por Daniel Galera
Trip #247

Em texto especial para a Trip, o escritor Daniel Galera fala do mundo pós-utópico e catastrófico dos romances cli-fi

O que pode significar, para a ficção, a derrocada do mundo em que vivemos e morremos? Essa pergunta ganha novos contornos diante dos efeitos da mudança climática e dos cenários de catástrofe que proliferam em nosso imaginário desde a virada do milênio.

Evidência disso é a popularização do termo cli-fi, contração de climate fiction, ou ficção climática. Embora o autor norte-americano Dan Bloom reivindique para si a invenção do termo em 2007, o conceito de um subgênero de ficção científica dedicado a especular sobre os efeitos da mudança climática não é novo. No início da década de 1960, por exemplo, o grande escritor inglês J.G. Ballard publicou uma série de romances centrados em desastres naturais. Em The Drowned World (1962), a radiação solar derrete as calotas polares e inunda cidades inteiras.

Em uma de suas sacadas visionárias, Ballard mostra a catástrofe climática provocando a dissolução da distância psicológica que nos separa da natureza lá fora. Hoje, um conjunto de evidências cada vez maior associando a ação humana às alterações violentas no clima e nos ecossistemas leva muitos cientistas e filósofos a defenderem a adoção do termo Antropoceno para nomear a era atual do planeta. Mais do que mero organismo habitante, o homem figura como força geológica com responsabilidade direta sobre as condições de vida na Terra.

Em um artigo publicado em 2013 no jornal The Guardian, o escritor Rodge Glass apontou uma diferença entre a ficção científica clássica e a literatura cli-fi. Enquanto a primeira gira em torno de possíveis descobertas do futuro, a segunda lida com questões imediatas, apenas intensificando o que já se faz sentir no presente. A ficção climática ganha força à medida que as catástrofes ecológicas saem do domínio da especulação pós-apocalíptica para ocupar outro lugar no subconsciente das pessoas. O sentimento que esses escritores traduzem não é o medo da catástrofe, mas a noção, ainda pouco articulada no discurso cotidiano, de que ela já aconteceu.

Vemos isso em obras recentes de escritores como Margaret Atwood e David Mitchell, que em seu romance The Bone Clocks (2014) imagina a vida no ano de 2042, depois que a maioria dos desastres ecológicos previstos hoje pelos cientistas se tornou realidade. Resta saber se obras desse tipo se tornarão previdentes ou datadas como um desenho dos Jetsons. 

Em todo caso, o desafio da literatura contemporânea é não recair em cinismo à medida que desabam as utopias de um mundo melhor, entre elas a da harmonia com a natureza e a do crescimento econômico e demográfico ilimitado, apoiado em milagres tecnológicos. Os impasses ecológicos e filosóficos desse século exigirão que abandonemos o antropocentrismo sem jogar fora o humanismo. A visão dos ficcionistas, creio, terá papel valioso nessa empreitada.

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