por Milly Lacombe
Trip #263

Perceber que eu não fazia ideia de quem era foi uma constatação chocante. Como pude viver mais de 40 anos sem fazer ideia de quem me habitava?

Eu tinha 16 anos quando fiz amor com outra mulher pela primeira vez. Desde aquele instante soube que não poderia ser feliz a menos que desse vazão a minha homossexualidade, ainda que tudo me conduzisse a acreditar que eu jamais teria coragem de levar a vida que nasci para ter. Precisei de alguns anos para entender que o ser humano é equipado com os recursos de bravura necessários para se tornar quem é, e de mais 30 anos para perceber que o difícil não era me assumir e amar outra mulher publicamente; o difícil, como a vida foi me mostrando aos poucos, era ser plenamente feliz a despeito de sexualidades.

Durante as primaveras que se seguiram à descoberta julguei ter sido feliz. Amei e fui amada, casei, separei, casei outra vez, separei outra vez, casei pela terceira vez e pela terceira vez separei. E então, depois dos 40, me permiti ficar sozinha mesmo apavorada, já que tudo ao nosso redor, de filmes a novelas, de propagandas a romances, de amigos a inimigos, sentencia que o ser humano só pode ser bem-sucedido se estiver acompanhado de um amor romântico. “É impossível ser feliz sozinho”, cantou o poeta.

Ao topar a aventura de não acasalar pela quarta vez me entreguei ao desconhecido. E não demorei a descobrir que o desconhecido era eu.

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Perceber que eu não fazia ideia de quem era foi uma constatação chocante. Como pude viver mais de 40 anos sem fazer ideia de quem me habitava? E então, a fim de saber quem me habitava, me lancei em mar aberto rumo a uma viagem de autodescobrimento. Processos de transformação de consciência são profundamente penosos e sofridos, mas existem recompensas para aqueles que topam navegar pelas sombras da própria alma.

Uma das coisas que percebi mais rapidamente nesse mergulho é que somos todos em certa escala vítimas de uma sociedade que supervaloriza o amor romântico. As obrigações sociais que decorrem dessa supervalorização trazem com elas alguns tabus que escondem, por exemplo, que é preciso contestar o poeta porque não é impossível ser feliz sozinho. Mas é bastante difícil ser feliz sem se conhecer.

Primeiro porque a menos que nos conheçamos é improvável que amemos o outro de forma madura, sem projeções, sem medos, sem complexos. Uma sociedade desenvolvida recomendaria períodos de solidão, solitude e contemplação a todos, porque são esses os momentos que nos conduzem a um estado de consciência mais elevado e fazem com que construamos relações saudáveis. Uma sociedade feita de relações saudáveis tem a chance de se corrigir, amadurecer e crescer.

Só que, ao contrário disso, as sociedades ocidentais preparam o ser humano para duas coisas: trabalhar e casar. Mulheres são encorajadas a serem boas donas de casa, boas amantes (magras, bem cuidadas, ativas, recatadas), boas mães. Tudo em nome do sucesso no casamento. E jovens são encorajados a escolher uma carreira que remunere bem a despeito de talentos, paixões, afinidades. A busca é pelo diploma, não pelo conhecimento.

O que falta

Uma sociedade desenvolvida talvez preparasse o ser humano para escutar seu coração e para, antes do casamento, se conhecer profundamente. Em seguida, o ser humano deveria ser orientado para lidar com tudo o que a vida a dois oferece: como o sexo com a mesma pessoa dia após dia, rotina, conciliações necessárias, inseguranças em geral, divisão de tarefas etc. Uma sociedade desenvolvida estaria focada no amor, não no casamento.

Uma sociedade humanitária também não estaria preocupadíssima em nos ensinar a trabalhar, mas a viver. Não supervalorizaria a felicidade, muito menos colocaria uma etiqueta nela. Diria de forma muito clara que felicidade não é comprar duas calças pelo preço de uma, não é casar e ter filhos, não é ficar rico ou ter avião particular, não é ser famoso. Saberíamos ainda bastante jovens que conquistar essas coisas não é garantia de plenitude.

Para começar a felicidade não é um destino, e isso seria ensinado ainda às crianças. Felicidade é uma brisa que, como escreveu Guimarães Rosa, se acha mesmo em horinhas de descuido; e essa brisa bate mais forte para aqueles que toparam descobrir quem são. Depois, talvez o correto fosse valorizar a dor, essa dama da qual, assim como a morte, não se escapa. Alguns dos momentos mais bonitos da minha existência não foram momentos de felicidade e vida a dois, mas momentos de dor, sofrimento e solidão.

Uma sociedade madura diria ainda nas escolas que antes de amar qualquer outra pessoa é preciso conhecer e amar a si mesmo mais ou menos como a recomendação dada pelas companhias aéreas em caso de despressurização da cabine: primeiro coloque a máscara de oxigênio em você e só depois, respirando com segurança, olhe para o lado.

Nessa viagem maluca para dentro de si mesmo começamos a entender que se não escolhermos conscientemente nossas crenças seremos programados inconscientemente por regras criadas por uma sociedade que está bastante adoentada porque optou pelo medo e não pelo amor. Como sugeriu Dante na poesia da geografia humana que criou há sete séculos, a jornada para cima começa caminhando-se para baixo: só depois de visitar todos os círculos do inferno é possível vislumbrar os portões do paraíso.

Infelizmente nada disso nos é dito de forma clara nesse arranjo social que supervaloriza vida a dois e felicidade, subvaloriza solidão e sofrimento e nos priva de entender que não há nada de errado com eles.

Outro dia vi um vídeo do momento em que a lagarta se transforma em borboleta. É aflitivo acompanhar o processo de aprisionamento em um alvéolo, perceber que o casulo é pequeno para acomodá-la, ver a lagarta se contorcer e se revirar naquele espaço limitado. Não deve ser uma travessia cheia de prazer ou de alegria essa a de sair do casulo, e as imagens transbordam dor, angústia e sofrimento.

Mas quando ela finalmente consegue completar a transformação vem a recompensa: bater asas e voar. E a partir daquele instante o mundo jamais será o mesmo.

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