por João W. Nery

A primeira mulher a mudar de sexo no Brasil escreve sobre sua transformação

Sou considerado o primeiro transhomem a ser operado no Brasil em 1977, em plena ditadura, quando as cirurgias ainda não eram legalizadas e gratuitas como são hoje pelo SUS. Hoje estou com 62 anos. Tenho um filho não biológico, que criei desde que foi fecundado. Ele tem 25 anos e é engenheiro. Fui psicólogo, sexólogo, professor universitário e tive um consultório. Após a cirurgia, aos 27 anos, tive que tirar uma nova identidade – desta vez masculina - para me articular socialmente e poder trabalhar. Com isso, perdi meu currículo escolar, incluindo o diploma de psicólogo, e aos olhos da lei me tornei um analfabeto, tendo que batalhar como pedreiro, vendedor e motorista de táxi.

Embora tenha nascido num corpo de mulher, desde os quatro anos me identifiquei com o gênero masculino. A primeira cirurgia que fiz foi a retirada das mamas que elimina a necessidade de usar faixas para escondê-las. Pode-se assim vestir camisas colantes e ir à praia. A segunda foi a histerectomia (retirada do útero e ovários), que faz cessar a menstruação e a produção do estrogênio, o hormônio feminino. Para obter os caracteres sexuais secundários (barba, voz grossa, músculos e pelos), tomei testosterona. A neofaloplastia (feitura do pênis) eu não fiz, pois é considerada pela Organização Mundial da Saúde uma cirurgia experimental. Há técnicas mais modernas como a metoidioplastia, que consiste na soltura do clitóris (já aumentado pelos hormônios e com uso de bombas especiais), transformando-o num pênis pequeno, mas sem perder a sensibilidade.

"O gênero é uma invenção social, que muda com a cultura e o tempo. Não é na genitália que está a definição do nosso gênero"

Sou hétero, mas poderia ser homo, bi ou assexuado, como qualquer outra pessoa, pois a orientação sexual se relaciona com o desejo e a afetividade de cada um, independentemente de seu corpo. No caso dos transexuais e travestis, a identidade de gênero não corresponde ao corpo com que a pessoa nasceu. Como a nossa sociedade encara este estado como patológico, somos quase “obrigados” a nos operar, para nos fazermos inteligíveis como ser humano.

Fora da caixinha
A nossa cultura infelizmente só concebe o binarismo homem x mulher. Os pais, quando detectam o sexo do bebê, já escolhem o nome e o gênero que este deverá seguir: os brinquedos (boneca para as meninas e carrinho para os meninos), a cor das roupas e como deverá se comportar. Todos já nascem “cirurgiados”. Se sair da caixinha será considerado doente, marginal ou invisível, sofrendo o estigma, a vergonha e a discriminação.

O gênero é uma invenção social, que muda com a cultura e o tempo. O corpo é plástico, podemos tatuá-lo, colocar piercings, próteses e hormonizá-lo para ficar segundo a nossa autoimagem. Não é na genitália que está a definição do nosso gênero. Assim como Simone de Beauvoir já afirmava em 1949 que “ninguém nasce mulher, torna-se”, a máxima também é válida para os homens. Há aqueles que perdem o pênis por acidente ou necrose e nem por isso deixam de ser homens, embora a nossa cultura seja falocêntrica, dando poder e autoridade ao pênis. O filme A pele que habito, de Pedro Almodóvar, retrata a história de um homem forçado a fazer cirurgia. Transformam-no em mulher, com vagina e aparência feminina, mas ele continua com identidade masculina. Portanto, também não é uma vagina que faz uma mulher.

É necessário repensarmos essa heteronormatividade fundamentada no modelo de família heterossexual, que elimina outros núcleos familiares como os casais formados por duas mulheres ou dois homens. Essa visão obriga-nos a ter uma heterossexualidade compulsória, ou seja, só se pode amar e ter relações sexuais com o sexo oposto. São formas de poder que perpassam espaços domésticos, políticas públicas e instituições que nos vigiam e nos controlam. Nossa sociedade continua calada diante dos homicídios diários, com requintes de crueldade, cometidos em nome dessas normas. Nenhuma lei foi aprovada até agora para punir atitudes homofóbicas e transfóbicas. Mais do que lutar por ter direitos iguais é fundamental ter iguais direitos sendo diferente.

*JOÃO W. NERY é escritor, autor dos livros Viagem solitária – memórias de um transexual 30 anos depois (Editora Leya) e Erro de pessoa – Joana ou João (Editora Record).

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