por Piti Vieira
Trip #259

Claudinha Gonçalves já tentou esconder sua beleza. Hoje, depois de rever valores e a rotina robótica em campeonatos, ela quer espalhar a ideia de que surf é libertador

Claudinha Gonçalves, 31 anos, quer deixar um legado. Ela é uma das surfistas mais vitoriosas do Brasil e pretende ajudar outras mulheres a se darem bem, assim como ela, no esporte que tanto ama e para o qual dedicou sua vida. Natural do Guarujá (SP), ela se mudou com a família para a praia do Francês (AL) quando tinha 5 anos. Seu pai, que sempre pegou onda, largou a carreira de piloto comercial de avião e abriu uma pousada nesse pedaço de paraíso a poucos quilômetros de Maceió. "Na época, ainda era uma vilinha de pescadores, parecia o Caribe, mas com uma diferença: recebe a mesma ondulação de Fernando de Noronha – uma onda bem tubular em bancada de areia. A única coisa que tinha para fazer era brincar com a natureza", conta ela. Foi nesse ambiente meio Lagoa azul, como ela gosta de dizer, que Claudinha cresceu e aprendeu a surfar – dali só saía com o irmão mais velho para ir para a escola na capital.

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Quase dez anos após a mudança, aos 14, ela se inscreveu em um campeonato de surf só para meninas no Guarujá, onde sempre passava as férias na casa da avó. Finalista da competição, recebeu uma proposta de patrocínio para correr o circuito nacional. Maravilhada com a possibilidade de viver do surf e aperfeiçoar sua técnica, a adolescente decidiu que era hora de regressar para a cidade litorânea onde nasceu. "Falei para o meu pai que queria ser surfista profissional, que ia ganhar um salário para competir, mas ele disse que eu ia voltar para a minha realidade e para a escola. Como sempre lutei pelo o que eu quero, depois de muita confusão e de uma intervenção da minha mãe, a gente entrou em um acordo: eu poderia ficar se fosse morar com a minha avó e continuasse os estudos."

Claudinha ganhou tudo o que pôde no Brasil e passou sete anos percorrendo o mundo enquanto disputava o WQS – por três vezes ficou por uma vaga para entrar para o WCT. Na mesma época, quando estava entre as dez melhores surfistas do mundo, cursava a faculdade de jornalismo. "Para mim era normal usar dois passaportes por ano, acordar às 5 da manhã, porque às 5h40 eu tinha natação, às 7h40, condicionamento físico, na sequência ioga e dois treinos de surf. À tarde, mais treino de surf, e faculdade à noite. Foi assim dos 14 aos 27." Por causa dessa rotina louca ela virou tema do reality show Batom e parafina, exibido pelo Multishow. O sucesso do programa foi tanto que logo após o seu término ela ganhou de Guilherme Zattar, diretor-geral do canal de entretenimento e criador do canal OFF, um programa próprio chamado Se joga!, faixa de 2 horas dentro do Multishow destinadas só a esportes radicais, em que Zattar, segundo Claudinha, queria testar a resposta do futuro público do OFF.

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A agenda louca e as adversárias dentro da água não foram os únicos obstáculos que ela precisou superar na carreira. Sua beleza também foi um deles. A surfista profissional diz que escutou demais que muitas das oportunidades que teve foi por ser bonita. "Eu não encarava isso numa boa e criei um escudo. Até na maneira de falar e de me portar – eu não dava dois beijinhos, cumprimentava batendo na mão e dando um soco, como os surfistas fazem", recorda ela. "O surf é um meio muito machista e 99% da minha galera é homem. Eu queria ser vista como um deles. Queria ser respeitada e estar inserida por ser quem eu sou, não por ser bonitinha, por alguém achar que vai me pegar. Aí, pelas minhas atitudes, meus amigos falavam que, para eles, eu era igual moleque. Ufa! Isso soava como missão cumprida." Nessa época, negou dois convites da Trip para fazer um ensaio que hoje, confortável e madura, propôs fazer em uma ida a Venice Beach.

O único hábito que ainda persiste dessa fase de autoafirmação é o de não pentear o cabelo. Aliás, ela nunca penteia, nem possui escova de cabelo em casa. "Eu me visto de protetor solar e água salgada", diz Claudinha que teve poucos relacionamentos na vida, todos muito longos, um deles o noivado de cinco anos com o campeão mundial de surf Adriano de Souza, o Mineirinho. "Sempre tive alguém e acho que eu preciso ficar um tempo sozinha. Minha fase atual é o por que não? Hoje estou completa, feliz com minhas atitudes e escolhas."

Depois que se formou, em 2011, apareceram diversas oportunidades na TV, enquanto no surf acontecia o contrário. O circuito brasileiro foi extinto e o Mundial já não lhe interessava tanto. Foi quando lhe foi feito o convite para apresentar o programa Sal & Sol, no OFF. "Passei a vida percorrendo os palcos mais desejados por todos os surfistas e, de repente, comecei a fazer um roteiro completamente diferente, com uma equipe 100% feminina. Revi meus valores e percebi que fiquei a vida toda correndo atrás de um título, de um troféu. Eu parecia um robô. Hoje, enxergo o surf como algo além de uma competição, como um estilo de vida que nunca vou perder."

Assista ao vídeo do ensaio de Claudinha:

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Dona de sua própria produtora, Claudinha atualmente apresenta dois programas no canal: Por elas e No meu lugar. Um terceiro, programado para estrear em janeiro de 2017, chamado Colônia de férias, vai mostrar as seis melhores surfistas sub-16 do Brasil em um surf camp no Panamá. "É parte de um projeto que estou criando para formar uma base de surf feminino no país e retomar a modalidade que está completamente abandonada por aqui. Quero dar uma oportunidade para essa nova geração e retribuir tudo o que o esporte me deu. É um dos meus maiores sonhos." Os outros são se dedicar ao surf de ondas grandes e surfar ondas que nenhuma ou poucas mulheres já surfaram. "Vou em dezembro para o Havaí para praticar para o circuito feminino de ondas grandes da WSL, que começa em 2017. No ano que vem também vou fazer uma expedição atrás de três ondas na África que nunca foram surfadas por mulheres."

Créditos

Imagem principal: Aninha Monteiro e Yuri Sardenberg

Produção Executiva: Tadeu Vieira

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