Luhli & Lucina viveram a fundo o sonho do amor livre em um casamento a três

Dos anos 70 aos 90, Luhli & Lucina formaram uma das principais duplas da MPB e viveram a fundo o sonho do amor livre, em um casamento a três com o fotógrafo Luiz Fernando da Fonseca. Catorze anos depois do fim da parceria, elas se reencontram a pedido da Trip para falar de música, liberdade e preconceito

Nunca. Nunca mais Luhli & Lucina vão cantar juntas. Acabou-se para sempre aquele tempo em que Ney Matogrosso escandalizava um país mergulhado em ditadura, a bordo de androginia, Secos & Molhados e músicas ultrafemininas de Luhli & Lucina

“Aquelas duas gatas selvagens dando pulos no palco não existem mais. Olha pra mim. Eu sou uma senhora, tenho quase 70 anos de idade, estou velhinha”, afirma, transbordante de humor, essa senhora respeitável de 66 anos que um dia foi a Luhli (ou Luli, a princípio) que compunha sucessos populares como “O vira” (em dupla com o seco & molhado João Ricardo): “O gato preto cruzou a estrada/ passou por debaixo da escada/ e lá no fundo azul, na noite da floresta,/ a lua iluminou a dança, a roda, a festa/ vira, vira, vira/ vira, vira, vira homem, vira, vira/ vira, vira lobisomem”.

O sol está começando a se pôr, e nós estamos lá no fundo azul, na quase-noite da floresta. Luhli vive na serra fluminense, num chalé à beira da estradinha que leva a Lumiar, distrito pacato de Nova Friburgo. Viemos visitá-la e trouxemos Lucina (que artisticamente já foi Lucelena e Lucinha), a outra metade da dupla que se formou em 1972 e se dissolveu em 1997, para nunca mais voltar. Mato-grossense de Cuiabá, hoje com 60 anos, Lucina mora na Tijuca, no Rio, compõe com Zélia Duncan e lança discos solo.

Assim que chegamos, Luhli puxa Lucina pelo braço, a leva para diante do computador e mostra a letra que fez, nessa madrugada, para uma melodia enviada de presente pela (ex-)parceira. Lucina chora – é apenas o primeiro choro dessa tarde e noite.

A MPB não ficou de luto diante da ruptura da dupla, até porque em termos de popularidade Luhli & Lucina nunca foram assim um Leandro & Leonardo, um Roberto & Erasmo, nem mesmo um Secos & Molhados, um Ney Matogrosso.

“Antigamente eu me sentia uma árvore cheia de frutos que ninguém come. Fazia músicas lindas e ninguém ouvia”, traduz-se Luhli, que transborda símbolos e imagens a cada frase que formula. “E o que acontece com uma árvore que dá 300 frutos? Digamos que 30 são comidos. Os outros caem no chão, apodrecem, a semente brota e nasce outra árvore. Todas as músicas que não foram consumidas foram caindo no chão e virando uma floresta. Quando fico triste, vou pra essa minha floresta, das músicas que ninguém consumiu. É a minha florestinha.”

Pela voz de Ney Matogrosso, cantamos Luhli & Lucina, mesmo sem saber quem elas eram, em canções fortes como “Pedra de rio” (1975), “Aqui e agora” (1976), “Bandolero” (1978), “Napoleão” (1980), “Coração aprisionado” (1980), “Eta nós” (1984)...

Elas enviavam tais canções de um sítio em Mangaratiba, no litoral fluminense, entre o mar e a montanha, onde viviam com o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca. Ele é o responsável pelas fotos da mitológica capa de Água do céu – Pássaro (1975), o primeiro álbum pós-Secos & Molhados de Ney. Nelas, o cantor aparece feito homem de Neanderthal, nu a não ser por minúscula tanga, penas indígenas e chifres animais. É de Luiz também a capa sutil de Luhli & Lucina (1979). Nessa, aparecem ao longe, unidas pelas cabeças, as silhuetas apenas sugeridas de duas mulheres nuas. Com os Secos & Molhados ou solo, Ney expunha para o mundo uma versão exuberante de algo que Luhli & Lucina & Luiz também viviam, para dentro, introspectivamente.

Luhli teme um tratamento sensacionalista, “de imprensa marrom”, para o casamento a três vivido com Luiz e Lucina. Lucina narra ameaças de agressão sofridas por Luiz, após uma aparição na Globo, anos atrás. “Não me queira ter como inimiga”, Luhli me pressiona, entre um pedaço de bolo, um copo de vinho e vários carinhos. Eu tenho uma história a contar e compartilho com você, leitor(a), as preocupações de Luhli: estamos no século 21, não estamos?

Secos & Molhados

Carioca tijucana, Luhli estreou na carreira musical muito cedo. Em 1965, aos 20 anos, lançou um disco individual sob forte influência da música de protesto então preconizada pelas esquerdas emepebistas. Mais ou menos nessa mesma levada politizada, Lucina integrava o Grupo Manifesto e participava de festivais da canção como Lucelena. “Naquela época estávamos imbuídos do espírito de que tínhamos que salvar a música brasileira”, ela recorda, com ar de quem há muito deixou de acreditar nessa quimera.

No início dos anos 70, Luhli estava casada com Luiz Fernando e resolvera se afastar da música, quando conheceu Lucina. A afinidade musical foi imediata. A dupla estreou no festival da Globo de 1972, o mesmo que consagrou a androginia de Maria Alcina, com “Fio maravilha”, de Jorge Ben. Foi nessa época que Luhli apresentou Ney Matogrosso, que havia se mudado para o Rio para viver de artesanato, ao português João Ricardo, que por sua vez estava procurando a voz dos Secos & Molhados.

No primeiro show de Luhli e Lucina como uma dupla, em 1973, elas dividiam o palco com Ney e o também andrógino e libertário grupo Dzi Croquettes, de Lennie Dale. “Nós cantávamos ‘O vira’ com o Ney, e as Dzi vinham e mordiam nossas pernas enquanto a gente cantava ‘vira lobisomem’”, diverte-se Luhli.

O ambiente de comunidade hippie se desenvolvia com epicentro num casarão em Santa Tereza, no Rio. “Ney namorou a Lucina”, revela Luhli, diante do sorriso plácido da (ex-)parceira. “De mulher, só mesmo eu namorei o Ney”, sorri Lucina. “Eram os anos 70, mas nunca foi promíscuo”, demarca Luhli.

No auge do sucesso de “O vira”, Luhli teve a primeira filha com Luiz, Júlia (“por causa da música dos Beatles”). Um ano e três meses depois, veio a segunda filha, Flor. “A gravidez foi difícil, Lucina começou a ir lá pra casa pra cuidar de mim. Ela é mãe das minhas filhas”, afirma.

“Primeiro, conheci Luhli e a música e fiquei apaixonada. Quando conheci o casal, fiquei louca por eles. Aí, não era só a música. Tinha a fotografia do Luiz. O encontro era um núcleo criativo, um sonho. Tivemos uma amizade profundíssima. Eu tive coragem, todos nós tivemos”, avalia Lucina. Nesse contexto, o “trisal” (como define Lucina) se mudou com as duas filhas para Mangaratiba.

Luhli preferiu se abrir a abdicar, de uma vez, do companheiro e da parceira: “Foi um grande amor, uma coisa inteira. Tudo acontecia com todo mundo, e tinha uma quarta pessoa, chamada música. Uma geração inteira, hippie, foi tentar outras formas de vida, amor livre. Não tinha Aids. Não tinha essa plantação que tem hoje, de que sexo castiga”.

A dupla (o trio) se encaramujava, mas trabalhava febrilmente. Calculam ter, juntas, cerca de 800 músicas, das quais consideram boas “apenas” umas 500. Nós pudemos conhecer não muito mais que 10% delas, gravadas em sete discos da dupla ou por artistas como Joyce, Nana Caymmi, Frenéticas, Wanderléa, Tetê Espíndola.

O LP de estreia foi um dos primeiros álbuns independentes da história da música brasileira. “Coração aprisionado não canta, não canta, amor/ há uma fera à solta, à solta, amor, dentro de mim/ ai, há uma fera à solta, e a minha garganta, amor, se estreita e se cala/ a solidão é assim”, cantavam a libertação, qual dupla caipira íntima, interna, interior. “Não havia parâmetros. A gente tinha que inventar nossa história em detalhes, desde quem goza primeiro até quem levanta de madrugada pra atender o neném”, define Luhli. Em 1980, Lucina teve os gêmeos Antônio e Pedro, filhos de Luiz, irmãos de Júlia e Flor, filhos dos três.

O enfrentamento com famílias e sociedade foi “cruel”, nas palavras de Lucina. “Quando fomos morar no sítio, contamos para as famílias, e aí os amigos sumiram. Todo mundo era conivente quando a coisa era oculta. Quando virou, todo mundo sumiu”, lembra Luhli. Preconceitos à parte, um rio subterrâneo corria ali, e a dupla, mesmo desconhecida da multidão, arrebatava um grupo seleto e fervoroso de admiradores de sua música.

À época do segundo disco, Amor de mulher – Yorimatã (1982), a umbanda já havia entrado na vida do trio. Luiz fotografava as cerimônias, e o disco continha temas como Iansã, Ponto de Oxum e Gira das Ervas. Além de compositoras, eram percussionistas – Luhli até hoje fabrica e vende em casa seus tambores artesanais. Como se já não fossem poucos os estigmas, eram mulheres, compositoras, umbandistas. “Era difícil, um machismo da porra. Mulher percussionista, então, você nem imagina o preconceito”, lembra Luhli.

Em meados dos anos 80, a carreira da dupla se truncou pelo adoecimento de Luiz, que morreria de câncer em 1990, sob os cuidados de ambas. A dupla persistiu por mais sete anos, até ceder. Como de hábito, Luhli transforma o relato em poesia: “A gente tinha total controle uma da outra, e esse controle estava matando a gente. Você imagina duas plantas trancadas no mesmo vaso. Elas vão crescendo, crescendo, chega uma hora que as raízes sufocam, uma começa a matar a outra. Quando quebra o vaso, parece que é o fim, mas não é a morte. É a libertação. Quando estivermos cada uma no seu vaso e as sombras estiverem se cruzando, fazendo uma sombra comum, aí vai estar tudo certo”.

Olho para elas e vejo juntas, lado a lado, as mulheres que dizem terem rompido para sempre. Separações à parte, algo parece intacto entre elas. Luhli sintetiza: “Fomos um acinte, porque topamos viver essa história. Depois que Luiz morreu, continuamos a ser um acinte, porque continuamos a ser dupla. Agora continuamos a ser acinte, porque não nos odiamos, continuamos a ser parceiras e amigas”. E, não, nunca mais a dupla vai se reunir. Ou melhor, pode até se reunir, como faz vez por outra em shows em cidades do interior. “Pode ser que role, sim, pode rolar. Só custa R$ 400 mil. Quem pagar...”, deleita-se Lucina, atirando feito desafio a possibilidade de retorno.

Corujas e Pirilampos

O sol acabou de se recolher na noite da floresta. Uma pega o violão. Outra pega a viola. Uma canta uma música solo, a outra a secunda. E vice-versa. Cometo a ousadia: uma de Luhli & Lucina, não pode ser? Elas se olham. Pegam os tambores. Conversam, como quem não quer nada. Batucam. Começam a “Gira das ervas”: “Mamãe Terra, mamãe Terra/ mamãe me diz que as ervas são feitas pra curar”. Luhli chama os orixás, evoca os espíritos, os gnomos. Lá fora faz 8 ºC, e estamos todos juntos na sala fria do chalé – os sacis, as fadas, os secos, os molhados. Diante da “Gira das ervas”, eu não consigo – nem tento – evitar que as lágrimas rolem. Agradeço.

O choro se espalha entre os pouquíssimos presentes – o fotógrafo da Trip, os quatro jovens cineastas/músicos que as idolatram e preparam um documentário sobre Luhli & Lucina, sob direção de Rafael Saar. As duas também se emocionam. Entrelaçam as mãos, fazem confidências, suspiram fundo.

Ao som de viola, cantam “Eta nós”, música brasileira profunda, “nós se conhecemo e se tornemo amigo/ mil música toquemo pros nossos ouvido”, “mas um dia chegou e nós desprevenido/ caímo no chão como dois inimigo/ nos batendo, estropiando, destruindo o construído”, “e no milagre da lida/ o amor vira mel”. As sombras das duas árvores se cruzam. Ramos novos brotam do chão. Sacis, fadas, pirilampos, elfos e orixás bailam em festa. Luhli & Lucina sempre existiram. Sempre.

Veja aqui o vídeo deste reencontro.

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