por Nathalia Zaccaro

Companhia de dança e trio paulista mergulham no universo dos orixás em espetáculo que celebra Exu

Thiago França, saxofonista do trio Metá Metá, checava seus e-mails quando estranhou uma mensagem com o assunto “Grupo Corpo”. “Sou de Belo Horizonte e tenho orgulho de ser conterrâneo deles, sempre fui fã”, diz França, sobre uma das principais companhias de dança do país. A mensagem não era um spam, como ele acreditou a princípio. Paulo e Rodrigo Pederneiras, fundadores do grupo, estavam convidando o Metá Metá para compor a trilha de seu próximo espetáculo. “Queremos sempre trabalhar com o que está acontecendo de mais forte na música e quando ouvi Metá Metá pela primeira vez, há pouco mais de um ano, fiquei encantado”, lembra Paulo.

O tema da coreografia, batizada de Gira, foi sugestão do trio musical. “Exu é o orixá mais próximo do nosso plano, dono do corpo, da dança, do movimento. Achamos que caiu como luva”, explica França. O Grupo Corpo nunca havia se aproximado das religiões de matriz africana em seus espetáculos. “Foi uma novidade pra nós, um tema riquíssimo com o qual não tínhamos contato nenhum. Fomos pesquisar a complexidade dessa história, visitamos terreiros e descobrimos um ambiente maravilhoso, humano e vivo que enfrenta inúmeros estigmas”, conta Paulo. O resultado desse encontro estreia nos palcos dia 4 de agosto, em temporada que segue até dia 13, de quarta a domingo, no Teatro Alfa, em São Paulo.

Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França se aliaram a Sergio Machado e Marcelo Cabral na produção da trilha de Gira. “O tempo é diferente. Pra uma canção, quatro compassos é o suficiente pra servir de introdução, enquanto pra dança é pouco, mal dá pra concluir um movimento. A música não é protagonista, serve de fio condutor, uma base para os movimentos. O processo foi um grande desafio”, explica França. Duas participações especiais completam o trabalho: o poeta Nuno Ramos assina uma das letras e a voz ancestral de Elza Soares entoa em duas outras faixas.

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A cenografia pensada por Rodrigo Pederneiras representa os terreiros por meio de um quadrado negro intensamente iluminado. Os bailarinos estarão nas laterais e no fundo do palco, em cadeiras alinhadas. Uma luz tênue vai iluminar cada cadeira indicando uma presença espiritual. “Cada pessoa tem sua própria leitura do espetáculo e, na minha visão, a função da arte é fazer as perguntas e não entregar as respostas”, reflete Paulo.  

 Outra novidade do Grupo Corpo é que todas as trilhas encomendadas pela companhia desde 1992 estão disponíveis em plataformas digitais desde o último dia 7 de julho. Caetano Veloso, Tom Zé, Lenine e João Bosco são alguns dos compositores que já produziram músicas para o grupo. As canções assinadas pelo Metá Metá devem estar acessíveis até o fim do ano. Sobre a possibilidade de apresentações ao vivo das composições, Thiago França responde: “Se tratando de Exu, tudo é possível”. Preparamos uma playlist a partir desse repertório. Clica aí e curte o som da dança.

 

 

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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