por Nathalia Zaccaro
Trip #267

Sabe aquela sensação boa de desapegar da noção de tempo – e de todos os problemas que pesam sobre nossas cabeças – e ter a certeza de que está fazendo o que nasceu pra fazer? Então, isso é flow

Entre a ansiedade e o tédio. É nes­sa zona que podemos encontrar uma forma de felicidade: o flow. Desde os anos 60, o psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi (se quiser arriscar, pronuncie “txicsentmirrái”) estuda esse estado mental que acontece quando estamos totalmente envolvidos em uma atividade. São aqueles momentos em que todo o resto do mundo desaparece e viver se resume ao momento presente.

Sabe aquela sensação boa de desapegar da noção de tempo – e de todos os problemas que pesam sobre nossas cabeças – e ter a certeza de que está fazendo o que nasceu pra fazer? Então, isso é flow. É como se a gente se desligasse da nossa consciência. Executar a ação que nos leva ao flow se torna tão natural quanto pensar ou sentir. “Pode parecer exagero, mas quando você está realmente envolvido nesse processo completamente arrebatador não há sobra suficiente de atenção para monitorar como seu corpo se sente – não se sente nem mesmo fome ou cansaço. Sua identidade desaparece”, diz Csikszentmihalyi em uma palestra para o TED, em 2004.

Para essa catarse toda rolar precisamos encarar alguma forma de desafio. Mas um desafio que esteja alinhado com nossas habilidades. Se for muita moleza – tipo 
balançar em uma rede olhando para o mar –, 
pode até ser uma delícia, mas não é flow. Tarefas impossíveis, ou que simplesmente não são a sua praia, podem ensinar alguma coisa, mas também não são flow. O flow surge de algo que parece difícil, mas que você sabe que tem moral para dar conta. Sentimos que estamos elevando nossas habilidades ao máximo. E aí voltamos para a zona feliz entre a ansiedade e o tédio.

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Em um mundo ideal, encontraríamos esse misto de desafio e prazer em nossos ambientes de trabalho. O flow se tornou uma palavra de ordem para coachings que tentam fazer com que funcionários entrem nesse transe de produtividade. Não é impossível – surfistas e maestros, por exemplo, são casos clássicos de quem consegue trabalhar em flow –, mas não é a realidade da maioria dos brasileiros. Pelo contrário.

“É cada vez mais comum trabalhadores com concentração reduzida, desmotivados, e isso é uma consequência das dinâmicas de trabalho opressoras com as quais nos acostumamos – quanto mais rígido é o esquema, maiores as chances de funcionários presenteístas”, conta Rose Helen, pesquisadora da PUC de Goiás. Rose estuda o presenteísmo, tese que reflete sobre os momentos em que estamos apenas de corpo presente em algum lugar, mas com engajamento 
quase zero no que fazemos. É um antiflow. “A crise política e econômica que o Brasil enfrenta só piora a situação. Com medo de perderem o emprego, funcionários renegam suas necessidades emocionais e físicas. Mas a verdade é que sem respeito ao próprio corpo não existe possibilidade de produtividade”, explica Rose.

Alcançar imersão profunda no trabalho, muitas vezes, é missão tão impossível que o flow se torna uma miragem. Mas, quando pensamos em engajamento, existe um ambiente em que, cada vez mais, nos deixamos envolver por seus desafios e prazeres: a internet. Em média, o brasileiro passa cinco horas e 12 minutos por dia on-line em computadores e quase quatro horas em dispositivos móveis, segundo pesquisa realizada em 2015 pela agência de marketing We Are Social. “Em busca de algum tipo de informação, é comum mergulharmos em investigações infinitas na web. Quanto mais percebemos a imensidão de possibilidades, mais nos sentimos desafiados. Durante o processo, a sensação de estar desbravando esse universo traz prazer”, explica Alberto Albertin, coordenador do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Fudação Getúlio Vargas (FGV). É um cenário perfeito para atingirmos o flow. “A internet por si só não é uma geradora de flow, mas pode ser uma ferramenta eficiente para algumas pessoas alcançarem o estado”, pondera a psicóloga Renata Livramento, presidente do Instituto Brasileiro de Psicologia Positiva, que investiga os caminhos para a felicidade.

CURTE AÍ

Uma pesquisa realizada em 2013 pela Universidade de San Diego, na Califórnia, concluiu que o conceito de Csikszentmihalyi está intimamente relacionado com a maneira intensa como interagimos com as redes sociais. “Plataformas como o Facebook são pensadas para estimular sensações que nos levam ao flow. O feedback positivo, que vem em forma de curtidas, é um bom exemplo. Quantas vezes não entramos para checar alguma coisa e, horas depois, nos damos conta de que o tempo passou? É uma experiência muito imersiva”, explica a canadense Tara Hunt, autora do livro O poder das redes sociais (ed. Gente), lançado no Brasil em 2010. Segundo Tara, nem mesmo o hábito de checar muitas coisas em vez de dedicar atenção exclusiva a algo, situação bem comum nas redes sociais, impede a sensação de concentração total. “O multitasking é uma forma de flow. É desafiador e recompensador perceber que conseguimos manejar muitas coisas ao mesmo tempo”, ela afirma. 

Nessa equação entre flow e tecnologia, poucas experiências têm caráter tão imersivo quanto os games. E não é à toa. “A teoria de Csikszentmihalyi influencia o desenvolvimento dos jogos desde o momento da criação do conceito. O objetivo sempre é encontrar o equilíbrio no nível de desafio que oferecemos ao jogador”, explica o desenvolvedor de games Bruno Carvalho, do estúdio brasileiro QUByte Interactive, que já estudava as ideias do húngaro desde os tempos de universitário, no curso de ciências da computação. Quando é bem feito, ou seja, desafia e recompensa na medida certa, um game é capaz de fazer com que você esqueça sua identidade e se entregue à experiência que está sendo proposta. É flow na certa.

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Foi essa sensação que mudou a vida de Paulo Henrique Machado. “Quando estou jogando, é como se fosse outra encarnação, esqueço o mundo real, meio que me transformo no avatar do game”, explica. Com pouco mais de 1 ano de vida, Paulo foi diagnosticado com paralisia infantil e, desde então, vive em um quarto no Hospital das Clínicas, em São Paulo. A doença atingiu o sistema respiratório de Paulo, que também perdeu o movimento das pernas. Aos 49 anos, ele conclui: “Jogar me transporta para outro mundo, enfrento desafios, conquisto objetivos. São coisas que eu não teria condições de experimentar sozinho. Tecnologia pra mim é um estilo de vida”.

É compreensível, e até esperado, que a sensação boa do flow inspire o retorno à atividade que a gerou. Mas do contraste entre um mundo real cada vez mais instável, líquido, em que nos sentimos despreparados, e um mundo previsível na medida certa e onde nos sentimos amplamente competentes emerge (dado certo conjunto de variáveis existenciais) uma situação em que o vício em games se torna bastante possível. “O flow por si só não gera vício, mas o ser humano é escapista e o game é um caminho eficaz para a fuga da realidade”, analisa o professor Sergio Basbaum, da disciplina Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC de São Paulo. “Saúde psíquica é um desafio na sociedade em que vivemos, onde toda a economia é baseada no consumo, e, portanto, em gerar necessidades que não existem para suprir aquelas que existem.”

FORA DE CONTROLE

Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia e Informática da PUC, atende diariamente pessoas viciadas em tecnologia que buscam uma saída para o uso excessivo de games, redes sociais, pornografia on-line e outras atividades. “Quando a situação sai do controle, o volume de perdas que é reflexo do abuso da tecnologia começa a deixar claro que algo está errado. Distanciamento de amigos e família, problemas com trabalho e estudo e uma sensação de que só na internet é possível encontrar acolhimento são sintomas comuns em quem busca ajuda”, explica Luciana.

O jornalista Pedro Burgos, autor do livro Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável (ed. Leya), publicado em 2014, aprendeu a observar com mais atenção os limites entre a vida digital e a presencial. “Para mim é tipo a batalha de quem tem tendência a engordar, mas quer emagrecer. Preciso de ferramentas de vigilância que me obriguem a desconectar”, conta Pedro. No auge de sua fase hiperconectada, ele gastava boa parte do seu dia envolvido em discussões on-line, na expectativa de ter seus posts e publicações lidos e curtidos pela comunidade virtual. “A gente escolhe, inconscientemente, ser interrompido o tempo todo pela internet porque isso nos traz uma sensação de importância, mas percebi que eu estava perdendo a capacidade de me concentrar em outras atividades, vivia estressado, não conseguia cumprir tarefas que exigiam minha criatividade”, conta.

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O sentimento incômodo de Pedro prova o que Csikszentmihalyi já sabia: não é a natureza da atividade que garante o flow, mas sim a maneira como nos engajamos com ela. Se os games foram uma estratégia perfeita para que Paulo Henrique pudesse explorar suas próprias perspectivas, em outros casos a tecnologia age como uma prisão que nos afasta de possibilidades. Existem várias maneiras de lidar com a realidade – a internet é uma delas, mas não dá para depositar no universo digital toda nossa expectativa por felicidade. Longe, mas nem tanto, das redes sociais, Pedro reflete: “Agora consigo encontrar esse sentimento de flow fazendo coisas que significam mais pra mim, conviver com outras pessoas e me conectar mais comigo”.

Procurar o flow, ou outras formas de felicidade, é uma das forças que nos movem adiante. Estamos sempre tentando encontrar caminhos para o bem-estar. “Infelizmente, a experiência de muitas pessoas se limita à apatia: você não se vê fazendo qualquer coisa, não usa suas habilidades, não há desafio”, explica Csikszentmihalyi sobre o estado diametralmente oposto ao flow. É como estar off-line da própria existência. Mais do que a obrigação de sermos campeões em qualquer coisa, o que podemos absorver do conceito de flow é que investir nossas energias em participar ativamente da sociedade – e de nossas vidas – é um esforço incrivelmente recompensador e um dos muitos caminhos possíveis para estarmos presentes, e felizes, no mundo.

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