por Ricardo Calil
Trip #237

Carlos Imperial: Rei da Pilantragem, o cafajeste consumado da televisão brasileira

Em 1967, Chico Buarque e Caetano Veloso costumavam se enfrentar no programa Esta noite se improvisa, uma gincana da TV Record em que os concorrentes precisavam cantar uma música que tivesse em sua letra uma palavra proposta pelo apresentador. Adorados pelo público, Chico e Caetano se revezavam nas vitórias, até que um dia apareceu um concorrente de peso: o ogro Carlos Imperial. Gordo, barba malfeita, camisas espalhafatosas, andar de malandro, ele também sabia tudo de música, mas estava mais interessado em avacalhar. Quando o maestro Caçulinha começava a tocar uma música, ele logo interrompia: “Tá uma droga! Você não toca nada!”. O auditório vaiava, ele respondia com beijos irônicos. Até que um dia soltou a frase: “Eu prefi ro ser vaiado no meu Mercury Cougar do que aplaudido num ônibus”.

Nunca houve um homem de TV no Brasil como Carlos Imperial (1935-1992). Houve maiores e melhores, como Chacrinha e Silvio Santos. Mas igual, nunca. Apresentador, diretor, produtor, jurado, descobridor de talentos, compositor de sucessos (“A praça”, “Vem quente que eu estou fervendo”, “Mamãe passou açúcar em mim”), ator, cineasta, dirigente de futebol e político, Imperial é figura essencial da cultura pop brasileira, mas sua importância é pouco reconhecida. Algo que, espera-se, será em parte revertido com o lançamento em 2015 do documentário Eu sou Carlos Imperial, dirigido por Renato Terra e por este escriba (a mesma dupla de Uma noite em 67), e com o relançamento da biografia Dez! Nota dez!, de Denilson Monteiro, pela editora Planeta.

Imperial mostrou a cara na TV pela primeira vez em 1956 como apresentador do quadro “Clube do rock”. Marqueteiro, ele lançou Roberto Carlos (“o Elvis Presley brasileiro!”), Tim Maia (“o Little Richard brasileiro!”) e Wilson Simonal (“o Harry Belafonte brasileiro!”). Vários programas depois e três décadas mais tarde, Imperial foi importantíssimo para outro movimento: a discotheque – base do programa Embalos de sábado à noite, exibido na Tupi e na TVS entre 1978 e 1979. Ali orientou a carreira da jovem Gretchen e lançou Dudu França com a clássica “Grilo na cuca”. Mas a descoberta de um esquema inventado por Imperial para fraudar o Ibope obrigou Silvio Santos a tirar o programa do ar. Final triste, mas condizente com o maior cafajeste que a TV brasileira já conheceu, aquele que dizia que “só a vaia consagra o artista”.

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