por Milly Lacombe

Ricardo Silva Nascimento, o catador de recicláveis executado pela Polícia Militar de São Paulo, não morreu de tiro, mas de desigualdade, de abandono, de invisibilidade

Centenas de pessoas foram à Catedral da Sé hoje, 19 de julho, para prestar homenagem a Ricardo Silva Nascimento, o catador de recicláveis executado pela Polícia Militar de São Paulo no dia 13 de julho no bairro de Pinheiros. Como na última cena do sensível filme britânico Eu, Daniel Blake (2016), havia na gelada tarde de quarta-feira na Sé a consciência coletiva de que o cidadão comum, que era conhecido pelo bairro como Negão, não morreu de tiro, mas de desigualdade, de abandono, de invisibilidade, assassinado por instituições que não estão preocupadas com aquelas vidas que consideram menores ou menos importantes. 

“Negão não morreu de tiro, mas de desigualdade e invisibilidade, assassinado por instituições que não estão preocupadas com aquelas vidas”
Milly Lacombe

A execução de Ricardo em bairro nobre serve para chocar uma sociedade que, afastada geograficamente da brutalidade policial que inunda as periferias das grandes cidades, se vê obrigada a tomar uma atitude quando a morte se dá nas calçadas limpas de um bairro de classe média, aquela parte da metrópole que o atual prefeito chama em uma de suas muitas campanhas de marketing de “Cidade Linda”.

Movidos pela indignação que deve sentir todos os dias o morador da periferia, os moradores de Pinheiros foram às ruas, protestaram e tentaram sensibilizar o restante da cidade a respeito do que aconteceu com Negão; uma atitude nobre e necessária que nos obriga a tentar entender o que é violência no mundo atual.

Na Sé, o padre Júlio Lancelotti fez um sermão contundente e emocionado, lembrando que a vida de Ricardo Silva Nascimento não deveria ter sido interrompida e pedindo que todos meditassem também pela vida de dois moradores de rua que morreram de frio dessa madrugada, mais duas vítimas da violência que não aprendemos a chamar de violência, porque entendemos como violência apenas a agressão do pobre ao rico, e nunca a agressão que o sistema erguido pelos ricos impõe diariamente ao pobre. Morrer de frio é, também, morrer de abandono e de invisibilidade.

Polícia para quem precisa

Não é coincidência que quase todos os países ricos do mundo estejam aumentando exponencialmente seus gastos com a militarização das policias. E nem seria preciso uma análise científica desse fato, basta que olhemos para o policial parado nas esquinas das grandes cidades e percebamos como ele está vestido para uma guerra e não exatamente para nos proteger de um indefeso morador de rua que a ninguém ameaça. 

“Morrer de frio é, também, morrer de abandono e de invisibilidade”
Milly Lacombe

O governo Alckmin, para citar um dos que mais gostam de equipar a polícia, gastou, em 2016, 150% a mais em armamentos do que em 2015. E não é que Alckmin esteja preocupado com a possibilidade de a Argentina invadir o estado de São Paulo, essa dinheirama de mais de 100 milhões de reais que ele despejou em munição e armas está sendo usada para equipar a polícia a fim de deixar ela seguir a batalha diária travada contra a população de menor renda.

De fato a militarização das polícias do mundo todo faz sentido. É natural que o poder econômico, que não é burro, entenda que estando ele formado por uma minoria de pessoas (que depois dos movimentos Occupy ficou conhecida como o  “1%”), então passe a ser necessário criar mecanismos de proteção contra a fúria do restante da população. Maria Antonieta fez isso na França do século 18 e achou que estava super segura comendo seus brioches até que o povo enfurecido e ensandecido por séculos de opressão e de pobreza invadiu o palácio e achou por bem separar na lâmina da guilhotina sua cabeça de seu corpo bem vestido.

No mundo atual, as polícias são esse mecanismo de proteção encontrado pela realeza para escudá-la do povo, e elas estão super-equipadas e treinadas para servir e proteger o poder econômico da crescente indignação da sociedade.

O inimigo da polícia, portanto, somos você, eu, nossos vizinhos, o povo da periferia e os Negões que à noite dormem nas ruas e durante o dia catam nosso lixo. Enquanto esse tipo de crime acontecia apenas na periferia era mais fácil se manter em silêncio, mas no dia 13 de julho ele invadiu a Cidade Linda, sujou de sangue suas calçadas e fez com que aqueles que muitas vezes se identificam com os anseios da elite entendam que no fim do dia, exaustos e pensando em como faremos para pagar  todas as contas, percebamos ser apenas classe trabalhadora.

Créditos

Imagem principal: Guilherme Imbassahy | Jornalistas Livres

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