por Marcos Candido
Trip #268

Há 38 anos o português Mário da Cunha Carneiro comanda a sapataria Busso, em São Paulo, e calça advogados, fazendeiros, ex-ministros e presidentes da República

É uma arte, e meus fregueses respeitam”, conta o português Mário da Cunha Carneiro, 78, sobre o trabalho que faz na Calçados Busso, sapataria que comanda há 38 anos. Seguindo o método criado pelo fundador italiano Gino Busso, da “primeira geração” da sapataria, aberta em 1915 no centro de São Paulo – Mário se autointitula a “terceira geração” –, a Busso vende sapatos sob medida, feitos de couro e camurça importados da França. A responsabilidade de Mário é desenhar o pé do freguês, calcular as medidas, desenvolver novos modelos e cortar o primeiro molde. Tudo à mão. Entre o pedido, a produção e o calçado no pé se vão 30 dias de trabalho.

Na lista de clientes estão advogados, fazendeiros, artistas e presidentes da República. O general João Figueiredo encomendava botas para montar em seu famoso cavalo. Jânio Quadros também calçava Busso. Fernando Henrique Cardoso tem alguns pares em casa. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, fez só um par. Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça morto em 2014, também deixou o molde de seu pé nas mãos de Mário.

Mário explica que a diferença de seu sapato artesanal reside na fôrma. Quem o procura costuma variar em cores e modelos, mas o molde original cortado à mão carrega uma experiência única de calçado para a vida toda – o que nem de longe é encontrado na indústria por aí, diz. “Nossos clientes podem até comprar um sapato fora, mas geralmente não costumam se dar muito bem. Daí eles vêm aqui e pedem para copiar o modelo, mas refazê-lo completamente na sua fôrma.”

Ele confessa que o movimento de clientes dispostos a pagar mais de R$ 1 mil nos calçados diminuiu. Apesar disso, comemora uma nova geração de fregueses que, como os antigos, disparam uma tradicional campainha ao atravessarem a porta da loja. Antes, o procuravam para criar sapatos similares aos vistos em viagens pela Europa. Hoje, pedem a Mário modelos em que deram like no Instagram. “A moda agora é tênis, tênis, tênis. Nosso grande diferencial é fazer tudo à mão”, diz.

UMA COISA VERDADEIRA
As criações das quais o sapateiro mais se orgulha foram feitas em conjunto com o estilista Clodovil, morto em 2009, que desenhava os traços de seus calçados na companhia de Mário. “Muitos fregueses se conhecem e vão falando um para o outro dos sapatos. É uma coisa incrível, mas é especialmente uma coisa verdadeira”, conta.

Crescido em uma família de sapateiros, Mário mudou-se de Portugal para São Paulo em 1962. Abriu sua própria sapataria, mas logo recebeu a proposta da “segunda geração” de donos da Busso, prestes a se aposentarem, para se unir à marca. Desde então, guarda o molde em madeira do pé de cada cliente, religiosamente organizados em planilhas e estantes disposta em volta da cadeira em que trabalha.

Mário usa uma bengala e, há alguns anos, sofreu um AVC. Reclama que, no frio, os dedos doem e que o filho não tomou gosto pelo ofício. Sentado em sua escrivaninha, porém, ele continua a desenhar e entalhar novos modelos com o mesmo entusiasmo. “Eu amo o que faço, claro. É uma arte, mesmo”, diz. “Acho que meus sapatos são perfeitos.”

Créditos

Imagem principal: Luiz Maximiano

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