por Ronaldo Bressane
Trip #258

Nua para exorcizar o preconceito e se orgulhar de sua estética negra, a Trip Girl Ilka Cyana dá a letra: "É foda ser preta no Brasil"

Descobrir Ilka Cyana é descobrir todo um mundo. Ela é o tipo de garota que encurta distâncias. Faz o longe parecer perto: durante as 3 horas de papo via Skype, eu em Tocantins e ela na Bahia, senti que o mormaço do cerrado se temperava na maresia a entrar pela janela de seu apê — sim, ela fez questão de me mostrar: "Perto de muita água tudo é feliz", definiu-se, citando Guimarães Rosa. Mesmo um papo todo troncho e torto, iniciado via e-mail, depois prosseguido via WhatsApp e likes no Facebook, pode tornar a conexão cheia de delay e freeze em uma sala de estar — estranhos em amigos íntimos. "É assim que as coisas são hoje, e tudo bem", ela diz, se espreguiçando, enquanto tento focar seus lindos olhinhos oblíquos pela câmera do iPad.

Claro que fico vesgo nesse chat, mas não só pela beleza do mulherão de 1,77 metro de curvas lapidadas nas ladeiras entre Cidade Baixa e Cidade Alta. É que o esporte favorito desta soteropolitana de 22 anos é derrubar queixos, mixar o discurso amoroso ao discurso político, tudo pontuado por sorrisos imensamente brancos na cara preta. Sim, preta é como ela se define. Não foram só as curvas que o Ilê Aiyê formou em Ilka, como também seu empoderamento afrofeminista. Uma perspectiva de mundo que a fez se espantar em ver mais racismo em São Paulo, essa metrópole que se acha tão aberta a diferenças, do que em Salvador, dita Roma negra. Filha de um sargento da Marinha e de uma professora, Ilka aproveitou uma greve na UFBA para passar um ano em SP. Na época tinha este belo corte black power que você vê nestas imagens — agora, enreda o cabelón em tranças nagô. "Estou num ponto de ônibus e me chega um senhor branco apontando a minha cabeça: 'Mas que cabelo é esse?'. Fiquei de cara com a falta de compostura do sujeito e lhe dei uma bronca na hora: 'Eu é que pergunto. Que pergunta é essa?'. Duvido que se fosse uma branca ele teria a mesma falta de cerimônia na abordagem", conta. Ilka ria quando a chamavam de "exótica" no tempo em que foi hostess de um restaurante grego. "O racismo no Brasil se esconde em muitas camadas", reflete.

"Eu morava no Jardim América, onde pretos são raros. Desse modo, percebia com frequência um olhar enviesado para meu cabelo, minha cor, como quem pergunta: o que ela faz por aqui? Trabalha onde? Mas seja São Paulo ou Bahia, temos uma série de sutilezas e covardias para encobrir as ações racistas. É foda ser preta no Brasil: ainda é um país onde politicamente se governa por privilégios de renda e cor", detona. Ilka comenta que, mesmo sem trabalhar exatamente como modelo, considerou essencial fazer este ensaio sensual. "Ampliar a representatividade da estética negra em revistas como a Trip também serve ao empoderamento da mulher negra. E, se cuidem, porque estamos entrando na grande fase dos afrodescendentes", ela alerta, citando a política de cotas nas universidades como responsável pela maior visibilidade dos negros na cultura digital dos últimos dez anos. "A comunidade negra precisa ocupar os espaços das elites política, econômica e cultural, na mesma proporção da população brasileira — ou seja, na maioria", ri. "Este ensaio não é tudo, mas já é um passo à frente", afirma.

Os questionamentos desta estudante de artes e arquitetura se espraiam para todos os lados. Ela defende que o Estado deva democratizar a comunicação social, exigindo como contrapartida para a liberação de concessões uma porcentagem mínima de negros na programação: para quem volta e meia liga a TV e acha que por acaso acordou na Suécia ou na Rússia, uma iniciativa revolucionária e muito bem-vinda para um país que ainda não se enxerga multiétnico. "Sou uma nega metida mesmo", ela ri.

"Mas não seria lindo na abertura da Olimpíada a Gisele ser acompanhada por mulheres negras, índias, de outras cores e raças?", sugere Ilka, para quem Lázaro Ramos e Taís Araújo não podem ser protagonistas solitários da atuação afirmativa dentro da mídia. Ilka ainda não sabe exatamente para onde vão seus estudos em arte e arquitetura. Em São Paulo, criou uma grife de brincos reciclando todo tipo de bugiganga que achou na rua 25 de Março — e a marca Brincando acabou pulando em vários editoriais de revistas de moda. Enquanto desenha novas bijuterias, trabalha com gestão cultural e estuda urbanismo; ela prefere, ao monumentalismo de Niemeyer, o arquiteto dinamarquês Jan Gehl, crítico da autocracia e defensor das cidades para as pessoas.

Além dos livros de arte, Ilka se debruça sobre a obra da jovem anglo-nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Americanah. Sua playlist leva Karol Conká, Itamar Assumpção, Leon Bridges, João Donato, Perota Chingo e o "luminoso" Gilberto Gil. "Uma vez ele me chamou de 'impressionante' no Camarote 2222; foi o maior elogio que já recebi", conta esta fã do Ilê Aiyê, do Baile dos Mascarados e de pipoca. E de acarajé. E de capoeira, de natação e de veleiros. E de calor, muito, muito calor. E do namorado, um cientista social. Sim, nem tudo é perfeito, folks: o coração de Ilka tem um navegante. Casamento, no entanto, ainda não está nos planos. Não é mulher de rótulos: "Relações monogâmicas ou abertas são muito limitadoras. As próximas gerações precisam descobrir novos formatos. Com liberdade para todos", sugere. E enquanto a noite avançava enfumaçada, no nosso Skype a imagem pixelada de Ilka derivava em novas direções falando languidamente de amor, de suas lutas, de seus sonhos, e das belezas e peculiaridades baianas que a mantêm com os pés bem grudados na boa terra — mas a mente sempre viajando no Atlântico aos seus pés. Descobrir Ilka Cyana é descobrir todo um mundo que não acaba.

Créditos

Foto principal: Pablo Saborido

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