por Lino Bocchini
Trip #199

O atacante do Wikileaks abre o jogo e as portas da casa onde está em prisão domiciliar

Fundador do WikiLeaks, a organização que vazou centenas de milhares de documentos secretos, Julian Assange é hoje o homem mais vigiado do mundo – e uma das figuras públicas mais cercadas de mistérios. Ao mesmo tempo em que revela algumas das mais bem controladas informações de governos e empresas, ele tenta manter restrito o acesso a sua privacidade. Mas Trip furou o cerco a Assange e entrou na casa onde ele está preso na Inglaterra, para revelar sua rotina, suas ideias – e ainda fazê-lo vestir a camisa da seleção – na primeira vez que falou, em pessoa, à imprensa do Brasil.

Sem cerimônia, assim como quem vai pegar uma tia que chegou para uma visita, Julian Assange aparece para nos buscar na estação de trem. Desce do carro sorrindo, apresenta-se, pergunta se fizemos boa viagem e comenta que tivemos sorte porque estava sol. A cena prosaica na nada glamorosa estação de trem de Diss (cidadezinha de 6 mil habitantes a 146 km de Londres) não combinava com a aura de mistério que envolve um encontro com o australiano que fundou o WikiLeaks e acabou se convertendo em ícone pop, pedra no sapato do Pentágono, pivô de uma nova diplomacia mundial e o mais novo inimigo público número 1 do governo dos EUA. Mas basta entrar no pequeno, não tão novo e mal lavado automóvel com que Julian foi nos buscar que o assunto se torna tudo, menos banal.

“Ontem um helicóptero das forças armadas do Reino Unido voou sobre o gramado em frente à casa. Era daquelas aeronaves militares grandes, com duas hélices”, conta Assange, sem dar maior importância ao fato. E segue contando causos, a caminho de sua atual residência. Parece feliz por estarmos ali, por receber visitas em sua cada vez mais reclusa rotina. Revela-se uma pessoa mais bem-humorada do que suas entrevistas e aparições públicas sugerem. Parece também bastante relaxado para um homem que, aos 39 anos, está cumprindo prisão domiciliar, monitorado por uma tornozeleira eletrônica, na mira da CIA e de enormes esforços diplomáticos para que seja “neutralizado” – o que quer que isso signifique.

Comigo no carro estão Natalia Viana, jornalista brasileira que colabora com a organização e é uma espécie de representante do WikiLeaks no Brasil, e Eliza Capai, fotógrafa e videomaker brasileira radicada em Barcelona. A Trip foi o primeiro veículo da imprensa brasileira a ser recebido pessoalmente por Julian, que aguarda uma nova etapa de seu julgamento de extradição pedida pela Suécia à Inglaterra. Quem acompanha o caso sabe: a justiça do país nórdico decretou sua prisão por conta da denúncia de duas mulheres que o acusam de não ter usado camisinha em relações sexuais, entre outras condutas que, por lá, podem ser classificadas como estupro ou agressões. Assange nega as acusações, alega que as relações foram consensuais e insinua que há outros interesses envolvidos nesse processo. A saber: encarcerar e acabar com a reputação do homem que vem revelando segredos – que vão do criminal ao embaraçoso – de governos, exércitos e empresas do mundo todo.

O WikiLeaks existe desde 2006, mas saiu da pequena fama entre hackers e ativistas para as manchetes mundiais em 2010, ao divulgar para o mundo um vídeo chocante. Batizado de “Assassinato colateral”, foi feito dentro de um helicóptero Apache, em que soldados fuzilam arbitrariamente iraquianos, matando ao menos 11 pessoas, incluindo dois jornalistas da Reuters. Mas o ápice de Assange e seu grupo veio mesmo quando eles realizaram o maior vazamento da história, o chamado Cablegate, com o início da divulgação de mais de 250 mil telegramas diplomáticos que expuseram como a maior potência mundial enxerga e interage com todos os governos do mundo.

"Parece relaxado para um homem monitorado por uma tornozeleira e na mira da CIA"

Foi quando os EUA perderam de vez a paciência com Julian Assange. O único suspeito de ter vazado essas informações secretas é um jovem militar chamado Bradley Manning, hoje confinado em uma solitária na base militar de Quantico, no estado da Virgínia. Mesmo sem provas, vive, há nove meses, sob condições classificadas como tortura por organizações internacionais. Julian jamais confirmou a fonte. “Manning é atualmente o preso político número um dos Estados Unidos. Já encarou mais de 310 dias de confinamento em uma solitária de uma prisão militar, e ainda nem foi a julgamento. É uma situação muito sombria”, comenta. E aqui entra o diferencial tecnológico do WikiLeaks: sua pesada criptografia, que torna irrastreável, inclusive para a organização, a fonte dos documentos.

Na mesma época da prisão de Manning, veio à tona a acusação de estupro. Até então o australiano levava uma vida meio errante, por diferentes países – a preparação do vídeo de que falamos acima, por exemplo, foi na Islândia, e Julian já morou no Quênia e no Egito, entre outros lugares. Depois, expedido o mandado de prisão, ancorou-se na Inglaterra. Foi quando tornou-se rapidamente uma celebridade antissistema. 

COM OU SEM BARBA?

O ativista e autoproclamado jornalista é uma atração do condado onde hoje vive. Após 40 minutos de estrada, estacionamos nos fundos da propriedade e logo uma senhora que vive ali perto vem entregar um jornalzinho comunitário. Troca três ou quatro frases rápidas com o vizinho ilustre e se vai, rindo. “Ela sabe quem você é, né?”, pergunto. “Claro. Aqui nunca acontece nada... Ah, e tem uma coisa engraçada. Ellingham Hall [a mansão onde ele está hospedado] fica na divisa dos condados de Norfolk e Suffolk, e os moradores de um lado e de outro disputam entre si quem pode dizer que está nos abrigando”, gaba-se.

O “abrigo”, no caso, é um casarão do século 18 encravado em meio a uma propriedade rural de 240 hectares onde Julian Assange e alguns pouquíssimos associados vivem atualmente. A casa, que tem um site bem completo antes usado para anunciá-la como locação para casamentos e outros eventos, pertence a Vaughan Smith, descrito pela mídia inglesa como um oficial reformado do exército, ex-correspondente de guerra, dono de restaurante, cultivador de alimentos orgânicos e simpatizante da causa de nosso entrevistado. Nas fotos ou olhando do lado de fora, o casarão impressiona. Pela fachada, parece que o interior será suntuoso, palaciano, mas não é o caso. A cozinha, por exemplo, apesar de espaçosa, é pouco mais do que OK. Tem uma geladeira nova, mesa grande, cadeiras simples, bancada de mármore, boas panelas, um fogão antigo... e vai meio que ficando por aí. O destaque fica para o adesivinho “Free Bradley Manning” entre os imãs de geladeira.

Ao lado da cozinha ficam dois salões com algo entre 70 e 100 m² cada um. Com paredes decoradas com pinturas e objetos antigos, têm mobília que mescla peças centenárias com outras mais recentes, aparentemente ali por praticidade, para o uso diário dos atuais moradores. Nessas duas salonas, janelas altas se abrem para um enorme gramado muito bem cuidado, com árvores centenárias e salpicado de faisões. Mais ao fundo, patos nadam calmamente em um pequeno lago.

Durante o tempo em que estivemos por ali, passaram algumas visitas. Por exemplo, um rapaz que aparentava ser de alguma ex-república soviética, que levou de presente uma vodca especialíssima, em uma caixa de veludo. “Talvez você devesse pedir pra eles experimentarem, pra ver se não está envenenada”, brincou o camarada, olhando pra nós. “Pensei que você era amigo”, respondeu Assange, rindo, de bate-pronto. Tomamos todos algo como meia dose. Era uma delícia, mas ficou por isso mesmo. Uma integrante comentou: “uma vez uma amiga veio aqui e achou que ia encontrar um clima meio de balada, todo mundo bebendo, sei lá... Depois que fomos embora, ela reclamou: ´pô, vocês só ficam no computador!´”. 

É nessa mesma salona do episódio da vodca que Julian trabalha na defesa do processo de extradição que sofre e centraliza em si as decisões e estratégias de todo o enorme fluxo de trabalho que o WikiLeaks demanda. Eles ainda têm em mãos dezenas de milhares de documentos governamentais e de empresas não divulgados, o que causa enorme apreensão de muita gente poderosa pelo globo – Bank of America, governo russo e outros já citados publicamente por Julian recentemente que o digam. É um volume enorme de textos e informações que precisa ser cuidadosamente avaliado, criptografado e taticamente distribuído para grandes grupos de mídia para ajudar Assange e seus comparsas a chegar ao objetivo da organização. “Defendemos um conceito simples, mas abstrato: a verdade é o único ingrediente realmente útil na hora de tomar decisões. E tais decisões, até pelo quanto podem afetar o mundo, devem sempre ter por base a verdade”, explica Assange, na entrevista a Trip.

Essa transparência ele não se mostra muito disposto a oferecer ao público quando o assunto é o próprio WikiLeaks. Pede que não fotografemos nenhum outro membro do staff. Também não quer fotos no interior da residência. Para ter certeza de que cumprimos o trato, no fim do encontro checa pessoalmente um por um os cartões de memória de Eliza, nossa fotógrafa. Exige que eu assine (com ele), antes de qualquer coisa, um contrato de confidencialidade em relação a certas informações que, caso quebrado, eu haveria de pagar módicos 12 milhões de libras. Centralizador, gosta de cuidar de algumas tarefas técnicas menores da organização que, para alguém de fora, parecem mais adequadas a um estagiário. 

Conseguimos convencê-lo a manter a barba rala para as fotos com a camisa do Brasil, mas, para a entrevista em si, sabendo que haverá registro em vídeo, faz questão de se preparar -- “vídeos e fotos são facilmente retirados do contexto. Faço para uma revista brasileira, mas qualquer um pode pegar trechos e postar em qualquer outro lugar na internet”. Barbeia-se, escolhe um paletó melhor e até estuda o posicionamento mais adequado de sua echarpe em relação ao microfone de lapela. Durante a entrevista, de certa forma, justifica-se: “Transparência é para os governos, para as grandes organizações. Privacidade é para os indivíduos. Transparência tira o poder das organizações poderosas e o confere a quem não tem”.

PESTO PARA O HOMEM

Na casa onde vive, é brutal o contraste entre o estilo clássico do ambiente vitoriano das salas e do enorme jardim e a profusão de laptops (quase todos Apple), cabos, HDs e outras traquitanas em todo canto. E a turma trabalhando duro, concentradíssima. É raro que alguém fale ao telefone. Não se ouve música. Não há TV.

Em meio a esse cenário, as horas passam e nada de alguém falar em comida. Minha fome física superou a jornalística e turbinou minha cara de pau. A solução, sugerida pela Natalia, foi eu mesmo invadir a cozinha, pôr dois panelões de água pra ferver e fazer uma batelada de macarrão ao pesto. Fiz isso. Na hora em que ficou pronto, todos, inclusive o entrevistado, pegaram seu pratinho, agradeceram a iniciativa e comeram com gosto. Minutos depois, como sempre, todo mundo de volta aos seus laptops, sérios.

Refeições, digamos, formais, são raras. Mas momentos de descontração acontecem o tempo todo. Como quando a própria Natalia quebra o gelo em um sisudo momento: “Vamos brincar de Google fight?!” [site que testa quem tem mais menções no buscador]. “Põe Assange x Madonna”, alguém sugere. “Ah, não, claro que eu vou perder”, retruca o próprio, fingindo indignação. “Então põe a Cher!”, sugere outro, e o povo cai na risada. Em tempo: Assange perde no Google fight pra Madonna e também pra Cher no número de menções no mecanismo de buscas. Mas ganha de Ronaldinho, da arquirrival Hillary Clinton e do revolucionário vintage Che Guevara.

Ou quando Julian chama quem está por perto para ver uma matéria em que a Fox News armou uma mesa-redonda para discutir, por quase 10 minutos, um vídeo de poucos segundos no qual Assange aparece dançando em um clube na Islândia. Quando pergunto, de brincadeira, se ele estava querendo fazer um estilo meio Thom Yorke (do Radiohead) no clipe de “Lotus Flower”, ele faz uma cara de estranhamento e pergunta: “Quem é Thom Yorke?”.

A impressão que fica é que brincadeiras rápidas como essa são a forma que Julian Assange e seu círculo íntimo de colaboradores encontraram para conseguir seguir em frente mantendo a sanidade, não se deixando vencer pelo enorme e onipresente fantasma do stress e da paranoia. Afinal, puseram em seu pé, além da tornozeleira com o localizador, uma tal WikiLeaks Task Force, espécie de mutirão de agências de inteligência americanas que começou com 120 agentes no final no ano passado (número que estaria hoje reduzido por conta do trabalho demandado pelos recentes conflitos no Oriente Médio). Pelo menos o povo da CIA ajudou nas novas piadas, escolhendo para a força-tarefa um nome cujas iniciais são WTF – nos EUA e na internet mundial, WTF significa “What a Fuck?”, algo como “Que porra é essa?"

"Quando olho pela janela, ele está saltitando em uma cama elástica enquanto fala ao celular"

NA CAMA (ELÁSTICA) COM JULIAN

Nosso entrevistado sai da sala para atender a um telefonema. Quando olho pela janela, ele está saltitando, de paletó e botas, em uma cama elástica instalada no jardim da casa, enquanto fala ao celular. Não sorri, não se altera nem interrompe a conversa. Apenas dá pequenos pulinhos enquanto fala normalmente com o interlocutor.

Aproveito para bater um papo com outro integrante do grupo, percebendo que ele fica preocupado de abrir o sistema de busca dos cables em seu computador com a tela voltada para a janela. Pergunto: “Você acredita que estão sendo vigiados o tempo todo aqui?”. Ele pensa um pouco e reponde: “Olha, esta casa é isolada, então não devemos estar sendo vigiados por pessoas, propriamente. Mas existem muitas outras formas de fazer isso. Não posso afirmar que isso esteja sendo usado aqui, mas eu mesmo já vi funcionando, por exemplo, microfones a laser”. Oi? Microfone a laser? “São microfones que usam um laser que você não enxerga e, uma vez apontados para uma janela, conseguem captar pelas vibrações, com bastante precisão, o que é dito dentro daquele cômodo. E nem é dos equipamentos mais complexos que existem para fins de espionagem...”

Minha paranoia por estar ali, entrevistando aquele que é hoje o principal alvo do maior aparato de espionagem do globo, voltara com tudo. Insisto então com o colega, mal disfarçando a ansiedade: “E você acha que uma pessoa como eu, que não tem nada a ver com a história, também pode estar sendo monitorada?”. E ele: “Olha... seguramente todo mundo que entra e sai desta casa é fichado”.

***

Quando fundou o WikiLeaks, você imaginava que um dia se tornaria um ícone pop?
É bizarro... e não vejo dessa forma, ser ou não ícone pop, ser ou não famoso. Não são essas as preocupações da organização. Há um superpoder que quer nos destruir. Estamos em um momento em que um movimento jovem e novo está florescendo por todo o mundo na internet. A juventude apática da internet está se tornando politizada, eles estão começando a sentir sua impotência e a ficar incomodados com isso, querendo mudar. Esse recém-nascido movimento jovem precisa ser guiado e protegido, e também precisamos nos defender e defender outros que estão fazendo um trabalho similar ao nosso. Então, se ajuda ter o meu rosto ou até mesmo o rosto de Bradley Manning na capa da revista Rolling Stone, a gente topa! Se isso vai nos proteger, vamos fazer. Descobrimos que realmente temos que aparecer, caso contrário deixamos um vácuo por onde nossos inimigos podem despejar seu veneno. Temos que fornecer o antídoto.

Fora essa questão da utilidade de aparecer... é bom ser famoso?
É bom se for útil. Pessoalmente, acho extremamente irritante. É bem interessante como essa trajetória de se tornar uma celebridade pode ser tão chata...

Chato?
Sim. No começo, eu era famoso apenas em alguns círculos ligados a política e tecnologia na Austrália. Quando soltamos os papéis da guerra do Afeganistão [75  mil documentos divulgados em julho de 2010, o maior vazamento do WikiLeaks antes do atual Cablegate], a exposição aumentou bem, mas ainda era algo que dava pra gerenciar, de certa forma era até uma oportunidade. Naquele momento eu chegava a me perguntar por que as celebridades estavam sempre reclamando, me parecia um prazer ter sempre um público pronto para ouvi-lo. Parecia muito cômodo reclamar dos fãs e dos paparazzi, por exemplo, se as celebridades buscaram isso. Mas agora, mais recentemente, quando minha exposição se tornou muito maior, as coisas realmente mudaram. Ser celebridade passou a ser mais um peso do que uma oportunidade. Primeiro tem as pessoas que ficam atrás de você, o que no meu caso é sempre uma preocupação. As ameaças de morte feitas por políticos americanos encorajaram as pessoas a seguirem por uma caminho perigoso... E, além disso, fica muito difícil lidar com qualquer pessoa de uma forma “normal”.

Como assim?
Sabemos que qualquer informação sobre o nosso trabalho é valiosa, qualquer história sobre um encontro conosco tem muito valor. E esse valor é tão alto que corrompe as pessoas, é muito difícil ter uma relação normal com as pessoas...

É difícil para você ter amigos, por exemplo?
Bem... Fazer novos amigos é uma coisa muito, muito difícil. Claro que os amigos antigos, de antes, é outra história. Mas fazer novos amigos... aí essa história da fama interfere na relação. Uma aparente nova amizade pode rapidamente se tonar oportunista, interesseira.

Há fãs e outras pessoas tentando contatá-lo o tempo todo?
Há muitas histórias, mas não vou entrar em detalhes, porque de novo tem a questão de segurança pessoal e eu não quero encorajar novas tentativas. Em todo caso, recebo muitas mensagens de admiradores. Minha favorita foi a de um senhor bem idoso que mora em Paris e que era soldado na Segunda Guerra Mundial. Ele me disse que, se o WikiLeaks existisse naquela época, talvez a Segunda Guerra nunca tivesse acontecido... e na carta ele argumentava muito bem a razão.

De repente você faz um vazamento vintage...
[Risos] Talvez... ou, se os números de documentos divulgados continuarem aumentando, talvez evitemos a Terceira Guerra Mundial...

[ Poucos dias após nossa visita, no final de abril, o WikiLeaks divulgou as fichas dos 758 presos de Guantánamo. O vazamento mostrou que na prisão norte-americana instalada em solo cubano há menores de idade, pessoas sem ligação com grupos terroristas e até portadores de deficiência mental. O governo dos EUA reconheceu a autenticidade das fichas, mas disse que algumas delas estavam “desatualizadas”.]

Julian, qual é o real efeito histórico do WikiLeaks?
O WikiLeaks é uma série de coisas. É um website, uma tecnologia funcional, um caminho filosófico. É também uma rede de pessoas que acreditam em algo... Defendemos um conceito simples, mas abstrato: a verdade é o único ingrediente realmente útil na hora de tomar decisões. E tais decisões, até pelo quanto podem afetar o mundo, devem sempre ter por base a verdade. Então trazer o máximo de informação real à tona é o jeito certo de decidir as coisas. Parece um tanto abstrato, mas é muito, muito importante, e nos leva à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão... E foi justamente por acreditar nisso que decidi que deveríamos criar mecanismos e botar isso em prática. O WikiLeaks é essa filosofia na prática, e acho que por isso acabamos inspirando as pessoas.

“Existe muita gente poderosa que ficaria feliz se eu fosse assassinado”

E, dentro dessa filosofia, se tudo correr conforme o que você imagina, o que vem a seguir? Como seria o mundo?
As recentes rebeliões árabes, com mudanças de governo etc., já são de certa forma parte de nossa intenção há anos. É a consequência de um plano. Mas aonde queremos chegar com tudo isso? Queremos um mundo mais justo. E por que eu falo de justiça – e não que desejamos que as pessoas sejam mais felizes ou algo assim? Justiça é um sentimento forte nos seres humanos. Como o poder deve ser administrado, como deve ser delegado, como riquezas devem ser equilibradas. Acredito que a justiça é o sentimento nivelador mais importante. Não basta apenas sentir. A pessoa tem que criar algum mecanismo para que o sentimento se expresse, e aí entra a comunicação. Todos os outros direitos – à vida, à liberdade etc. – são direitos que emergem do fato de que não tê-los seria injusto. E o jeito de brigar por eles ou denunciar sua falta é pela comunicação, pela fala. Então deve-se criar uma estrutura e uma filosofia que enalteçam essa possibilidade de brigar por justiça. [Pensa um pouco e sorri] Essa não foi uma resposta muito simples...

Como é seu dia a dia aqui? Você pode sair quando quer, andar de bicicleta, ir a um pub, comprar jornal na cidade?
Estou sob um tipo de prisão domiciliar high-tech. Por ordem do governo inglês tenho um dispositivo eletrônico preso ao meu tornozelo o tempo todo e sou obrigado a me apresentar todo dia de manhã na delegacia mais próxima. Também não posso deixar a casa entre dez da noite e nove da manhã. Então eventualmente até posso passar em um pub ou algo assim no horário liberado. Mas só que aí há outro problema: os riscos de segurança. Minha localização é conhecida, e tem gente incitando coisas...

De que riscos exatamente você está falando?
Existe muita gente poderosa, especialmente nos Estados Unidos, que iria ficar feliz se eventualmente eu fosse assassinado...

Mas tem gente seguindo você? Uma viatura vai atrás toda vez que você sai da casa?
Não. A proibição é de fazer as coisas em determinados horários.

O Brasil foi escolhido para estar entre os cinco ou seis países que fizeram parte da primeira fase de divulgação dos documentos da diplomacia americana. Qual a importância do país para você?
O Brasil é um poder alternativo bem interessante na região, a ponto que, nas Américas, há os Estados Unidos e há o Brasil. Vocês são indiscutivelmente a nação mais independente da região fora os Estados Unidos, e isso traz um equilíbrio de poder vital. Por isso é tão importante que o Brasil mantenha sua influência e siga caminhando na direção certa, até porque, se for na direção errada, desestabiliza toda a América do Sul. O país tem também sua própria cultura e, como no caso da Alemanha, tinha a questão da língua, o português, que é importante estar representada. E havia ainda a formação do atual governo. Sabíamos que o novo ministério seria nomeado em janeiro, então era importante para nós soltar o material antes disso, antes do fim do governo Lula. Assim qualquer eventual impacto chegaria a tempo, na hora certa.

Por que essa preocupação com um eventual impacto político?
Essa é a nossa missão! As fontes que nos passam documentos esperam isso, sempre prometemos impacto máximo de todo material. É o que tentamos fazer em todo lugar, e no Brasil também.

E você tem planos de aumentar a atuação do WikiLeaks no Brasil?
Sem dúvida. Essa é inclusive uma das razões para nosso engajamento no país. Sempre recebemos um apoio tão grande no Brasil [Lula foi o primeiro presidente a condenar a prisão de Assange, em dezembro passado] e sempre tivemos brasileiros trabalhando conosco, sejam técnicos ou jornalistas.

E você gostaria de visitar o país alguma hora dessas?
O Brasil? Quem me dera! Mas vamos ver... quem sabe seu governo não me envia um helicóptero?! [Risos.]

Não sei não...
Não me tire as esperanças...

[ Julian e outros membros da equipe adoraram as camisas vintage da seleção que levamos. “That´s so fucking cool!”, gritou uma das meninas do staff, ao ver o material –algo como “Isso é legal pra caralho!!”. O australiano provou as opções de tamanho, achou que a M ficou melhor ajustada e topou fazer as fotos na hora. Até correu pra dentro pra pegar uma bola de futebol (meio murcha), caso fosse útil para as imagens. “Não torço pra nenhum time, mas jogo futebol de vez em quando com o pessoal”. Outro membro do grupo contou sobre um dois contra dois “sem goleiro e com regras esquisitas” que rolou no gramado alguns dias antes de chegarmos –com o australiano em campo. “Foi bem divertido, mas falamos, ´pô, logo mais chegam os brasileiros aí, a gente devia esperar pra ver se dá mais jogo...”.]

Falamos um pouco do Brasil, mas e sua impressão do governo Obama? Como acha que ele está se saindo?
Pergunta interessante, porque... o que é um governo Obama? Seria este realmente um governo do Obama? Ou será que ele apenas representa uma tendência dentro do governo? Eu diria que na verdade Obama representa muito mais uma tendência do que controla o que acontece na Casa Branca. Ele tem uma grande dificuldade porque, diferentemente de Bush pai e Bush filho, não tinha ligações anteriores com a CIA, o que torna mais difícil controlar a inteligência americana, em vez de ser controlado por ela. Ele tem em mãos um enorme aparato de defesa e inteligência, o maior que o mundo já viu, mas acaba ficando como um cozinheiro que precisa fazer um bolo, mas não tem a colher certa para misturar os ingredientes. E, aí, o bolo, subindo ou não, no fim das contas é ele quem vai responder por isso. Enfim, não acho que Obama seja um presidente que está no controle de fato. Ele não é esse tipo de presidente.

Nessa batalha entre você e os EUA, quem está ganhando no momento?
Olha... conseguimos sair vitoriosos na coisa mais difícil que nos propusemos a fazer, que foi a divulgação dos documentos diplomáticos. Teve outras publicações difíceis, mas essa foi de longe a mais complicada, e nós conseguimos! Teve pressões imensas para que parássemos, foram pra cima de nossos parceiros de mídia, aconteceram ataques ilegais aos nossos sistemas e computadores no mundo todo... e mesmo assim eles não conseguiram parar nosso trabalho.

Você usa sua imagem pessoal o tempo todo. Seu rosto é a cara da organização. Por quê? Isso ajuda? É calculado?
[Pensa um pouco] Isso nos torna mais fortes e ao mesmo tempo mais fracos. Nos deixa mais fortes porque as pessoas simpáticas à nossa causa me veem falando e pensam: “OK, então esse cara está vestindo a camisa, vai lutar por isso, realmente acredita etc.” E é mais fácil as pessoas se unirem em torno de uma figura humana, ainda mais se ela está sendo atacada, do que simpatizar com uma organização inteira. O contraponto é que os inimigos, em vez de atacarem nossa mensagem, o que estamos dizendo e mostrando – o que é inatacável pois é completamente verdade –, eles me atacam pessoalmente como um meio de tentar contaminar a mensagem da organização.

[Falando em imagem: a cor de pele branquíssima, quase transparente, torna difícil de acreditar que o homem à minha frente já morou no litoral australiano, mesmo que por meses. Tem cerca de 1,90m, e segue magro aos 39 anos. Não pinta o cabelo --a prova são alguns fios pretos que restam em meio a cabeleira branca. E é impressionante o contraste brutal entre fotos suas de um ou dois anos atrás e sua cara hoje. Envelheceu muitíssimo rápido em pouco tempo. Apesar do “desgaste”, ao vivo é mais fácil entender porque tive que responder várias vezes a interlocutoras, ao voltar para o Brasil, a perguntas como “pessoalmente ele também é bonitão?”.]

Você tem algum ídolo ou alguma pessoa que o inspirou?
Há alguns, mas Daniel Ellsberg é o que mais se aproxima disso, tanto como homem quanto como pensador [Ellsberg prestava serviço para o Pentágono e, chocado com o conteúdo de documentos top secret sobre a Guerra do Vietnã, entregou cópias ao New York Times em 1971, em um episódio que ficou conhecido como Pentagon Papers. Desde então é um dos principais ativistas americanos contra as guerras e pela liberdade de expressão]. Ellsberg é inspirador. Acabou de completar 80 anos e já foi preso 81 vezes. Nos tornamos grandes amigos e, quanto mais eu o conheço, mais respeito tenho por ele. E isso é algo muito raro, conhecer alguém por suas ações e sua figura pública e ter o respeito por essa pessoa aumentado após conhecê-la. Mas há outros nomes como Alexander Soljenítsin [Nobel de literatura em 1970, a obra de Soljenítsin escancarou o horror dos gulags soviéticos, campos de trabalho forçado para opositores do regime comunista] e Voltaire [filósofo iluminista francês do século 18, grande defensor de liberdades civis e religiosas], ambos dissidentes de pensamento radical que mantiveram suas posições firmes mesmo nas adversidades.

Você é otimista quando pensa no futuro?
Extremamente otimista. Acho a politização da juventude conectada à internet a coisa mais significativa que aconteceu no mundo desde 1960. E esse também é o ponto de vista de pessoas que conheço e que foram ativistas na década de 60. Agora, pegando um caso específico como o do Oriente Médio, aquilo não é algo fortuito e está longe de acabar. A situação ainda é muito complicada em muitos desses países. Mas pra Tunísia e também pro Egito – país onde morei em 2007 --, não há mais retorno, não é possível voltar ao que era antes. A questão agora é se eles conseguirão seguir em frente. Quando coisas assim acontecem, você sabe que o mundo está caminhando para uma nova ordem. Que ordem é essa eu não sei, e ela tem que ser muito cuidadosamente conduzida, mas definitivamente é algo novo, uma revolução verdadeira.

Nessa nova ordem de que você fala, os temores de governos e corporações de serem os próximos alvos do WikiLeaks não podem fazer com que eles se retraiam ainda mais? que protejam e escondam ainda mais seus dados?
Eu já ouvi esse argumento antes, e isso é completamente ridículo. Esse argumento vem sendo usado por oponentes do nosso trabalho que tentam limitar o volume de informações que chega ao público. É claro que grandes companhias e governos mundo afora ao ver, por exemplo, o Cablegate vão pensar: “Meu deus, e se isso acontecer com a gente?!”. E aí vão aumentar seus sistemas de segurança. Mas, para uma grande organização, isso significa travar procedimentos, tornar-se menos eficiente... e o curioso é que isso já estava previsto na teoria do WikiLeaks.

Como assim?
Nós tramamos isso. Eu refleti sobre essa questão quando pensava sobre o que viria a seguir. E acho a perspectiva boa: as instituições teriam que simplesmente abandonar registros em computador e também em papel, de forma que seus atos injustos não sejam documentados nem descobertos pelo público. Mas, se organizações com medo do julgamento público se sentissem forçadas a abandonar sistemas de informática e até o papel, voltariam a uma espécie de estágio primitivo, não seriam política ou economicamente competitivas, deixariam de existir. Então as organizações, e aí eu falo de governos e empresas, têm dois destinos possíveis: elas podem ser abertas, honestas, justas e eficientes – e por isso, bem-sucedidas; ou podem ser fechadas, injustas e ineficientes, e, então, malsucedidas.

Citando George Orwell, se os vazamentos e a transparência continuarem indefinidamente, você acha que o mundo corre o risco de se tornar uma espécie de imenso Big Brother?
Esse é um argumento dos inimigos da liberdade. Transparência é para os governos. Transparência é para as organizações que são tão grandes que se tornam parte do governo. Privacidade é para os indivíduos. Transparência tira o poder das organizações poderosas e o confere a quem não tem poder nenhum. Privacidade protege indivíduos que não têm poder contra a força das organizações titânicas. Essa é a separação correta. O WikiLeaks não tem interesse nenhum em promover um regime para dar aos já poderosos mais poder ainda. O trabalho da minha vida tem sido desenvolver sistemas de privacidade, como criptografia, para proteger os indivíduos do poder do Estado, para protegê-los em sua comunicação privada, em seu direito de se organizar em pequenos grupos contra aparatos de inteligência ou abusos. Tudo o que fiz foi para conferir ao indivíduo mais poder em relação ao Estado.

Mudando de tipo de poder, você tem alguma crença pessoal, acredita em Deus?
[Pensa um pouco] Eu acredito que nós traçamos nosso próprio destino e que devemos aproveitar ao máximo nosso tempo aqui na Terra. Essa é a minha crença mais forte. Acredito que essa questão de haver ou não um ser supremo que as pessoas chamam de Deus me parece filosoficamente mal formulada. Há uma lacuna na definição, e por isso não há resposta para essa pergunta.

Tendo tanto poder nas mãos, você tem medo de vir a cometer erros?
Não é verdade que temos tanto poder. O WikiLeaks não é uma organização poderosa. Se nós fôssemos uma organização tão forte assim eu não estaria em prisão domiciliar. Se eu tivesse o poder de um presidente, por exemplo, não estaria em prisão domiciliar. Nós somos uma organização pequena, porém muito dedicada, que teve uma ideia muito bem estruturada e por isso foi capaz de fazer muito.

Você tem algum hobby? O que faz em seu tempo livre? Se é que tem algum tempo livre...
Na verdade não tenho. Jogo futebol com meu pessoal de vez em quando, mas não passa muito disso. Isso tudo com o que estamos envolvidos... claro que eu não quero ir para a prisão, mas sinceramente eu pagaria para fazer o que estamos fazendo. Não há realização maior do que estar engajado no tipo de ação em que estamos. Há aspectos muito estressantes e difíceis, mas há outros aspectos tão gratificantes que eu diria que não trabalhar deixa de ser algo relaxante. Pelo contrário, acabamos ficando preocupados porque estão acontecendo coisas incríveis no mundo agora, há tremendas oportunidades de promover nossos valores e não podemos perder essas chances.

Não é o momento de relaxar...
Bem... na verdade às vezes é necessário relaxar um pouco justamente para depois trabalhar com ainda mais força. Por isso jogamos bola de vez em quando ou ocasionalmente faço algum exercício. É preciso também dar uma brincada até para trabalhar melhor depois.

Você nasceu e foi criado na Austrália. Surfava por lá?
Sim, eu morei em Byron Bay [point popular de surf na costa leste australiana] em duas ocasiões por cerca de seis meses quando era adolescente. E nessa época eu surfava todos os dias.

Se estivéssemos em uma praia agora e eu desse uma prancha para você será que ainda seria capaz de surfar?
Não com essa tornozeleira... [Risos.]

[Assange não deixou que fotografássemos, mas vi bem de perto a tornozeleira, em um momento em que ele arrumava a barra da calça. Parece feita de um material plástico. É cinza e fina, tem uns 5 centímetros de largura e um pequeno dispositivo (possivelmente o localizador). E de fato parece incomodar, e não apenas pela simbolismo, mas também porque porque fica presa, justa, logo acima do tornozelo.]

Você vai fazer 40 anos este ano. Você pratica algum esporte ou toma algum outro cuidado com o corpo?
Olha, é muito difícil agora fazer algo mais regular por conta desse aparelho de vigilância preso à minha perna. Ele incomoda, mas, se não fosse por isso, eu estaria correndo todos os dias. Estou ganhando peso com essa história de prisão domiciliar. Desconfio que estou mais gordo do que nunca.

Já que você voltou ao assunto do monitoramento, vi você comentando que não gosta que fotografem sua tornozeleira... Por quê? Mostrá-la não seria justamente um jeito de denunciar uma eventual injustiça?
Estou pensando em como e quando fazer isso. Talvez por meio de um documentário. De qualquer forma, considero algo extremamente indigno para uma pessoa como eu, que sempre lutou por justiça e liberdade, ser aprisionado e monitorado eletronicamente. A falta de dignidade é tão severa que não me sinto confortável ainda para mostrar, é uma traição aos meus princípios.

A questão da vigilância sempre volta... Como você encara a perspectiva de uma possível extradição?
Há um grande júri secreto em Alexandria [Virgínia, EUA] tentando preparar um caso para me indiciar por conspiração, crimes de espionagem e outras acusações. A ideia é me encarcerar em uma prisão de segurança máxima, como Bradley Manning. Mais: pessoas associadas à nossa organização direta ou indiretamente têm sido interrogadas ao cruzar a fronteira dos EUA, e seus computadores e celulares têm sido apreendidos. E há ainda o processo de extradição por parte da Suécia... É uma situação complicada, mas eu descobri quando estive em confinamento que sou capaz de dominar psicologicamente aquela situação [por conta do processo por estupro e agressões sexuais na Suécia, Assange passou nove dias preso em Londres em dezembro passado, antes de conseguir negociar sua atual condição de prisão domiciliar]. Não tenho medo da prisão, mas sei que não ajudaria em nada a missão que estou tentando cumprir.

Por acaso esses nove dias preso foram a primeira vez em muitos anos em que você ficou sem internet?
Não mesmo! Uma vez por ano eu costumo passar duas ou três semanas nas montanhas...

Sem internet?
Sem internet.

E sem celular?
Sem celular.

Sério?! Por três semanas?
Sim. E às vezes sem pessoas.

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