A pedido da Trip, um dos mais premiados jornalistas do Brasil, José Hamilton Ribeiro, dá um depoimento sobre Amaury Jr, com quem fundou o jornal Dia e Noite, em S. José do Rio Preto, nos anos 70

— “Venha. Sorria. Você está comigo!"

Toda vez que a gente se encontrava numa situação difícil — ou só desagradável — ouvi essa frase do Amaury. Com ele, é pra frente, sempre, mesmo que eventual e momentaneamente as circunstâncias não sejam favoráveis. Outra coisa de Amaury: ele é pessoa fácil de se amar. É pra cima, é up, é plus. E é muito amoroso, isso de dar beijo em homem, com toda força.

No auge da ditadura militar — aí 75, 76 — repórter praticamente não tinha o q fazer na grande imprensa, fosse jornal, revista ou televisão. A rapaziada se dispersou, uns foram para a clandestinidade (luta armada ou não), outros se entregaram à imprensa alternativa; terceiros se dispuseram a ir para o interior.

Já que, como jornalista, não dava para lidar com conteúdo, restava cuidar da forma, nem que fosse em pequenos jornais de Ribeirão Preto, por exemplo: reforma gráfica e editorial, implantação de computador para composição a frio, impressão off-set para aposentar a tecnologia do século 19 que ainda se usava em todos os jornais do interior de São Paulo.

Eu fui nessa. Assim, em 75, após reformar O Diário, eu estava lutando com o Diário da Manhã, os dois de Ribeirão, quando uma noite, quase terminando a hora do fechamento, a secretária veio dizer que o "Sr. Amaury", de São José do Rio Preto, estava me esperando já há quase duas horas. Assim que pude, fui vê-lo. Era uma simpatia só. Contou rapidamente sua história, e foi ao ponto: queria que eu deixasse Ribeirão Preto para ir com ele para sua cidade. Iríamos abrir ali, nós dois (mais um "sócio capitalista" ) um jornal moderníssimo que era para  fazer história em todo o Norte e o Noroeste de São Paulo.

— "Que idéia boa, Amaury! Pena que eu não posso ir: estou no meio de uma reforma no Diário da Manhã, preciso terminá-la.”

— "Isso eu arrumo, eu falo com o Luiz Antônio. Pode deixar comigo. Eu falo com ele de um jeito que ele vai querer ir também."

A resposta foi dar risada, afinal esse Luís Antônio, dono do DM, era usineiro, empresário forte, homem de metas e objetivos. Tinha uma idéia para seu jornal e contava comigo para realizá-la.

— "Obrigado Amaury pelo convite, mas é: não vai dar mesmo."

Era quase meia noite, e Amaury ainda tinha de voltar para Rio Preto, no mínimo duas horas de estrada. "Boa viagem, até um dia." Dois dias depois, minha mulher me liga e diz que vai passar o telefone para uma pessoa.

— "É o Amaury, Zé Hamilton. Estive aqui conversando com a Cecília, até já discutimos sobre escola para as crianças."

Daí em diante, duas, três vezes por semana, Amaury aparecia — em casa ou no jornal. Cada vez com uma idéia nova, um ângulo diferente do projeto, uma sugestão de nome para o futuro jornal. Vi que não era homem de aceitar um não e, mais, que seria um bom parceiro de trabalho. Resultado, ele falou mesmo com Luiz Antônio, que me liberou do compromisso e, com aprovação da família, vesti a idéia de fazer um jornal moderno em São José do Rio Preto, cidade que, naquela época, ainda tinha pistoleiros de aluguel para matar gente…

Assim como acontecera em Ribeirão Preto, o jornal de Rio Preto "com nome de borracharia", como diz o grande jornalista Ricardo Kostcho (ele se chamava "Dia e Noite") foi um choque positivo na combativa imprensa de lá. Teve edição que vendeu até em "xerox", após esgotar nas bancas. Vi então Amaury em ação, com traço q ele traz até hoje: é uma usina de idéias e um poço de energia inesgotável. Quando tudo em volta indica que algo vai dar errado, ele diz: -"Venha. Sorria. Você está comigo!"

Acabou que "Dia e Noite", sucesso editorial, não deu certo como empresa. O "sócio capitalista" mostrou-se mais sócio do que capitalista, faltou diante de compromissos que havia assumido, Amaury estressou, resolvemos - ele e eu - deixar o jornal. E deixar Rio Preto.

Viemos os dois (mais Ivaci Matias, também do "Dia e Noite") para São Paulo, com uma possibilidade de trabalho na TV Tupi onde acabamos os três contratados. Perguntei para Amaury se ia dar certo: -"Claro que vai dar certo. Sorria. Você está comigo!"

Assim como eu, Amaury ficou pouco na Tupi. Logo saiu para fazer, por sua conta, um programete de poucos minutos na madrugada, de nome "Flash", na fraca TV Gazeta. Agora se chama "Programa Amaury Jr", está com mais de 50 mil entrevistas, e fez de Amaury uma celebridade. Ninguém fará uma história bem feita da televisão no Brasil sem contar a história de Amaury Jr e do que faz uma pessoa que acredita em si e na vida.

Leia a entrevista de Amaury Jr nas páginas negras

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