por Kátia Lessa
Trip #180

A fotógrafa se tranca no quarto e se diverte com autorretratos sensuais.

“Acho a mulher um ser livre na imagem”, lança de cara a fotógrafa Luciana Dal Ri. “Adoro lidar com elas, sou uma observadora do universo feminino”, continua, enquanto repara nos cabelos longos da repórter. “Meu olho brilha quando retrato mulheres. Sinto tesão em abrir a tampa desse perfume e descobrir os aromas que sairão dali. É um processo de descoberta pessoal, toda mulher precisa explorar sua sensualidade”, finaliza, e se desconcentra. “O que eu estava falando mesmo?” Os olhos inquietos denunciam: a paranaense vai fundo nas coisas, embora ainda não consiga conter a ansiedade dos 25 anos. “Adoro filme, mas aceitei bem a chegada do método digital. Ele acelerou meu aprendizado. O tempo de espera entre o clique e a revelação é uma tortura pra mim, sou ansiosa demais, demais.”, conta, sem que nada tenha sido perguntado.

Luciana garante ser bem resolvida quando o assunto é seu lado sensual. “Já meio que sabia as poses e os ângulos que funcionam melhor pra mim, e estar sozinha ajuda a ficar mais solta. Me entreguei como em uma cena do teatro e explorei as curvas, as expressões, os gestos simples que despertam meu poder feminino.” Entre uma série de poses e outra, teve que se dividir ora na pele de fotógrafa, ora na de fotografada. Programava a luz, o foco, o ângulo e corria para o quadro, enquanto a câmera disparava inúmeras vezes capturando as variações do corpo, que ela exibia para ela mesma, sem nenhuma testemunha. “As fotos foram feitas na casa da avó de uma amiga. Uma senhora japonesa, que me serviu chá nos intervalos. Talvez ela tenha espiado alguma coisa pela fresta da porta, mas não disse nada”, diverte-se.

Meu reino por uma câmera

Nascida em Curitiba e criada em Joinville, Luciana bateu seus primeiros cliques aos 9, com câmeras que encontrava pela casa. “Minha mãe dizia que eu fotografava até o vento, mas, como era uma criança muito desastrada, a máquina mais bacana que eles compraram ficou com meu irmão mais velho.” Cursou artes cênicas na faculdade, uma velha paixão. Já atuava desde os 13 anos em grupos de teatro da cidade, participou de cinco curtas e acaba de gravar seu primeiro longa, Gol a gol, de Fábio Allon e Adriano Esturilho. “Queria ser atriz, mas a fotografia sempre me rondou. Aos 17 anos vendi meu cavalo, o Faraó, e comprei uma Yashica 9X-3. Eu ensaiava, me dedicava muito, mas ouvia mais elogios para as fotos do que para as cenas, então achei que poderia ser uma forma de ganhar grana enquanto batalhava testes como atriz.” Porém, o hobby logo virou coisa séria. Em setembro de 2007, um grupo de amigos que trabalha com moda estava de malas prontas para arriscar a vida em São Paulo, e ela entrou na barca, mesmo sem conhecer ninguém por aqui. Procurou o contato de profissionais e ligou insistentemente para cada um deles, até conseguir bater um papo com Willy Biondani, de quem foi assistente e guarda valiosas dicas. “Vim para São Paulo para ver até aonde ia a fotografia no Brasil. Queria observar de perto o mais alto nível de qualidade que temos aqui, e estar entre eles”, relembra, enquanto alisa uma mecha do cabelo curto e franze a testa.

“Como é que as pessoas te respeitam com esse cabelão? Tive que cortar o meu. Depois que passei a tesoura, lá em Curitiba, tudo mudou. As pessoas acreditam no que eu falo, me respeitam mais”, emenda, em tom de desabafo. Depois da benção das tesouras, finalmente passou a se ver mais como fotógrafa do que como atriz. Também passou a ser mais requisitada para testes de teatro e cinema. Dividida entre as duas profissões e as duas cidades (o namorado, com quem está há oito anos, é do Paraná), ela garante ter encontrado a fórmula ideal no vai e vem dos mundos. “Uma coisa ajuda a outra. Uso as técnicas de direção de atores do teatro para lidar com as mulheres que retrato. Tento ajudá-las a relaxar e descobrir sua sensualidade nas pequenas coisas, como no ato de segurar uma xícara de chá”, revela. A saudade do namorado entra no pacote. “Essa não é a primeira vez que me fotografo. Já fiz outras fotos sensuais como um presente para o meu amor, que mora longe. Mandei pelo correio, ele adorou. Mas essas. só ele vai ver.”

» Veja mais no site da fotógrafa: www.lucianadalri.com.br

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