por Ina Krug
Trip #266

Jovens da Faixa de Gaza seguem buscando liberdade e adrenalina nas ondas, sem se intimidar com o cenário de guerra que emoldura a praia

Enfim o mar se agita. Depois de dias seguidos de calmaria, Mohammed Jayab e Ahmed Abu Hassan se jogam com as pranchas na rebentação até o corpo não aguentar mais. Após a sessão, correm, morrendo de frio, para uma barraca de madeira, onde conversam sobre as condições do surf e sonham com as ondas do Havaí. Os destroços de casas bombardea­das, ao fundo, são o único lembrete naquele momento de que ali é um lugar em crise.

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A Faixa de Gaza tem apenas 40 quilômetros de extensão e menos de 15 quilômetros de largura, uma área um pouco menor do que a Ilha de Santa Catarina, em que fica Florianópolis. Mesmo assim, ali vivem quase 2 milhões de pessoas – e quase ninguém sai. Faz tempo que aviões não pousam na região, e 
há anos o porto não vê nenhum navio novo. A falta de espaço para tanta gente faz da praia e das ondas o único ponto de fuga. E já era assim, mesmo na época em que quem tivesse uma prancha de verdade – coisa raríssima – ficava conhecido por todo mundo. Outros improvisavam. “Quando crianças, a gente surfava em tábuas”, conta Mohammed. “Qualquer pedaço de madeira, podia ser de um armário ou de uma mesa. Não importava.”

A razão para a escassez: pranchas de surf não podem entrar em Gaza. Segundo o exército israelense, não constituem gêneros de primeira necessidade e, além do mais, são um meio de se infiltrar por vias marítimas. Em 2007, Mohammed e Ahmed já enfrentavam as ondas locais havia quase dez anos, e tinham conseguido pranchas velhas e detonadas, quando a história deles foi contada no Los Angeles Times e uma série de equipamentos foi oferecida para os surfistas – embora só depois de negociações exaustivas eles tenham conseguido pôr a mão neles. O que ambos aprenderam de maneira autodidata através de revistas e filmes antigos, ensinaram aos outros com as pranchas doadas – um surf club que foi interrompido pela invasão de Gaza em janeiro de 2009, conforme a Trip relatou na época. 
De lá para cá, Mohammed chegou aos 42 anos e se tornou mentor de uma nova geração de surfistas. Até agora, sobreviveu às rebeliões e invasões e aproveita cada dia que consegue se encontrar com seus protegidos na praia para mais uma sessão entre as ondas.

“A gente surfava em tábuas. Qualquer pedaço de madeira, podia ser de um armário ou de uma mesa. Não importava”
Mohammed Jayab

Parte dois

É a continuação dessa história que os alemães Philip Gnadt e 
Mickey Yamine mostram no documentário Gaza surf club, lançado este ano. A ideia surgiu quando um amigo que cresceu na Faixa de Gaza mostrou para Phillip várias imagens e reportagens sobre a guerra. “Por mais triste que fosse, eu já não me impressionava”, ele lembra. “Foi só quando vi uma série incrível de fotos de surfistas que consegui sair daquela apatia e lembrar que, apesar de todos os problemas políticos da região, há pessoas que lutam todos os dias por seu cotidiano. Sabemos muito pouco a respeito delas.”

A produção encontrou muita resistência exatamente por conta desses “problemas políticos”. “Muitos não sabem que, ao lado da Coreia do Norte, provavelmente a Faixa de Gaza é a região mais fechada do planeta”, diz Philip. “Depois que todos os papéis estavam prontos e queríamos reservar voos para Tel Aviv, começou um novo conflito entre Israel e o Hamas, a Operação Margem Protetora.” Naqueles meses de julho e agosto de 2014, quatro crianças foram mortas por granadas israelenses enquanto brincavam na areia. As bombas foram lançadas de navios de guerra ancorados na costa – argumento mais do que contundente para manter distância das praias de Gaza. “Por fim, viajamos no final de outubro de 2014, com mais de um ano de atraso, levando 19 caixas e malas para seis semanas”, lembra Philip.

Ibrahim pega a próxima onda passando bem perto de colunas de aço que despontam dos destroços de cimento. Os outros surfistas aplaudem. Rindo, o rapaz de 23 anos se deixa cair na água. Surfar é sua grande paixão. Sonha em um dia abrir um clube de surf para todo mundo em Gaza e em viajar pelo mundo. Ofegante, volta 
remando para onde os outros o esperam, alguns deles de jeans e camiseta – tal como as pranchas, roupas de neoprene são artigos de luxo.

“Uma vez nadei com lenço na cabeça e quase sufoquei. Ele se enrolou no meu pescoço. Tirei e continuei a nadar. Disseram que era proibido”
Sabah

Até há pouco, Sabah, 15, também fazia parte do grupo. Na Faixa de Gaza, uma garota surfista era um acontecimento. “Uma vez nadei com lenço na cabeça e quase sufoquei – ele se enrolou no meu pescoço. Tirei o lenço, prendi na cintura e continuei a nadar”, conta. “Minhas primas perguntaram por que eu nadava sem lenço na cabeça. Respondi que era problema meu, que elas não tinham de se meter. Disseram que era proibido, um tabu”. Não era exatamente um exagero das primas: segundo os costumes locais, mulheres que praticam esporte não são bem-vistas, e Sabah precisou abandonar as ondas. “Todo mundo tem um objetivo ou um sonho na vida. Sonho em viajar e em me tornar famosa em Gaza”, diz.

Para Ibrahim, o sonho já começou a se tornar realidade: Mickey o levou para o Havaí. “Só o fato de ter dado certo já é quase um pequeno milagre. Mas, quando chegamos, logo percebi que ele deve ter sofrido um choque cultural diante de tantos biquínis e lojas. O garoto nunca tinha visto nada parecido”, conta o diretor. “Essas impressões – as praias limpas, mas também lotadas, a natureza exuberante, uma sociedade multicultural – o fizeram refletir bastante.” Ibrahim ficou nos Estados Unidos para aprender inglês. “Até hoje ele fala de um dia fundar o Gaza Surf Club, mas ainda não quer voltar para casa. Se, e quando, isso vai mudar, depende, por um lado, das novas leis americanas para refugiados, mas, por outro, também da sua saudade.”

Créditos

Imagem principal: Niclas Reed Middleton

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