por Milly Lacombe
Trip #262

"Num mundo cada vez mais confrontador, acelerado e polarizado, gastar algumas horas para contemplar a vida não pode ser má ideia"

Noite de Natal e a multidão se aglomera em volta da mesa de jantar da casa de minha mãe. São nove crianças e, como sempre acontece quando nove crianças se juntam, o barulho que elas fazem equivale ao de 234 adultos, numa conta cientificamente exata. Minhas irmãs e meu irmão, uma gente parideira e alheia à baderna com a qual convivem diariamente há anos, comem tranquilamente enquanto minha mãe, como se fosse incapaz de vê-los mastigando, repete “comam mais, comam mais”.

Num canto eu, a única filha solteira e sem filhos, observo bebendo uma taça de vinho tinto.

Era em volta daquela mesma mesa, nem tantos anos atrás, que sentavam apenas seis: meus pais, meus três irmãos e eu. Era um Natal silencioso, contemplativo e que acabava sempre muito cedo. Foi o Natal da minha infância e da minha juventude, um que sempre me causou melancolia, especialmente quando pensava na festa de meus amigos, repleta de parentes, e que duravam até a madrugada.

E agora, cercada pelo Natal com o qual sempre sonhei, não via a hora de partir. É curioso como as coisas com as quais implicamos durante a infância depois voltam para nos cutucar em forma de nostalgia. Mas talvez minha pressa em partir tivesse outra explicação: era a primeira vez na vida que passaria o Ano-novo sozinha, e a ideia em vez de me oprimir ou entristecer, me invadia com uma espécie de euforia.

“Para onde você vai?”, quis saber meu irmão.

“Para Gonçalves”, respondi.

“Com quem?”, perguntou minha mãe trazendo para a mesa mais uma travessa de camarão com Catupiry, uma tradição de Natal em minha família.

“Sozinha.”

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Pela primeira vez na noite um pouco de silêncio pôde ser ouvido. Por instantes parecia que cada um deles estava pensando se deveria esquecer o assunto ou se seria prudente tentar me consolar. Como desde os 16 anos mantenho relacionamentos sequenciais, e como passei muitos anos casada, eles talvez imaginassem que minha viagem de fim de ano seria uma rumo ao planeta Melancolia e, porque me amam, estavam pensando como poderiam me ajudar.

“Vai ficar naquele fim de mundo sozinha? Convida alguém para ir com você”, sugeriu minha mãe tentando soar casual.

Mas eu não queria convidar ninguém. Queria, justamente, ir sozinha. Com meus livros, minha Netflix, minhas duas cachorras e algumas garrafas de vinho.

“Eu quero ir sozinha”, disse me servindo de camarão.

A vantagem de ser considerada a filha excêntrica e exótica – a única gay, a única corintiana, a única anarquista – é ter autorização para fazer coisas diferentes sem ser muito questionada.

Então, algumas horas depois da ceia de Natal lá estava eu na estrada a caminho da cabaninha na montanha. Seriam dez dias de solitude, dez dias de ócio, dez dias de paz.

Ou assim eu supunha.

Uma das dificuldades da solidão é ter que enfrentar, por exemplo, uma gripe braba sem a ajuda de outra pessoa. Quis o destino que eu, há dois anos sem sequer espirrar, estivesse levando comigo para a viagem, além das cachorras e do vinho, um vírus poderoso e tinhoso. Foi no segundo dia das férias na montanha que ele mostrou suas garras e, como um amante sexualmente ativo, me arrastou para a cama, de onde só me deixou sair no ano seguinte.

Far niente

Ainda assim, entre idas ao banheiro e à cozinha, a sensação de estar sozinha enquanto o mundo confraternizava em grandes grupos me causava euforia. Entre um cochilo e outro eu lia, via séries na Netflix e conseguia ser feliz. “Se você sente solidão quando está sozinho, então é porque está em má companhia”, li outro dia não lembro onde. Durante muitos anos eu sentia solidão, mas isolada do mundo no topo de uma montanha mágica dessa vez tudo o que eu sentia, a despeito da febre, era alegria. A sensação de ter, quem sabe, finalmente amadurecido me enchia de plenitude. Há pessoas, como meu sobrinho Antônio, que amadurecem aos 20; há outras que só alcançam a maturidade aos 50.

O talento para não fazer nada sempre foi uma de minhas maiores especialidades, mas trata-se de uma qualidade não muito apreciada numa sociedade que mercantilizou todas as coisas, inclusive o tempo. Arrume um emprego que pague bem e corra em busca de sua felicidade, nos ensinam bem cedo na vida. Como se felicidade fosse um destino, alguma coisa que, como todas as outras, pode ser comprada e privatizada. Só que os poetas sabem que felicidade se acha mesmo é em horinhas de descuido, essas que vêm com a preguiça e o tédio, essas horinhas que, segundo o sistema, só os vagabundos conhecem e que não custam nada.

Solidão é espaço sendo expandido, de acordo com Rilke, que também escreveu que tristeza é a vida abraçando e transformando você; mas solidão e tristeza estão em baixa numa sociedade que celebra, em nome do crescimento econômico, alegrias quimicamente estimuladas ao lado de relações e grupos eventuais. Entregue ao tempo pagão, aquele que não faz uso de relógios, me fartei de solitude na roça, onde só há “tempo de plantar e tempo de colher; tempo de lamento e tempo de dançar”.

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Num mundo cada vez mais confrontador, acelerado e polarizado, gastar algumas horas para contemplar a vida não pode ser má ideia. “A raiz das infelicidades do homem é a falta de um quarto dentro do qual ele possa se sentar sossegado e sem ser incomodado”, escreveu Pascal. Nessa sociedade frenética, dentro da qual ficou estabelecido que tempo é dinheiro e que é impossível ser feliz sozinho, já não há espaço para dançar a solitude. Mas é muito mais fácil mudar o universo que existe dentro da gente do que aquele que existe fora, e a grande mágica é que, ao mudar o universo interno, a gente automaticamente transforma o externo. O silêncio e a solitude abrem o caminho para as maiores transformações.

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