por Redação
Trip #245

Um cantor, uma escritora e um cineasta elegem suas músicas, personagens literários e cenas de filme preferidos quando o assunto é amor

Lírio Ferreira, cineasta pernambucano, em cartaz nos cinemas com o filme Sangue azul

King Kong (John Gillermin, 1976)
A deslumbrante sequência de Jessica Lange tomando banho de cachoeira guiada pelas mãos selvagens de Kong, embalada pela divina trilha sonora de John Barry, e a posterior excitação de ambos causada pela transparência das vestes da exuberante Ann é de uma beleza singular, daquelas que só o cinema tem o poder de nos revelar. Em tempo, Jessica Lange foi o primeiro amor platônico que o cinema me deu.

Solaris (Andrei Tarkovsky, 1972)
A cena final, quando o filho volta para casa e reencontra o pai falecido me marcou profundamente desde que a vi pela primeira vez.  O melancólico olhar para o lago da infância, a casa com chaminé, o cachorro que o recepciona, a espreitada pela janela para o pai cozinhando até o derradeiro encontro na porta da casa seguida do posterior abraço ajoelhado flagrado pela câmera que sobe e revela o planeta Solaris formado por um imenso oceano é, para mim, além de uma explosão aquosa de afeto, o melhor final de um filme já rodado em todos os tempos

Bram Stoker's Dracula (Francis F. Coppola, 1992)
A cena em que Drácula (Gary Oldman) transforma a romântica Mina (Winona Rider) em vampira é a maior prova de amor de toda história do cinema americano. A doação da dócil personagem, a pseudo racionalidade inicial do Príncipe das Trevas e a posterior entrega final, não sem antes sussurar "take me away from all this dead..." fez meu coração ir às alturas. Bram Stoker's Dracula é o primeiro grande filme sobre a aids que eu vi.

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Felipe Cordeiro, cantor paraense, autor do álbum Se apaixone pela loucura do seu amor

"O último romântico" (Lulu Santos / Antônio Cícero / Sérgio Souza)
A zona sul do Rio está na paisagem subjetiva deste pop perfeito e apaixonado. Lulu eternizou a canção, que atravessa os tempos por sua profundidade.

"Trovoa" (Maurício Pereira)
Com velocidade de rap, esta canção é uma ode alucinada e épica à mulher do autor Maurício Pereira. As imagens são raras, subjetivas e concretas como a cidade de São Paulo. Faz chorar de tão intensa e sincera.

"Êxtase" (Guilherme Arantes)
De lirismo rasgado, e até meloso, a canção toca fundo. Os teclados que soavam 'datados' até bem pouco tempo atrás, se destacam, interessantes novamente. Arantes é um dos maiores hitmakers do amor.

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Noemi Jaffe, escritora paulistana, autora do recém-lançado Írisz: as orquídeas (Companhia das letras)

Riobaldo e Diadorim, em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa
"No caso desse amor tão impossível – de um jagunço por seu companheiro – o que me encanta é a confusão entre erotismo e amizade e a força da tradição oral, em que a palavra e a lealdade são valores ainda intactos. Tudo entranhado na linguagem também erótica, de tão poética, de Guimarães Rosa."

G. e Nusa, em G., de Jonh Berger
"Nesse romance estranho e genial, do inglês John Berger, G. é um tipo de Don Juan, capaz de sacrificar a própria vida por causas que não são suas. Nusa é uma eslava que, durante a primeira guerra, quer salvar a vida do irmão. O gesto de G. para ajudar Nusa é uma demonstração de erotismo e desprendimento plenos."

Tristão e Isolda, mito-romance medieval
"Aqui, confundem-se destino e escolha. Os dois amantes se amam porque tomaram uma poção mágica que os fez se apaixonarem loucamente. Mas até que ponto a paixão é escolha? O fato de eles terem sido enfeitiçados muda o que sentem? Gosto dessa indiferenciação e de como ela se desdobra nessa história."


 


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