por Milly Lacombe
Trip #264

Meu pai nunca dirigiu, nunca teve ferramentas, nunca desentupiu uma privada. Como modelo de masculinidade clássica ele era um fracasso. Mas ele foi capaz de me ajudar a ver o mundo com outras lentes

Minha ex-mulher e eu tínhamos um dueto ao telefone. Quando ela ligava com a voz tensa durante aquelas horas em que as tarefas mundanas do cotidiano batem mais forte eu atendia com a frase: “O que foi que eu não fiz?”.

Casar com alguém hiperativo, especialmente se você for alguém hipoativo como eu, é entender que se o jogo é o de “cumprir as burocracias da vida” você vai perder de goleada. E eu perdia muitas partidas por dia; havia sempre alguma tarefa que eu tinha esquecido de executar, enquanto ela estava exausta de tanto fazer.

Dentro de um casal, aquele com mais sangue nos olhos para sair resolvendo os perrengues do dia vai sempre se sentir abusado, e a pobre alma que quer apenas sentar e olhar pela janela um beija-flor acariciando a natureza enquanto reflete a respeito da condição humana vai se sentir invadida. Olhando em retrospecto, entendo que, embora numa relação homossexual, eu estava reproduzindo o modelo de casamento de meus pais, sendo minha mãe a hiperativa e meu pai o hipoativo.

“Meu pai não diferenciava minhas irmãs e eu de meu irmão; fomos sempre tratados na mais absoluta igualdade”
Milly Lacombe

Meu pai nunca dirigiu, nunca teve uma caixa de ferramentas, não sabia distinguir uma chave Philips de um alicate, nunca pregou um quadro na parede, nunca desentupiu uma privada, nunca fez reparos elétricos na casa, trocou uma lâmpada ou foi capaz de explicar o trabalho que deveria ser realizado a quem quer que seja que aparecesse para executar essas másculas tarefas que minha mãe supunha serem dele e não de terceiros. Como modelo de masculinidade, se entendermos o modelo de masculinidade traçado pelo patriarcado, meu pai era um fracasso.

Por outro lado, ao se recusar a preencher o que o arranjo social esperava de um homem, ele foi capaz de me ajudar a ver o mundo com outras lentes e a reavaliar, e questionar, relações de poder.

Meu pai não diferenciava minhas irmãs e eu de meu irmão; fomos sempre tratados na mais absoluta igualdade. Ajudou bastante o fato de minha tia, irmã de meu pai, deixar claro que tudo o que um homem podia fazer a gente podia consertar.

Cresci nesse ambiente que se recusava a aceitar o sistema de crenças compartilhado pela sociedade, e entendia que vivia uma realidade alterada quando ia à casa de minhas amigas e via a figura paterna exercendo um tipo de atividade que se esperava dela: trocando fusíveis, dirigindo o carro para levar a família ao cinema, dando ordens, colocando meninas e meninos em seus respectivos lugares. Nesses dias eu voltava para casa e amava meu pai um pouco mais.

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Além de nunca fazer distinção entre gêneros meu pai sempre preferiu tratar todos nós como adultos. Foi assim numa noite qualquer quando eu tinha 10 anos que ele sugeriu que eu ficasse acordada para assistir com ele Omar Sharif em Doutor Jivago, mesmo sabendo que eu tinha aula no dia seguinte, e que, na adolescência, me presenteou com a obra de Proust e Eça e Machado e Sagan. Meu pai passava o dia lendo e escutando Beethoven a despeito de haver canos estourados pela casa ou quadros que precisassem ser pregados. A atitude vazia da masculinidade patriarcal que todos tomamos na mamadeira deixava minha mãe maluca, mas de alguma forma eles foram capazes de passar 30 anos assim, até que em 13 de julho de 2001 meu pai morreu.

Direito à liberdade

Muito tempo depois, quando perguntei do que mais ela sentia falta na vida sem ele, minha mãe disse: “Do jeito como ele me fazia rir”. Vai ver, então, não são os quadros pregados, os fusíveis trocados ou as pias desentupidas que ficam na memória.

Hoje entendo que meu pai estava fazendo por mim muito mais do que eu poderia pedir, e que ao não cumprir a função que se esperava de um homem ele me ajudava a entender as relações humanas, do que são feitas e do que são esvaziadas.

Ele me fez enxergar que qualquer forma de autoridade ou dominação precisa se mostrar legítima e que, não sendo, é nosso dever tentar desmontá-la. Durante a infância, ao me dar a mão para atravessar a rua, ele me indicava que aquela era uma forma de autoridade que se justificava, uma das poucas. Dificilmente um outro modelo de dominação – de patrões, de cônjuges, de pais, de professores – conseguiria se legitimar. Ele me dizia que o ser humano deveria bater asas e voar, que o papel dos pais era permitir que os filhos adquirissem asas. O direito à liberdade era meu de nascença, e nada poderia restringir meu direito a ser livre, muito menos uma relação de coerção.

Meu pai nunca teve dinheiro, mas ao escolher deixar para trás uma carreira rentável como advogado e fazer da vida o que amava fazer, que era escrever, me mostrou que somos o que produzimos e não o que consumimos. De fato nada é mais perigoso à moral de um homem do que o hábito de comandar. Como li uma vez, já nem lembro onde, “o melhor dos homens, o mais inteligente, altruísta, generoso e puro será sempre corrompido por essa busca”. Meu pai nunca comandou nenhum de nós, ele escolheu apenas se relacionar. Aqueles que mais frequentemente se encontram com momentos de felicidade na vida não são os mais ricos ou poderosos, mas os que foram capazes de construir relações significativas. E não existe relação significativa que seja contaminada por dominação porque dominação vive de medo, e o medo é o avesso do amor.

Talvez por ser encorajada a não ter medo do medo eu tenha conseguido passar de certa forma inteira e lúcida pelas partes mais difíceis da vida, aquelas que nos obrigam a lidar com as perdas. Hoje entendo que, como escreveu Elizabeth Bishop, “a arte de perder não é nenhum mistério”. “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser um mistério, por muito que pareça (Escreve!) muito sério.”*

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