por Ronaldo Bressane
Trip #177

Erasmo chega à 5a. década de carreira com a solidez de quem digeriu seus próprios demônios

No carro a caminho da Barra da Tijuca, nós tecíamos teorias do tipo “o mundo é dividido em dois tipos de pessoa”. Na entrevista das Páginas Vermelhas deste mês na nossa revista-irmã Tpm, Caetano Veloso parece representar um desses tipos com seu perturbador cerebralismo. Depois de lermos tudo sobre o Tremendão, soltamos uma eureka: “Acho que o mundo é dividido em erasmos e caetanos!”. Jornalistas neuróticos e sem padrão (e às vezes sem noção), seríamos exemplos de caetanos; mas e Erasmo Carlos, seria ele mesmo um erasmo?

Quando nos convida para entrar em sua bela casa em uma rua sossegada da Barra, não muito longe da praia, já nos envolve com a aura de gigante gentil. Seu 1,90 m ainda parece sólido, embora um pouco mais encurvado e um tanto castigado por recentes cirurgias nos quadris – que afastaram o roqueiro vascaíno de qualquer dança ou futebol. “Sem esporte nem rock, agora só posso compor e fazer amor. Mas também... nada de kama sutra”, ri. O Tremendão é daquele tipo de altão que transmite certa fragilidade: apesar do impacto da lenda, te deixa à vontade como um velho primo. Bom, é difícil não se sentir meio parente de um cara que você escuta desde a infância. Mesmo que nem sempre diretamente sob sua voz – a grande maioria de suas mais de 600 composições é cantada pelo amigo de fé, irmão e camarada Roberto Carlos –, Erasmo imprimiu uma marca indelével na cultura brasileira.

Na jovem guarda, foi o protótipo do gostosão encrenqueiro e machista, ao mesmo tempo que bom filho e leal protetor da turma – um Elvis Presley que você poderia chamar de seu. Nos anos 70, deu uma guinada radical ao se casar com Narinha: se de um lado abandonava groupies apaixonadas – que nos tempos de iê-iê-iê se escondiam até debaixo da cama do quarto de hotel –, de outro abraçava uma vida hippie, trazendo temas existenciais e ecológicos às letras e injetando psicodelia, soul e samba no som. É dessa fase, por exemplo, “Maria Joana”, uma das primeiras canções brasileiras a exaltar declaradamente a maconha. Nos 80, quem diria, virou ícone feminista com músicas como “Mulher” (“Dizem que a mulher é sexo frágil/ mas que mentira absurda”) e criou polêmica com “Dá um close nela” – diziam que teria tido um caso com a transex Roberta Close, o que obviamente seria um tremendo absurdo.

Suburbano coração
Em 1995, veio o baque. Depois de duas separações, sua musa, Nara, cometeu suicídio ingerindo cianureto – era a terceira tentativa. “Até hoje, nem eu nem meus filhos temos ideia do motivo que a levou ao suicídio. Foi um golpe grande”, disse, anos depois. Para enfrentar o trauma, compôs – sempre ao lado de Roberto – “É preciso saber viver”. E seguiu tocando sua carreira. “Curou” a dor com sua maneira simples de ser. Não fez terapia nem tomou remédios. Afogou a angústia no álcool, teve um problema de coração, mas, mesmo assim, não parou de trabalhar. “Vagabundo não. Nunca fui vagabundo.” Seu partner também viveria seu drama com a perda da mulher, Maria Rita, a fixação religiosa e os problemas com o transtorno obsessivo compulsivo (pela nossa teoria, Roberto seria um caetano não analisado). O Rei foi se afastando cada vez mais, a ponto de Erasmo até mesmo ter de comprar ingresso para ver o show do amigo. Mas, beleza, sem mágoa. Fiel a sua independência e seguro de seu lugar na história – Rita Lee já o coroou pai do rock brasileiro –, diversificou parcerias, compondo com gente como Nando Reis. No quesito amoroso, entretanto, no altar do roqueiro agnóstico só tem luz cativa uma deusa – Nara. Nunca mais se casou.

Nascido na Tijuca, hoje vive na Barra da Tijuca, reafirmando sua feliz vocação para suburbano. Sua casa tem uma decoração oitentista, com muitos móveis escuros, espelhos enormes, placas para os netos (como o “Parque Aquático Pedro Gil” ao lado da piscina), discos de ouro e platina e fotos gigantes – em várias aparece Nara, para desgosto das “amigas” que o arrancam da casmurra solidão. No escritório/estúdio, dezenas de prêmios, centenas de CDs e muitas prateleiras forradas com tudo o que se pode imaginar de Elvis. É ali que gosta de ficar até tarde vendo filmes, terminando seu par de maços de cigarros. Volta e meia é visitado por um dos três filhos ou dos quatro netos, sua única família, e a casa “vira a coisa mais parecida com o paraíso”. Quando não vem filho nem neto nem amiga, ficar sozinho parece ser uma brasa, mora. Sem crise: a solidão só é chata para os chatos.

Mesmo consagrado e velho de guerra, pega no batente todo dia. Nos últimos anos, compôs o álbum que lança agora em maio – comemorando, na surdina, os seus 50 anos de carreira, desde que entregou para Roberto a letra de “Splish splash”, em 1959. Enquanto o Rei se juntou ano passado a Caetano para louvar a bossa nova e este ano entra em turnê gigante para soprar 50 velinhas, Erasmo foi para outro lado: gravou seu disco mais roqueiro desde os 80. O produtor Liminha uniu influências do grunge, dos Beatles e de Johnny Cash e colocou Tremendão de volta à praça com um classudo acento de rock vintage. Sempre irônico, Erasmo tira onda da velhice cantando “Sou cover de mim/ sou a cópia fiel da minha imagem/ eu mesmo meu próprio personagem/ imito até o meu autógrafo/ gosto de ser assim”. Canta todas as mulheres que têm “olhos de pidona”, de Madonna a Camila Pitanga, passando por Fiona Apple, Marisa Monte (sua nova e elogiada parceira) e... Margie Simpson, por que não?

Ao lado do álbum – lançado pela Coqueiro Verde, sua própria gravadora, tocada pelo filho Léo – , o eterno rebelde tem mais uma carta na manga: em breve surge nas livrarias com um livro de contos. “Não esperem fofoca nem nada autobiográfico”, faz mistério. E fala pouco mais que isso – teimoso, não abre o bico nem sob tortura; “tudo tem sua hora”, diz. Firme e tranquilo, aos 68 anos Erasmo Carlos está onde sempre esteve: não no centro das atenções, mas ali do lado, com a melhor vista. Pensando bem, é um jeito mais esperto de viver. Um jeito bem erasmo de ser.

Seu próximo CD é bem rock. Antes de gravar, você pensou neste conceito: agora vou fazer um disco de rock? É, porque eu estava me devendo. É basicamente um disco de guitarras. E devendo também ao público, que sempre me cobrou um disco de rock. Eu tenho um público que me cobra isso, que gosta de guitarras, principalmente o pessoal de São Paulo. Os maiores roqueiros que conheço estão em São Paulo. E o maior de todos, para mim, o meu amigo Luiz Sergio Carlini [da banda Tutti Frutti].

 

“Eu sou um roqueiro engraçado, sabe? Meu instrumento é um violão de náilon. Sou um compositor, um cara que ama a música brasileira tanto quanto o rock’n’roll”

Você se considera um roqueiro?
Eu sou um roqueiro engraçado, sabe? Meu instrumento é um violão de náilon. Eu sou um compositor. Um cara que ama a música brasileira, que me influenciou tanto quanto o rock’n’roll. Só não tive acesso na época a quem fazia bossa nova. Eles eram uma turma elitizada...

A turma da bossa nova não aceitava você e a jovem guarda?
Não fazia questão de aceitar. Então, poxa, eu abracei o rock’n’roll. Mas eu sou compositor e faço música dependendo do meu estado de espírito, gosto de ter essa liberdade de não ser rotulado. Posso ser roqueiro, mas não sou o protótipo do roqueiro: moro perto da praia, ando de chinelo. Não sou aquele roqueiro brabo, cheio de brinco, de tatuagem e todo vestido de couro e de bota. Eu sou um roqueiro de bermuda, sabe?

Mas existe também o Erasmo Carlos sambista, não é? Muita gente considera você e o Jorge Ben os inventores do samba rock.
Não, é o Jorge. Ele é o grande sacador da batida e tudo. Eu sou só um seguidor, e todos os que fazem samba rock são seguidores do Jorge. Quando comecei, ele era meu vizinho lá na Tijuca. Ele era da turma d’Os Cometas, do Rio Comprido, eu era de uma gangue da Tijuca. A gente frequentava a mesma esquina, o mesmo bar. Depois todos começaram a tocar violão, aquela febre do rock’n’roll, samba, bossa nova. A gente fazia serenata de rock e de bossa nova...

E o Tim Maia já era seu amigo?

O Tim era meu amigo desde criança mesmo. Ele entregava marmita lá em casa, da pensão do pai dele, o seu Altino. Fui criado na rua com o Tim. Só bem depois é que apareceu o Roberto, na época de música. Mas o Roberto só ia na Tijuca de vez em quando, para ensaiar ou quando tinha baile no clube... Só ia pro filé-mignon, só nas boas [risos]. Nas quebradas, nas brigas, nessas coisas ele não estava. Só chegava de noite...

Você era de briga?
Bastante, muita briga. Tinha a minha turma, né? E minha turma era de briga. Era uma época cheia de tabus, não se podia fazer nada. Então, era briga mesmo! Tinha gangue. E canivete, pedaço de pau, essas coisas todas...

Você usava canivete?
Eu não. Minha arma na época era um fio, um cabo de aço. Então, eu enrolava aquilo por baixo da camisa e pronto. Servia como um chicote. Não era uma coisa para machucar seriamente. Era normal, inconsequência coletiva, sabe? A gente brigava, jogava futebol, ia para o Maracanã. Íamos a umas festas de subúrbio onde sempre saía porrada. Nunca ia todo mundo certinho, dava tchau e ia embora: sempre tinha uma porradaria. Provocação de lá, provocação daqui, o cara paquerando uma menina que não devia... Éramos influenciados por filmes americanos, sofrendo a transformação normal que o mundo inteiro sofria. Muita mudança, uma atrás da outra, todo mundo tentando se libertar do sistema patriarcal... E ter turma era legal no caso da gente, porque era todo mundo pobre. Ninguém tinha cultura. Estudava no máximo até o segundo grau.

Você chegou a terminar o segundo grau?
Cheguei. Mas ninguém tinha carro, ninguém tinha roupa fina. Eu morava em uma casa de cômodos, dividia um quarto com a minha mãe. Meus amigos eram todos assim, ninguém tinha bens de consumo, era só a roupa da missa. Já o pessoal da bossa nova... Todo mundo vinha de altos colégios, famílias com sobrenome, apartamentos, livros em casa, pais importantíssimos, automóveis. É outra praia, sabe? Aliás, não tínhamos nem praia. Tínhamos que pedir emprestado para eles!

Era muito difícil entrar nessa turma da zona sul?
Claro, difícil, até pra namorar as meninas. A gente não frequentava nada deles e eles não frequentavam nada da gente.

Nessa época pensar em se profissionalizar em música era muito distante, né? Música era o fim de tudo, uma profissão completamente marginal.

Quantas músicas você tem?
Quinhentas e poucas, pelo menos umas 400 com o Roberto. Comecei fazendo versões, “Splish splash”, “O calhambeque”, e o Roberto gravou. Um dia ele falou: “Vamos fazer música brasileira mesmo, nós dois?”. Aí fizemos “Parei na contramão”, nossa primeira música.

A Wanderléa falou que na época da jovem guarda tinha tanto assédio que era exaustivo. O assédio te cansava?
Se me cansava? Como? Estava chovendo mulher [risos], brotando mulher, o vento trazia­ mulher [risos], mulher vinha dos quatro cantos. Como eu não ia achar isso bom?

Na adolescência, na Tijuca, nunca imaginava que fosse chover tanta mulher, né?
Não aquelas mulheres que eu via nas revistas, no Cruzeiro, na Manchete. Eram mulheres muito distantes, sabe? Imagina o cara, no subúrbio hoje, como eu era, exatamente como eu era, vendo a liberdade das mulheres na televisão e no Carnaval, essas coisas todas. É pirante! Quando eu ficava vendo as mulheres nas revistas, as misses e tudo, pensava: “Eu nunca vou ter uma mulher dessas”. Aí cheguei em São Paulo e as misses só me queriam, chovia miss em mim.

Mas você parece um cara centrado, não chegou a ter um momento de deslumbre, não?
O quê? É claro que tive. Eu comprei o Rolls Royce que tinha sido do Adhemar de Barros [ex-governador de São Paulo, notório pelas denúncias de corrupção]. Sabe por quê? Porque o John Lennon tinha um! Com a cabeça que tenho hoje, vejo uma afetação, besteira mesmo.

A Wanderléa falou também que você e o Roberto eram muito machistas.
Completamente [risos]. Somos até hoje. Eu sou um cara que teve melhoras, mas no fundo fui criado e sou assim.

Mas a gente estava ouvindo seu disco novo e comentando sua sensibilidade, “o Erasmo Carlos é pioneiro do feminismo no rock”...
É, mas vai ver as outras músicas, pô. Eu tenho de manter a minha fama de mau... Vê, mulher não gosta de cineminha, nada...

Você se acha machista ainda hoje?
Claro! E meus filhos são mais do que eu! Hoje em dia você vai vendo que a mulher conquistou seus direitos, então tem mais consciência de certas coisas e muda um pouco... Mas lá no seu íntimo, na coisa animal mesmo, de macho e fêmea, você não sai, não pode fugir disso, e eu fui criado assim, não posso fugir.

Quando você começou a mudar e fazer músicas que podem ser consideradas feministas?
Ah, bicho, quando casei, né? Ai comecei a mudar minha vida, tive filhos... Você disse que era um cara machista, mas ao mesmo tempo foi pai e mãe dos seus filhos. Isso só aconteceu depois de certo tempo, depois que minha mulher morreu. Levava na escola, tinha reunião de pais, viajava com eles, levava no parquinho, fazia tudo.

Eles são sua única família mesmo, digamos assim, porque a sua família é curta, né?

Sim, não tem ninguém mais, só dois irmãos por parte de pai, e por parte de mãe não tem ninguém, bicho, morreu todo mundo, só pra frente, pra trás não tem mais ninguém.

Você é filho único. Quando começou a ganhar dinheiro, mudou a vida da sua mãe também?

Claro, foi a primeira coisa que fiz. Antes de comprar o carro veio a minha mãe, diferente de jogador de futebol... Comigo não, foi primeiro o teto, depois o carro.

E como você saiu dessa melancolia após a morte de Nara?
Tempo, trabalho e vida normal, a vida segue, né? Aí existem umas compensações também... Você se dedica a uma coisa e esquece a outra. Esquece não, hiberna.

Você não parou de trabalhar nem quando a sua mulher morreu?
Não! Trabalhava sempre. Principalmente depois que me separei, porque aí tinha pensão pra pagar [risos].

Deve ter sido o pior momento da sua vida, não?
Foi um dos piores momentos. E a morte da minha mãe também.

Para superar você fez terapia ou alguma coisa parecida? Não, não. Nunca fiz terapia!

Nem tomou remédio?
Nada. Nada [enfático]. Nada! Só contei com a ajuda dos amigos que, vocês sabem, também é muito relativa. Tem amigo que, quando você se separa – eu não estou falando de morte, mas de separação –, chega assim: “Cara, vamos para a noite agora! Porra, tem mulher pra caralho aí, rapaz! Calma, rapaz, cabeça no lugar, ela quer ver você chorando no chão. Vai devagar, toma sua decisão!”.

Seus filhos foram um grande suporte para você, não?
Aí o sofrimento já é outro. Mas eles me ajudaram muito. As pessoas comentavam: “Fiquei impressionado com a união de vocês”. Era o abraço amigo, o carinho de um pelo outro. E vida que segue.

Você ainda faz muito show?
Não muito, bem menos, até porque eu quero. Adoro fazer show. Mas fazendo uns quatro por mês eu tô muito feliz. Mas aquela estrada de fazer cinco shows por semana e tudo não tenho mais pique pra isso. E nem quero, eu não tenho mais paciência também.

Tem alguma música sua que te incomoda de tanto tocar? Tipo escutar no motel, no rádio?
Não chega a tanto, viu? Mas pior do que ouvir é cantar! “Detalhes”, por exemplo, eu só ouço. Mas “Sentado à beira do caminho” eu tenho que cantar sempre. Um dia ou outro, eu digo: “Meu Deus do céu! Essa música realmente é a minha ‘Conceição’”, do Cauby Peixoto... [Risos.]

Você trabalha muito?
Procuro. Senão, o diabo vem morar aqui na minha cabeça. E ele já se instalou, tá vendo esse terreno aqui? [Erasmo aponta para a própria cabeça.]

Você deve ter escrito muito nesses últimos anos, já que se prepara para lançar as suas memórias ainda em 2009.
Fiquei dois anos escrevendo. Mas não é memória não. São contos engraçados da minha vida. Está todo mundo esperando um livro de memórias [risos], todo mundo doido pra ouvir fofoca. Não vai ter isso. São passagens engraçadas que aconteceram comigo, meus amigos artistas, amigos particulares, minha família, nada de fofocada nem coisa triste.

Leu a biografia do Tim Maia?
Li, claro. Tudo que fala de mim eu leio [risos].

E a do Roberto?
Também, também. Gostei, achei legal.

Não quis dar um toque para o Roberto aprovar?
Não, bicho, eu não me meto na vida dele nem ele na minha. Por isso a gente é amigo há tanto tempo. Como o Mick Jagger e o Keith Richards, bicho. Eles se reúnem, fazem o show, nenhum se mete na vida do outro.

Você e o Caetano são da mesma geração e estão os dois lançando discos de rock.
Eu observo muito o Caetano e copio umas coisas dele. Tem umas direções que ele toma que eu sempre pego uma coisinha, sabe? Aprendo muito com todo mundo, só vendo o comportamento da pessoa. E o Caetano sempre tem algumas dicas boas para dar.

Você nunca mais se casou. Está fechado?

Não fechei não. Casar por enquanto não está nos meus planos porque tive umas experiências que não foram legais. É duro quando você ama muito e certas coisas acontecem. Aí você demora muito tempo pra voltar para a realidade. E, quando você volta, começa a fazer comparações, às vezes inconscientemente. E aí o tempo passa e você se acomoda, sabe? Suas manias vão crescendo, sua liberdade vai ampliando, chega um ponto em que você fica num beco sem saída, bicho. Aventura não dá mais. Prefiro minha liberdade do que tentar do zero uma coisa que você não sabe se vai dar certo.

Está namorando?
Não, bicho. Na minha idade a gente não tem mais namoradas, a gente tem amigas. Elas são tão amigas que até se passam por namoradas às vezes. Tem pessoas que pensam mais ou menos igual à gente, que também amam a liberdade, que também não querem um relacionamento.

Você sofre muito por amor?
Sofri por amor só uma vez. É por isso que nunca mais eu tive ninguém. Não sofri 30 ou 40 vezes. O que me leva a crer que só amei de verdade uma vez. A vida é engraçada. Você às vezes pensa que ama, mas não ama, sabe? Mas vai ver tem alguém por aí que ainda não encontrou você e que vai dar essa liga. Aí a gente espera acontecer, não força barra nenhuma, se tem que acontecer acontece. Acredito muito naquele encontro, o carrinho que bate no outro no supermercado e as compras caem no chão e aí você olha para a pessoa.

Já teve alguma circunstância em que você escutava uma música sua e pensou: “Mas essa música vai tocar justo agora...”?
Acontece sempre, né? Quando eu me separei, estava numa fossa brava, aí ia jantar sozinho. Estava lá tomando uns goles e o cara do piano me via e começava: “Não posso mais te esquecer, durante toda a sua vida eu vou viver”. Aí as lágrimas caíam no copo de whisky [risos]. Outro dia, outro restaurante, chegava lá, mal entrava, já tocavam “aí eu vim aqui amor, só pra me despedir”, só músicas de Roberto e Erasmo que o Roberto gravou porque são romantiquíssimas. Todo restaurante aqui tinha música ao vivo. Aí, bicho, eu desisti de comer fora! [Risos]

Você comentou em uma entrevista que você e o Roberto, quando vão compor, fazem muita piada e que a letra até vai para um caminho surrealista. Guardam essas versões?
Não. É papo mesmo. Às vezes a gente faz mais letra do que precisa. O Roberto é o único parceiro com quem eu componho fisicamente. Com os outros, não componho junto. É porque eu sou muito educado e fico com vergonha de discordar. Imagina eu compondo com a Marisa Monte, se ela falar um negócio e eu disser: “Não gostei não, Marisa, não é por aí não”. Porra, o que é isso? Com o Roberto eu tenho liberdade, eu discordo dele, ele discorda de mim.

Você é vascaíno doente, ainda joga futebol?

Não posso agora. Estou cada vez mais condenado. Operei a coluna, tive que parar com o futebol. Operei hérnia inguinal, parei de pegar peso. Agora eu operei o quadril, então não posso pular nem correr. Não posso jogar futebol, não posso pegar peso...

O que você pode fazer?
Compor [risos]. Não sei como é que vai ser o show, porque não vou mais poder dançar. Vai ser uma experiência nova.

Amar também pode, né?
Ah sim, aí tudo bem. Mas kama sutra nem pensar! [Risos.]

Você lida com sua velhice com humor, né?

Que jeito? Mas, que é terrível, é. O horrível é que, quando você diz isso, as pessoas não deixam você concluir a frase, dizem que o importante é a alegria de viver etc., que convivem muito bem com isso. É mentira [enfático]. É mentira, cara! Você convive com isso porque tem que conviver. Mas, porra, é chato pra caramba! Sacanagem que Deus fez com a gente! O ser humano não merece isso que Deus fez, o negócio de velhice, sabe. É muito chato.

O pior deve ser a saudade dos amigos, não?
Ah, isso aí é foda, bicho. Puta merda! Isso é violento. Você fica “nunca mais eu vou ver esse cara”. Alguns amigos da minha vida morreram e foi brabo. Fora a família, minha mãe, minha mulher, meu pai. É uma falta forte. E daqui a pouco vou eu. E, o dia que chegar meu fim, não sei o que será de mim [risos], como eu canto em “Cover” [uma das canções do disco novo].

Seu filho nos disse que o Tim Maia, seu amigo de infância, veio morar aqui na esquina...
Aqui na esquina de casa! Porra! E me ligava toda madrugada: “Filho da puta! Ouve o que é som, seu veado de merda, seu branco vendido!”. Aí botava o “Descobridor dos sete mares” para eu ficar ouvindo. Desligava e 5 min depois ligava de novo: “Filho da puta, veado e punheteiro! Ouve o que é que é som!”. E botava “Azul da cor do mar”. Chegava uma hora que eu tinha de parar de atender o telefone [risos].

Ele não aparecia no portão?
De vez em quando aparecia aqui. Mas teve um dia em que eu tentei enganar ele. Estava chegando de viagem, cansado pra caramba. Tocou o telefone. Atendi, percebi que era ele e fingi que era o meu filho [Erasmo imita voz de criança]: “Bicho, o meu pai não tá, ele tá viajando”. E ele respondeu: “Vai tomar no cu, seu veado de merda, o filho do Erasmo não fala ‘bicho’, fala ‘cara’!” [gargalhadas]. Porra, eu fiquei de cara e engoli. Ele foi muito sagaz...

Você sai muito à noite?

Vou a shows de parceiros, a aniversário, coisas mais restritas. Eu não gosto de coisa badalada. Em show grande fica todo mundo falando alto. A última vez que fui a um foi o do Roger Waters na Apoteose. Já errei de aceitar ir e vestir camiseta de camarote. Eu não gosto disso. Não faço mais isso. Não sou contra, mas não faço mais. No meio do show tinha uma turma da Malhação que não parava de falar. Porra, eu querendo ouvir aquele puta som 5.1 na Apoteo­se! Tudo aquilo foi me enchendo o saco. Nunca mais eu vou a show convidado de ninguém. Quando eu for, pago e compro meu lugar. Eu gosto muito de andar com turma, sabe. Quando eu saio, é com meus filhos, minhas noras. Isso é uma coisa que eu aprendi com o Caetano Veloso: “Tenha sempre um séquito com você” [risos]. Eu nunca vi o Caetano sozinho! E, como eu não tenho aquele séquito de amigos, vou com a minha família.

Por ser muito simpático e acessível você deve atrair muitos malas, não?
Ah, sim. É só dar sopa. Em avião é terrível. Todo mundo gosta de puxar papo, perguntar do Roberto [risos].

E assédio das fãs?
Ah, tem. Mas hoje, até pela idade, elas são mais sutis. Aquela loucura de antes não existe mais, de aparecer embaixo da cama do quarto de hotel. Mas, bicho, sempre tem umas mulheres que chegam a certa idade e, principalmente agora, com silicones e Botox, começam a achar que estão com 25 anos! Aí...

Já apareceu alguém pedindo um teste de DNA por causa de uma transa com groupie no passado?
Comigo aconteceram umas coisas muito antigas, de romances antigos. Apareceu recentemente, até. Não pela mãe, mas pela filha. Ela desconfiava que era minha filha, mas esperou os pais morrerem para me procurar.

Fizeram o teste?
Fizemos.

E aí?
Se fosse, ela tava sentada ali, bicho.

Você é religioso?
Não, não sou chegado não. Inclusive, nos shows, me dão muita medalhinha de Nossa Senhora e escapulário. Se eu tivesse uma barraca de escapulário na praia, tava rico.

Como é a sua rotina hoje?
Depende do que tem que fazer. Ontem, por exemplo, dormi mais cedo porque tinha entrevista. Senão teria dormido até mais tarde. Eu durmo todo dia às cinco da manhã. Componho até as cinco e depois vou dormir e acordo às 11, meio-dia. Gravando também gravo até de madrugada. Quando é turnê, aí muda porque tem avião às oito da manhã. Cada fase é uma fase.

Você tem plaquinhas pela casa com o nome dos seus netos, é avô coruja?
Procuro, sou um avô legal, só que não me meto na vida dos meus filhos, acho errado. Se o avô for chamado é uma coisa. Se não chamar eu não vou, não dá certo.

Todos juntos brincando aqui no fim de semana é uma coisa que deve acontecer, não?
Não é tanto assim não. Porque no futebol já sai fora o flamenguista. Sábado mesmo veio o vascaíno e viu o jogo comigo e domingo veio o flamenguista. Meu filho Léo veio antes do jogo, porque ele mora aqui do lado, então ele foi ver na casa dele. Ele gosta de ver o jogo na casa dele para gritar palavrão da janela [risos]. O vizinho é Fluminense. E quando tem Fla-Flu fica um jogando coisa no outro, coisa de pobre de espírito [risos].

Na madrugada, compondo, você deixa um copo de whisky do lado?
Não sou de beber em casa não. Só quando tem algum amigo, muito raro. Só bebo socialmente. Só quando saio e eu saio pouco. Antigamente eu bebia muito porque saía muito, entornava mesmo. Mas sempre socialmente. O problema é que tinha muitos eventos pra ir... [risos].

Você sempre foi controlado, ­consciente?
Não, só de uns tempos pra cá. A maturidade vai trazendo essas coisas. E tudo o que eu tinha direito de fazer eu fiz.

Sim, mas nunca precisou de ajuda profissional pra, de repente, parar de beber?
Não, não... Meu problema foi CTI direto! Mas não foi por causa da bebida, foi coração. Por causa da vida e muita bebida inclusive, mas foi pior porque eu já estava bom na CTI, terrível ficar aceso lá. Drogado tudo bem, fica lá três dias e não vê nada, mas ficar lá só pra normalizar a arritmia é terrível, é muito chato.

E a “Maria Joana” (nome de uma canção clássica de Erasmo que cita a marijuana), nunca mais?
Não, parei com tudo, bicho, há muito tempo.

Você usava mais pra relaxar ou pra fazer música?
Tudo igualzinho às outras pessoas, bicho. Pra fazer amor, pra compor, pra andar, pra olhar... Mas nunca fora da minha casa! Sempre na minha casa. Nunca dirigi assim, nunca fiz show assim, nunca gravei assim. Só na minha casa, eu e minha mulher, só.

Show, faz careta?
Tomo um golinho de whisky com gelo, um copo longo, cheio até a boca com gelo. Se eu encarar o show sem nada, se tiver alguém rindo na plateia, vou pensar que tá rindo de mim.

Qual a sua opinião sobre a descriminalização da Maria Joana?
Eu não sou ninguém para decidir isso. Apenas acho uma sacanagem uma pessoa ser presa por causa disso. Eu acho que outras áreas é que teriam que agir, pra não chegar a ele [o usuário]. Nisso também entra bebida, sabe, porque ela entra em uma série de contextos. É até uma irresponsabilidade eu dar uma opinião assim, porque envolve várias coisas. São papos assim que, se as cabeças não chegaram a uma conclusão até hoje, não sou eu que vou chegar.

Você teve grandes experiências psicodélicas?

Tive várias, ácido... Já experimentei tudo. Menos injeção, heroína, esses negócios aí. Cocaína, haxixe, maconha e ácido eu tomei. Mas minhas experiências eram caseiras. Eu e minha mulher, eu nunca fiz nada com amigo meu. Nem com o Roberto, nem com o Tim, com ninguém. Era eu e minha mulher e só. Era só pra fazer amor, pra tocar, entende? Pra ficar lá, olhando a Lua, escrevendo, ouvindo som...

E como você lidou com isso com seus filhos?
Eu nunca proibi. Dou informação pra eles, eles sabem o que é certo, o que é errado – se é que existe certo e errado, até hoje ninguém nunca soube dizer, uma coisa pode ser certa hoje e errada amanhã. A própria pessoa decide o seu certo e o seu errado, agindo com bom senso. E ela decide o seu bem. Jamais disse aos meus filhos: “Não faça isso”. Só falei: “Isso aqui leva a isso, isso aqui é bom pra caramba, mas depois é um terror, você vai voar, mas depois vai se foder todo”. Eles decidem a vida deles e eu nunca vi. Claro que eles bebem as biritas deles, mas eu nunca vi nenhum filho meu com fumo, e não foi porque eu dissesse não.

Você acha que só informar basta?
Eu acho irresponsabilidade qualquer pessoa dar opinião sobre qualquer assunto, você tem que estar muito forrado de informação. É aquele negócio, fulano matou sicrano. Porra, ninguém sabe o que levou o cara a matar. Tudo bem, ninguém deve matar ninguém. E você, faria isso? Eu não sei se faria, eu tenho que estar na situação do cara. A constituição física do cara é uma, a moral dele é uma, a fragilidade emocional dele é uma. E a minha é outra. É muito fácil você dizer: “Eu não faço isso”. Só na situa­ção é que você sabe. Muitas vezes omito minhas opiniões não porque estou em cima do muro, mas é porque me acho um nada pra dar opinião sobre coisas tão amplas, que envolvem religião, política e tudo mais.

Em política você também prefere não dar opinião?

Eu prefiro dar a minha opinião política de ser humano normal, trabalhador. Porque isso ninguém sabe, só eles [os políticos]. É muito fácil descobrir isso, é só você ir na livraria e pegar um livro tipo “a verdade sobre o suicídio de Getúlio Vargas”. Porra, que verdade?

Parece que você pautou sua vida muito no bom senso...
Procuro ter muito bom senso. Não é que eu seja perfeito e não erre não. Mas se eu tiver que voltar atrás eu volto. Eu sou difícil, um pouquinho, mas eu procuro.

Você se arrepende de algo?
Deve ter um milhão de coisas que eu me arrependa, mas que eu me lembre assim... De não ter aprendido a tocar guitarra... Falar inglês... Andar de motocicleta... Ter me tatuado quando era barrapesada se tatuar. Agora é moda, não tem mais graça [risos].

Acredita na sorte?
Acredito, bicho. E no azar também [risos]. Ter conhecido a mulher que conheci, que me deu filhos maravilhosos... Roberto Carlos foi outra coisa boa na vida. Meu parceiro de fé, meu irmão camarada [risos]. Tá vendo? Veio direto, falei sem querer! [Risos.] Eu tenho muita sorte, porra. Morar aqui, ter a vida que tenho, estar agora com vocês. Consegui na vida muito mais do que imaginei. Não tenho nada a reclamar. Naquela época de Tijuca nem imaginava que existiam outros tetos. Quando imaginei “pô, dinheiro pra comprar uma casa”, era sempre um pensamento pequeno, o meu maior pensamento era pequeno. Então estou proibido de pedir alguma coisa a Deus.

Mas uma vez você disse que sonhava em ser gravado pelo João Gilberto?
É, mas talvez hoje não seja mais sonho não, e sim um desejo.

Curioso que justo agora em que se comemora os 50 anos de bossa nova, você vem e lança um disco de rock...
Eles que comemorem! Eles são bossa-novistas, eu não sou. Bossa nova não fez parte da nossa vida. Teve 40 anos da jovem guarda e eles não comemoraram. Eu comemorei. Agora, o Roberto e o Caetano são dois dos maiores cantores do país. Há interesses e a grana por cima também, tudo isso conta.

Você e o Roberto voltaram a compor?

A gente tem três músicas inéditas, que foram feitas há quatro anos. Quando quiser, ele me chama pra fazer mais.

Sente saudades de compor inéditas com o roberto?

Não, eu continuo compondo do mesmo jeito. Se dependesse disso, ficaria “nunca mais ele me chamou”. Não, caramba, tem um universo de compositores. Aprendo pra caramba com cada um, são mundos diferentes, cada pessoa é um mundo. Aí eu aprendo com muitas pessoas. Hoje em dia estou muito apaixonado pela Marisa Monte, a mulher é demais.

Dá para reconhecer quando um verso é seu e outro é do Roberto?
Isso nem eu reconheço, são tantas músicas e tantos versos parecidos. Quando se faz junto, fica difícil. E o que a gente fez sozinho, de longe, foi muito pouco. Fiz “Coqueiro verde”, ele fez “As flores do jardim da nossa casa”...

Você se lembra de todas as suas músicas?
Não! Pra compor, eu gosto de primeiro aprender a música. Porque assim eu não fico escravo. Com a música na cabeça eu posso sair e compor. Se eu for viajar de avião, tô com ela na cabeça. Tô fazendo essa frase aqui, tô compondo porque eu já tenho ela na cabeça. Se você não faz isso, tem que ouvir e ficar pensando na métrica pra fazer os versos. E tudo isso atrapalha o desenvolvimento. É aí que você tem a música na cabeça e pode compor melhor o desenvolvimento do verso, a direção da história. É que eu vim de conjunto vocal, minhas grandes influências, as primeiras que eu tive, foram de rock vocal, The Platters...

Como é que você vê essa mudança na indústria da música? Você ganhou um monte de discos de ouro e agora a gente chegou ao MP3, que desvincula o artista do CD. Hoje vocês ganham mais dinheiro com show...
Acho uma maravilha a forma como as coisas se encaminharam. Por exemplo, o negócio das gravadoras, dizem que é ótimo acabar porque tinha o monopólio e aí isso gerava o jabá das rádios. Então eram muitas coisas em benefício de alguns, milhares de valores ficavam sem ter oportunidade. Vendo por aí, por essa liberdade que existe hoje em dia, tem gente começando cada vez mais. Você faz uma música lá no interior do Piauí e tem acesso na hora a São Paulo e ao Rio. Quando o Raul Seixas começou na Bahia, foi mais ou menos na mesma época de Roberto e Erasmo, do Tim Maia. Mas foi difícil pra ele ter que sair da Bahia e chegar aqui. Ainda leva um tempo pra você se envolver, procurar a sua turma, vamos dizer assim. Então, se não fosse esse tempo todo, ele teria explodido com a gente e não demorado um pouquinho mais. Só não acho legal a parte do direito autoral, é uma sacanagem você dispor de uma obra de um artista livremente, sem dar satisfação, mas eu acredito que a própria liberdade da internet, por exemplo, vai encontrar um meio de se autorregular. É a única coisa, porque é muito fácil você dizer que o artista fatura mais com o show e isso não acontece. O Dorival Caymmi morreu agora há pouco tempo. Como é que ele iria faturar com show [risos], um cara com uma obra fabulosa, mas uma preguiça crônica... Daqui a pouco eu vou estar nessa situação, Chico Buarque também, Caetano... A gente vai ficando velho, daqui a pouco vai enfrentar show de cervejaria, de empresa de telefonia? Como a gente vai ter pique? Então, eu já estou preparando o meu piresinho pra pedir esmola na rua [risos].

 

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