por Gustavo Ziller

O mais talentoso escalador brasileiro chega ao auge em 2016: encadenou o Corazón de Ensueño, na China, e conquistou a primeira ascensão da Planeta dos Macacos, no Brasil

Meu encontro com Felipe Camargo, o mais conhecido e talentoso escalador brasileiro, foi na Rokaz Escalada, em Belo Horizonte. Felipinho estava treinando para aquele que seria, na época, seu próximo desafio: a primeira ascensão da via Planeta dos Macacos, na Pedra Riscada, o maior paredão rochoso das Américas, localizado em São José do Divino, no leste de Minas Gerais.

Naquele dia, o que era pra ser uma pequena folga, virou alimento para o seu projeto. Então, percebi: ele é incansável. Não treina, a rocha é extensão do seu corpo. Ele deve ser aquele tipo de ser humano que fica chato longe do que gosta, que se entedia e que fica desalinhado com o mundo em que vive.

Também tive a sensação, diante dessa primeira impressão e durante o nosso papo, de já ter ouvido aquela história antes, sabe?

E eu estava certo. Tudo o que ele relatou me lembrou, mais tarde, dos perfis traçados por Malcolm Gladwell no livro Fora de série — outliers (Sextante), no qual o jornalista canadense desenvolve teorias que explicam as circunstâncias que levam pessoas comuns a realizar feitos extraordinários. No livro, Malcolm lista pontos cruciais para isso, alguns um tanto quanto polêmicos, mas nenhum deles desmerecendo as grandes conquistas de Bill Gates, Mozart e dos Beatles, por exemplo. Agora, caro leitor, permita-me a comparação e a liberdade de inserir o nome de Felipe Camargo nessa lista.

Tenho motivos para isso. A teoria de Gladwell passa por quatro fatores que interferem — e contribuem — para o que ele chama de "ponto de virada" (período em que a pessoa passa a atingir o "sucesso"): quando ela nasce e quando acontece essa virada em sua trajetória; por quanto tempo ela praticou sua obsessão antes dessa virada; qual o legado cultural no campo de domínio dessa pessoa; e qual foi a criação e formação de seus pais.

Pois bem, você vai identificar, a seguir, esses tópicos enquanto descrevo a história de Felipinho, ou Pikuira, como é chamado pelos amigos mais antigos. 

Ele é o primeiro escalador esportivo profissional do Brasil, é o desbravador da modalidade, vive para e da escalada em rocha. Coincidência ou não, nasceu em 1991, ano do primeiro Campeonato Mundial de Escalada. Quando Felipinho subiu suas primeiras paredes, aos 10 anos de idade, a escalada esportiva já estava organizada e competitiva, muito em função do desejo de participar dos jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Felipe finalizou o ensino médio e resolveu se dedicar ao esporte. Tornou-se o Campeão Brasileiro de Boulder de 2012, foi o brasileiro mais novo a mandar uma via de décimo grau em rocha (talvez seja até hoje) e sagrou-se, novamente, Campeão Brasileiro de Boulder e Via, em 2014, unificando os títulos brasileiros pela primeira vez.

A essa altura ele já tinha 10 mil horas de prática, um limite estabelecido pelo pesquisador sueco Andres Ericssom e amplamente debatido no livro de Gladwell: para você dominar alguma disciplina são necessárias 10 mil horas de prática. Pikuira já tinha mais. 

Os pais de Felipinho foram sábios, porque, mesmo tendo sido educados na era industrial, apoiaram o filho na decisão mais importante da vida, a de fazer outro tipo de faculdade, aquela que adota, como matérias principais, temas como a natureza, a colaboração, a administração de tempo, a logística, a meditação e o companheirismo.

Com essa bagagem somada a tudo o que realizou neste ano, pode-se dizer, então, que 2016 é o ano do "ponto de virada" de Felipe. Acompanhe:

Ele mandou a terceira ascensão de uma via dificílima em Barcelona, a Catalán Witness the Fitness, completada, pela primeira vez, por Chris Sharma, uma lenda viva do esporte, apenas dois meses e meio antes da tentativa bem-sucedida de Felipinho.

Outro projeto que colocou o brasileiro na rota das grandes marcas do esporte – e no círculo de respeito dos seus pares – foi a escalada da Corazón de Ensueño, na China. Um teto amplamente técnico e intenso, escalado uma única vez por Dani Andrada, em 2011. Tal conquista ficou no imaginário do brasileiro, que remoeu, planejou e convidou outro enorme nome da atualidade, Alex Honnold, para acompanha-lo no desafio. Em abril de 2016, Felipe se tornou a segunda pessoa a encadenar a via (sair do ponto inicial ao fim, sem paradas, sem quedas ou desistência). O feito virou um short film produzido por outro mito da escalada, o fotógrafo e atleta Jimmy Chin.

Ainda com base nas reflexões de Gladwell, pode-se dizer que Felipe incluiu outra característica em seu arsenal: “Diga-me com quem andas que te direi quem és”. Não à toa, enquanto escrevia esse artigo, ele finalizava a conquista da primeira ascensão da Planeta dos Macacos, ao lado da americana Sasha DiGiulian.

Sasha, Chris, Dani, Alex, Jimmy comprovam o legado cultural construído pelo brasileiro e discutido por Gladwell como um dos gatilhos para o momento de inflexão na vida de uma pessoa.

Felipe tem fala cadenciada. É um pouco introvertido. Não se refere a ele como o cara, não está acima do bem e do mal. Já tem maturidade para entender os compromissos que o esporte profissional demanda, assim como sua importância para a escalada no Brasil. Foi um dos representantes brasileiros no reality show produzido por Sylvester Stallone para a Netflix, que vai ao ar no primeiro trimestre de 2017 e que colocou atletas de diversas modalidades numa competição insana. Pelo que soube, Felipinho foi até bem.

Nosso desbravador continua implacável e comprovando outra máxima apresentada no livro de Malcolm: não basta estar no lugar certo e na hora certa, tem que estar preparado para o ponto de virada.

Avante, Felipinho, seguimos na torcida por mais e mais.

Créditos

Foto principal: Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool

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