por Gustavo Basso

Empreendedorismo ribeirinho pode ser arma contra o desmatamento no Amazonas

Numa área de 920 mil hectares no sudoeste do Amazonas, mais perto das fronteira com Peru e Colômbia do que de Manaus, uma nova geração de ribeirinhos está enfrentando os desafios de empreender, com a instalação de uma microindústria de beneficiamento de produtos da própria floresta.

As pouco mais de 3,3 mil pessoas que vivem nessa imensidão verde cerca de seis vezes maior que a cidade de São Paulo, que corresponde às unidades de conservação Resex (Reserva Extrativista) Médio Juruá e RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) Uacari, contam para isso com a ajuda de uma incubadora de novos negócios da ONG Fundação Amazonas Sustentável (FAS), que trabalha ali e em outras cinco reservas para capacitar ribeirinhos, na tentativa de promover uma alternativa ao aumento das áreas de roça e das madeireiras (e, consequentemente, do desmatamento).

"O principal desafio da conservação da Amazônia é fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada", explica o superintendente da organização, Virgílio Viana. "O ingrediente talvez mais importante é investir nos jovens, para que eles tenham a formação profissional para transformar a biodiversidade em negócios que façam a árvore mais valiosa viva."

Iniciativas de treinamento e geração de renda entre ribeirinhos não são uma novidade. O projeto Saúde & Alegria, por exemplo oferece um curso de empreendedorismo para moradores da Resex Tapajós-Arapinus, no Pará, enquanto a ONG Instituto Dharma fomenta a produção de peças de artesanato e extrativismo em comunidades na região de Novo Airão, a 200 km de Manaus. A própria FAS trabalha com exploração do turismo ou do cacau em outras localidades.

A microempresa criada no Médio Juruá, no entanto, chama atenção pelo seu processo de concepção. Um núcleo da RDS Uacari às margens do igarapé Bauana, a 1,5 km da comunidade de mesmo nome que abriga 15 famílias, recebeu em 2014 um curso técnico em produção sustentável. Ao fim do curso, planos de negócios foram apresentados pelos participantes e dois foram escolhidos para um laboratório de pesquisas de qualidade e produtividade.

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"O conhecimento prático que os 'meninos' obtiveram no projeto de pesquisa e desenvolvimento acabou fomentando uma vontade de empreender, de transformar o laboratório em uma empresa, o que inclusive nos surpreendeu", conta Wildney Mourão, supervisor da FAS e tutor da empreitada. “A gente herdou o maquinário de extração de óleos vegetais e açaí, e não podíamos deixá-lo parado. Vai saber quando haveria outro projeto de pesquisa e desenvolvimento?”, afirma Mailson Gondim, diretor-executivo da agora empresa Unidade de Beneficiamento de Produtos Florestais de Bauana.  

Olha a Bauana
Às 9h30 de uma segunda-feira, Maria de Lourdes Gomes, de 56 anos, entrega em Bauana um lote de sementes de andiroba, pago à vista pelo gerente de produção Vagner Menezes, responsável por receber e controlar a qualidade dos produtos que os coletores trazem. "Os meninos foram lá na nossa comunidade falar que se quiséssemos vender murumuru, eles comprariam a vista, o que pra nós foi muito bom. Lá tem muito, mas a coleta é penosa", conta.

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Maria e a família haviam saído de Morada Nova em uma "rabeta" — uma canoa típica da região, com um motor barulhento movido (através de uma gambiarra) a gás de cozinha — às 2h30 da madrugada. As curvas do rio Juruá, tido como o mais sinuoso do mundo, tornam as distâncias ainda maiores: em linha reta, 35 km separam as duas comunidades. A distância aumenta para 78 km na rabeta, único meio de transporte para a maioria dos ribeirinhos. Maria ainda seguiria viagem para Carauari, a 174 km, para sacar o Bolsa Família acumulado há três meses e dar entrada na aposentadora.

Não sem razão, os cinco microempresários ribeirinhos, que têm entre entre 17 e 35 anos, apontam a logística como o grande desafio a ser superado: é também em Carauari que a produção de óleos de andiroba e murumuru é vendida para a Natura, através da cooperativa local, a Codaemj. Outro produto da empresa, a polpa de açaí, precisa chegar lá congelada.

"Atualmente nós usamos uma chalana com capacidade de até 10 toneladas, emprestada pela associação de moradores para recolher as sementes e escoar a produção. Ela é lenta, nos ajuda, mas há todo um gasto envolvido”, explica Gondim. Antes do curso que o levou, ao fim das contas, a ser um microempreendedor, ele trabalhava na roça com os pais — e esta era sua perspectiva para o futuro. "O Vagner estaria hoje acordando à 1h da manhã para cortar seringa [coletar látex]. Não conhecíamos nada de técnicas de produção e gestão ”, conta.

Mourão, o tutor, explica que o conhecimento sobre o que a população do Médio Juruá precisa e poderia oferecer partiu dos próprios alunos do curso, e não dos professores, que ensinaram a parte teórica sobre a gerência de um negócio. "A região do médio Juruá é naturalmente muito abundante em açaí, andiroba e murumuru, todos nativos. Quando nós entendemos que havia uma vocação local, faltou apenas potencializar a iniciativa", ele lembra.

Era Mourão que, durante a última visita à comunidade, orientava, de modo incisivo, a correção de erros como a permanência, por negligência, de algumas sementes na estufa de secagem. "Vocês precisam dividir as responsabilidades! Se algo se torna responsabilidade de todos, acaba que ninguém a assume."

Reação em cadeia
Ao longo do rio Juruá, nas comunidades ribeirinhas, se observa uma grande quantidade de estufas de secagem de sementes, instaladas com apoio dos principais órgãos cooperativos e de moradores da região. As estruturas revelam a cadeia de famílias beneficiadas com projetos como este. Os cinco ribeirinhos vêm, nos últimos meses, tentando repassar técnicas de manejo aos coletores, para melhorar a produtividade e a qualidade das sementes.

Um detalhe é muito nítido em relação às pessoas que exercem a função: em sua quase totalidade, tratam-se de coletoras. "Nas comunidades ribeirinhas, os homens cuidam muito do roçado, da pesca, então as mulheres acabam 100% responsáveis por estas tarefas complementares, como a coleta tanto de andiroba quanto do murumuru", explica Menezes.

Vizinha da comunidade Bauana, 6 km rio acima, está a também pequena comunidade de Idó. Creuzete Galdino e sua família cuidam da coleta, extração da polpa, secagem e descascam as sementes de murumuru, em processo artesanal. Para cada lata de 12 kg de sementes, recebem R$ 36. A andiroba é menos valiosa: R$ 15 cada lata. Para a manteiga e o óleo já extraídos, o preço sobe para R$ 30 e R$ 24 por kg, pago pela Natura à microempresa. Na internet, uma embalagem de 100 gramas de manteiga de murumuru pode custar até R$ 25.

"Eu nem sei ao certo o valor, mas quase metade do que a gente ganha no ano vem da coleta do murumuru e da andiroba. A produção de semente é muito importante; às vezes acontece uma enchente, ou estamos com pouca roça, aí as sementes ajudam muito", conta a ribeirinha, detalhando a produção: "O contrato que ficou foi de 200 latas para as 10 famílias do Idó — 20 para cada uma. Nós separamos um dia para catar e outro para quebrar as sementes já secas."

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Wildney Mourão afirma que houve redução do desmatamento nas cinco comunidades onde o programa da incubadora de negócios sustentáveis trabalha. No entanto, não há ainda estudos que comprovem este resultado. Um relatório de 2015 da FAS aponta que em unidades de conservação atendidas pelo Bolsa Floresta, um programa socioambiental de renda do governo do Amazonas gerido pela ONG, o índice de desmatamento é 50% menor que em reservas não contempladas.

Dados do Instituto Socioambiental (ISA) mostram que o desmatamento nas RDS atendidas vem caindo, em média, desde o começo dos anos 2000, antes da criação do Bolsa Floresta, com um pico em alguns locais entre 2009 e 2010. Amazonas é o estado menos afetado pela perda de cobertura vegetal na Amazônia, e um dos fatores para isto pode ser o esforço exercido por diversas entidades para valorizar os produtos nativos.

Créditos

Imagem principal: Gustavo Basso

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