Um homem em estado avançado de gravidez assiste à expansão da barriga da mulher

Um homem em estado avançado de gravidez assiste, maravilhado, à expansão da barriga da mulher

Antes, quando eu via uma mulher grávida, o pensamento mais profundo que me vinha à cabeça era “que barriga enorme”. Meu cérebro masculino era capaz de se impressionar com aquele tamanho planetário, mas não de atribuir significados metafísicos.

Mas isso era antes. Esta semana, dormindo de colherzinha com a Joana, subitamente me dei conta de que tudo o que eu pensava sobre gravidez (“que barriga enorme”) estava errado. Não, a barriga não cresce. Joana continua do mesmo tamanho que era antes – o que mudou é que tem outra pessoa crescendo dentro dela. E é claro que, enquanto essa pessoa cresce, ela vai esticando a Joana, o que dá a sensação de que ela aumentou de tamanho.

Ok, ok, já imagino a leitora pensando: “Que energúmeno. Ele só percebeu essa obviedade agora?”. Compreenda, rigorosa leitora, que eu nasci com a deficiência cognitiva de ser homem. Minha mente neandertal é mais linear que a sua – é binária, só conhece gordo e magro, grande e pequeno. Não entende que o mundo é muito mais maravilhoso e complexo que isso.

Nunca antes havia me passado pela cabeça que a bunda da grávida tampouco fica grande. O que acontece é que minha filha está apoiada na bacia da Joana e, enquanto cresce, vai empurrando para fora os ossos a partir do centro de gravidade dela – até que ela vai ficar tão grande que vai abrir espaço para sair de lá de dentro. Sim, eu disse filha. Estamos esperando uma menina, que já vi pela TV: tem narizinho redondo e o tamanho de um mamão. Papaia.

Aliás, não estamos esperando. Ela já está aqui. Só não é muito fácil para mim interagir com ela, porque eu estou do lado de fora da Joana, enquanto ela continua do lado de dentro. Essa situação ficou óbvia para mim esta semana, naquela mesma noite em que a Joana e eu dormimos de colherzinha. Não éramos duas colheres: éramos três, uma encaixada na outra. Nossa filhinha, uma colherzinha de café, ficou se mexendo sem parar entre nós dois.

Nossa filha foi concebida numa noite de lua crescente, numa cidadezinha cruzada por três grandes rios no lado alemão da fronteira com a Áustria. Viajávamos de bicicleta, de férias, e naquele dia tínhamos pedalado uns 80 quilômetros, à beira do rio Danúbio. Nos dias que se seguiram, nossa filhinha ainda era um amontoado invisível de células enquanto cruzávamos a Áustria e a Eslováquia e chegávamos à Hungria. Quando fomos pedalar pelos morros da Itália, ela já estava no comando da família. Era ela que nos fazia parar a cada meia hora para comer alguma coisa ou para descansar.

Agora estamos de volta, em casa, e eu passo o tempo maravilhado, olhando aquela barriga linda crescer. Nossa vida já mudou para sempre. Imagina então como vai ser quando o mamão resolver sair de dentro da Joana para viver com a gente aqui fora. Aí sim eu quero ver.

*Denis Russo Burgierman é jornalista, diretor de redação das revistas Superinteressante e Vida Simples. Sua mulher, Joana, está chegando ao sexto mês de gravidez

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