por Nina Lemos
Trip #191

Geraldo Vandré é o maior enigma da MPB. Hoje renega o passado e até o sobrenome

Um dos personagens mais importantes da história política e musical do país está bem perto de nós. Mais do que imaginamos. Geraldo Vandré, o autor de "Para não dizer que não falei de flores", o homem que compôs e cantou o que se tornou o hino de resistência à ditadura militar e nunca mais foi visto nos palcos, se esconde perto do Baixo Augusta. Ali mesmo onde muitos paulistanos tomam umas cervejas e (vez ou outra) até falam de política.

Todo mundo sabe cantar "caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não". Mas poucos sabem que o paraibano Vandré hoje, aos 74 anos, é um senhor isolado, que anda pela rua com os cabelos brancos e um boné da FAB (as Forças Aéreas Brasileiras). Ele provavelmente faz músicas, mas não as grava. Ele de vez em quando liga para os amigos, mas depois desaparece. Ele fala que vai dar entrevista, mas desiste. Geraldo Vandré é um mistério.

O homem que fez Tom Jobim tomar a maior vaia de sua vida (quando "Sabiá" ganhou de "Para não dizer que não falei das flores" no Festival Internacional da Canção de 1968) é cercado de mitos e de "provavelmentes". Difícil ter certeza sobre alguma coisa da vida que ele leva nos últimos trinta e poucos anos, desde que voltou de um exílio e se autoexilou da vida pública.

Mas uma coisa é certa. Ele é um dos cinco moradores de um prédio meio abandonado no centro de São Paulo, que tem um total de 39 apartamentos. Ele vive há 25 anos em um sala e dois quartos. Quem garante é Joaquim Felipe, 78, zelador do prédio há 28. "O Geraldo está viajando", ele diz. Sim, essa informação já havia sido passada à Trip pelo próprio autor de "Disparada" e outros clássicos da canção de protesto. Só que, quando a gente é jornalista, não pode confiar em Geraldo Vandré, que não gosta de dar entrevista e foge da imprensa como o diabo da cruz.

"Cuidado que ele vai te enrolar, vai marcar e desmarcar várias vezes", diz Tom Cardoso, um dos últimos jornalistas a conseguir entrevistar o cantor. Tom passou seis meses ligando para ele todos os dias para conseguir uma meia hora de papo.

Geraldo Vandré é um ermitão. Mas tem celular. E chegou a atender um dia.

- Sou da revista Trip e queria fazer uma reportagem com o senhor.

-Estou viajando. A senhora me acione daqui a dez dias.

Ele estava mesmo viajando. Seus poucos amigos íntimos confirmaram. Geraldo estaria em Teresópolis, cuidando da mãe, que tem mais de 90 anos. "Ele é muito devotado e tem passado muito tempo cuidando dela, que está doente", diz Telé Cardim, jornalista e amiga de Vandré desde os anos 60, uma das poucas pessoas para quem ele telefona "de vez em quando".

Geraldo Vandré não recebe muitas visitas. Telé já esteve no apartamento. "Ele vive cercado de livros." E seu Felipe confirma o isolamento. "Já teve muito jornalista procurando por ele aqui. Hoje não vem mais ninguém, todo mundo desistiu. O tempo passa, as pessoas esquecem. E ele também não abria a porta", diz seu Felipe, rindo. "Ele é solitário, muito solitário, fechado, mas é gente boa, também, depois de ser exilado e ter levado uns esculachos fora do Brasil", continua seu Felipe. Sim, houve um tempo em que Geraldo Vandré conversava com seu Felipe sobre o passado. Hoje, anda cada dia mais calado. "Ele odeia política. Votar? Não vota não. Ele não gosta nem de ouvir falar nesse assunto."

Che e FAB

Segundo seu ex-empresário, José Guedes, que acompanha a trajetória de Vandré desde 1960, ele jamais foi ligado em política partidária. "Ele nunca se filiou a nada, nem falava tanto assim de política. Era muito identificado com o Che Guevara e esse ideal revolucionário. Tanto que, quando estava no exílio, gravou uma música chamada ‘Che'."

Mas Vandré hoje renega esse passado. O compositor e cantor Jair Rodrigues, intérprete de "Disparada" e um dos poucos artistas a manter contato com Geraldo, percebeu isso ainda nos anos 80, quando reencontrou Vandré na porta do apartamento onde ele mora até hoje. "Eu cheguei todo animado e disse: ‘Vandré'. Aí ele me olhou e falou: ‘Eu sou o Geraldo Pedrosa, o Geraldo Vandré morreu em 1968'."

O que fez com que Vandré - sobrenome artístico que ele adotou em começo de carreira - morresse é uma coisa que nem os amigos entendem direito.

Certo é que a fase da vida em que ele fugiu do Brasil, voltou e reapareceu no centro de São Paulo é nebulosa. "São coisas que só o Geraldo sabe. E ele nunca vai contar", avisa José Guedes.

Mesmo assim, Guedes sabe de muita coisa. Ele acompanhava Vandré na saída do Maracanãzinho, no dia da lendária apresentação de "Pra não dizer que não falei das flores". "Na saída já tivemos um aviso, os militares mandaram um recado dizendo que era para a gente desarmar a nossa montaria e sumir." Geraldo passou um tempo em São Paulo. E, segundo Guedes, no Rio foi hóspede do escritor Guimarães Rosa. Depois, diz o ex-empresário, conseguiu fugir para o Uruguai, "escondido dentro de uma ambulância". "O AI5 tinha acabado de cair sobre as nossas cabeças, tínhamos planejado uma longa turnê, mas aí vimos que seria impossível fazer qualquer coisa."

"Ele odeia política. Votar? Não vota não. Ele não gosta nem de ouvir falar nesse assunto", diz o zelador do prédio do artista, seu felipe

O músico morou no Chile e depois na França. Voltou ao Brasil em 1973. E é aí que está um dos capítulos mais misteriosos de sua vida. "Foi quando ele fez aquela história com a Globo e depois foi morar no quartel da FAB", conta Guedes. Sim, a história de Geraldo Vandré, ou do advogado Geraldo Pedrosa, tem ares cinematográficos.

Ao chegar ao Brasil, ele fez uma aparição no Jornal Nacional que chocou a esquerda e os simpatizantes. Geraldo defendeu a ditadura militar e disse que nunca havia apanhado. "Ele foi convencido, essa parte é nebulosa mesmo e só ele sabe. Ele estava muito amargo quando voltou, em depressão mesmo. Acho que deve ter sido torturado no Chile", diz Telé.

Não parece coincidência Vandré escolher passar a virada do século no clube da Aeronáutica. José Guedes conta: "Quando ele voltou do exílio ficou um bom tempo morando no quartel, parece que ele tinha carro e um quarto lá e dormia e saía quando queria. Foi por isso que ele compôs "Fabiana", um hino para a FAB." Sim, a última canção conhecida de Geraldo Vandré é uma homenagem às Forças Aéreas Brasileiras.Aos poucos, ele restringiu seus contatos a um grupo restrito de amigos. Ano passado, Telé recebeu visitas de Geraldo na TV Record, onde trabalha, e convenceu Vandré a dar uma entrevista para o rádio. "Chegamos a assistir cenas de festivais e senti que ele ficou melancólico." No réveillon de 2000, Telé se surpreendeu com a presença de Vandré em seu almoço de Ano Novo. "Encontrei com ele por acaso e disse que estava indo para o Rio, onde almoçaria com a minha família no clube da Aeronáutica. Quando chego lá, o Vandré estava nos esperando, comemoramos, ele se divertiu."

A história fica ainda mais estranha. A última aparição de Vandré em público, registrada no YouTube, é de Geraldo assistindo a um show do sargento Lago, que canta principalmente músicas militares, em São Paulo. No vídeo, o sargento apresenta "Para não dizer que não falei de flores" e Geraldo é visto em um canto da plateia.

Eles ficaram amigos na década de 80, quando Geraldo passou a frequentar o quartel onde o sargento servia para ouvir concertos da banda do exército. "Nos aproximamos por causa da música. Ele está bem, quando nos encontramos conversamos sobre vários assuntos. Somos amigos normais, por afinidade, não tem nada a ver com eu ser militar e ele ter sido um compositor que apareceu lutando contra a ditadura." De acordo com o sargento, Vandré compôs "Fabiana" por uma razão simples. "Ele gosta de aviões, sempre gostou."

Segundo amigos, essa relação é realmente estreita. "O Vandré leva uma vida boa. Ele entra em qualquer avião da FAB e viaja para onde quiser sem comprar passagem", diz Jair Rodrigues. O último encontro deles aconteceu no ano passado. Parecia promissor, mas, mais uma vez, Vandré sumiu misteriosamente. "Ele me ligou e disse que queria que eu gravasse um disco com as músicas novas dele, perguntou se eu aceitava, eu disse que sim, e ele disse que só aceitaria se a Simone cantasse junto. Falei que tudo bem, desde que ela aceitasse. Depois disso, ele nunca apareceu."

Povo e lombriga

"Acho que o Geraldo ficou muito magoado com tudo o que aconteceu, ao sentir que se sacrificou pela ditadura. Quando ele voltou do exílio, o procurei e disse: ‘Volte a compor, o povo te quer'. Ele me disse: ‘Que se dane o povo, o povo é uma lombriga'", diz Jair.

Seu Felipe, o zelador do prédio de Geraldo, acha que o fato de já ter visto o vizinho falando com as paredes se deve ao fato de ele ser poeta. "Um poeta que sofreu muito." E seus amigos concordam que o artista não ficou louco, um dos mitos que perseguem a sua imagem. "Se ele estivesse louco não estaria cuidando da mãe", diz Telé Cardim. "Ele vive do jeito dele, com a aposentadoria de quando trabalhava na Sunab. Vive de uma maneira muito simples, com pouco dinheiro. Ele cozinha, lava suas roupas e frequenta aqueles restaurantes populares perto do prédio dele, mas sabe cuidar de si e até faz exercícios em casa."

Se você vir um senhor com boné da FAB vagando perto do Baixo Augusta, sim, pode ser ele. Mas não o chame de Geraldo Vandré.

 

* Leia artigo de Décio Sanchis, que conviveu com Geraldo Vandré, clicando AQUI.

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