Depois de um ciclo que começou com seu afastamento da Globo em 2005, o ator vive um auge: com "Bingo: o rei das manhãs", pretende conquistar seu lugar na tela grande

Vladimir Brichta vive um dos momentos mais importantes da vida. Em 2016, além de participar da elogiada série Justiça, que mostrou seu lado dramático para o público televisivo, ele finalmente voltou para o formato que o lançou na TV, como Gui, o roqueiro decadente da novela Rock story.

É na tela grande, porém, que Vladimir deve encontrar ainda mais sucesso em 2017: ele é a estrela de Bingo: O rei das manhãs, longa inspirado na história de Arlindo Barreto, ator que interpretou o palhaço Bozo (e foi casado com Gretchen, vivida por Emanuelle Araújo). Estreia na direção de Daniel Rezende, montador de filmes como Cidade de Deus e Tropa de elite, Bingo: O rei das manhãs chega aos cinemas só em agosto, mas um trailer compartilhado no fim do ano passado já deu sinais do interesse que vai despertar: até elogios pelo trabalho Vladimir já recebeu. "Esse filme, por inúmeros motivos, é um marco pra mim", ele conta. "Sempre tive muito pudor de dizer ‘eu sou palhaço’. Mas é isso: eu sou um palhaço."

A tumultuada vida de Arlindo Barreto, cheia de drogas e excessos, dá o tom sombrio do longa, e não poderia estar mais distante da tranquila vida de Vladimir. Casado com Adriana Esteves desde 2006, ele vive com ela e Agnes, sua filha do primeiro casamento, Vicente, o filho do casal, e Felipe, filho de Adriana com Marco Ricca, em um apartamento em São Conrado. "Sou muito presente. De passar fio dental, cobrar leitura, levar na praia, andar de bicicleta, escutar questões filosóficas", ele diz.

O exemplo vem de longe: com a separação dos pais ainda na infância, Vladimir e os irmãos ficaram morando com o pai, em Salvador, embora aproveitassem qualquer oportunidade para visitar a mãe em Itacaré. Também da família vieram outros interesses que podem surpreender o fã de Tapas & beijos, como o ambientalismo e a política. A seguir, Vladimir fala sobre cinema, televisão, YouTube, casamentos e boas ondas.

Trip. 2016 foi um ano movimentado, e agora vai ter Bingo: O rei das manhãs. Você está vivendo um auge? Vladimir Brichta. Não sei se da carreira toda porque muitas coisas legais aconteceram em vários períodos. Eu me lembro de uma época no teatro, em Salvador, em que eu tinha uma sensação parecida com a que tenho agora. Quando entrei na TV também. Então não diria que é o momento, mas é um dos momentos.

Você largou as novelas em 2005 e só agora, com Rock story, voltou ao formato. Você vê isso como o fim de um ciclo? É. Acho que sim. Quando eu me afastei das novelas estava muito descontente com o meu trabalho.  Pedi para suspender meu contrato [com a Globo]. Eu estava profissionalmente muito insatisfeito e isso tinha efeito na minha vida pessoal. Até comecei a fazer terapia. Fiz durante seis anos e compreendi que precisava tomar as rédeas. Se tinha determinado anseio, tinha que perseguir aquilo. Se tinha determinada necessidade artística, ou pessoal, tinha que perseguir isso. Se eu volto para uma novela agora, é porque me interessa. Depois de dez anos, me sinto mais senhor do meu ofício. E achei o personagem muito bom, lógico, e continuo achando. Então é um ciclo, sim – que rompe, se fecha ou se abre.

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O que interessou nesse personagem? Olha, são muitas coisas. A primeira, não na ordem de valores, é a música. Eu sempre cantei em teatro. Até cometi o abuso de fazer um showzinho quando cheguei no Rio, 16 anos atrás. Uma brincadeira, claro. Nunca me considerei um cantor, mas sempre fui o ator que canta. Além disso, vi um cara um pouco na onda desses anti-heróis que as séries americanas, especialmente, nos apresentaram. Esses homens difíceis. Ele é menos maniqueísta do que novela sempre costuma ser. É folhetim, então tem também a mocinha, tem o mocinho, mas ele é muito mais vítima dele mesmo, de suas ambições e seus tropeços, do que do vilão. E também gosto muito da relação familiar dele: de ser um cara casado, com filhos, com um filho que aparece e que ele tem que assumir, o que exige maturidade.

Fazer um personagem que seja compatível com a sua idade também? Exatamente. Não tem essa reflexão tão clara da idade, mas é um cara que tem 40 anos, eu suponho, que é a minha idade, e que entende que na indústria do entretenimento quem vai lotar estádios é o filho, que é mais jovem.

Você ficou marcado, na TV, como um galã. Incomoda? Não. Uso até como argumento de reajuste salarial. Nem sempre dá certo o argumento, mas eu uso [risos]. Também acho que ocupo um espaço específico, de um galã cômico, que é um lugar pouco explorado, não sei se por falta de projetos ou interesse. Me comunico bem nesse lugar.

O público televisivo está mais acostumado a ver você nessa posição de galã cômico. Tanto é que apontam Justiça como um divisor de águas na sua carreira. As pessoas ficaram muito encantadas, né? Vieram falar que era diferente de tudo que eu tinha feito. Claro que fico lisonjeado, mas quem acompanhou meu trabalho no teatro, ou no cinema, em filmes menores, independentes, que eu faço, entende que transitar por um universo mais realista não é nenhuma novidade na minha carreira. Eu acho meu trabalho em Justiça bom, mas não acho merecedor de tanto elogio. Não acho mesmo. Gosto e recebo, mas fui beneficiado pela surpresa desse público da TV – que não é obrigado a ver tudo que eu faço.

Depois que você foi para o Rio, fez muita televisão. Já os seus amigos da Bahia, o Wagner Moura e o Lázaro Ramos, foram muito mais para o cinema. Foi uma decisão consciente sua fazer mais filmes nos últimos anos? Foi consciente no sentido de que eu tinha vontade de fazer. Eu, Wagner e Lazinho somos amigos-irmãos, a gente é muito próximo. Tem também um quarto elemento, o Marcelo Flores. A gente se encontra quando consegue, e temos até grupo no WhatsApp, sabe? [Risos.] Nós quatro, e principalmente nós três, que ocupamos lugares mais ou menos parecidos, somos muito balizadores. Teve inúmeras situações em que um foi perguntar ao outro se deveria topar determinada coisa. O Wagner virou e disse assim: "Tropa de elite 2, estão querendo fazer. Faço ou não?", e eu falei: "De jeito nenhum, Tropa de elite é um fenômeno, é um marco, não tem como". Imbecil, né? Fui péssimo [risos]. Mal sabia que viraria o maior fenômeno do cinema nacional de todos os tempos. Enfim, até conselhos ruins a gente acaba dando, eventualmente. Quando a gente veio com A máquina, em 2001, a peça do João Falcão, eu imediatamente entrei pra TV. Teve filmes que deixei de fazer, teve filmes que eles acabaram fazendo e que eu poderia ter participado. Mas não dei um tempo de novela pra fazer cinema.

Primeiro foi fazer teatro. Precisava dar um tempo de televisão e claro que o teatro era um resgate de um lugar importante. Só na época do Tapas & beijos, que durou cinco anos, embalei e fiz seis filmes. Na mesma época também fiz a peça Arte, da Yasmina Reza, que eu mesmo produzi. Foi um período muito valioso, quando de alguma forma aconteceu o que eu sonhava lá atrás: ter mais autonomia na escolha dos meus projetos, seja no teatro, na televisão ou no cinema. Isso culminou com O rei das manhãs.

O rei das manhãs tem tudo pra ser seu grande sucesso cinematográfico até agora. Como rolou o convite pra fazer esse filme? Mais uma vez os amigos estavam envolvidos. O projeto surgiu lá atrás, acho que na época do Tropa de elite 2. Era Wagner que ia fazer, mas primeiro era só uma ideia de um filme inspirado em fatos reais. O projeto se encaminhou quando o Dan Klabin, que é um dos produtores, leu sobre o Arlindo Barreto na piauí [em 2017]. Só que Wagner não podia participar, e a princípio o Daniel Rezende não queria fazer sem ele. Depois, veio conversar comigo – certamente Wagner tem participação nessa história. Fizemos uma leitura e pronto, ele falou: "Olha, vamos fazer, sim".

Quando o Arlindo era o Bozo, na década de 80, você era criança. Você via o programa dele? Eu via pouco, rapaz. Sempre digo que, como a Xuxa usava menos roupa, eu tinha mais interesse em ver a Xuxa do que o Bozo [risos].

Como foi a preparação? Fiz com o Fernando Sampaio e com o Domingos Montagner, que era parceiro dele na LaMínima [então uma dupla de palhaços], em São Paulo. Eles participam do filme também. Sou um cara que faz humor, sempre fiz, mas sempre tive muito pudor de dizer "eu sou palhaço". Porque não trabalho em circo. Não fiz clown. Mas tive que afirmar isso. O Fernando fez uma preparação muito legal, me explicou o ritual do palhaço de picadeiro. É assim: toma aqui o nariz, pé na bunda pro meio do picadeiro, se você sobreviver você é um palhaço. É roots mesmo. Fui para um circo e me apresentei todo maquiado. Ninguém sabia quem eu era. E tem uma coisa, que anos de terapia não resolveram, que resolvi no picadeiro. Quando comecei a fazer humor no teatro, funcionava muito bem. Mas um dia me dei conta de que eu era um cara reconhecido, famoso. As pessoas já têm uma simpatia prévia por conta disso. Rolou muito bem agora, de palhaço, e fiquei maravilhado. É isso: eu sou um palhaço [risos].

Como foi sua infância na Bahia? Muita praia? Muita. Meus pais se separaram cedo e eu fiquei morando com meu pai, em Salvador, ao contrário da maioria das pessoas na época, que ficavam morando com a mãe. Minha mãe morava em Itacaré e então em férias, feriado, fim de semana prolongado, greve na escola – qualquer motivo eu ia pra Itacaré. Meu ano era dois terços em Salvador e um terço em Itacaré. Até brinco de colocar no meu currículo que eu corri um campeonato de surf em Itacaré na categoria nativos.

Você narrou o documentário Mad Dogs [2015], sobre o Yuri Soledade, o Marcio Freire e o Danilo Couto. Eles têm mais ou menos a mesma idade que você. Conheceu eles nessa época? Sim. A gente participava de campeonatos juntos. Estudamos na mesma escola também, eu, o Danilo e o Marcio. O Marcio era meu colega de sala, era repetente – eu também era, mas ele era mais que eu. Ele e o Danilo concorriam na categoria júnior, eu era da mirim. O Yuri era de outra escola e também estava na júnior. E eles todos competiam no circuito baiano, eram muito bons. Eu competia em um circuito intercolegial. Quer dizer, eu tava ali, de igual com eles, mas na verdade eu era o prego [risos]. Era aquele cara que quando chegava na final de quatro, ficava em quarto, sabe? Eu era muito frágil emocionalmente em competição. Quando eles me convidaram pra narrar fiquei maravilhado.

Já foi visitar eles no Havaí? Nunca fui ao Havaí. Tenho um sonho. Outro dia vi um vídeo – claro que já tinha tomado um negócio, a gente bêbado é um valente – e pensei: "Na remada é impossível, mas se me puxar, dá!" [risos]. Tenho pavor de Pipe, porque é raso. Mas penso em dar uma remada em Sunset. Tem que ir. No início do ano passado, fui pra Chicama [no Peru] e fiquei tão emocionado que meu olho marejou. Meu amigo Dedé, que é fotógrafo, André Wanderley, que surfa também, falou: "Vlad, tudo bem?". E eu: "Chicama existe". Eu estava realizando um sonho. A mesma coisa quando fui a Fernando de Noronha. Fiquei muito maravilhado. Sei que Havaí vai me dar um baque desse.

Já fez muitas surf trips? Não, só essas duas.

Você disse uma vez que tinha o sonho de fazer teatro um ano e ficar o outro ano viajando para surfar. É, essa era uma das minhas ambições. Comecei a fazer teatro muito cedo, comecei no teatro amador com 6 anos de idade. E imediatamente um monte de coisa fez sentido pra mim. Eu era uma criança muito agressiva. O teatro realmente me modificou, sou defensor do teatro como currículo escolar porque acho que ele tem a capacidade de canalizar uma série de questões emocionais, por ser coletivo e individual, ensinar a ser um indivíduo e a ser coletivo. Isso é importantíssimo. Então fiz teatro desde sempre. Quando comecei a surfar, comecei a ter sonhos de viajar e tinha essa ambição, essa ingenuidade, de juntar dinheiro um ano e no ano seguinte viajar. Mal sabia eu que só fazer teatro não daria pra fechar o mês, quiçá garantir um ano.

Você ficou oito anos sendo ator profissional em Salvador. Ganhava dinheiro para pagar as contas? Pois é. Não. E por algum tempo não era uma preocupação.

Não tinha uma pressão da família para ganhar dinheiro? Não tinha. Meus pais nunca falaram "tem que ganhar dinheiro". Minha mãe é formada em veterinária, mas nunca exerceu – foi pra Itacaré e teve barraca de praia, banquinha, venda, foi professora de um monte de matéria da escola pública, plantou coco, plantou feijão-fradinho, teve horta. Minha mãe tentou umas coisas meio alternativas, ela tem um pé no hippie.

Tá na moda hoje em dia: voltar para as coisas simples, morar na praia, plantar a própria comida. É. Ela estava à frente do tempo. Mas, pô, teve o verão que era só soja, carne de soja. Foi o verão da soja. Teve o verão das cores. Ela estudou sobre cromoterapia e a gente tinha que tomar cuidado com as cores. Cada verão tinha uma história diferente [risos]. Mas não tinha pressão. Ela nunca falou "Tem que ganhar dinheiro". Meu pai também nunca falou. Meu pai falou: "tem que trabalhar, tem que estudar, tem que se dedicar, tem que tentar fazer o melhor", mas nunca "tem que ganhar dinheiro". Então, no início da minha carreira, morei com meu pai e não me preocupava.

Você chegou a passar perrengue? Não.
O que aconteceu foi o seguinte. Eu estava na faculdade, na UFBA. Teve uma peça grande, comemorando os 45 anos da Faculdade de Teatro. Foi quando, inclusive, conheci Wagner, e foi quando eu conheci Gena [Carla Ribeiro], com quem eu viria a me casar e ter Agnes. Começamos a namorar, ela engravidou e a gente falou: "Vamos viver isso, vamos casar, vamos ficar juntos". Ela já tinha uma casa e o dinheiro do teatro dava para algumas coisas, mas não dava para tudo. Meu pai ajudava, pagava plano de saúde; minha mãe dava um dinheiro para o supermercado; os pais dela davam uma grana que pagava a luz ou pagava a babá. Então a gente tinha ajuda dos pais. Normal, se os pais podem, mas sabia que  tinha que ser só por um tempo. Eu ia virar pai, minha filha ia nascer, já não dava mais. Mas em nenhum momento passou pela minha cabeça que eu ia abrir uma confecção. O que passava pela minha cabeça era que eu podia uma hora ir para Rio, São Paulo, tentar uma coisa na TV. Pensava nisso como uma questão financeira.

E não teve convites nessa época? A carreira da gente é marcada também pelos nãos que a gente dá, né, já disseram isso e é verdade. Fui convidado pra fazer uma novela, elenco de apoio. E tinha uma peça, Equus, do Peter Shaffer, que o Fernando Guerreiro ia dirigir. Eu queria fazer a novela, ia ser pai e também tinha curiosidade de fazer TV, mas neguei. Achei que não era a hora. E aí aconteceu que as coisas se aceleraram muito na minha vida. Nasceu minha filha e um ano e 11 meses depois Gena faleceu [de porfiria, em 1999]. Claro que não deu pra concluir a faculdade. Comecei a fazer uma peça com João Falcão e passamos um ano e meio circulando. De repente o processo na justiça, porque a avó materna da minha filha queria ficar com ela. E aí teve a mudança. Rapaz, foi tudo ao mesmo tempo. Um monte de coisa deu errado e um monte de coisa deu certo. Eu vim pro Rio e a peça, A máquina, virou um fenômeno.

Nessa peça também estavam o Wagner e o Lázaro. Sim. Eu, Wagner e Lazinho, Gustavo Falcão e Karina Falcão. E Felipe Curi, que era o standing de todo mundo menos da Karina. Eu me lembro de que entramos em cartaz e as pessoas que a gente conhecia da televisão, do cinema e do teatro iam assistir à peça. A ponto de Ronaldo Fenômeno estar sentadinho com a perna esticada, recuperando da cirurgia. Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Renata Sorrah, Caetano Veloso, todo mundo ia ver a peça e eu não ficava nervoso. Nem um pouco. Era metidaço. Agora, com o Ronaldo Fenômeno... Ele não precisava estar ali, não tinha nada a ver com aquela história. Aquilo realmente me deixou... [risos]. Depois ele mandou recado, disse que foi show de bola. A máquina é um divisor de águas na carreira da gente.

Mas ao mesmo tempo desse boom na carreira, você estava tendo uma crise pessoal. O processo na justiça foi muito desgastante? Pô, a justiça é uma cagada, né?

Quanto tempo ficou sem a Agnes? Um ano e dez meses sem a minha filha. Eu mandava ela para passar férias com a avó, em Aracaju. Um dia me ligou um cara, um advogado, e falou: "Acabei de despachar a babá aqui, e vai chegar tal horário, você pode pegar ela na rodoviária". Perguntei da Agnes e ele falou alguma coisa de jogada, que agora a jogada era outra, e aí eu falei assim: "Minha filha não é uma bola, isso aqui não é um jogo", e ele: "Não, agora é na justiça". Puta merda. Foram três meses sem falar com ela, seis meses sem vê-la, sendo que eu cheguei a ir lá antes, pra visitar, pra trazer de volta. Depois de um ano consegui trazê-la pra passar um período comigo aqui no Rio. Quando ela ia fazer 5 anos de idade, combinei uma festa, trouxe ela pro Rio de novo, e fiz a mesma coisa que a avó fez, não devolvi.

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Mas o processo continuou? Continuou mais um tempo, foi até Brasília [ao Supremo Tribunal Federal]. O processo nunca foi encerrado, ele caducou. Aliás, é mais comum do que eu imaginava, os processos na vara familiar tendem a caducar. Mas depois dos 5 anos ela ficou comigo. Ela voltou a visitar a avó também, sempre teve relações, nunca cortei ou evitei.

Já pensou em atuar em alguma ONG que trate de paternidade, ou falar mais do assunto? Fui convidado para participar, para encampar um pouco o movimento da paternidade responsável. Cheguei a falar sobre isso em algumas ocasiões, mas fiquei com medo, na verdade. Sempre tive um medo de isso virar um pouco o seu cartão de visitas, de você se beneficiar publicamente de uma dor. Tenho muito pudor em relação a isso. Ganhei visibilidade por conta dessa história e detestava isso. Queria visibilidade por causa do meu trabalho, porra. Queria ser um ator de quem as pessoas falassem: "Sabe aquele ator que é bom pra caralho?", e não "Sabe aquele ator que tem uma história triste pra caralho?". Me conforta dizer que, de alguma forma, minha luta serviu de exemplo. Acho que de alguma forma ajudou, mas eu não consegui militar.

Agora já ficou muito longe? Agora eu falaria mais claramente sobre esse assunto. Mas também entra numa outra coisa: que o ator, a figura pública, é formador de opinião e então ele tem que ter opinião. Isso é uma cagada! Primeiro porque a gente não tem opinião necessariamente sobre tudo. Não precisa ter. A gente muitas vezes acaba tratando de temas muito sérios de forma leviana e tenho pavor disso. Porra, tem obras e mais obras que falam sobre como a paternidade é importante. E tenho a pretensão e o romantismo de achar que o trabalho que faço como ator, mesmo na TV, que já foi visto com muito preconceito até por mim, tem alcance e discute temas importantes. Eu não preciso palestrar. Posso até panfletar, mas mudo o mundo atuando.

Além da Agnes, você tem um filho com a Adriana Esteves, o Vicente, e o filho dela com o Marco Ricca, o Felipe, também vive com vocês. Como é essa relação? É muito legal. O Vicente é meu filho e da Dri, de sangue; a Agnes é minha filha e da Dri, só não de sangue dela; e o Felipe é filho da Dri e eu sou o padrasto dele. Ainda que eu tire onda de pai de vez em quando, o pai é o Marco, que é um excelente pai. Vira e mexe eu falo: "Você tem que perguntar a seu pai" [risos].

Você é um pai presente? De levar e buscar na escola? Sou. Levar na escola e buscar agora muito pouco. Com Agnes era muito mais, com Vicente, muito menos. Mas tirando isso, sou muito presente. De passar fio dental, sentar e montar Lego, levar ao cinema, cobrar leitura, levar na praia, andar de bicicleta, escutar questões filosóficas. Agnes agora faz faculdade de psicologia, está encantada, e traz questões que ela estuda. A Adriana tem adoração, fascínio pelo universo da psicologia, e eu também me interesso muito, então a gente tem altas conversas.

Você pensa sobre equilibrar trabalho e vida pessoal ou isso acontece naturalmente? Ou não tem equilíbrio? Tem equilíbrio e eu tento buscar. Se estou trabalhando todo dia, chega fim de semana evito ter compromissos. Ou, se tiver, como tive que ir na Comic Con, levo meu filho junto, o que pra ele obviamente é fascinante. Eu vi o quanto os youtubers hoje ocupam um espaço de ídolos das crianças. Elas ficam encantadas.

“Eu era uma criança muito agressiva. O teatro me modificou. Defendo o teatro como currículo escolar”
Vladimir Britcha

Para as pessoas da idade do Vicente, um youtuber é muito mais famoso e importante que um ator de televisão. Rapaz, na Comic Con ele tremia de nervoso com pessoas que eu não sabia nem quem eram. Fomos assistir a uma peça e quando o cara entrou Vicente caiu aos prantos. Depois a gente foi no camarim, eu, Adriana, o Vicente e o Joca, que é nosso afilhado. Fomos tirar foto e o garoto foi muito simpático, mas não sei se ele me reconheceu e se reconheceu Adriana. Já a mãe dele estava enlouquecida, assim como o Vicente estava quando viu o filho dela. Acho que ela chamou a gente de Carminha e Armane.

Há quanto tempo você está com a Adriana? O casamento foi em 2006, mas começamos a namorar no final de 2003. Já são 13 anos. Ih, rapaz, já estamos no 14º.

É bastante tempo para um casal com duas celebridades. Como você vê hoje o relacionamento? É... A gente tá mais no estilo Glória e Tarcísio, Mauro Mendonça e Rosa Maria, não estamos numa pegada muito jovem [risos]. Cara, a gente se ama pra caralho, se gosta, tem uma cumplicidade enorme e nos beneficiamos da
maturidade que a gente já tinha. Maturidades existem inúmeras, né? Mas com relação a casamento, por exemplo, é o meu terceiro e o dela também. Porra, faz diferença.

Você casou três vezes antes dos 30. Deu tempo de ter relacionamentos curtos? Tive uns namoros curtos antes do primeiro, entre o primeiro e o segundo tive mais alguns. Vivi o suficiente, assim, pra matar a curiosidade. Me lembro que Gena dizia, porque ela era um pouco mais velha: "Você não viveu o suficiente". Eu ouvia e dizia: "Não, não, não", mas no fundo pensava: "Porra, será mesmo?". Mas, ó como é a vida, né? Ela se foi e eu passei a viver tanta coisa.

A Gena era um pouco mais velha e a Adriana, também. É uma constante? Cara, no casamento sim, porque a Ana Paula [Bouzas, segunda mulher] também é. Mas namorei gente da minha idade, mais jovem. Engraçado, nunca falei muito isso na terapia. Não tenho isso muito elaborado, não, mas há um encanto aí talvez que uma mulher com um pouco mais de experiência possa ter. Na verdade é balela: fui pai de todas elas [risos].

Como era sua relação com seus irmãos? Tenho um irmão e uma irmã, eu sou o mais novo. Mas idades bem próximas, crescemos juntos, amigos, apanhei muito do meu irmão. Ele é três anos mais velho. Minha mãe dizia: "Para, porque ele vai ficar maior que você um dia e vai te bater". Quando eu tinha 18, era maior e mais forte, mas continuava com medo dele [risos].

O que eles fazem? O meu irmão é do Ibama e trabalha com... tenho até que preservar um pouco da informação, mas ele trabalha combatendo extração de madeira ilegal, garimpo ilegal. É um trabalho muito árduo, perigoso. Meu pai sempre foi um cara ambientalista, meu pai é geólogo e sempre foi ligado ao meio ambiente. Meu irmão faz um trabalho importante e incrível, mas dá passos de formiga. A minha irmã é historiadora e professora da Uesc, que é a universidade estadual que fica em Ilhéus.

Seu nome, Vladimir, é uma homenagem ao Vladimir Herzog. Seu pai, Arno Britcha, foi preso e torturado. Eu vi o depoimento dele na Comissão da Verdade da UFBA. Ele falava disso com vocês, sobre ditadura? Não. Sobre esse momento específico, não. Mas estava lá, a história estava lá. Tem uma bola de couro que a gente viu a vida inteira e ela foi costurada por ele – mal costurada, meu pai é um péssimo costureiro [risos] – na prisão. Meu padrinho e minha madrinha se conheceram na prisão: ele estava preso com meu pai e minha mãe levou uma amiga em uma visita.
Isso tudo acompanhou a gente. Tem um grupo de teatro, a companhia Os Argonautas, de grandes amigos. Eles montaram uma peça da qual eu participei, Nada será como antes, um texto de Claudio Simões, autor baiano, que se passa no fim da década de 70. Era uma peça politizada. Uma das vezes que meu pai mais falou sobre o período da ditadura foi a gente entrevistando ele pra virar material da peça. Foi quando ele falou mais abertamente sobre a tortura. Até sobre situações cômicas, do cara batendo nele, ele gritando e o cara falar: "Grita mais baixo porque senão vão ouvir".

Tinha um ambiente politizado na sua casa? Muito. Sempre foi constante falar sobre política. Nunca teve uma luta partidária, mas sempre teve a conversa. Com a televisão aconteceu uma coisa: há um certo cuidado, uma orientação para a gente não participar de campanhas. Até certo ponto eu entendi. Você tá no ar, fazendo muito sucesso, e abraça o fulaninho e faz dele vereador. Porra, é perigoso. Por outro lado, faz parte do exercício democrático você se manifestar. A própria Globo mudou um pouco. Antes ela dizia: "Não pode" e depois passou a falar: "Não pode assim, assado, a gente orienta que não faça". Com o passar do tempo fui voltando a me manifestar. Tanto que fiz campanha pro [Marcelo] Freixo, subi no palanque, porque acredito no discurso dele, acredito nele.

Como você se alinha politicamente? Engraçado que essas discussões, de direita e esquerda, vão tão longe, mas no fundo se resumem à questão da participação do Estado. E eu sou a favor ainda da participação do Estado. O Estado vai mal? Vai. Mas continuo achando que ele tem muita importância, e que questões humanas e sociais podem ser melhor assistidas pelo público do que pelo privado.

O Rio está numa situação muito delicada, com problemas graves de segurança. O que seria papel do Estado? A curto prazo não adianta botar, agora, as melhores escolas do mundo, porque tem uma geração inteira que não passou por essas escolas, não passará. Então realmente é preciso investir em segurança. Mas a médio prazo precisa dar emprego e oportunidade, e a longo prazo tem que dar educação e cultura. O Beltrame falava isso, sobre as UPPs. Ele falava assim: "Eu não estou resolvendo, a gente está entrando, mas se não entrar com educação e não entrar com cultura, não adianta". Dito e feito, lógico, né?

Você é a favor da descriminalização das dro-gas? Sou, especialmente da maconha. Não tenho conhecimento a não ser de orelhada, mas toda vez que se fala que droga é um caso de saúde, e não de polícia, tendo a concordar. Mas sou a favor de que venha com muita discussão a respeito.

Já fumou maconha? Fumei. Mas nunca tive o hábito. Meus amigos tinham e eu fumava de vez em quando. Tanto que nunca comprei.

Você se vê como um otimista ou como um pessimista em relação ao futuro, tanto do Brasil como do planeta? Sou da opinião de que a gente está avançando. Assim: são dois passos pra frente e um pra trás. Mas no final a gente está andando pra frente. Antes era melhor? Cem anos atrás ainda tinha escravidão no mundo. Ah, mas hoje em dia tem um monte de gente que trabalha de forma escrava. Tem razão. Mas já foi pior. Nosso país é preconceituoso pra caralho, ainda é muito racista, eu sei disso. Mas melhorou, não é pior. Se continuar o aquecimento global o planeta vai acabar. O planeta? Mas não vai mesmo. Quem vai acabar é o homem. O meio ambiente não precisa de porra nenhuma, se reinventa, quem precisa do meio ambiente é a gente.

Você acompanha as discussões sobre o machismo? Acompanho. Me interessam muito porque odeio o machismo. Todos nós, homens, nos vemos e já nos vimos em várias situações em que você vê o discurso sendo replicado, e isso sempre me causou constrangimento. Isso quando não é a gente mesmo, mas eu sou atento a isso.

Você se policia? Me policio, não gosto e eventualmente sinalizo também. Acho importante demais falar sobre isso. Sempre vi meu pai sendo extremamente respeitador com o outro, com o próximo, independentemente de gênero, idade ou classe social, e tento levar isso adiante, sabe. Sou pai de uma menina também. As pessoas perguntam se eu não tenho ciúmes. Nenhum. Olha, eu acho, e isso é uma máxima mesmo, que o pai que é ciumento é porque ele é machista e tratou mulheres de um jeito que não gostaria que tratassem a filha. Mas se minha filha for tratada do jeito que eu acho que tratei todo mundo, porra, vai ser ótimo. Talvez não seja o que ela queira, e ela tem direito de querer qualquer coisa, até se subjugar, se é o que ela quer, OK, mas a mim não doerá nada se ela for tratada do jeito que eu tratei, porque tenho a convicção de que fui respeitador e tudo mais. Sou moderno.

Já tinha os pais modernos. Eu comi muita soja, rapaz, a soja deixa o cabra meio mole [risos].

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Créditos

Foto principal: Daryan Dornelles

Coordenação Geral: Adriana Verani. Produção de moda: Carlos Peti. Beleza: G Junior. Assistente de foto: Juan Dias. Agradecimentos: Daniel Resende, Caio e Fabiano Gullane. Verônica Julian (figurinista)

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