por Tiago Brant

Mais de cem velejadores celebram o kitesurf no Kalangão 2016, uma festa para um dos esportes que mais cresce no nordeste brasileiro

São duas da manhã, a escuridão impera e acabo de chegar a Fortaleza depois de 3 horas de voo e um choro de criança constante que não me deixou pregar os olhos. O caminho até Cumbuco — apenas 35 km — é rápido a essa hora da madrugada: pouco mais de meia hora depois de aterrissar no aeroporto internacional, já estou carregando minhas tralhas para dentro da pousada Kite Cabana, num dos paraísos brasileiros do kitesurfe.

Todos dormem, enquanto eu escovo os dentes imaginando a aventura que está prestes a começar. Serão quase 400 km velejando na costa cearense, com destino a Barra Grande, já no Piauí. Em 2016, 123 velejadores participam dessa celebração a céu aberto de um dos esportes que mais cresce (e faz crescer a economia do turismo esportivo) no nordeste brasileiro.

Entre os meses de julho e novembro, a alta temporada do kitesurf, os ventos alísios são constantes desde o Rio Grande do Norte até o Amapá, soprando sempre de leste para oeste, o que garante o funcionamento desse verdadeiro motor de popa a impulsionar nossos velejadores rumo a Barra Grande. 

Este é o Kalangão, porque um Kalango, esse resistente réptil nordestino, não é suficiente para aguentar a barra desta viagem: é preciso ser Kalangão. Por ser um velejo a favor do vento, o pessoal costuma se referir ao Kalangão como um downwind de cinco dias, passando por alguns dos melhores locais para a prática do kitesurfe no planeta. 

Sim, esta é uma região privilegiada do globo terrestre, onde os ventos são fortes e constantes, o tempo é seco, a temperatura é ideal e os preços são módicos, principalmente se você for um turista estrangeiro. Aliás, grande parte das pousadas que encontramos pelo caminho são tocadas por gente de fora, que encontrou no nordeste o ambiente ideal para criar os filhos praticando esportes e vivendo da simplicidade.

No dia seguinte, 20 de setembro, a turma toda reunida escutou o primeiro briefing da viagem com Marcus Vinicius, o famoso Poly, idealizador desta viagem que já comemora cinco edições. O primeiro trecho seria de Cumbuco até Lagoinha, em Paraipaba, ou cerca de 80 km de velejo. 

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Não sou um velejador assíduo. Na verdade, meu último velejo tinha sido a quase seis meses, no riozinho do Campeche, em Florianópolis, durante um breve sopro de sudeste que aconteceu enquanto eu passava alguns dias na ilha da magia. Muito pouco para quem pretende se aventurar no famoso Kalangão, acompanhado por gente que faz do kite o seu estilo de vida. Mas tudo bem, pensei, o velejo é a favor do vento, é downwind, e na descida todo santo ajuda, né? Só que não, eu não poderia estar mais enganado. 

Velejar a favor do vento não é tão simples quanto parece. Para ser eficiente, cobrir distâncias menores a uma velocidade maior, é preciso uma certa técnica, que eu logicamente não tinha. Dito isso, por volta das onze horas começou a batalha. Eu sai velejando sem problemas. Manter a reta, com o mínimo de zig-zag possível, porém, seria uma vitória que eu não teria.

Demorei muito mais tempo que a maioria dos velejadores para cruzar o primeiro trecho e, num piscar de olhos, lá estava, em último lugar na fila dos Kalangos. Mas sem derrubar o kite na água nem uma única vez, o que já era impressionante.

Cheguei ao primeiro ponto de parada, no píer do porto do Pecém, ainda a tempo de ver o pessoal reunido. Mas dali pra frente o caldo iria entornar. Eu tinha enorme dificuldade em descer com o vento e meu avanço era ridículo comparado ao de outros velejadores. Com o tempo eu fui cansando e aí, eu sabia, mora o perigo. Debilitado pelo cansaço, o sol forte e a consequente desidratação, comecei a cometer erros bobos que, não demorou, derrubaram meu kite na água pela primeira vez. Enquanto eu conseguia redecolar a pipa sem deixar que os fios se enrolassem, tudo bem. Mas, lá pela décima primeira vez, foi justamente o que aconteceu. Começava ali um breve período de desespero (já sem prancha, sozinho no mar e com minhas linhas enroladas na pipa), que só não foi maior porque a equipe de segurança de água, comandada pelo próprio Poly, chegou rapidamente para ajudar. Ufa! 

Voltei para a praia e de lá peguei uma carona para chegar à Lagoinha, primeiro objetivo da viagem, já de noite, enquanto todos comemoravam o primeiro dia de Kalangão entre amigos. E por falar nisso, Poly, meu mais novo amigo, veio tomar uma cerveja comigo para dizer que perrengues acontecem e que esse é exatamente o espírito do Kalangão, passar por algumas roubadas na companhia dos amigos que estarão sempre lá para ajudar. Uma verdade que eu teria os próximos quatro dias para comprovar.

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No segundo dia de Kalangão, de Lagoinha a Icaraizinho de Amontada, seriam mais 85 km de velejo, passando pelas praias de Lagoinha, Guajiru, Flexeiras, Baleia, Caetanos e muitas outros paraísos, terminando com mais um belo pôr do sol, na beira da praia, com usinas eólicas de um lado e a pousada Vila Mango de outro. Um lugar incrível, com todo o conforto que se pode esperar de um resort de luxo em meio às dunas cearenses.

O terceiro dia seria extenuante: 135km de downwind rumo a um dos destinos mais procurados por kitesurfistas de todo o planeta, Preá, bem ao lado da famosa Pedra Furada, em Jericoacoara. Nem preciso dizer que não completei esse trecho todo por mar. Apesar de já estar me sentindo bem melhor e mais confiante que no primeiro dia, ainda tinha dificuldades para descer o vento em linha reta numa velocidade razoável e, portanto, optei por fazer a maior parte do trecho com a estrutura de apoio de terra, que contava com 23 carros 4x4 fazendo a logística do Kalangão pelas estradas cearenses. Menos confortável e divertido que por mar, porém com mais segurança!

Já na reta final do Kalangão, o quarto dia seria entre o Preá e Camocim, um trecho cheio de Dunas com belas paisagens e várias usinas eólicas no caminho. Eu já estava velejando bem melhor a essa altura, mas ainda assim cometi um erro, derrubei o kite, as linhas enrolaram e aí já viu, né? Fui pro carro novamente! 

A boa notícia é que, aos poucos, eu já conseguia velejar paralelo à praia, quase em linha reta, chegando perto do que se espera num downwind. No final do trecho eu voltei para água só para curtir a chegada a Camocim, na barra do rio Coreaú. Um momento épico, com direito a mais um pôr do sol majestoso e a certeza de que, em quatro dias de Kalangão, eu tinha melhorado, e muito, meu velejo.

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Agora restavam apenas 90km até Barra Grande, no Piauí, destino final dessa aventura. Uma vila que se desenvolveu muito nos últimos dez anos, graças a um médico visionário e o turismo proporcionado pelo kitesurfe. A BGK, pousada que receberia o último dia de Kalangão, é uma referência na região. Bangalôs charmosos em frente à praia, piscina e todos os serviços que se pode esperar de um resort cinco estrelas. A pousada é administrada pela família de Ariosto Ibiapina, um médico de Parnaíba que comprou alguns terrenos no povoado quando ninguém imaginava investir por ali. Aos poucos, Ariosto foi se apaixonando pelo esporte, convidando amigos para conhecer aquele paraíso e construindo chalés entre um downwind e outro. Aos 65 anos, ele fez o último trecho do Kalangão com um sorriso no rosto e a certeza de que está colhendo as sementes de felicidade que jogou ao vento, dez anos atrás, ali mesmo em Barra Grande.

Créditos

Imagem principal: Eliseu Souza

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