por Eduardo Ribeiro

O diretor Johnny Araújo fala sobre Legalize Já, filme que conta a história do Planet Hemp a partir da amizade de Marcelo D2 e Skunk

Uma história sobre a amizade e o amor. Assim descreve Johnny Araújo (O Magnata) o seu próximo filme, com estreia prevista para outubro. O longa recria os primeiros dias do Planet Hemp, com o foco totalmente voltado para a relação entre Marcelo D2 e Skunk, e não em aspectos como a militância da banda pelo direito de fumar maconha. Isso reflete a ideia, vinda do próprio D2, de sublinhar a importância do cara que teria sido a pedra fundamental do grupo: o próprio Skunk. Foi ele que formou o Planet, cantando ao lado do D2 no começo dos anos 90, sendo ele também o responsável por trazer BNegão para o grupo.

“Contei que trabalhava com meu pai, como tudo começou pra mim e tal”, Johnny relembra a conversa com D2 que deu início ao projeto. “Aí ele ficou emocionado e falou: ‘Tudo o que construí foi por influência de um anjo que passou na minha vida.’ E a coisa mais doida é essa, eles foram se falar por causa de uma camiseta do Dead Kennedy’s que o Skunk vestia”.

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Em referência a esta ocasião, em que o amigo é entendido como um enviado dos céus por Marcelo D2, durante certo tempo a obra foi anunciada como Anjos da Lapa. No entanto, após nove anos em produção, e vencidos desafios que quase levaram o projeto a ser cancelado, Johnny e a equipe da Academia de Filmes, responsável pela produção, ainda não têm um nome definido para a cinebiografia do Planet Hemp — hoje, o mais cotado é Legalize já.

Na entrevista a seguir, o diretor relembra as diferentes fases do longo processo de realização do filme, dos aprendizados proporcionados pelas relações humanas que o projeto conectou, dá detalhes sobre os tormentos vividos por Skunk, que emocionaram a todos no set, e, entre outras coisas, destaca o time de atores como uma das principais qualidades da produção.

Em ótimos momentos de suas trajetórias, Renato Góes interpreta D2, enquanto Ícaro Silva vive o Skunk, com uma caracterização surpreendente, garante orgulhoso o diretor: “Quando o BNegão chegou no set e viu o Ícaro, ele chapou! O Formigão também. O BNegão falou no ouvido do Marcelo: ‘Não tô acreditando, é o cara!’”.

Trip. E aí, Johnny, após 9 anos, terminaram realmente as filmagens?

Johnny Araújo. O filme está com o corte pronto, o oitavo corte. É aquele processo natural, começamos com um primeiro corte enorme, que a gente chama de “juntão”, e viemos trabalhando, reduzindo, inclusive mudando de opção, buscando outros caminhos. A gente optou por seguir um recorte, algo que acho importante, porque é difícil fazer uma cinebiografia. Quando você começa, o roteiro é gigantesco. Você quer contar tudo, faz as pesquisas, escuta um monte de gente, te contam uma história melhor que a outra...

Desde o início a ideia já era fazer um recorte na amizade entre o Skunk e o D2? Nós seguimos uma linha de contar a história do Skunk e do Marcelo. Realmente é uma história dos dois. Era pra ser desde o começo. Desde o meu primeiro encontro com o Marcelo.

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Em que estágio o projeto está agora? O filme está no estágio final, vamos assistir a uma projeção em tela grande pra fazer as correções de cor dele. E trilha: o Marcelo está tocando a trilha junto com o Lourenço (baterista) e o Maurinho (baixista), os caras que tocam com ele, que são músicos multi-instrumentistas. É a reta final: mixagem, pós-produção, correção de cor e tal...

O nome do filme inicialmente era Anjos da Lapa. Continua sendo? Em relação ao nome, é uma dúvida que não acaba. E é difícil mesmo, sei que vamos acabar decidindo o nome um pouco mais pra frente. O filme já foi batizado duas vezes; primeiro, foi Anjos da Lapa, mas depois veio Meu tempo é agora, depois voltamos pra Anjos da Lapa. Existe uma vontade de que se chame Legalize já. Mas nada disso está decidido.

Já tem data marcada para estrear? O filme fica pronto em outubro, depois de nove anos. É dificuldade de captação, coisas que aconteceram durante o processo, tivemos umas pausas por causa de roteiro, de questionar o roteiro e tal. O roteiro passou em três mãos. O argumento e os primeiros tratamentos foram o Nelson Motta e a Patrícia Andrade, Depois, entrou o Luís Bolognesi, que trouxe uma coisa mais urbana, mais suja. Aí entrou o Felipe Braga, que foi o cara fundamental, responsável por amarrar tudo. Você imagina, nesses anos todos de trabalho, eram muitas versões de roteiro, muitos caminhos. Eu já tinha perdido o critério também. Ele veio, releu os tratamentos e deu um novo caminho pro filme.

O tratamento dramático do roteiro buscou explorar o lado da melancolia? Óbvio que o filme é triste, porque o Skunk tinha uma doença terminal, ele sabia que ia morrer. Os remédios não funcionavam bem na época, ele não tinha grana, o tratamento era caríssimo, um baita preconceito. Falar que você tinha HIV era o mesmo que dizer que você era um condenado à morte. Se você espirrasse na frente de uma pessoa já te olhavam estranho. Tem um lado triste, mas um lado bonito também. Nós optamos por homenagear o ato do Skunk de acreditar no sonho dele e enxergar o Marcelo como uma ferramenta. Claro que a doença está presente, a morte, mas não entramos nisso, tratamos como uma fatalidade. Acho que o Skunk não merecia ser retratado dessa maneira.

E ele mesmo nunca contou pra ninguém que estava mal, né… O Marcelo nunca soube. Eles foram descobrir já no finalzinho da vida dele. Dava muita vergonha, ainda mais no meio que ele vivia, do rap, da malandragem. Imagina você virar e dizer que tem HIV? “Pô, mas espera aí, então você é viado?”.

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Quem deu ao Luís Antônio o apelido de “Skunk”? O apelido do Skunk não era por causa do bagulho. É porque ele tinha um passado punk. Ele usava moicano. E aí como trabalhava numa lotérica, não podia usar o moicano. Então ele raspou e deixou crescer de levinho. Era uma brincadeira misturando “skinhead” com “punk”. Com “u”, e não com “a”. Ele era o punk da cabeça raspada [risos].

Qual foi o papel do D2 na produção do filme? Como ele tem uma agenda muito atribulada é óbvio que não pôde dispensar todo o tempo do mundo pro filme. Mas ele esteve nas filmagens, ajudou muito no olhar, principalmente em relação aos protagonistas. O Marcelo ensaiou com eles, passou pra eles o universo. Aliás, deixou os dois extremamente à vontade, o que foi incrível. Principalmente pro Renato, que o interpreta. Ele falava: “Não tente me imitar. Faz do seu jeito, cria o seu personagem.”

O que foi essencial para que dessa vez o filme se concluísse? Tive um assistente de direção, o Gustavo Bonafé, que trabalhou comigo anos da vida, e na hora de finalizar, como eu estava muito envolvido pessoalmente com o filme, resolvi dividir a direção com ele. Ele entrou na última fase e foi muito importante pra mim, tirou um peso. Tivemos uma perda pessoal no meio do processo, a minha grande parceira, que estava comigo desde o começo, que levantou os primeiros mil reais pra gente imprimir um book de apresentação, infelizmente morreu. Foi quando parei. Perdi a vontade de continuar. Eu não me via sem ela. Mas quando voltamos foi legal, porque metemos o pé no acelerador.

Algo sobre as atuações para destacar? São poucos atores, mas eles estão muito bem, num registro muito equilibrado. Isso me deixou muito feliz. A Marina Provenzano, que faz a Sônia, a primeira mulher do Marcelo, mãe do Stephan, foi um presente pra mim. Eu tinha um desejo enorme de trabalhar com um ator que conseguimos trazer. Eu havia assistido uma coprodução Brasil-Argentina, com um ator argentino radicado em Madri, o Ernesto Altério, que pra mim era impossível. Imagina, trazer um cara da Espanha que nunca tinha escutado falar de mim?

O que mais lhe emocionou na história do Skunk? O mais bonito do Skunk foi ele ter trazido o BNegão. O B veio pelo Skunk. Ele tinha o Funk Fuckers, todas as bandas ali eram amigas. O Gustavo Black Alien e o Speed tinham o Speadfreaks. E tinha o Planet e O Rappa. Um dos melhores amigos do Skunk era o Yuka. Eram jams intermináveis. Quando ele percebeu que já não estava conseguindo, começou a convencer o Marcelo a cada vez mais botar o B no palco. E o Marcelo não entendia muito, dizia: “Pô, a gente não é o Titãs, já tem dois caras cantando”. E o Skunk insistindo pra agregar. Ele fez a transição porque sabia que estava à beira da morte.

O Magnata foi um marco na sua carreira. Como foi sua trajetória  ao longo desses nove anos de produção do filme sobre o Planet Hemp? Tive minha primeira experiência com O Magnata, e nisso conheci uma produtora que me abriu todas as portas, a Gullane Filmes. Daí recebi um convite pra ser um dos diretores da terceira série da HBO, Alice. Ao lado de dois diretores de cinemão mesmo, o Sérgio Machado e o Karin Aïnouz. Eu era a ovelha negra, os caras nunca tinham ouvido falar de mim na vida, o Fabiano e o Caio Gullane me bancaram e aí não teve mais volta, entrei mesmo na dramaturgia. A atriz era a Andreia Horta, novinha. Ela fez agora a Elis Regina. Então veio FDP, outra série pra HBO, sobre um juiz de futebol. Faz uns seis anos que saí completamente do mercado publicitário, me mudei pro Rio, algo super importante, pois na época o mercado de cinema e televisão lá realmente era mais forte do que em São Paulo. E lá fiz bastante coisa, séries menores pro GNT, Multishow, dois longas, e estou de volta a São Paulo, que mudou nesse meio tempo. Agora está rolando muita produção de conteúdo televisivo aqui. Acho que quando a internet se fortaleceu deu uma quebrada naquela coisa de só publicidade, os preços eram muito menores, os custos... Hoje em dia você consegue trabalhar com audiovisual.

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