por Luiz Filipe Tavares

Vídeo mostra um pedaço perdido (e fictício) da mente do criador do jornalismo gonzo


Uma campanha de publicidade para a Good Books, livraria online com lucros voltados para caridade, varreu a internet na última semana com um retrato demente e psicodélico do jornalista e escritor Hunter S. Thompson. Metamorphosis, inspirado no trabalho do criador do jornalismo gonzo, fala sobre como o livro A Metamorfose, de Franz Kafka, ajudaria Thompson a resolver o problema de falta de calço na mesa que o segundo usava para escrever.

Com menos de três minutos, o vídeo criado pela Buck.tv e sonorizado pelo estúdio Antfood teve mais de 170 mil exibições em uma semana. O texto do vídeo é errático e cheio de comparações sufocantes e bem próximo do que você esperaria ouvir/ler do próprio Thompson. Mesmo com toda a semelhança, esta é uma obra totalmente fictícia e que não faz parte da obra do autor.

Conversamos com Wilson Brown, diretor criativo e sócio da Antfood, responsável pelo design de som de Metamorphosis. Em português fluente, que aprendeu na faculdade e que aprimorou morando por vários anos em São Paulo, ele comentou o processo de criação do vídeo e falou um pouco sobre a admiração que ele e sua equipe tem pelo trabalho de Hunter Thompson, segundo o próprio, "um dos grandes nomes da literatura americana e um homem de coragem", acima de tudo.

"Thompson era um jornalista bem agressivo. Era um cara muito a frente do seu tempo. Hoje, mais do que um grande autor, ele tornou-se uma referência que todo mundo conhece, uma figura conhecida no mundo todo. O estilo criado por ele cresceu e se expandiu, mas nunca houve outro autor que causasse o mesmo impacto e que tivesse tanto talento quanto ele", comentou Brown. "As pessoas sabem dos filmes, conhecem Thompson pelas interpretações de Bill Murray e Johnny Depp."

“Toda a produção do vídeo foi meio sem briefing. Foram muitas ideias jogadas na mistura e as palavras que mais se repetiam eram 'psicodélico' e 'amontoado'”

Aproveitando a deixa, Wilson fala acima das duas "cinebiografias" (entre muitas aspas) de Thompson. A primeira, de 1980, é Uma Espécie em Extinção (Where The Buffalo Roam), de Art Lindson e estrelada por Bill Murray como Thompson e Peter Boyle como o advogado do autor, aqui chamado de Lazlo. A segunda é a brilhante adaptação cinematográfica do romance/reportagem Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas), lançada em 1998 com direção magistral de Terry Gilliam e interpretações memoráveis de Depp como Thompson e Benicio Del Toro como o advogado Dr. Gonzo.

Esses dois registros cinematográficos, especialmente o segundo e mais icônico, do visionário animador da série Monthy Phyton, são sem dúvida a maior influência na criação do clima do vídeo sonorizado pela Antfood. Nada mais natural, afinal, a lenda sempre é maior que o homem: "Muita gente conhece essa referência de como Hunter Thompson era e como seu trabalho se desenvolvia", Wilson explica. "Ele traz uma estética de outra época, um lado obscuro do jornalismo, pode-se dizer. Não há outro como ele hoje e nem nunca haverá."

O som

Brown se orgulha de muitos trabalhos sonorizados pelos estúdios Antfood. Sempre procurando criar do zero todo o design de som de seus vídeos, a equipe liderada por ele conseguiu um feito impressionante em Metamorphosis: gravar mais de mil pistas de áudio sem usar nenhum sample, em nove meses de trabalho árduo e dedicação ao projeto.

“Toda a produção do vídeo foi meio sem briefing. Foram muitas ideias jogadas na mistura e as palavras que mais se repetiam eram psicodélico e amontoado”, ri Brown. “O pessoal do Buck (direção do vídeo) criou um mundo inteiro na cabeça de Thompson, ao qual tivemos que dar mais vida através do design de áudio. Gravamos tudo sem usar nenhum sample. No final, tínhamos mais de mil e duzentas pistas gravadas com instrumentos, tape-loops, barulhos ambiente... Uma trilha sonora completa, da qual nos orgulhamos bastante.”

Entre todos os muito impressionantes elementos de Metamorphosis, o texto é um capítulo a parte. Escrito no QG da String Theory, agência contratada pela Good Books para o desenvolvimento do projeto, ele captura bem o espírito errante do texto de Thompson. Depois de assistir ao vídeo, não há como não concordar com o release oficial da Antfood, que afirma que o vídeo é uma obra de ficção mas que “achamos que Thompson provavelmente gostaria do resultado”.

Vai lá: www.antfood.com

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