por Roberto Kaz
Trip #250

Aos 31 anos, a atriz que ajudou a criar o humorístico Porta dos Fundos, trabalha em seu projeto mais desafiador: construir (e desconstruir) a funkeira gostosa Alisson na novela A regra do jogo

Letícia Lima está fazendo uma penteadeira. O móvel, quando pronto, deve se juntar à mesa de centro, ao armário e à sapateira que ela mesma projetou. “Eu desenho, serro, martelo, tudo num escritório de casa”, diz. “Junta muita poeira. Preciso de um ateliê.”

Não é a única atividade que a atriz de 31 anos – que participou da fundação do grupo Porta dos Fundos, e hoje vive a funkeira Alisson na novela A regra do jogo, da Rede Globo – pratica no apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro. Letícia planta salsa, cebolinha, couve, alface e espinafre numa horta na varanda. Também cozinha. “Gosto de fazer assado no inverno. A casa fica cheirosa e quente. Minha mãe é cozinheira de profissão.” 

Filha única, Letícia foi criada pela mãe e pelos avós em Três Rios, cidade da Serra Fluminense. Subiu ao palco pela primeira vez aos 6 anos, vestida de zebra, numa peça da escola. Aos 9, em nova atuação, fez o primeiro improviso. “Meu papel não tinha fala, mas a saia que eu usava ficou presa, e acabei tendo que falar daquilo”, lembra. “Todo mundo riu. Foi minha primeira experiência com humor.”

Passou a estudar teatro, e aos 18 anos, terminada a escola, mudou-se para o Rio. Dividiu um apartamento em Copacabana com dois amigos. Trabalhou como vendedora numa loja de roupa, modelo de prova numa grife de moda e diretora de arte de programa de TV. Na faculdade de cinema, conheceu Ian SBF, com quem viria a se casar. Juntos, criaram um canal de humor na internet chamado Anões em Chamas (que serviria de embrião, mais tarde, para o nascimento do Porta dos Fundos). 

No Anões em Chamas, Letícia incorporou Amanda, conselheira sentimental que defendia a submissão da mulher como forma de preservar o casamento. “Se você não conseguir escapar daquela surra, tente se posicionar de forma que a chuletada venha com a palma da mão na direção do seu rosto”, ensinava, sentada numa cama, ao lado de um coelhinho de pelúcia. “Evite sempre os ossinhos, porque, como dizia minha mãe, palma da mão do marido é só mais um dolorido. Mão virada com osso acaba em crime doloso.”

 “Amanda é a nova Amélia, com um nome mais teen”, ela explica. “As pessoas costumam relacionar violência contra a mulher com mulheres mais velhas. Queríamos mostrar que não era só com elas.” A gravação era feita em casa. SBF escrevia o roteiro e filmava, Letícia fazia a direção de arte e atuava. Aspirava que o vídeo de estreia fosse visto por 300 pessoas. “Era a lotação do teatro de Três Rios. Para mim já estaria perfeito”, lembrou. Acabou atingindo 300 mil visualizações assim que foi ao ar.

Natureba
Dali pra frente, habituou-se à audiência na casa do milhar. Quando passou a estrelar os vídeos do Porta dos Fundos, em 2012, a audiência pulou para o milhão. Protagonizou, com Fábio Porchat, a esquete Na lata – a mais acessada do humorístico, com 20 milhões de visualizações no YouTube. Também propôs ideias de roteiro: a esquete Cantada, em que ela peita um pedreiro (“Bota teu pau pra fora que vou chupar ele agora!”), partiu de uma situação real: “Um segurança de um prédio sempre mexia comigo. Um dia resolvi discutir. Ele ficou acuado, quase chorou”. 

Com o sucesso – e com a profusão de esquetes em que aparecia de decote – a grosseria migrou também para a internet. Os vídeos passaram a receber comentários do tipo “Comia muito, todo dia”, “Não entendi nada, só olhava pros peitos dela”, “Que delícia de teta”. “Por isso evito ler”, ela diz. “Devo passar por algumas dessas pessoas na rua. Acho agressivo, como o que aconteceu recentemente com a Taís [em novembro, a atriz Taís Araújo foi vítima de ataques racistas no Facebook]. O problema é que as pessoas não são pegas.”

No rol de “pessoas que não são pegas” Letícia enquadra também o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. “É muito descarado. Ele pagou aula de tênis com dinheiro público. E continua tudo bem.” Ao contrário do congressista, ela é a favor da legalização do aborto: “É um direito da mulher. Por estupro então…”. Endossa o crescente grupo de mulheres que relatam ter sido assediadas: “Eu já passei por isso algumas vezes”. Diz não usar drogas: “Sou natureba, tomo pouco remédio, mal bebo. Fui criada na roça com coisa que a gente plantava”. 

Periguete
Em janeiro deste ano, Letícia deixou o Porta dos Fundos para integrar o elenco fixo da Globo. Diz ter ficado “com o coração dividido” antes de tomar a decisão. “Era um convite do João Emanuel Carneiro e da Amora Mautner. O papel era legal. E não teria como conciliar com o Porta. Tive dó, mas quis experimentar.” Conta que Ian SBF e Fábio Porchat a apoiaram. “Eu não sou uma humorista. Sou uma atriz que também faz humor.”

Desde então, tem gravado de segunda a sábado no Projac. Sua personagem, Alisson, é funkeira, malhada, periguete, bronzeada. Não é o primeiro nem será o último de seus papéis ultrassexualizados. “A gente trabalha com a realidade, e as gostosas existem”, ela diz. “Mas tenho desejo de fazer outros papéis. Meu sonho é interpretar a Maria de Fátima [personagem vivida por Glória Pires em 1984 na novela Vale tudo]”, ri.

Letícia diz que a exposição em rede nacional não a privou de ir à rua. “Sou abordada pelas pessoas desde a época do Porta. E, como eu fazia humor, elas já vêm com sorriso, se sentem mais próximas.” Separada de Ian SBF desde 2013, diz estar solteira. Um boato que circula à boca pequena é o de que Letícia teria sido Miss Três Rios quando tinha 12 anos. “Nunca fui modelo, nunca desfilei. Isso foi uma piada que o Kibe [o humorista Antonio Tabet] fez numa coletiva, durante o lançamento do livro do Porta”, ri. Tantas esquetes do Porta dos Fundos depois, é natural que a vida às vezes se confunda com uma blague.

Créditos

Coordenação Geral Adriana Verani / Edição de Moda Rogério S. / Beleza Teodoro Jr (com produtos MAC Cosmetics e Lee Stafford) / Produção de Moda Lucas Magno / Agradecimentos Moda FYI,  Monte Carlo, NK Store, Salinas, Swarovski e Verve / Tratamento de imagens Montanha Imagetouch / Assistente de foto João Pedro Hachiya / Locação Rio Exclusive (21) 2137-9786 / www.rioexclusive.com

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