por Gui Odri

Viciado nas magrelas, o blogueiro Willian Cruz ensina como deixar de ser carrodependente

No último sábado de outubro, Willian Cruz casou-se com Priscila Teixeira no cartório do Jabaquara, em São Paulo. A cerimônia, no entanto, foi fora dos padrões. Os noivos e convidados encontraram-se na Praça do Ciclista, na Consolação, e pedalaram pela avenida mais famosa da cidade, a Paulista, seguindo pela cidade até o local do matrimônio. Como se vê, Cruz é biker até debaixo d'água. Ele conversou com a Trip.

Por que resolveu casar sobre duas rodas?
Eu uso a bicicleta como meio de transporte já faz uns seis anos. Vou ao trabalho, ao shopping, ao restaurante, até visito clientes. A Priscila sai de bicicleta comigo quando vamos jantar fora, ao cinema, ao parque. Ela está começando, mas tem gostado bastante. Então resolvemos mostrar que dá mesmo pra fazer tudo de bicicleta: até casar. Nada da noiva chegar de limusine, nada de gastar uma grana alugando um carro antigo, não queríamos esse estereótipo que não tem nada a ver conosco. Dessa vez a noiva chegou em uma bicicleta florida, o que, convenhamos, é muito mais feminino e muito mais bonito, não é?

Quem teve a idéia?
A noiva! Eu tinha comentado que tinha vontade de ir de bicicleta, mas não imaginava que ela iria topar, muito menos pedalar também. Mas foi ela quem sugeriu de pedalarmos até o cartório. Eu, claro, adorei a idéia! Como temos muitos amigos que pedalam e outros tantos que têm vontade mas não coragem, vi uma oportunidade de convidar todo mundo. Pensei: já que estamos fazendo no meio da rua e a rua é de todos, vamos fazer um convite aberto, chamar quem quiser vir e transformar tudo em uma grande festa a céu aberto. Apareceu gente acompanhando que eu não conhecia, teve gente que estava pedalando na rua e se juntou ao grupo no caminho. Foi uma retomada do espaço público para sua função mais nobre, a do convívio entre as pessoas.

"pensei: se eu for de ônibus, vai demorar bastante; se eu for de táxi, gasto demais. Por que não ir de bicicleta? Eu achei que ia chegar lá xingando, mas passei o dia no maior bom humor"

Quando começou a andar de bicicleta?
Quando criança e adolescente, eu andava bastante de bicicleta. Tive uma estilo BMX, depois uma Caloi 10. Com a Caloi 10 eu ia mais longe, pedalava em avenidas, ia até a escola. Mas como todo adolescente influenciado pela publicidade e pelas pessoas ao redor, não via a hora de poder dirigir. Quando fiz 18 anos, abandonei a bicicleta e passei a fazer tudo de carro. Me tornei carrodependente. Numa manhã de 2003, quando eu ia para o trabalho, meu carro deu problema e precisei deixar para consertar na esquina de casa. Estava garoando, o trânsito estava péssimo. Então pensei: se eu for de ônibus, vai demorar bastante; se eu for de táxi, gasto demais. Por que não ir de bicicleta? Eu achei que ia chegar lá xingando, mas passei o dia no maior bom humor.Depois dessa primeira incursão, mitos desabaram. Vi que só era preciso ter vontade e vencer os preconceitos. Transformei uma hora de irritação em meia hora de diversão. Isso vicia.

A bicicleta é um meio de transporte seguro?
Claro que sim! Perigosos são os carros. Se quem mata são os carros, por que dizer que a bicicleta é que é perigosa?  Precisamos é de respeito, precisamos que as pessoas dentro dos carros percebam que a bicicleta que está à frente não é um obstáculo, mas sim uma vida equilibrada em duas rodas. Às vezes quem está no carro chega perto do ciclista já irritado por causa de todo o congestionamento que pegou até ali, que é resultado do excesso de carros nas ruas, e quando vê a bicicleta acha, naquele instante, que não vai conseguir chegar logo porque aquela bicicleta está devagar. Pô, mas e todos os outros carros que estavam na frente dele até agora e tantos outros que também estarão dali até o final do trajeto? E o que precisamos para resolver isso não são ciclovias na cidade toda, mesmo porque isso é impossível. Precisamos com urgência de uma campanha da prefeitura para legitimar a presença da bicicleta na rua, para explicar às pessoas que o ciclista tem direito de estar ali, que tirar uma fina ou dar uma fechada são equivalentes a tentativas de assassinato, mesmo que quem está no carro não se dê conta disso. E se o carro é um risco à vida, as grandes avenidas, por consequência, também não são seguras. Mas poderiam, e deveriam, ser. Reduzir a velocidade máxima nas avenidas e aumentar a fiscalização de velocidade também ajudaria bastante.

"muitas pessoas se tornaram carrodependentes (...).Ficam com um bloqueio psicológico que as impede de andarem três quadras para chegar na padaria"

Qual a importância das bicicletas hoje em São Paulo - e nas grandes metrópoles?
Algo precisa ser feito para reverter o uso excessivo do automóvel. Estimuladas por uma cidade projetada para os carros e por uma sociedade que as convence de que seu maior sonho é ter um carro, muitas pessoas se tornaram carrodependentes, só conseguem circular pela cidade dentro de um automóvel. Ficam com um bloqueio psicológico que as impede de andarem três quadras para chegar na padaria. Para que a bicicleta ajude a reverter esse quadro, seu uso deve se tornar atraente. De certa forma ele já é, pois há várias vantagens em utilizar a bicicleta. Mas as principais são liberdade e alegria, coisas que não dá para medir, só sentir, mas como são muito abstratas e subjetivas, são difíceis de explicar e de convencer as pessoas sobre elas. Fica com cara de pregação religiosa. A bicicleta não é a solução messiânica para o caos motorizado da nossa sociedade, mas é parte do que precisa ser feito para reverter esse quadro grave de uso excessivo e dependência do automóvel. A bicicleta contribui para uma cidade mais humana, mais segura e mais saudável.

Você tem um blog, o “Vá de Bike!”. Fale um pouco sobre ele
Se você olhar os posts mais antigos, lá de 2002, poucos tinham a ver com a bicicleta e o nome do blog nem era esse. Então, em 2004, eu escrevi o texto que seria o mais acessado do site até hoje, entitulado "como sobreviver ao trânsito". Daí para frente, o site tomou outro formato e o ponto principal passou a ser dicas para quem começava a usar a bicicleta, baseadas na experiência que eu começava a acumular. Meu principal objetivo é mostrar que andar de bicicleta pode ser viável, ajudar as pessoas a vencerem essa barreira psicológica e fazerem isso de forma segura, sem se colocar em risco.

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