por Milly Lacombe

”Que o legado desse time sirva para que consigamos colocar em perspectiva as coisas que realmente importam e que façamos em vida as coisas mais importantes que viemos aprender: aceitar e amar”

Passamos boa parte da vida evitando pensar na nossa própria morte. Mas, quando numa terça-feira ordinária abrimos os olhos para ver a notícia de que um avião caiu levando daqui dezenas de pessoas, muitas das quais estavam escrevendo justamente agora o mais apoteótico capítulo de suas vidas, a morte vira protagonista, dançando sua dança maluca bem no centro do palco, sob luzes, holofotes e diante de nossa incredulidade absoluta enquanto audiência desse espetáculo pavoroso.

“Não é que eu tenha medo da morte”, escreveu Woody Allen. “Eu apenas não quero estar lá quando ela chegar”. É mais ou menos assim que pensamos, conferindo à morte um sóbrio traje de horror e pavor. E o sistema que nos embala dia após dia encoraja que pensemos assim, fazendo parecer que justamente eu vou ser aquela que conseguirá escapar do derradeiro encontro. O sistema nos incentiva a acreditar que, com a devida alimentação, e a quantidade ideal de botox, e de exercícios, com o seguro-saúde mais adequado, e os remédios mais modernos poderemos, enfim, evitar o inevitável. 

Tratada dessa forma a morte ganha contornos graves e uma face medonha. Mas talvez não precise ser assim. “Imaginei que seria mais difícil morrer”, teriam sido as palavras de Luis XIV antes da última viagem. Em 1944 o psicanalista Carl Jung disse ter visto o rosto dessa terrível dama depois de um infarte, e descreveu toda a sedução a que foi submetido, narrando o começo da travessia que estava prestes a fazer como se fosse uma viagem intergaláctica e dizendo que quando seu médico evitou que a viagem seguisse ele ficou profundamente frustrado. “Precisei de umas boas três semanas para me convencer outra vez a viver”, escreveu Jung.

A apresentadora Angélica, em entrevista às Páginas Negras da Trip, conta como foi estar dentro do avião que caiu no Mato Grosso do Sul. Ela descreve os minutos da queda como apavorantes, mas diz que assim que entendeu que não havia mais o que fazer foi invadida por uma paz que nunca havia experimentado; foi esse o instante em que ela aceitou a morte e que tudo ficou bem.

No documentário neozeolandês Choice (“Escolha”), que trata de um estilo de meditação chamado “Ascenção dos Ishayas” e que deve estrear no Brasil em Novembro, um rapaz mexicano conta que estava em casa quando ladrões armados entraram e atiraram em seu pai. Ele teve tempo de segurar a cabeça de seu pai enquanto ele morria e diz que ao olhar em seus olhos viu o olhar de um homem que estava entregue à mais absoluta paz. O rapaz explica que desde então passa a vida em busca da paz que viu no olhar de seu pai enquanto ele morria, e que a meditação o levou a achar esse espaço, que é um espaço que existe dentro de cada um de nós.

No ano 110 AC Epictetus escreveu: “O que é a morte? Uma máscara que apavora. Tire-a – vê, ela não morde”. Quase quatrocentos anos depois Sócrates diria a seus amigos antes de ser envenenado: “A hora da partida chegou, e vamos tomar caminhos diferentes. Eu para morrer, você para viver. Qual deles é o melhor apenas Deus sabe”.

Ainda assim é chocante quando nos deparamos com tragédias como essa que levou um time inteiro de futebol, toda a tripulação e dezenas de jornalistas. A morte fica ainda mais estranha quando ela chega para quem está no auge, para aqueles que teriam “a vida inteira pela frente”. Mas a morte não mantém um calendário, escreveu George Herbert em 1640. Ela simplesmente chega como um convidado que não se faz anunciar, mas que, ao entrar, quer toda a atenção para ele. 

Vivemos como se jamais fôssemos morrer, evitando pensar, falar ou sonhar com a morte. Deveríamos, talvez, viver como se o indesejado convidado fosse chegar no minuto seguinte, porque é talvez o que aconteça. Ou não. Mas se não acontecer no minuto seguinte então teremos vivido em êxtase até que a campainha finalmente toque e nos leve para a mais misteriosa das travessias. 

Que o legado desses rapazes que morreram na Colômbia indo fazer o que mais gostavam de fazer na vida fique com todos nós. Que o escudo da Chapecoense para sempre nos lembre que paixão e motivação podem nos levar muito além do limite, e que jamais nos esqueçamos dos rapazes que, dentro e fora do campo, usaram o futebol para nos contar essa linda história. Que o legado desse time sirva para que consigamos colocar em perspectiva as coisas que realmente importam e que façamos em vida as duas coisas mais importantes que viemos aprender nesse planeta maluco: aceitar e amar.

A morte não é o fim, é apenas a derradeira transformação, como escreveu o poeta Herman Hesse. “O chamado da morte é um chamado de amor. A morte pode ser doce se respondermos positivamente, se a aceitarmos como uma das grandes formas eternas da vida e da transformação.”

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