O inimigo mora ao lado

por Millos Kaiser
Trip #198

Por que prédios são terrenos tão férteis em intolerância? Trip foi a campo pra tentar responder

Por que prédios são terrenos tão férteis em intolerância? O que faz vizinhos darem bom dia no elevador e depois se estapearem? Trip escutou especialistas e sobreviveu a quatro assembleias de condomínio para tentar responder

Quase ninguém frequenta as reuniões do condomínio onde mora. A razão é simples: elas são chatas, extremamente chatas. E, às vezes, até violentas. Mas ir em pleno domingão votar nas eleições também não é nenhum passeio no parque – e nem por isso deixamos de exercer nosso dever cívico. Por que, então, quando se trata do próprio prédio onde moramos nossa paciência parece ser tão curta? Por que hoje há espaço para tudo nos empreendimentos imobiliários – parque aquático, sala multimídia, pista de cooper, espaço gourmet –, menos para a tolerância?

Para tentar entender essas questões, Trip teve que infiltrar seu repórter como funcionário de uma administradora de imóveis durante uma semana. Antes, porém, teve que propor a ideia para quase cem empresas, até que duas toparam, desde que nomes e endereços não fossem revelados. Nas assembleias em que bancamos um assistente do administrador, vimos gente perdendo as estribeiras porque o vizinho usava o secador de cabelo cedo demais ou porque o bebê recém-nascido do casal de cima não parava de chorar; testemunhamos o caso de moradores que arcam com uma taxa condominial de R$ 1.200 tentando demitir o zelador sem pagar o que ele tem por direito; rimos de uma moça querendo pegar sol na área do para-raios; nos espantamos com um porteiro que barrou uma moradora negra. Por sorte, não tivemos que desviar de nenhuma cadeira voadora nem de nenhum soco perdido.

Já Márcio Rachkorsky não pode dizer o mesmo. Especialista em direito imobiliário, o advogado cuida atualmente de 600 condomínios na cidade, já participou de mais de 2 mil assembleias na carreira e perdeu as contas de quantas vezes viu elas se transformarem em ringues de luta. “A impressão que dá é que algumas pessoas descem de casa armadas, doidas para brigar. Descontam as frustrações, os estresses do trânsito, do trabalho, tudo ali”, conta. Ele estima que o número de casos na justiça envolvendo disputas entre vizinhos dobrou nos últimos cinco anos. “As construtoras estão fazendo megacondomínios que parecem clubes. E quem vai morar são pessoas que viviam em casas, em vilas, que às vezes não sabem como viver coletivamente.”

Para Zilda Márcia Gricoli, diretora executiva do Laboratório de Estudos sobre Intolerância da USP, o problema existe desde que o homem demarcou um pedaço de terra e chamou de seu. “Sempre pensamos assim: a propriedade é minha, individual, então não preciso respeitar a lei do coletivo. Meu poder de dono se sobrepõe aos outros proprietários”, pondera. Mesmo assim, ela acha que a política da boa vizinhança poderá imperar mais dia menos dia: “Estamos vivendo um momento em que todos estão renovando seus valores para construir um espaço solidário. Cada vez mais a exigência de um para outro é de tolerância”.

A seguir, relatos in loco de reuniões em quatro condomínios de São Paulo.

Edifício 1. Condomínio: R$ 1.200

Meu “chefe” me aguardava no portão. “Acho que não teremos problemas hoje. Você pode ver que o padrão aqui é alto. É tudo gente de nível”, diz. São 12 apartamentos, um por andar. Sete pessoas participam da assembleia, que foi convocada para uma causa específica: a demissão de Gildo, zelador do prédio há 14 anos. Um homem ainda com o terno do trabalho reclama: “Não dá mais. Todo mundo sabe que ele tem problemas sérios com...” e finge beber uma garrafa simulada com as mãos. Em seguida, ergue seu iPhone, aponta para ele e pede licença: “Desculpem, vou ter que pegar esse call aqui”. Os moradores têm medo de que Gildo entre na justiça. Decidem então propor um acordo de conciliação, em que ele devolveria 40% dos encargos a que teria direito para o condomínio. O dinheiro de Gildo só será dado quando ele deixar o apartamento no térreo onde mora, “pois assim não tem como ficar enrolando”. Todos reclamam dos vizinhos do oitavo e do nono andar, ausentes, que usaram uma área comum do prédio para aumentar seus apartamentos, originalmente de 370 m2. Uma produtora de eventos reclama: “Pior ainda é que a esposa de um desses criminosos acorda 6h e fica fazendo escova com o secador de cabelo mais alto que eu já vi”.

Edifício 2. Condomínio: R$ 677


Três estátuas greco-romanas no jardim me recebem. Na assembleia, uma mulher pede mais fiscalização na piscina, pois o filho do zelador a estaria usando para refrescar-se aos sábados. “Nada contra, mas é que tenho medo de ele se machucar”, tenta explicar. Uma jovem loira e tatuada deixa escapar: “Sei...”. A mulher se defende: “Eu não sou racista, querida. Aliás, se tem alguém racista aqui, é o próprio zelador, que uma vez barrou nossa amiga aqui”, diz, apontando para uma mulher negra, que apenas ri nervosa. É dia de eleição para subsíndico. Ninguém se voluntaria, mesmo depois do discurso do síndico sobre “a importância de dedicar um pouco do seu tempo para o bem comum”. Um senhor com a cara de Al Pacino, que disse ter sido síndico por 22 anos e quase ter perdido a esposa por conta disso, aceita o cargo: “Vamos ver se assim consigo fazer a pilota da minha vizinha parar o carro sem invadir 2 m da minha vaga”.

Edifício 3. Condomínio: R$ 150

Os dois funcionários da administradora chegam atrasados meia hora. “Bem-vindo ao front”, um deles me saúda. No papel de assistente deles, eu já vinha sendo fuzilado: “Esse portão caiu em cima da minha Kombi e amassou o teto! Você vai pagar por isso?”; “Esse muro tá caindo. Trabalho na Defesa Civil. Se eu chamar meu pessoal aqui, interditam o prédio na hora”. O muro rachado e o portão quebrado são as duas maiores reclamações – e viram motivo para não aceitar o aumento de 20% na taxa condominial proposta pela administradora. “Não vamos aceitar o reajuste. Queremos ser ouvidos, essa é nossa forma de lutar”, pronuncia uma mulher. Sua amiga reclama que não a deixam tomar sol onde fica o para-raios do prédio. “É perigoso, pode bater um raio, queimar a senhora”, diz o administrador, para logo ser interrompido: “Mas é justamente isso que eu quero, meu filho. Ficar queimadinha”, assume, sem verba para um bronzeamento artificial.

Edifício 4. Condomínio: R$ 456

Sem prefácio, um morador indaga o síndico:
– Você já teve problemas com rachaduras? Apareceu uma gigantesca no meu banheiro.
– Fissuras e trincos são normais, o prédio está o tempo todo se movendo.
– Fissuras e trincos são uma coisa. Rachadura é outra. E que papo é esse de prédio se mexer? – e completa, incontido – Eu não moro no Japão, meu amigo...

O condomínio está deficitário, culpa da alta inadimplência. “Já foi pior. Vocês lembram daquele cara que ficou dois anos sem pagar... Mas eu dei um jeito nele”, diz o síndico. Uma mulher de traços asiáticos dispara: “Eram uns safados, fumadores de maconha”. Decide-se que de agora em diante a tolerância será zero: depois do segundo mês, atrasos serão caso de justiça. Uma mulher vestida de preto pede a palavra: “Há alguma regra para choro de criança? Tem um bebê novo no prédio que eu vou te contar...”. O síndico gagueja e responde: “Olha, não tem o que fazer. Bebês simplesmente... choram”. Um adolescente muda de assunto: “E a obra da entrada, quando que acaba?”. “Eu olho para essa obra e fico em depressão. Só fui perceber a bomba que era ser síndico tarde demais”, ele responde, talvez com vontade de fazer o que os bebês simplesmente fazem.

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