por Arthur Veríssimo

Conheça Tomio Kikuchi, o introdutor da macrobiótica no Brasil

 Percorríamos o bairro da Liberdade em São Paulo na manhã de um sábado agradabilíssimo. Quando estacionamos nosso veículo, um cidadão de origem japonesa — mas completamente brasileiro — cumprimentou todos com simpatia. Eis a lenda viva da macromicrobiótica, o professor Tomio Kikuchi. Seus ensinamentos espalharam-se pelo Brasil e pelo mundo. Presidente e fundador do Instituto Princípio Unificador e do Centro Internacional de Educação Vitalícia, mestre Kikuchi esbanja alto-astral. Seu pensamento é fascinante: “Na realidade dinâmica, não existe nada equilibrado. O que existe é o desequilíbrio reequilibrador: temos que desequilibrar controladamente, para então reequilibrar”, conta o tio, ecoando o lema “desorganizando para organizar” de Chico Science. Ele segue: “A maioria das pessoas não sabe pensar. Só delira, se apavora. Pensamento é análise, é viver no presente. Por exem­plo: não há doença hereditária, mas estilo de vida errado. Quando há correção do estilo, corrige-se também o destino. Um vira-lata humano come comida de rua; quem come em restaurante de rua é pior ainda. O envelhecimento pode ser amadurecedor ou apodrecedor. Se a pessoa perde a memória, é tratada como lixo. E os maiores inimigos da memória são o açúcar e o álcool”, detona o mestre, um verdadeiro tsunami verbal.

Conhecia as histórias e a sábia alimentação aplicada por Kikuchi há 25 anos. Nos anos 80, tive a chance de me relacionar com muitas pessoas que eram adeptas de dietas preventivas. Restaurantes vegetarianos pipocavam por todo o Brasil, nos recantos mais insólitos e paradisíacos: Canoa-Quebrada, Paraty, Visconde de Mauá, Trancoso, Floripa, Pirenópolis, Saquarema... e, óbvio, nas grandes metrópoles. Em todos esses locais, bichos-grilos, abduzidos, naturebas, rajneesh, praticantes de taichichuan, desbundados, lua-e-estrela e papo-cabeça falavam maravi­lhas de mestre Kikuchi. Seu restaurante, o Satori, se loca­liza na praça Carlos Gomes, na sobreloja de um prédio antigo da Liberdade, sem nenhum letreiro que não seja seu cardápio descrito em uma lousa à entrada. A serena e majestosa esposa de Kikuchi, dona Bernardette, orienta há décadas as noviças da cozinha.

O leão não é de nada

Começamos o roteiro visitando uma feira de produtos orgânicos e biológicos no parque da Água Branca, onde vegetais, cereais, leguminosas e uma variedade imensa de pães são comercializados para os adeptos da alimentação orgânica e nutritiva. Caminhar com o mestre na feirinha é o mesmo que circular com a Juliana Paes em Ipanema numa tarde de sol. Kikuchi é celebridade. Seu olhar é cirúrgico. Ele aponta os legumes de raízes autênticas e sutilmente mostra quais são os produtos com conservantes e outros venenos. Pergunto a ele algo prático: “Para um atleta que corre dez quilômetros em treinamento para as Olimpíadas, qual seria a dieta ideal?”. “O atleta tem de comer cereais. Animais carnívoros não têm potência: o leão, quando começa a correr, não agüenta”, exemplifica. Mas, professor, o leão, da inércia, consegue dar um salto de 9 metros... “Mas não sustenta a corrida. Observe a lebre, o cavalo, o elefante: têm durabilidade, pois comem capim. Vivem felizes, não faltam vitaminas”, insiste. Nosso passeio termina pelo parque e somos deslocados ao pulmão de São Paulo, na região da serra da Mantiqueira, Mairiporã. 

A escola Musso está situada a 1100 metros de altitude, ao lado da reserva florestal da Cantareira. Muita gente boa passou por aqui, como os ministros Gilberto Gil (que o conhece há mais de 20 anos) e Marina Silva, as cantoras Beth Carvalho e Vanessa da Matta, a atriz Cássia Kiss — todos descobriram que, mudando os hábitos alimentares, as pessoas trabalham em um processo que Kikuchi chama de auto-educação vitalícia. Enquanto nossa comitiva passeava pelo sítio, Kikuchi falava dos benefícios de todas as ervas e árvores que encontrávamos pelo caminho. De repente, um alarido ecoou: estávamos sendo recebidos por uma multidão de macacos da floresta — e Kikuchi abriu um enorme sorriso. À sombra de uma ameixeira japonesa, catou uma frutinha e ensinou: “Assim, a boca fica sempre úmida. Fonte da humanidade é a saliva: boca seca é deserto bucal, boca úmida é oásis”, manda.
Seguimos à cozinha, onde era preparado um banquete delicioso. Totalmente orgânico, o almoço foi um manjar dos deuses. Os pratos e acepipes davam água na boca. Devoramos com absoluto prazer. Shanti. Shanti. Shanti. Ao final, mestre Kikuchi declarou: “O sangue renova a vida. A matéria-prima do sangue entra pela boca. Cada bocada de comida transforma cada gota de sangue. O sangue trabalha 24 horas ininterruptamente, sem parar para descansar. Temos que ter entusiasmo em nossa vida inteira. Entusiasmo satisfatório e controlado”. Deus abençoe o professor Tomio Kikuchi e todas as pessoas envolvidas nesse processo de respeito e resgate da vida. Namastê.

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