por Redação
Trip #192

Artista pede direito de resposta por matéria da Trip, o repórter Pedro Alexandre Sanches faz a tréplica

A Trip 192, cujo tema é Viver Com Menos, publicou uma grande reportagem sobre os Novos Baianos, matéria que acabou virando uma das capas. Nada mais apropriado pra estrelar essa edição que trata de desapego e renúncia, pois nos anos 70 eles largaram tudo para viver só de música. A proposta era levar seus integrantes até o lendário Cantinho do Vovô, sítio em Vargem Grande onde moraram, produziram e se amaram. Moraes Moreira e Pepeu Gomes não toparam essa (re)visita e o resultado final da reportagem não agradou Moreira, que nos pediu direito de resposta, aqui abaixo concedido.

 

Réplica de Moraes Moreira:

A respeito de uma reportagem publicada pela revista Trip no mês de setembro, gostaria de tecer alguns comentários, apresentando a minha versão para os fatos, já que fui muito citado. Tudo começou quando Davi, meu filho, me falou sobre um email que lhe fora enviado pelo repórter Pedro Alexandre Sanches, pedindo para intermediar uma contato comigo, no sentido de realizar uma entrevista conjunta com todos os componentes dos Novos Baianos. Davi, na sua boa fé, sabendo que o relacionamento do grupo atualmente não é dos melhores, sugeriu que se fizesse separadamente, pois acreditava que assim a coisa poderia acontecer de forma mais tranquila. Concordei com ele e a princípio considerei esta possibilidade.

Com o passar dos dias, porém, algumas interrogações começaram a pintar na minha cabeça. Por quê esta entrevista agora se não temos nenhum projeto para o momento, não estamos lançando nenhum disco novo e muito menos temos shows programados? Tá certo que os Novos Baianos continuam vivos e mesmo separados são sempre lembrados, pela importância de um trabalho que, sem dúvida, enriquece a nossa cultura popular. Mas a verdade é que em casos como este, quando não estamos assim tão afinados, o silêncio e a reflexão podem ajudar muito mais.

Liguei para Pepeu, para saber qual era sua disposição em relação a esta entrevista. Ele foi muito claro e disse que não gostaria de participar, que não se sentia à vontade por conta de alguns acontecimentos desagradáveis ocorridos na Bahia quando se reuniram para uma apresentação no Carnaval passado. Diante deste fato e de compromissos profissionais surgidos de última hora, optei por não aceitar o convite da revista. Apesar das nossas ausências, a pauta foi mantida. Até aí tudo bem. Porém, depois que li a matéria, percebi com clareza que a decisão que tomei foi muito acertada. Fico impressionado com a disponibilidade e o desejo dos “manos” de estarem na mídia a qualquer custo. Isto não é bom e denota uma carência artística muito grande. As declarações foram infelizes, algumas feitas às escondidas, outras completamente equivocadas. Dizer que os Rolling Stones permanecem juntos, apesar das brigas e que ganham dinheiro assim, efinitivamente não é um bom exemplo para os Novos Baianos.

O dinheiro nunca foi o nosso grande objetivo, era apenas uma consequência, uma necessidade. Nossa grande moeda sempre foi o amor, a irmandade, a formação de uma nova família, unida pelos laços das ideias e dos ideais. Chamar de “besteirinha” as nossas diferenças é muito pouco, achar que qualquer um de nós pode fazer sozinho os Novos Baianos também não procede. Os Novos Baianos eram quase uma religião. Hoje em dia cada um tem a sua, e aí eu pergunto: será que somos tão ecumênicos assim, a ponto de harmonizarmos tantos credos? Outra coisa: chamar A Cor do Som de “subgrupo” é muito ruim, tenho certeza de que nenhum de nós gostou disso. A reportagem em certos momentos descamba para um tom de fofoca, de intriga, que não tem nada a ver com o gabarito da revista Trip. Sem querer entrar em outros detalhes, pra terminar quero dizer o seguinte:

Parabéns Pedro Sanches, você venceu, espalhou as sementes da discórdia, destilando de forma irresponsável o seu veneno. Saiba também que a sua matéria prestou um desserviço à música popular brasileira, tornando mais distante ainda um possível entendimento que poderia haver entre nós. Usando um termo seu, diante de certas situações a gente tem mais é que ser prá lá de “arisco”. 

Moraes Moreira
PS: Pepeu e eu estaremos sempre juntos no firme propósito de preservar, divulgar e levar adiante a obra dos Novos Baianos.

 

Tréplica de Pedro Alexandre Sanches:

Sempre fui muito encafifado com a epopeia trágica de Wilson Simonal, e só depois de muito tempo comecei a entender o porquê: a história de Simonal foi tristemente exemplar de algo que eu chamaria de “teoria do bode expiatório”, um trambolho destrutivo que passa a todo momento pelas nossas vidas, deixando cadáveres insepultos pelo caminho. Não é nada complicado: a gente sempre elege alguém (ou alguens) para depositar culpa sobre tudo que nos acontece de ruim (às vezes até pelo que acontece de bom), só isso. Se o cara tem vocação para bode expiatório, não tem jeito: todo mundo tem uma culpinha escondida para depositar no infeliz.

Penso muito no Simonal, e pensei de novo ao ler a carta que Moraes Moreira dirigiu à Trip (e diretamente a mim, no último parágrafo). Ele tece considerações interessantíssimas sobre as históricas desavenças entre os Novos Baianos, que ajudam a entender por que eles são (ou estão) incompatíveis uns com os outros, apesar da extraordinária história traçada em grupo nos anos 70.

“Os Novos Baianos eram quase uma religião, hoje em dia cada um tem a sua, e aí eu pergunto: será que somos tão ecumênicos assim, a ponto de harmonizarmos tantos credos?”, Moraes perguntava no trecho que mais me emocionou (e que se completa com as sensações que esse reencontro parcial me deixou). Viver neste mundo é bom, mas é complicado à beça.

O Simonal me veio, é óbvio, por conta da conclusão a que o Moraes chegou: eu, jornalista e “crítico” com certa “fama de mau”, fui o semeador da discórdia, o culpado por tudo de ruim (espero que pelo de bom também) que aconteceu com os Novos Baianos desde quando eu ainda nem tinha nascido. O bode expiatório da hora, enfim. Também pela fala de Moraes, percebe-se que há alguma sequela deixada pelo carnaval passado na Bahia, e disso sou culpado também – apesar de nem ter passado perto da Bahia nesse carnaval.

Queria dizer só isso ao Moraes: pai, afasta de mim este cálice! Não sou culpado de vocês terem religiões e religiosidades diferentes 40 anos depois de terem vivido a mais linda das simbioses – aliás, que coisa mais linda isso que você falou sobre as diferenças quase-religiosas. Elas explicam muita coisa, afinal não costumam ser vividos como quase-religiões valores cruciais para os (ex-)Novos Baianos, como música, futebol, Bahia, Brasil, samba, rock, drogas, igreja evangélica, sexo, amor? Quantas religiões num mesmo caldeirão, não é mesmo? Quase parece o mundo todo – por que não viver neste mundo?

Na carta do Moraes fui culpado, até, de A Cor do Som ter sido um subconjunto dos Novos Baianos. Não me entenda mal, Moraes, por favor, eu só quis dizer que Acabou Chorare era um disco assinado pelos Novos Baianos na capa, e que lá dentro, em letras menores, estava escrito o nome d’A Cor do Som embaixo dos nomes dos NB originais. Um conjunto dentro do outro conjunto, não era isso naquele momento? A propósito, eu amo enlouquecidamente A Cor do Som, assim como amo Baby do Brasil, Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor. Que gente mais arretada, sô. E conseguiram criar obra tão colossal!, espero disso poder me considerar culpado também.

Estou brincando, sim, mas é que em momentos de bronca assim me sinto um pouco como um produtor de vocês, ou um diretor de gravadora (o pai do Cazuza, o André Midani, sei lá quem) – eu que, poxa vida!, sou um mero repórter free-lancer! Mas me sinto, porque fica aquela história, sabe?, se o reencontro de todos os NB tivesse corrido em harmonia e às mil maravilhas, bingo!, os Novos Baianos seriam maravilhosos, perfeitos e geniais – eles e só, só, somente só eles. Se alguma coisa não correu nos conformes, quem é o (único) semeador da discórdia? Eu!!! Besta é tu!, besta é tu!, erva venenosa! A teoria do bode expiatório, mora?

Mas, e aí, esse meu reclamol quer dizer que tento tirar o corpo fora, que quero me fazer de vítima? Não, espera um pouco. Estou aqui, Moraes, engolindo e digerindo o sapão que você me mandou. É óbvio que, sim, eu semeei discórdia, não sejamos ingênuos ou hipócritas. Eu estava consciente disso e me perguntei umas tantas vezes enquanto escrevia se era possível driblar o possível perigo e a provável acusação posterior.

Não era, primeiro porque sou ruim de drible, segundo porque a discórdia (atiçada, mas não provocada por mim) é tão latente e evidente que se eu a varresse para debaixo do tapete voador do Cantinho do Vovô eu estaria produzindo não uma reportagem, mas uma peça de ficção habitada por fadinhas, elfos e bruxas más – dessas que o jornalismo atual, principalmente o político, anda produzindo em escala industrial, nauseabunda. Jornalistas têm prestado desserviços pavorosos ao jornalismo, mas, se acusássemos os artistas de serem os culpados por nosso drama, tomaríamos tomate na cara, não é mesmo, Moraes?

Pois então, esse foi outro sapo cascudo que ficou entalado aqui na minha garganta, essa conversa de que prestei “um desserviço à música brasileira”. Será que prestei? Essa bateu aqui no fígado, prometo que vou ruminar exaustivamente sobre isso (já estou, aqui mesmo, aliás).

Mas lanço em troca um desafio, ô, Moraes: esse papo de que entrevista de artista, conjunto e ex-conjunto só serve para divulgar seus próprios projetos e vender seus próprios produtos não seria, também, um desserviço cabeludamente capitalista à música popular brasileira? Há tanta diferença assim entre essa sua argumentação e o papo nada odara do Galvão, de os Novos Baianos virarem Rolling Stones? No final das contas não somos todos meio parecidos, sejamos católicos, ateus, evangélicos, umbandistas, espíritas, agnósticos, socialistas, capitalistas ou anarquistas? Essa mecanização mercantil de pautas mais publicitárias que jornalísticas não foi dos (inúmeros) elementos a nos trazer dos ideais hippies dos anos 60 e 70 para o estado de coisas de hoje? Bem, que os anunciantes confundem jornalismo com publicidade a gente sabe, mas será que os artistas também o fazem?

Perdão ao Moraes e aos leitores (há alguém aí?) pela rajada de perguntas, é cacoete de entrevistador. Faço mais uma só, e eu mesmo respondo. Afinal de contas, semeei discórdia? Sim, Moraes, semeei, mas se não quero ser bode expiatório de 40 anos de história de vocês, muito menos conseguiria ser o coroinha que iria servir a hóstia nessa grande missa ecumênica (volto à sua constatação sobre os ex-NB não serem assim tão ecumênicos, porque a admiro profundamente, e acrescento que, poxa, eu também não consigo, parece que no final sempre dá errado, por melhores que sejam as intenções – sim, eu sei, o inferno está lotado delas, qualquer dia chego lá).

A mesa dos Novos Baianos sempre esteve meio bagunçada, como já mostrava a capa de um de meus discos favoritos, Acabou Chorare (1972). Não posso falar em nome da Trip, mas eu sonhei catar algumas migalhas lá no Cantinho do Vovô, e ainda assim não gostaria de ser a mosca que pousou na sopa de vocês. Eu lamento e fico triste pelo desagrado de Moraes, mas acho que não dava para ser de outro modo. Como viver noutro mundo?

Só não quero me despedir antes de reafirmar como é grande o meu amor por vocês, por todos vocês – os já citados e os ainda não, os grandes Pepeu Gomes e Dadi Carvalho, e os outros músicos que passaram pelos NB e que eu nem sequer conheço, de perto ou de longe. A gente, que é mais jovem (já tenho 42, quase a mesma idade dos NB), fica, sim, com um gosto agridoce na boca pelo mundo mágico em que a geração de vocês viveu, e que ninguém mais soube repetir desde então – é duro viver noutro mundo, não saber viver no mundo que vocês inventaram.

Por outro lado, 2010 é a barca grande em que estamos todos metidos hoje, nós e vocês. Enquanto corre a barca (e sem bodes expiatórios, por favor, com as bênçãos de São Simonal – eu sou ateu, mas também acredito nuns santos), todo mundo aqui, sem uma exceção sequer, ajudou e ajuda a construir o mundo, o Brasil, do jeito que ele é hoje, aqui e agora. Por que não viver, não viver neste mundo?

Pedro Alexandre Sanches

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