Já pensou em quem disponibiliza o filme ou a música que você baixa?

Já pensou em quem disponibiliza o filme ou a música que você baixa? A Trip conversou com 18 uploaders para entender o que motiva essas pessoas a gastarem um bom tempo para subir arquivos na internet, na grande maioria das vezes sem ganhar um tostão em troca

 

Vida de pirata virtual não é fácil. Embora seja bacana navegar num oceano onde saltam livros, músicas e filmes de graça, pouca gente pensa em quem disponibiliza esse material na rede. “Subir” conteúdo para a internet dá trabalho. Digitalizar um CD pode demorar três horas e ripá-lo outras duas.

 

A parte mais rápida do processo, que é lançá-lo na rede, toma também um bom tempo, dependendo da banda disponível. Sem contar a paciência exigida para escanear a capinha do álbum e fazer o serviço benfeito. No mundo do compartilhamento virtual, hoje responsável por mais da metade de todo o tráfego da internet, esses piratas suam a camisa. Mas parecem não querer dinheiro. Fazem de graça e com um sorriso no rosto, na mesma lógica do vizinho que te empresta um bom livro. Querem um pouco de fama, um pouco de amizade e um pouco de diversão. E os uploaders esperam que você, representante do universo dos downloaders, tenha a bondade de retribuir com pelo menos um “obrigado”.

Nem sempre o mar está calmo para esses navegadores que alimentam a rede com tudo o que têm – ou não têm – direito. Considerados criminosos por violação dos direitos autorais, os piratas dos bits têm receio de conceder entrevistas. No fórum do The Pirate Bay, um site de download com 3,5 milhões de usuários registrados, postei um tópico explicando a ideia da reportagem e pedindo que o uploader interessado me enviasse um e-mail. A primeira resposta demorou cerca de 15 min. “Conversar por e-mail não é uma boa ideia. Você poderia rastrear nosso IP e colocar-nos em problemas. Como temos certeza de que você é realmente uma jornalista?”

Respondi com 20 perguntas e tentei provar que não sou uma agente de polícia (por sinal, como posso saber se eles não são policiais disfarçados de uploaders?). Em poucos dias, 11 respostas. Apesar da cautela, eles estavam dispostos a falar. Seis deles inclusive toparam criar, no site flashface.ctapt.de, os autorretratos virtuais que ilustram esta reportagem. Depois entendi o porquê de generosidade, como comentou um uploader brasileiro: “Nos chamam de piratas, mas não conhecem nosso mundo. Por isso gosto da ideia da reportagem. Mostrar o outro lado, mostrar que somos pessoas normais”. Tito, um estudante de engenharia elétrica de 22 anos, acertou em cheio. Queríamos justamente entrar no universo desses “procurados pela polícia”para saber quem são e por que violam leis em benefício da comunidade virtual (e para desespero da indústria do entretenimento).

Uma pergunta específica gerou polêmica nesse primeiro contato com piratas estrangeiros. “Vocês já ganharam dinheiro ‘subindo’ material para a rede?” A resposta foi rápida e ácida. “Upar não é um business, é um hobby”, me contou um deles. Eu não sabia disso. Em comunidades do Orkut dedicadas ao compartilhamento, anúncios como “procura-se uploader” me fizeram pensar que a atividade poderia ter virado uma profissão. Mas não. A lógica do mercado parece não existir no mundo do compartilhamento. “Muitas pessoas nos chamam de piratas, mas no fim do dia nós somos compartilhadores voluntários, não a escória que usa a rede para vender material e ganhar dinheiro. A mídia trata esses dois perfis como iguais, mas acho que você deveria mostrar a diferença”, pede um uploader que se identifica como Sharkmister.

 

Nos últimos anos, instituições de defesa dos direitos autorais têm aumentado o cerco contra os piratas do
compartilhamento virtual. A caça aos sites de download e aos piratas virtuais chegou a seu ápice em meados do ano passado nos Estados Unidos. Daniel Dove, um norte-americano de 26 anos, foi condenado a 18 meses de cadeia, seguidos por dois anos de liberdade condicional, além do pagamento de uma multa de US$ 20 mil. A Justiça americana estima que, nos últimos anos, processou 30 mil pessoas por quebra de copyright.




O UNIVERSO DOS TORRENTS
O upload – ou lançamento – surgiu com o nascimento das redes peer-to-peer (P2P, de troca de arquivos), disseminou-se com a expansão da banda larga e multiplicou sua velocidade com o surgimento dos arquivos do tipo torrent. Quando o programador norte-americano Bram Cohen criou em 2001 o protocolo BitTorrent, talvez tivesse uma ideia de que provocaria uma revolução no mundo dos downloads, mas já
declarou não esperar tanto sucesso.

 

“Criar um arquivo ponto torrent pode demorar 2 min ou 20 min. Depende muito”, comenta Júnior, 19
anos, autor do vídeo Como lançar um torrent utilizando o Utorrent, postado no YouTube. O técnico em informática que vive em Vitória (ES) conta que já gastou quatro horas por dia “subindo” material para a net.

“Comecei upando por hobby, mas agora virou para mim algo mais sério.” Ele participa como voluntário em um dos maiores sites de torrents do Brasil. Como moderador, ajuda a fazer a aprovação dos links postados pelos colegas uploaders e checa alguns detalhes como, por exemplo, se o título coincide com o filme.

Apesar de a indústria do entretenimento afirmar que sites de torrent fazem dinheiro, Júnior afirma que não, pelo menos no seu caso. “O nosso site custa de R$ 800 a R$ 1.100 por mês, porque alugamos servidores em outros países. As doações que pedimos são somente para a manutenção.” Ele mesmo nunca ganhou um centavo com isso e afirma que nem gostaria. “O mundo virtual é um espaço de ajuda e companheirismo.

Costumo dizer que nosso site é como uma grande locadora de filmes, só que gratuita.” Dos 18 uploaders ouvidos pela Trip, somente um tirou algum trocado no mundo dos loads. “Uma vez ganhei US$ 60, mas demorei nove meses”, conta Player (ou pL413R), um gaúcho de 18 anos que prefere ser conhecido por seu nickname. Ele subia filmes para um site americano que pagava US$ 7,5 por mil downloads de material lançado por ele. Player, no entanto, não recomenda maiores ambições nessa função.

“Fazer upload não é um emprego. Quem pensa em upar para ganhar dinheiro pode desistir.”

 

Nas redes P2P, todo uploader entrou nesse universo como downloader. Na grande maioria das vezes eles começaram a lançar conteúdo como uma maneira de agradecer tudo o que haviam baixado. “Queria dar de volta todos os 2 mil filmes que já baixei”, conta Velvetfog, um arquiteto canadense que não quis revelar sua idade. Já EvilHacker, um sueco de 17 anos, tornou-se uploader por questões ideológicas. “Gosto de compartilhar conteúdo na internet porque pessoas podem ter acesso à cultura e ao conhecimento sem ter que gastar um centavo”, conta, tentando explicar a lógica dessa atividade tão pouco conhecida no mundo não virtual.

 

Anônimos no mundo real, alguns uploaders são verdadeiras celebridades no universo dos bits. Axxo, o mais popular deles e responsável por 33% de todos os filmes postados na net, é considerado o inimigo número um dos executivos de Hollywood. Reconhecido por seus lançamentos de qualidade, ele (ou ela ou eles) chega a postar três filmes novos por dia, muitos recém-lançados nas telonas americanas. Axxo não concede entrevistas, mas envia recados por meio de seus uploads. Quando, em 2007, ficou cinco meses “de férias” de seus lançamentos, voltou à ativa com o upload do filme Eu Sou a Lenda.

A fama no mundo virtual é outro incentivo para esses obreiros do compartilhamento continuarem alimentando a internet. “Fiz vários amigos (virtuais) no site e fico muito feliz quando vejo lançamentos meus bombando na rede”, conta Júnior. Um dos seus uploads, lançado no The Pirate Bay, teve 10 mil acessos.

“É uma alegria quando o cara que baixou te deixa um comentário ou te agradece”, revela.

A VINGANÇA DOS LEGENDADORES
Uma janela cinza padrão Windows – com um triângulo amarelo e uma exclamação no canto esquerdo – jazia no meio do site da Associação Antipirataria de Cinema e Música (APCM) no dia 3 de fevereiro. O alerta esbravejava um vingativo “Viva o download!”, poucos centímetros abaixo do banner virtual da instituição que aconselhava “Sempre escolha DVDs originais”. O irônico ataque do hacker era, na verdade, um contra-ataque. Dois dias antes, a APCM pedira a suspensão do Legendas.TV, um dos sites mais usados no Brasil para fazer o download de legendas em português de séries e filmes estrangeiros.

 

Enquanto o Legendas.TV ficou fora do ar, Fê, como é conhecida na rede, aproveitou para descansar no seu tempo livre. A médica obstetra de 30 anos usava essa página para compartilhar as legendas que traduzia entre um parto e outro no hospital. Aficionada das séries americanas, ela gasta entre quatro e seis horas
da semana fazendo traduções para depois compartilhar na internet. “Faço porque adoro e aproveito para
praticar meu inglês.”

Se as traduções em si são complicadas, as de filmes e séries feitas voluntariamente por uma equipe  online são ainda mais. Um episódio de Lost, por exemplo, pode chegar a ser traduzido a 40 mãos e ser postado na internet cinco horas depois de haver passado nas TVs americanas. Tal velocidade só se consegue com os ensinamentos de Henry Ford: a divisão de tarefas. Tradutores, sincronizadores e revisores se intercalam e mesclam funções para fazer uma legenda benfeita e compartilhá-la na rede.

 

 

Em sua equipe de tradução, a QuickSubs, Fê é uma das mais velhas. Seus colegas legendadores – Vih, Victor e Kevão (todos nomes do mundo virtual) – têm entre 18 e 22, e são autênticos representantes da geração Y, aquela que cresceu em um mundo já dominado pela internet. Todos eles se dedicam às legendas por hobby e estudam ou trabalham. Os quatro tradutores são superamigos e, se você faz parte da geração X, aquela do pós-guerra que ainda usava máquina de escrever e correios para enviar uma carta, surpreenda-se.

 

Eles nunca tomaram uma cerveja juntos. “Eu não me considero um pirata. Para mim, baixar e ‘upar’ são o mesmo que pegar um CD emprestado com um amigo”, conta Kevão, um estudante de publicidade de 19 anos. Realmente, por uma lógica simples, a equipe que faz uma legenda deveria ser a “proprietária” dos direitos autorais daquela tradução. Mas não é simples assim. Pela legislação brasileira, um filme, uma série, um livro ou uma música precisam, para serem traduzidos, de uma autorização do detentor do direito de autor. Além de traduzir, os uploaders “legendadores” disponibilizam esse material para um sem-número de usuários na rede e, por isso, são legalmente considerados criminosos.

De acordo com o coordenador geral de direito autoral do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, eles violam o artigo 184 do Código Penal e estão sujeitos a uma detenção de três meses a um ano (ou multa) por distribuírem material protegido. Caso exista lucro direto ou indireto, a punição varia de dois a quatro anos de prisão. Mas, segundo a Polícia Federal, nunca houve no Brasil a instauração de um processo judicial contra um uploader voluntário. O download de material sob copyright não é considerado um crime, mas uma violação dos direitos autorais e pode ser punido com indenização de até 3 mil vezes o valor da obra violada.

Quem digitaliza um CD recém-comprado para colocá-lo no iPod também está agindo fora da lei. “A lei de

direitos autorais no Brasil é uma das mais restritivas do mundo”, conta Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-RJ e colunista da Trip. “Hoje se exige arrecadação de direitos autorais para atividades sem fins lucrativos, como festas de 15 anos e casamentos, onde são tocadas músicas protegidas. Com uma lei impossível de ser cumprida, estamos ensinando a uma geração inteira que as leis são absurdas e não imperam. E isso é péssimo.”

NÚMEROS DA PIRATARIA
40 bilhões de arquivos foram baixados de forma ilegal no mundo em 2008
150 milhões de internautas no mundo têm o software BitTorrent instalado em seus computadores
9,4 milhões de internautas brasileiros baixam músicas, filmes, seriados e softwares – ou 41% do total
30 mil americanos foram processados por quebra de copyright nos últimos anos
13 piratas virtuais já foram presos no Brasil
31 foram indiciados
1.765 sites foram retirados do ar no Brasil por pirataria em 2005
8% foi a queda na arrecadação da indústria fonográfica mundial entre 2006 e 2007
31% foi a queda no Brasil

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