por Alexandra Dinter
Trip #264

Livro escrito pelo americano Paul d’Orléans lança luz à complicada história da arte popular americana em torno da motocicleta

A cena é um clássico do cinema. La Contenta Bar. Uma placa pintada à mão promete "liquors, beer and wines”. Sob a torrente de palavras em espanhol do vendedor, dois rapazes testam a mercadoria que lhes é oferecida em meio a um ferro-velho. Guardam o pó branco na bateria de suas motos e, pouco depois, fecham um lucrativo negócio na rota de uma barulhenta pista de aviões. Começa a música. O som da guitarra faz reviver um espírito que o filme consegue carregar em seus 95 minutos de duração e também em sua longa história de sucesso, desde a estreia em Cannes, em 1969, até hoje. Jaquetas de couro e botas. Ruas vazias e empoeiradas. Drogas. Notas de dólar sendo inseridas no tanque de uma máquina peculiar com pintura chamativa. Um relógio de pulso – símbolo do mundo conformado – indo parar no lixo e os dois rebeldes com cabelos ao vento, dirigindo suas motos ao som de Born to be wild, hino da banda Steppenwolf, rumo ao horizonte.

Sem destino foi o maior sucesso dos protagonistas Peter Fonda e Dennis Hopper (também diretor do longa), bem como o início da carreira do grandioso Jack Nicholson. A verdadeira estrela do filme, porém, com toda a certeza, é a moto Captain America, decorada com a bandeira dos Estados Unidos e pilotada pelo personagem de Fonda, Wyatt. “É a motocicleta mais famosa do mundo. E ponto final!” Eis a opinião técnica de Paul d’Orléans, o jornalista americano que encarou o trabalho hercúleo de narrar a história de um fenômeno cultural. Naturalmente, o resultado só poderia ser de peso: The chopper: the real story [A verdadeira história da chopper, sem edição em português], livro com 256 páginas em grande formato. Como não podia deixar de ser, na capa se destaca a traseira da cultuada moto. É possível reconhecer, observando com atenção, o autógrafo de Peter Fonda no tanque.

Quem quiser saber mais dos bastidores, das filmagens e do surgimento da Captain America, ou sobre os anseios típicos que esse "talismã mágico da liberdade” desencadeia, vai se deliciar com o quinto capítulo de The chopper. Mas seria uma pena começar por ali e deixar de lado as páginas anteriores. A história pesquisada por Paul d’Orléans apresenta a chopper como um “passageiro clandestino da cultura dominante nos Estados Unidos” e a acompanha em sua longa trajetória. Trata do surgimento e da evolução, da puberdade e dos anos de andanças pelo mundo, da fama e do renascimento. Começa nos primórdios, quando as motocicletas do final do século 19 eram montadas da maneira mais inusitada, a partir da estrutura de antigas bicicletas e caldeiras a vapor, e arrebentavam o traseiro de seus condutores em acidentes brutais. O autor dedica a esses mecânicos pioneiros um respeitoso necrológico: “Os motociclistas de hoje gostam de cultivar uma imagem de durões, mas esses senhores de bigode, golas engomadas e gravatas borboleta, montados em suas antigas motocicletas desajeitadas, é que eram duros na queda”.

O copo e o porquê

O retorno ao século 19 demonstra o desejo de Orléans de contar a história do ícone americano de duas rodas de maneira abrangente, mas sem parecer demasiado didático. Não se trata de um livro científico, e sim de “uma tentativa de lançar luz à complicada história da arte popular americana em torno da chopper”. Orléans não deixa ninguém de fora: nem os mestres das bancadas de trabalho, nem os visionários da mecânica, tampouco os deuses da era da customização. “Dentre centenas de soluções técnicas possíveis para deixar uma motocicleta mais leve, mais rápida, mais ágil ou simplesmente mais radical, saber selecionar aquela que também é a mais bonita é a arte dos verdadeiros mestres, por quem demonstramos nossa imensa admiração”, diz.

No entanto, os verdadeiros heróis das chopper são em geral desconhecidos. A imagem de motociclistas excepcionais, que há décadas se formou na cabeça das pessoas, foi influenciada pelos inúmeros road movies da indústria cinematográfica. Antes de o mito hippie conquistar o mundo, “o selvagem” interpretado por Marlon Brando foi a versão hollywoodiana de alguém que era “1% motociclista”. Um valentão. “Durante décadas, era assim que se apresentava o típico motociclista ao público: um perturbador da ordem, cheio de problemas e que arranjava confusão em cidadezinhas tranquilas.”

 As imagens são e permanecem fortes: todas as noites, jovens mães suspiram pelos foras da lei de cabelos compridos, coletes de couro e motocicletas potentes; executivos ingênuos compram Harleys pesadas demais para percorrer 2 quilômetros e meio até seu trabalho, pois estão entre os fãs da série Sons of anarchy e aspiram ao sonho de liberdade propagandeado por Hollywood. Outros lembram da cena com Butch, ou melhor, Bruce Willis, e sua amiga Fabienne, no clássico Pulp fiction, de Quentin Tarantino. “Onde você arrumou essa moto?” “Isso não é uma moto, baby, é uma chopper.”

Raramente alguém pensa em perguntar sobre quem, de fato, construiu a máquina. O como e o porquê da chopper é o que Orléans conta nessa obra monumental. E se termos como “sissy bar” e “bob job” provocam um desorientado levantar de ombros, o glossário fornece as respostas. Quem acha que ler dá muito trabalho também pode se dedicar tranquilamente às inúmeras fotografias históricas e contemporâneas e folhear o volume como um grande livro ilustrado. “A origem da chopper não foi suficientemente documentada e remonta aos primórdios da motocicleta, ou seja, quase cem anos atrás; por isso, fazer essa pesquisa foi tão emocionante quanto desafiador", diz o autor. Os fãs agradecem.

O que é uma chopper?

Um trecho do glossário

Originariamente, recortava-se e tornava-se a soldar o quadro das motocicletas a fim de alterar a inclinação da haste de direção e, por consequência, o ângulo do garfo dianteiro [daí vem chopper, de chop, cortar em inglês]. Desse modo, também se alterava a posição do motociclista no assento, que de ereto passou a ficar estendido. Algumas características fazem de uma motocicleta uma chopper: apehangers [guidons altos], sissy bars [encosto traseiro], tanque de gasolina pequeno, pinturas chamativas. A chopper pode ou não ter todas essas características, mas, em todo caso, o normal é que disponha de um garfo dianteiro alterado e mais alongado.

*tradução de Karina Jannini

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