essa capacidade aperfeiçoada de ouvir.

E isso foi importante para você no teatro? Quando você faz teatro, quando você atua, quando você tem que ser outra pessoa em cena, você tem que ouvir o que está acontecendo à sua volta, e ouvir como aquela personagem tem que ouvir. Existem tempos e tempos de palco e que provocam reações e reações nos profissionais em cena. Às vezes nós saímos do palco quando termina o espetáculo e o Caco fala assim: "Eu ouvi um cara lá falando isso na plateia". Fico fascinada, porque, quando estou lá, não vejo ninguém. Não vejo ninguém na plateia. Não consigo. Eu acredito realmente que eu sou a Marianne. É claro que você tem que ter uma porcentagem de cuidado. Você tem que ser sem perder a capacidade de se observar sendo. Você tem que ter aquele senso crítico que você não pode perder para não perder o controle. Não estamos lá fazendo possessão, não é isso. Mas eu viro a pessoa, viro realmente a personagem, e vou, e vou, e vou. Agora, acabou, acabou. Eu não levo pra casa, não sofro. Tem momentos de alta dor e sofrimento nessa peça e eu sinto isso intensamente, mas acabou e foi: "E aí, gostaram?". É outra pergunta que eu faço ao final e o Caco fica louco. "Você não pode fazer essa pergunta pras pessoas!" Eu falo: "Claro que eu posso fazer! Vou perguntar se gostaram ou não gostaram, por que não?". "Ah você não pode, as pessoas vão mentir para você." Eu falo: "Se estão esperando a gente sair, é porque gostaram, então tenho que perguntar por que gostaram". Enfim, acho que essa magia é o risco que você sabe que está correndo. Lembra do abismo? É muito excitante, a hora que você vai entrar, o barulho do coração. Você vai, você controla as mãos, a temperatura que você está sentindo. E aí tchau e bença. Cada um de nós tem um pequeno ritual, todo mundo tem alguma cisma, de que se eu fizer isso vai dar certo.

Você pode revelar a sua? A minha não vou falar. É minha só.

Você falou da sua vida, esse momento interessante que você está vivendo. Seus filhos já são adultos, como é? Você tem momentos de solidão hoje? Tenho uma solidão que eu busquei. Uma solidão consentida e desejada. Eu estava hoje falando com um amigo meu que está no Líbano, Jorge Takla, diretor da minha última peça [Vanya e Sonia e Masha e Spike, em 2015], e ele me perguntou se eu estava namorando. Eu disse que não e não estou sentindo falta. Não sei se é uma fase, mas eu tenho a impressão de que é uma coisa que está pintando meio que definitiva. Eu estou muito confortável comigo mesma. Gosto de ficar sozinha, não quero ninguém em casa depois das 6 da tarde. Eu me dou bem comigo mesma, me considero uma ótima companhia. Eu ainda saio, mas são pequenos encontros, almoços e jantares. Quando tenho que sair, tenho essa preguiça. É uma preguiça, mas é uma preguiça boa, quase aquela preguiça Dorival Caymmi, manja? Aquela preguiça que resulta em música.

A única rede que está te interessando é aquela que se prende em dois ganchos?
É mais ou menos isso. Estou sozinha e estou bem. Tem uma parte da família morando nos Estados Unidos. Minha única neta está lá, que é igualita a mim de temperamento. Quando ela estava com 4 anos – ela tem 6 agora –, antes de ir pros Estados Unidos, ela estava na minha casa e eu falei: "Valentina, você tem um temperamento, hein?". Ela olhou para trás, olhou para mim com um olhar furioso e disse: "Você também tem!". Com 4 anos! Quer dizer, ela já está lá. É boa essa relação que tenho com ela, porque não sou uma avó de ficar paparicando. Eu sou uma avó, vamos dizer, parcimoniosa no contato. Quando morro de saudades dos filhos, a gente se encontra e viaja. Nas vezes que quero fazer uma grande viagem, eu ligo pra um ou pro outro e pergunto: "Tá sozinho? Quer viajar?". Vamos e vamos longe. Para o Japão, já tô aliciando a família. Vamos pro Japão!

Em uma entrevista em 2015, você disse que gosta de gente jovem, mas que não acha "justo impor aos jovens a minha decadência física". Você ainda pensa assim? Não estar namorando há algum tempo tem a ver com isso? Eu gosto de gente jovem, quem não gosta de gente jovem? A beleza está na juventude, todo mundo gosta de gente jovem. E sempre gostei, por coincidência, de namorar gente muito jovem. Essa foi uma frase que eu disse realmente, numa entrevista para o Aguinaldo Silva, mas não é o caso. Não sou, digamos, essa decadente física. Por sorte não cheguei aí. Mas você sabe o que acontece com a idade, queira ou não queira: você vai perdendo aquela libido, aquele furor, aquela loucura, aquele fogaréu. Vai esmaecendo. Você começa a achar muita graça em ficar sozinha – eu acho muita graça em estar sozinha. Gosto de silêncio. E tenho amigos. Amigos são hoje tudo na minha vida, além da família, óbvio. Então, essa coisa tão dramática e definitiva que eu disse em 2015, que eu achava injusto etc. Acharia mesmo, se eu fosse jogar meu charme para tentar conquistar alguém mais jovem do que eu. E eu sei que o charme e a inteligência têm um poder. Mas não tenho mais vontade de fazer isso. Pode ser que aconteça alguma coisa diferente, de repente, um dia, que caia alguém na minha frente, mas acho muito difícil. Eu tô muito bem do jeito que estou, ainda que duvidem. Ainda que as pessoas achem que é impossível ser feliz sozinha.

Eu li em uma outra entrevista sua que, quando resolveu parar de trabalhar tanto, teria chamado seu contador e falado: "Meu querido, quanto eu tenho aí e quanto isso rende?". Houve esse papo mesmo? Você vai fazer daqui a pouco 50 anos de carreira... Ai, que barbaridade! Essa conta eu não faço! Você sabe que eu não me peso. Quando vou ao médico, subo na balança e fico de costas porque não quero saber! Isso é a mesma coisa.

Você construiu uma longa carreira. Conseguiu juntar dinheiro a ponto de poder ficar agora nesse bem-bom para sempre ou não? Você está dizendo desses quase nem sei quantos anos de carreira? Deu pra fazer um pé-de-meia, mas trabalhei como maluca. Eu chamei mesmo o Daniel Tucci, que cuida dos meus investimentos, ele está acostumado com meus arroubos. Falei: "Venha cá, eu quero saber de você o seguinte: se eu parar agora, quanto tempo dá para ficar sem fazer nada?". Aí ele foi fazer umas contas e me deu números. Ele falou: "Se você gastar tanto por mês, não vai mexer em nada das suas contas, vai ficar tudo igual. Bom, se você gastar um pouco mais, já vai durar tantos anos apenas e, se gastar ainda mais, durará ainda menos, entendeu?". Então eu consegui isso, mas ainda assim não dá para me despir da ideia de que eu não deva pagar para trabalhar.

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Imagem principal: Miro

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