por Nathalia Zaccaro
Trip #267

No flow: Karina Oliani, Lee Taylor, Ana Botafogo, Yuri Soledade e Felipe BRTT contam seus momentos de concentração absoluta

Ana Botafogo

60 anos, bailarina

Já não sou mais a primeira bailarina dos clássicos. Há pouco tempo me apresentei em um espetáculo da companhia Cisne Negro e fiz muito menos do que costumava fazer. Mas senti a mesma plenitude. A mesma felicidade. É como sair do corpo. Isso não mudou. A vida inteira me senti desafiada pelo balé. Adrenalina, frio na barriga. Quando passo da coxia, estou preparada para tudo. Sou humana e posso errar, mas me esforço ao máximo para alcançar uma concentração total quando me apresento. Só penso na personagem, nas sensações que estou vivendo ali. Desperto dessa imersão com os aplausos da plateia. Volto a ser eu mesma. É tão bom estar plena. São minutos que compensam uma vida árdua de ensaios diários, dedicação constante e muita disciplina. Aprendi a viver desse jeito, sempre conectada com meus exercícios. Luto todos os dias por essa felicidade do palco.

 

Yuri Soledade

40 anos, surfista

O mar está gigante e eu estou ali. Deixo o transe me dominar. Não penso em nada, nem trabalho, nem família – só em estar em harmonia com a natureza. Acabo de pegar uma onda gigante e já quero pegar outra maior. Quero ficar mais tempo dentro do tubo. É viciante. Sei que nada é mais poderoso do que a natureza, sei que tenho limites, mas conseguir voltar pra casa depois daquele mar de onde eu achava que não ia sair vivo é uma felicidade plena. O tempo que passo dentro de uma onda é a eternidade, mesmo que dure poucos segundos. Até no Havaí, onde moro há mais de 20 anos, em alguns dias o mar está flat – e é só nesses dias que não pego onda. Existem felicidades tão grandes quanto essa que sinto surfando, como o nascimento dos meus filhos, por exemplo. São momentos de alegria extrema, mas são muito diferentes. Ultrapassar minhas barreiras é me sentir vivo.

 

Karina Oliani

35 anos, médica e atleta

Eu sou muito friorenta e naquele dia a água estava extremamente gelada. E ventava. As pessoas acham que o mar nas Bahamas é sempre morno, mas não é. Ninguém acreditava que eu aguentaria ficar mais de 30 minutos dentro da água. Mas, quando eu vi a família de golfinhos, sabia que ia ter que mergulhar. Pulei. Eles nadavam um pouco e em seguida desciam mais pro fundo, pra ver se eu ia atrás. Me sentia desafiada. Descia com eles. E isso se repetiu várias vezes. Era uma sensação tão boa. Aquele prazer da conquista, contra o frio, contra o vento. Seis horas depois saí da água, sem ter ideia de quanto tempo tinha passado. Com hipotermia, mas nada importava mais. É um tipo de prazer que faz com que eu sempre esteja buscando novos desafios. Escalei a face norte do Everest pela primeira vez em maio. Durante o caminho, dez cadáveres me lembravam que o que eu estava fazendo colocava minha vida em risco. Mas o medo não me bloqueia. Me joga pra frente. É nesses momentos que reflito sobre a vida.

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Felipe ”brTT”

26 anos, gamer profissional

Era só eu contra três. Eu estava tão envolvido naquela partida [de League of Legends] que, quando consegui eliminar todos os inimigos, senti uma empolgação e gritei: “Rexpeita!”. Até hoje esse momento marca minha carreira, virou um bordão. Competição é a energia que me move. É uma paixão, me sinto entregue quando estou jogando. Se não fosse pela comissão técnica que me acompanha, perderia totalmente a noção do tempo. O teclado e o mouse se tornam extensões do meu corpo. Usá-los é completamente automático. Me desligo do mundo e invisto tudo nessa adrenalina, na vontade de superar meus limites. Sinto isso desde criança: passava horas e horas jogando. Nem sei quantas vezes mi-nha mãe teve que ir me resgatar em lan houses. Como profissional, tive momentos ruins, quase desisti, mas algo me moveu para continuar. Tudo isso é tão importante para mim que enfrento qualquer coisa e tento botar pra “rexpeitar”.

 

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Lee Taytor

33 anos, ator

Não acontece em todo espetáculo, nem em todas as ce-nas. Mas, às vezes, me encontro imerso em um universo que me revela outras possibilidades de existência. Minha consciência se expande no tempo e no espaço e passo a jogar com esses elementos. Mergulho em uma realidade alterna-tiva em que experiencio não ser eu mesmo e ser outro. Um estado de presença no qual deixo de ser. Eu me esqueço de tudo. Na TV, é necessária uma concentração extra para alcançar esse estado. Não depende apenas de mim, como no teatro. No palco, o público colabora para esse flow. A conexão plena com os outros atores e com a plateia viabiliza essa sensação. Superar desafios em cena, seja na composição ou na realização de uma ação, é uma das chaves para acessar essa plenitude. São momentos em que se dá sentido espiritual à vida. É um tipo de felicidade que só lembro ter sentido quando brincava ainda criança.

Créditos

Imagem principal: Adams Carvalho

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