por Luiz Alberto Mendes

Leia trecho do livro que Luiz Alberto Mendes está escrevendo, ”Retratos”

Tudo o que eu te falo você diz que é frescura. Meus cuidados comigo mesma, você fica cuidando. Pinto o cabelo e você fica dizendo que os prefere grisalhos; fica implicando com minhas roupas estarem justas ou curtas; você censura até meus cremes... Você não é meu marido não! Tá parecendo aquele bêbado filho da puta do teu pai... 

Ah! Mãe é muito tempo perdido com essas bobagens todas. Banho disso, banho daquilo, creme para as mãos, para os pés, para barriga; tem para a bunda também? Tenha dó, mãe! Sua penteadeira faz inveja a qualquer salão de beleza e sempre comprando mais e mais. Daqui a pouco estarão espalhados pelo chão do quarto todo...

E o que você tem com isso, hem, seu moleque ousado? Deixe-me em paz com minhas coisinhas aqui e vai te catar, viu! Compro com meu dinheiro, tá? Tem mais o que fazer não? Moleque atrevido!!!

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Ela ficava puta da vida comigo quando eu implicava com o monte de porcaria oleosa e mal cheirosa que havia em sua penteadeira. Queria até me bater. Tinha que sair correndo porque se insistisse voava primeiro a escova de cabelo (era pesada...), depois podia vir até o secador como um pombo sem asa. Ela tinha duas cadelinhas poodle, irmãs gêmeas, uma branca e outra pretíssima. Eu as “achei”, bem filhotes ainda, num quintal no bairro de Pinheiros. Estava duro e no dia seguinte era Dia das Mães... Não tive dúvidas. Ela ficou tão feliz que me deu mais beijos na hora do que havia dado a vida toda. Pretinha era minha amiga, mas Cherry, inimiga visceral. Quando juntas, prevalecia Cherry. Faziam sempre coro às palavras de minha mãe, latindo pra mim. Era um latido que ardia no ouvido como pimenta na língua. 

Dava vontade pegar pelo rabo e sair dando com ela "pras" paredes. Ou então abrir discretamente o portão do quintal que vai dar em meu quarto; deixá-la entrar e fechar, “sem querer”. Chicão ia adorar, com certeza! A cadelinha vivia latindo para ele, toda abusada, se garantindo em minha mãe e na cerca de ferro do quintal... Ia voar pelo enroladinho pra todo lado. Ficava imaginado toda vez que ela começava a latir para mim, raivosinha, e ria entre dentes, imaginando a cena. O problema seria Martha, minha mãe. Ela me conhece bem e me culparia, com certeza. As retaliações seriam terríveis; desencorajadoras...

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