por Ronaldo Lemos
Trip #203

Novo diretor do MIT Media Lab, de onde saiu o Guitar Hero, nunca terminou uma faculdade

Em um momento em que parte do poder norte-americano está se dissipando, um dos principais centros de onde ele emana permanece firme e forte: a universidade. Uma das razões para isso é sua capacidade de reinvenção. O que é visível na quantidade de pessoas que ficou de queixo caído com a nomeação do novo diretor do MIT Media Lab (o influente laboratório digital do Massachussetts Institute of Technology, criado por Nicholas Negroponte). O novo diretor é ninguém menos do que Joi Ito, empreendedor japonês que nunca chegou a terminar a universidade. Apesar dessa aparente “falha”, ele é a pessoa certa para o Media Lab, uma instituição que tem por missão pensar o futuro através da tecnologia. Para se ter uma ideia, foi de lá que saíram os leitores de livros digitais (como o Kindle) e videogames como o Guitar Hero.

Joi Ito não é um estranho ao mundo acadêmico. Chegou a se matricular em ciência da computação e em física na universidade de Chicago, mas desistiu dos cursos. Achou que eram excessivamente voltados para “dentro”, exageravam na técnica e deixavam de lado a intuição, que para ele era mais importante.

Tive a sorte de conhecer Joi quando ele se tornou o diretor-executivo do Creative Commons em 2005. Em 2008 passei uma noite interessante com ele em Sapporo, no Japão. Participei de um jantar em que dois empreendedores franceses tentavam convencê-lo a investir na sua empresa. Um investimento dele é um cartão de visitas para qualquer start-up, especialmente pela reputação de ter apostado em empresas como Twitter, Flickr e Last.fm quando estavam só no começo.

Em essência, Joi é um grande mentor, inclusive para as empresas em que investe. Só que jamais assume esse papel. Cabe a quem está próximo dele aprender ou não. Lição que deve ter herdado de Timothy Leary, que o considerava como discípulo (ou “neto”, nas palavras dele). Joi faz parte de uma geração de pensadores comprometidos com a ação e que sabem que a educação deve ultrapassar as fronteiras do mundo acadêmico. Faz lembrar precursores como Faraday, pai do eletromagnetismo, que não teve quase nenhuma educação formal. Ou Marshall Mcluhan, que nos anos 60 dizia que a academia estava excessivamente presa ao texto, enquanto o mundo é tomado por outras mídias deixadas de lado no processo educacional (o que ele pensaria hoje?).

“Radical, mas brilhante”

Levar a educação para além do texto será certamente um dos passos do novo Media Lab, especialmente considerando o perfil multimídia de Joi. Ele já apresentou um programa de televisão, foi DJ em Chicago, dono de um bar no Japão, fotógrafo, jogador renomado de games (como o World of Warcraft), conselheiro de eventos de arte e tecnologia e assim por diante. E é claro, escreveu também artigos e editou alguns livros. Mas para entender sua “obra” é preciso olhar para todas as dimensões da sua vida, porque só aí ela se manifesta por completo.

Um concorrente do MIT chamou a escolha de Joi para o MediaLab de “radical, mas brilhante”. O “radical” está em deslocar a academia americana da sua zona de conforto, desafiando-a a olhar para fora, para o mundo. E o “brilhante” está no exemplo e em todas as possibilidades que isso pode trazer.

*Ronaldo Lemos, 34, é diretor do Centro de Tecnologia da FGV-RJ e fundador do site www.overmundo.com.br. Seu e-mail é rlemos@trip.com.br

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