por Luiz Alberto Mendes

As novas gerações darão continuidade ao trabalho humano de inventar novas formas de vida que trarão maior satisfação de viver ao homem

Foi festa quando, ao analisar quem sou, descobri que eu era capaz. Não havia percebido. Eu realmente crescera! E crescera onde era menor, mais fraco e inseguro. Nem precisei matutar tanto para saber como aquilo se dera. Eu estava me salvando, recuperando a mim de mim mesmo. Agora meus valores eram outros. Proporcionavam escolhas produtivas e a consciência da importância dos outros. Dos passos além que ousei, do que mais me orgulho é de me lançar de corpo e alma aos outros e aceitá-los como eles são.

Acredito na educação e na cultura. Não estou falando dessa que estamos encenando agora. Mas refiro-me àquela idealizada pela humanidade inteira. A cultura da paz e do amor, que tem origem no perdão e no respeito mútuo. De repente, uma cena de reportagem me fez perceber a provável razão da atual inevitabilidade das guerras, do caos, de refugiados políticos e dos cataclismos. Não foi assim que viemos conduzindo nossa história desde tempos remotos? Foi em meio a crises desestabilizantes, fenômenos geográficos e históricos, guerras e convivências desastrosas que a humanidade veio construindo o que somos hoje. Sedimento a sedimento, como um coral. Por conta disso, não percebemos que crescemos. Desejamos revoluções traumáticas que nos ofereçam estímulos a realizações imediatas e não sentimos como nos tornamos maiores.

Mas eu, que fiquei mais de 30 anos afastado do convívio social, posso testemunhar as transformações ocorridas. Saí em um tempo e voltei em outro. O choque foi profundo e eu me senti um aborígene tomando contato com a civilização. Aquilo tudo me engolfava, eu esquecia de respirar e sufocava a toda hora. Tudo havia crescido, as raças se misturaram e os gêneros se multiplicaram. Antes, todos reparavam e olhavam cheios de rancor e preconceito a casais miscigenados ou homossexuais. Hoje é natural, embora os preconceitos ainda resistam, a atitude da maioria das pessoas mudou imensamente. Nos enche de esperanças de que todos os problemas, gerados de conflitos humanos, possam ser ultrapassados.

Algumas mudanças eram hipernecessárias. Metrô, por exemplo. Fiquei muito emocionado quando entrei na estação da Sé pela primeira vez. Toda emborrachada no solo, paredes de aço, tudo muito limpo, brilhando e as pessoas falando baixo, respeitosas: o trem também falava. O vídeo, dentro dos vagões, dizia o horóscopo, as condições do tempo e informações gerais. Aquilo me empolgou muito. Como chegamos àquela tecnologia tão fundamental para o dia a dia das pessoas? Chegaremos a outras que nos proporcionarão igual satisfação?

A vida prova-se espantosamente embriagante quando conseguimos criar laços e conexões amigáveis. E essa é uma outra meta que vamos nos focar para o futuro, já que a perseguimos há milênios. Crescemos aí também. Não perfeitamente, mas como nos é possível. Hoje temos todos os preconceitos questionados e combatidos. Tudo o que se tinha como verdade com respeito a raças, gêneros, história, conhecimentos foi relativizado e colocado em questão. Temos um mundo líquido, como quer Zygmunt Bauman. Será ruim? Não quero pensar assim. Creio que a liquidez do mundo é um rearranjo, um caos que trará a estrela guia, como profetizou Nietzsche. Não temos alcance de visão para perceber o que acontecerá. Assim como não tiveram aqueles povos que dominaram o mundo de sua época: gregos, romanos, árabes, franceses, ingleses e americanos. Caso fossem trazidos a esse nosso tempo, não sei se conseguiriam viver com os avanços conduzidos pela humanidade posterior a eles. Já estamos convencidos de que necessitamos uns dos outros, por mais emancipados que sejamos. Esse é outro ganho significativo da família humana.

As novas gerações darão continuidade ao trabalho humano de inventar novas formas de vida que trarão maior satisfação de viver ao homem. Por conta disso, é um alívio saber que a ONU incluiu em seus objetivos formar jovens para que estes vivam uma cidadania mundial. As próximas gerações pensarão não mais em “países” e sim em “planeta”. Serão autênticos cidadãos do mundo. Não estarei para ver, mas torço fervorosamente para que assim se cumpra.

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