por Redação
Trip #189

Com mais de 20 anos de carreira, ele se tornou o mais destacado shaper brasileiro

Johnny Cabianca ralou... lixou... e moldou muita fibra de vidro. Com mais de 20 anos de carreira, ele se tornou o mais destacado shaper brasileiro e o artesão das pranchas preferidas de surfistas como Gabriel Medina e Mark Richards

Quando viu gigantescas pilhas de poliuretano em um depósito, Johnny Cabianca teve uma revelação. Soube que era ali, entre fibra de vidro e uma babel de gente (havaianos, sul-africanos, americanos, australianos, ingleses...), que iria amarrar seu burro. Há tempos ele já havia decidido ser shaper, e agora estava certo de que aquela fábrica, a Pukas, no País Basco, era o seu lugar. Dito e feito. Há dez anos na Europa, ele é o coordenador da produção de mais de 6 mil pranchas por ali.

O que mais impressiona no currículo de Johnny, contudo, é sua carta de clientes e fãs. Começou a carreira no Brasil, nos anos 80. Mas foi logo aconselhado por bons professores como Xanadu, o shaper que foi direto ao ponto: “Você está no caminho certo, mas tem que sair do país”. Xanadu talvez tenha sido o primeiro brasileiro a assumir um posto definitivo na vanguarda do design de pranchas mundo afora. E sabia que o Brasil estava pequeno para Cabianca.

De lá pra cá ele rodou e, graças a seu perfeccionismo, trombou com shapers lendários. Estava na Espanha quando um cara apareceu. Era Jeff Bushman, velho amigo, mestre em fabricação de pranchas, que foi visitá-lo de surpresa. Chegou a Santa Cruz e causou um caos, famoso que era entre a comunidade de surfistas portugueses.

Foi dessa vez que Mr. Bushman perguntou: “Johnny! O que você, com seu know-how, está fazendo neste lugar? Vamos comigo para o Havaí que eu tô precisando de ajuda”. E foi lá que sua reputação ganhou outro patamar.

Família de dentistas

Wade Tokoro, talvez o shaper mais procurado pela nova geração, diz o que pensa de Cabianca: “Johnny é um grande amigo e shaper. Trabalhamos juntos na Pukas há anos e ele me ensina bastante, trabalhamos o dia inteiro e depois vamos surfar...”. Pat Rawson, outro grande nome havaiano, faz questão de que suas pranchas sejam manuseadas apenas por Cabianca. “Johnny é extremamente apaixonado pelo surf e pela sua profissão. Só posso esperar que ele continue crescendo e que seu nome venha a ser cada vez mais conhecido na Europa, no Brasil e no resto do mundo.”

O cartel segue... Durante uma volta pela França, o lendário surfista e shaper Mark Richards, inventor das biquilhas e tetracampeão mundial, contou que entrou numa loja onde havia uma série de pranchas suas à venda e que teve dificuldade em diferenciar sua próprias pranchas e as produzidas por Johnny. “Ele tem shapeado minhas pranchas na Pukas nos últimos anos a partir de programas de computador. É um excelente shaper, muito meticuloso”, comenta Richards.

Por todos os lugares que passou ao redor do mundo, Cabianca deu aulas de laminação ou de qualquer processo da arte de fazer pranchas, como diferentes misturas para todos os tipos de resina, além de exibir habilidade manual rara, ser superdetalhista e perfeccionista, talvez herança do desenho industrial que cursou na Faap ou da família com tradição na odontologia.

Voa, Medina
Em 2009, o garoto Gabriel Medina chegou sem pranchas à Europa. Em pouco mais de 24 horas Cabianca produziu na Pukas algumas tablas sozinho, do início ao fim, e foi ali que a história tomou um caminho diferente. Medina ultrapassou alguns limites e com apenas 15 anos surpreendeu a todos com seus resultados, incluindo o mundial sub-18, e acima de tudo com uma performance dentro e fora dos campeonatos equiparada ao que há de melhor no surf moderno. Um dia no mar, Gabriel dizia: “ Agora vou dar um aéreo igual ao do Clay Marzo, mas com uma variação que ainda ninguém fez”. E voava mais rápido, mais radical. Na sequência apostava realizar outra façanha freak com outro surfista. Ganhava todas. Gabriel conta que “as pranchas do Johnny são ótimas para dar aéreos, com bastante drive e linha, uma prancha que é solta, mas não é boba. Com elas já tirei cinco notas dez”.

Ano retrasado fez a famosa 12’6” para Asier Muniain, que acabou em terceiro lugar no Billabong (campeonato de ondas grandes na remada). Um bloco de poliuretano com um pé colado no nose e outro no tail, curvas criadas à moda antiga. Com varetinhas pregadas sobre uma cartolina para montar o “out-line”, a obra-prima para big riders foi feita 100% à mão. Agora, com reputação pra lá de consolidada, a cabeça de Cabianca não vê muitos limites. Por exemplo, agora tem o projeto de pranchas com luzes embutidas, as “colourful lightboards”, que podem ser vistas no YouTube, em vídeo feito com o surfista Pascal Schneider.

Depois de mais de 25 anos de shapes e ondas, Johnny segue em sua babel de poliuretano, provando que, assim como o surf e o alto circuito das ondas, o talento verdadeiro não cabe em um país.

 

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