por Fred Melo Paiva
Trip #90

Muito antes de o Tigrão pegar o bonde, já existia Tony Tornado. Leia uma entrevista exclusiva com o ator e cantor nas Páginas mais Negras do que nunca

Muito antes de o Tigrão pegar o bonde, já existia Tony Tornado. O verdadeiro funkman ganhou, em 1970, o 50 Festival Internacional da Canção com "BR-3", um petardo sonoro cheio de balanço. Hoje aos 70 anos e convertido em ator global, ele fala de sua vida muito louca, TV, drogas e racismo à brasileira – e ainda passa a fórmula do sucesso: "Tem que dar na veia da doméstica".

Além de consertar videocassetes, Tony Tornado é um homem que tira cutículas e faz as unhas. Também pinta o cabelo, conforme nos informa sua filha Aretha Pearl — Aretha por causa de Aretha Franklin, Pearl por causa do disco de Janis Joplin. O paulista Tony Tornado, nascido em Presidente Prudente, hoje com 70 anos, na verdade é Antônio Viana Gomes – mas já foi também Tony Checker quando iniciou sua carreira musical. Isso foi muito antes de virar ator da Globo, onde apareceu como o Rodésio da novela Roque Santeiro e se firmou em definitivo representando Gregório Fortunato, o chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas na minissérie Agosto.

Para quem hoje tira cutículas, pinta o cabelo e faz as unhas, é de surpreender que, na sua fase de Antônio, Tornado tenha sido menino de rua no Rio de Janeiro e, já estabelecido como Tony, traficante de "maconha em caixas de sapato" no Harlem, em Nova York. De volta ao Brasil em 1969, ganhou no ano seguinte o 5o Festival Internacional da Canção, com a música "BR-3" – um soul bem ao seu estilo, na linha de Tim Maia e Cassiano. Depois disso, lançou dois LPs. Em São Paulo, só na Pirate Records (sim, ela existe, grava clandestinamente tudo de MPB que só existe em LP e deveria ser tombada como patrimônio cultural) se conseguem os dois únicos discos de Tony, lançados em 1971 e 1972. Nessa época, sua vida imitou o nome artístico, e foi virada de ponta-cabeça por um tornado chamado Arlete Salles.

Apaixonado pela famosa apresentadora de TV, com quem viveu um "escandaloso" romance, dedicou a ela o prêmio recebido pela vitória no Festival. Mesmo tendo sido líder de um Movimento Black Rio, mesmo ostentando vasta cabeleira black power, o namoro com a moça da televisão transformou Tony numa espécie de Mano Brown que, do nada, decide compor um par romântico com a Eliana. Virou o João Gordo do movimento negro. E, como um João Gordo que de repente vira ator na novela das seis, Tony assinou contrato com a Rede Globo. Faz 26 anos que traz no peito o crachá da emissora – e vai guardá-lo provisoriamente na gaveta pelos próximos 10 meses, enquanto grava Roda da Vida, na Rede Record. Faz papel de Malaquias, mas não importa – por esse período troca R$ 13 mil mensais por R$ 40 mil. Planeja comprar outro carro antigo, de preferência um Lincoln Continental que possa fazer par com sua Caravan 86, seu Dodge Magnum e um "Audizinho".

Longe da sua casa em Jacarepaguá – onde vive com a mulher de seu quinto casamento, um de seus quatro filhos e três cachorros da raça sul-africana Rhodesian Ridgeback –, aluga um quarto de hotel no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Foi lá que Tony recebeu a Trip para uma entrevista de duas horas – não sem antes dar uma passada no salão que fica em frente a fim de tirar cutículas, fazer as unhas e oferecer sua técnica para consertar o videocassete da manicure.

Trip: Você concorda com essa onda politicamente correta de que não se pode falar "preto", tem que ser "negro"? Tony: Mas preto é leve, né, don?

Leve? Estou falando como preto. Para um preto, a expressão "preto" é pouco. Ele tem que ser "negão" [bate no peito, em sinal de orgulho].

Dizer "negão" também não é pejorativo? Não. É como o "vai tomar no cu". Depende de como você fala. E nós temos essa sensibilidade pra sacar quando o cara está mandando você realmente "tomar no cu", don.

Que mania é essa sua de dizer "don"? É que eu vivi no México e lá, para você não precisar decorar o nome das pessoas, eles dizem "don", que é cara.

É igual aos norte-americanos que dizem "man"... É. Mas eu falo assim porque quero acompanhar a filosofia do Shakespeare, que diz: "O que é o nome? O nome não é nada. Se a rosa tivesse outro nome, teria o mesmo perfume". Entendeu, don?

Certo. Mas eu estava gostando daquela nossa conversa sobre pretos, negões... A negrada? [Ri.] A negrada é muito sensível, porque ela tem um potencial, não maior do que o do branco, só que usou muito pouco. Ela riu pouco, se divertiu pouco. Então, a reserva da negrada é maior que a do "white people". Porque quem usa muito... gasta, né, don?

O branco riu demais? Riu muito, usou bastante a sensibilidade, né? E nós sempre usamos pouco. Era proibido rezar para um santo que não fosse de branco! Rezar para Ogum não podia. Só para São Jorge. Então, o que fazia a negrada lá na senzala? Faziam uns buracos no chão e colocavam o Ogum embaixo da terra com a imagem do São Jorge por cima. Quando os "senhores" chegavam, achavam que eles rezavam para São Jorge. Eles rezavam para São Sebastião, mas na verdade estavam rezando para Xangô. É a equivalência dos santos.

Então os negões têm uma reserva dentro deles que não foi usada? Com certeza. É por isso que a gente trepa mais. Não é folclore isso, não. Está cientificamente provado: a gente trepa mais, vive mais...

Está no seu gene? É claro, porra! Meu pai está vivo com 97 anos, casado com uma mulher de 53. Ela chora, don! Quando chego, ela diz: "Tony, fala com seu pai. Ele está pensando que é o ‘picão’, mas não é mais". Não sei se é meio farofa, porque ele conta umas coisas... Mas, imagina, meu pai era um trepador profissional. Ele não ia para a lavoura. Diz que andava lá pelas fazendas, com o "pau debaixo do braço". O caralho era o instrumento de trabalho dele [risos].

Você acha que há diferença biológica entre o preto e o branco, tony? Não sei, não, don. Mas já ouvi falar que pílula anticoncepcional que branca toma, se negra tomar, é história de carochinha – não é todo caso que segura, não. Tem uma coisa lá que não sei explicar. O negro, quando foi libertado, era um cara sem vícios. Então, é muito mais fácil ensiná-lo. Você conta nos dedos quantos negros jogaram tênis, porque requer certa tranqüilidade, de postura social, econômica... Mas no boxe a gente dá porrada. É a truculência, uma coisa latente na gente. Lá no favelão temos que nos defender muito. Ainda carregamos esse estigma de "capitão-do-mato", do negão que dava porrada no próprio negro.

Já que você falou em capitão-do-mato, o negro que caçava escravos fugitivos para o senhor branco: como se sente trabalhando na Globo, uma corporação que, de alguma forma, é mantenedora desse sistema que legitima o branco no topo e o preto embaixo? Eu sei, tenho consciência disso. Agora, se eu peitar a emissora, também não vou ter como mandar a minha mensagem, como estou fazendo agora, por exemplo. A Globo me mantém porque sou útil a ela. E, enquanto eu for útil, vou estar lá.

Você já passou por alguma repressão na emissora por falar o que pensa?[Risos] Não. Eles sabem que sou meio maluco, que falo mesmo. Mas tenho consciência de que sou um puta ator. Eles também sabem disso. A minha briga no momento é por causa dessa novela das oito [Porto dos Milagres], que é uma Bahia branca. Vi dois ou três casais negros, só. Não é possível que Jorge Amado tenha escrito assim. Não pode ser que Porto dos Milagres seja tão branco quando 90% da Bahia é negra.

Incomoda ver os negros só fazerem papel de empregados? Não. Acho que tem é que ocupar espaço. Não importa se é papel de lixeiro, don. Tem que ser o melhor. Fiquei dois anos e meio dizendo "yes, sir!", como o mordomo do "primo rico", e fiz isso com o maior profissionalismo. Não adianta reclamar, porque senão eles vão pintar um cara de preto e botar lá! Eles pintam que eu já vi. O Marquinhos Palmeira [protagonista de Porto dos Milagres] deve estar tomando laser para ficar preto e ser baiano [risos]. Mas, quando a Globo vai lançar uma novela nova, faz uma pesquisa. O público é o principal responsável por ela ser dessa forma. É uma realidade brasileira. A Globo é exatamente o que esse público quer. Estou falando isso porque chego lá no meu escaninho e ele está sempre vazio. Ninguém escreve para mim, ninguém escreve para o Milton Gonçalves.

É mesmo? Nem os telespectadores negros? Nem negros. Mas o branco escreve para o Fábio Assunção, o Thiago Lacerda. A mesma mulher escreve cinqüenta cartas.

Por que você acha que isso acontece? Eles não têm costume. Ou não estão de acordo com esta situação de um negro na TV Globo, me acham burguês. Enquanto isso, os negros vão perdendo espaço por causa desse paternalismo. Porque nossa comunidade escreve para dizer que eles só botam negros como empregados.

E você, Tony, acha que está perdendo espaço na Globo? Lá dentro? Não. Não posso deixar de citar a minissérie Agosto, meu maior destaque nesses 26 anos. E tem outros papéis que adorei: o capitão do mato de Sinhá Moça, o próprio Rodésio... Como falei, não tenho problema nenhum em fazer papel de empregado. Mas, se eu fosse o mocinho, queria era beijar a Malu Mader, don! [Risos] Queria era rolar na relva com uma dessas atrizes maravilhosas. Não vou nem falar de cor porque acho o Norton Nascimento um negrão bonito, acho a Isabel Fillardis uma negra maravilhosa, a Thaís Araújo também. O que estou dizendo é que sou um puta negão, grande, forte pra caralho... Porra, se eu pego a Débora Secco, quebro ela no meio, don [risos]. Eu entendo dessa forma, não vejo como racismo.

Uma vez você disse que negro ruim é o "neguinho", o lacaio. quem é assim na mídia? Até pela inexperiência, vejo muito isso no pagodeiro. Pagodeiro é de uma humildade irritante, né? Fica intimidado. O subtexto no olhar dele é "isso não é o meu lugar". Não faz fé no taco, não tem postura. Só gosto do Netinho. Esse peita!

Você tem contato direto com Roberto Marinho na Globo? Doutor Roberto é a pessoa mais maravilhosa do mundo. Ele fala com todos, don. E, olha, não tenho necessidade nenhuma de fazer média aqui. Mas sempre achei maravilhoso ele chegar para o faxineiro e dizer "bom dia! Boa tarde!".

E o resto do pessoal do comando, tem a mesma postura? Não. Roberto Irineu é outro papo, uma coisa mais afastada. E sem o Boni também... a coisa ficou mais complicada.

O Boni faz muita falta? O Boni é o cara, don. Vai nos estúdios, conversa com os atores, quer saber o que está havendo, deixa a porta aberta para a gente entrar e conversar. Era o Diretor de Operações, mas a gente não tinha que passar por um batalhão de pessoas para chegar até ele. Agora, com o Roberto Irineu fica difícil, é ruim de conversar.

E a nova diretora, Marluce Dias? Não tenho nada contra ela, não. Ela é uma grande empresária. Mas acho que a Globo está passando por uma fase meio apertada, né?

O SBT cresceu muito no Ibope e a Globo está tendo que correr atrás. isso não pode baixar o nível da programação? É. E eu não gosto quando cai o nível. A Globo tem padrão, bicho. Ela não caiu na baixaria, até porque esse não é o perfil dela. Fizeram uma vez um sushi humano [quadro erótico exibido no Domingão do Faustão quatro anos atrás, muito criticado pela imprensa] e deu rua... Tem mais: a Globo não perde para as outras emissoras. Ela deixa de ganhar, é diferente. Os caras podem dar pico, mas a Globo mantém. Na novela Roque Santeiro, chegou a dar 85.

O Brasil seria melhor sem a Globo? Não. A Globo é um mal necessário. Ainda mais com esse jornalismo investigativo que ela tem. Olha quanta coisa já fez com isso, don.

É. Tem feito. E é difícil se livrar deles, viu. Quando eles cismam, vão lá na Tailândia buscar o PC [risos]. Ela é investigativa, don. Ela é forte e poderosa.

Falando em força, Tony: você dá porrada? [Risos] Pra caralho, don. Eu não tenho paciência. Mas isso é uma onda minha mesmo, de defesa.

O que te deixa mais puto? É o paternalismo. Quando o cara fica querendo contornar as situações e sinto que ele está com cuidado em demasia. Comigo não precisa.

Cuidado pelo fato de você ser negro? Isso. Não pode, porque sou preto velho, pô! Passei por todas as fases de racismo.

Você já foi racista? Pra caralho.

Tinha preconceito contra branco? Não. Tinha preconceito comigo, com nego da minha área. Senti raiva de negão bobo, vendido. Porque ele é o instrumento do "white people". Eu sou aquele cara que fiz na novela Sinhá Moça, mesmo, o capitão-do-mato. Fico puto com o negro, quando ele não reage. Se um amigo do meio faz qualquer babaquice, eu chamo. E eles ouvem, primeiro porque sou mais velho, segundo porque sou forte pra caralho e eles sabem que já fui boxer...

Você lutou boxe pra valer? Lutei, tenho até o nariz mole, olha [mostra]. Sempre tive sangue quente, porque fui moleque de rua. Cheguei ao Rio de Janeiro sozinho, com 12 anos, cara.

Vindo de onde? Sou de Presidente Prudente [SP], onde passei a infância. Escolhi o Rio porque já tinha essa coisa artística.

E foi morar onde? Central do Brasil. Bala-puxa. Duas por quinhentos réis.

Você foi moleque de rua mesmo? Moleque de rua legal. Sem parente. E foi combinado assim: "Mamãe, vou para o Rio, isso aqui é pequeno para mim". Desde criança, quando pintava circo na cidade, eu já queria subir no palco. Todo o mundo me tinha como maluco na cidade, por causa dessas coisa artística, entende? Se você chegar na minha cidade agora e perguntar quem foi o Tony, não o Tornado, mas o Tony, vão dizer: "Porra, aquele moleque filho de puta?".

Você roubava quando chegou ao rio? Porra, bicho, morrer de fome é que eu não ia, cumpadi. Porque era assim: eu engraxava, vendia amendoim, vendia bala-puxa – naquela época, a quinhentos réis. E ainda tinha o "balão apagado"...

O que é "balão apagado"? "Balão apagado" é o cara dormindo. O cara cheio de sono, que apagou. Eu chegava e metia um "balão apagado" nele: fazia uma furqueta, pegava o troco e pronto, don. Antigamente não tinha essa coisa de roubar na porrada. Era conhecido como "mão leve". Tu não sentia porra nenhuma, só quando chegava em casa é que se dava conta de que foi roubado.

Você fazia mais grana no "balão apagado" ou no trampo? No trampo mesmo. Mas, volta e meia, rolava. Eu tinha que rangar, e a grana não dava.

Aconteceu de você ser preso alguma vez? Não. Sou vivo cara, muito esperto. Sempre fui "crioulo tu". Eu sou o "preto tu", cara.

O que é “Preto tu”? "Preto tu" é aquele negão que encara a situação. Diferente do "neguinho", que diz "não senhor, sim senhor". O "preto tu", o negão, diz "e aí cara, qual é a parada?" . Sempre fui um desses. Um dia, cheguei na polícia da Central do Brasil e me apresentei. Disse "aí, cumpadi, eu preciso estudar. Quero sair dessa vida". Os policiais ficaram assim "porra, e agora? O que a gente faz?". Aí o delegado disse: "Passa aí na semana que vem." E me levou à escola agrícola Desembargador Saboya Lima. Eu tinha uns 16 anos. Fiquei lá até os 18, em 1949, quando fui para o Exército e me apresentei na Escola de Pára-quedistas.

Depois você morou nos Estados Unidos, não foi? Me mandaram. Eu participava do movimento Black Rio, que coincidiu com o movimento dos socialistas [contra a ditadura]. Na época do Tropicalismo, mandaram o Gil, o Caetano, e eu fui no bolo. Tanto que um coronel me falou "mas não consigo entender, você crioulo e comunista? Não existe crioulo comunista".

O seu movimento era outro... Não tinha nada a ver. Eu tinha gravado "Podes crer, amizade", o hino dos bailes black na época. Hoje, quando os funkeiros fazem um movimento, colocam 5, 6 mil pessoas. Naquela época, colocávamos 15 mil! Chegamos a colocar 25 mil no Maracanãzinho, com as "72 Horas de Funk", em que reuníamos todas as equipes do país e tocávamos três dias sem parar.

O que queria o Movimento Black Rio? O Movimento Black Rio tinha como base a conscientização. Dizer: "don, você leva uma vantagem. Você pode não ser gerente, não ter a chave do cofre do banco, mas, em compensação, seus dentes não vão cair logo e seu cabelo é tão fino que enrola. O cabelo do branco é que é duro, fica assim reto". Quer dizer, era esse tipo de coisa, para o cara sentir orgulho de ser negro. Mostrar que não era desvantagem, pelo contrário. Você vê meus dentes, por exemplo! Estou com 70 anos, bicho!

 De que mais vocês falavam? De trepada? "Seu pau é maior"? É [risos]. De trepada. Seu pau é maior e você tem mais vigor físico. Se for na porrada, tu ganha. Se for na cama, tu vai ganhar também. Branco morre logo, não dura. Não queira ser branco! Não queira agir igual a eles, porque senão tu vai ficar fraco, vai ser um cara derrotado.

O Black Rio era diferente do movimento negro norte-americano? Bem diferente. A negrada aqui tem outra postura e condição social, econômica. Tive que "abrasileirar" isso: conscientizá-los de que, independentemente de dançar e deixar crescer o cabelo, tinha que estudar, fazer algo útil em prol da raça. No Brasil, o cara ainda tem vergonha de ser negão. Quer ser mulato, cidadão de cor, marrom bombom, escurinho... Porra, isso é ruim para o movimento, enfraquece.

Na sua opinião, qual a grande questão racial no Brasil? Tenho como filosofia que o grande problema no Brasil entre o branco e o preto é o mulato. O mulato, na hora H, opta pelo branco, não fica do lado da negrada. Aí, quer ter filho mais claro para ser bem empregado, trabalhar num banco... Acha que, se trepar com uma branca, o filho dele vai sair mais claro. Uma grande bobagem. Meus filhos são todos negros. Negrada mesmo, danada!

Uma vida tumultuada dessas e você nem parece ter 70 anos! É cara. Não bebo, não cheiro, não fumo...

Nada? Parou ou nunca tomou? Nunca tomei. E olha que eu vivia disso nos Estados Unidos.

Você está dizendo que traficou drogas nos estados unidos? Morei no centro do Harlem [o bairro negro nova-iorquino]. E, lá, ou você canta ou trafica. Como é que eu ia cantar num lugar onde você ouve Ray Charles e James Brown o tempo todo?

Você vendia que tipo de droga? Vendia bagulho, cara. Maconha... E era época do LSD.

Mas não consumia nada? Nunca. Porque isso eu aprendi desde pequeno, vendendo amendoim. Eu jamais comia. Traficante bom não fuma, don.

Você pegava quanto para vender? Lá no Harlem? Pegava era de caixa de sapato.

De quilo? É, de quilo. E levava cocaína também, porque falava espanhol e pegava o bagulho com os Chicanas Power, que são os mexicanos e os porto-riquenhos. Engraçado, eles também não se dão com a negrada lá. Os dois estão fora da sociedade, discriminados e acabam se discriminando uns aos outros. Eu nunca fumei, não por preconceito ou pudor. Foi porque nunca me identifiquei mesmo. Até porque sabia que todo consumidor fica maluco. E não sou burro, né, don?

Como foi a sua volta para o Brasil? Voltei para cá no final de 1969. Em 1970, entrei no Festival [o 50 Festival Internacional da Canção, que venceria com a música “BR-3”]. Eu era tão desconhecido que quiseram me desclassificar do Festival. Pouca gente sabe disso, mas acharam que eu era gringo [risos]. Por causa do cabelo, do jeito... Inclusive, vim dos EUA de maneira muito ruim, no avião do malote, porra.

Por quê? Você foi expulso? [Rindo] Me expulsaram. Fui deportado. Vim num avião da PanAir junto com o malote. Cheguei aqui algemado, direto para a Praça Quinze. Um negócio assim, meio escroto mesmo.

Mas o que rolou lá?  O que houve é que eu bati um recorde americano, né, cara? Fiquei um ano e meio sem documentos nos Estados Unidos [risos].

Você não tinha nenhum papel? Nada! Fui para o Harlem porque lá não tem polícia, e é a lei do "murissi", cada um cuida de si! O governo americano não coloca polícia lá porque sabe que eles se matam entre eles. Acontece que fui dedado.

Já que estamos falando de imigrantes e exilados: você sabe qual a sua ascendência africana? Sei. Eu sou da etnia "Nimbus", da tropa mesmo de Ganga Zumba [ex-escravo e líder negro brasileiro que, em 1670 reinava sobre os povoados do Quilombo de Palmares]. É África Austral, aquela abaixo do centro. Então, sou de Angola, como os negros do Rio. Os da Bahia são sudaneses. É outro swing, diferente do carioca, né?

Você sempre teve orgulho das raízes? Ah, sempre... [Bruscamente] Apesar de ter sido casado com a Arlete Salles. Quero deixar isso claro aqui, porque às vezes os caras ficam na dúvida. "Pô, mas esse cara foi casado com uma blond?" Mas aí era uma parada minha do coração, não tinha nada a ver. Porque, se ela dissesse que preto era feio, eu tirava o pau de dentro, don. Ela nunca falou, porque sempre foi preta igual a mim. Só notei que ela era branca quando me separei dela.

Por quê? Nunca vi cor naquela mulher. Ela era muito participativa. Estou falando numa boa mesmo, sem pieguice. Eu digo que nunca a vi branca, loura, porque as atitudes dela eram negras.

Foi por isso que você parou de cantar, Tony? Também. Mas cheguei à conclusão de que todo o mundo canta nesse país. O Brasil é um país musical. Não que eu tenha ficado ultrapassado. O que eu fiz há 30, 40 anos está aí. O problema é que paguei pelo vanguardismo. Coloquei vinte anos de frente. E aí é foda, ou tu retrocede ou vai ter que esperar a tropa.

Você acha que sua música estava à frente da época? Cara, estou falando de 32 anos atrás! E eu assim [começa a cantar]: "Há um foguete rasgando o céu,/ Cruzando o espaço,/ Um Jesus Cristo feito de aço,/ Crucificado outra vez./ Há um sonho,/ Viagem multi-colorida,/ Às vezes, ponto de partida,/ Às vezes, porto de um talvez./ A gente corre/ A gente morre/ Na BR-3." Aí, um idiota disse que a letra era papo de doidão. E acreditaram. Nego fumava e cantava “BR-3”, virou hino de maluco. Falavam que “BR-3” era a terceira veia, onde nego se aplicava! Olha que loucura! [Risos] E é a Rio-Belo Horizonte, hoje BR-040, uma estrada muito perigosa. A gente ia, mas não sabia se voltava. O “Jesus Cristo” é aquele que está na entrada de Juiz de Fora [MG]. Não tem lá um Cristo feito de aço? Então. E nego dizia que era a agulha!

Essa interpretação da música pegou mesmo? Naquela época era assim. Não teve aquele incidente com o Sérgio Ricardo, por exemplo, num dos festivais? Quando ele ganhou, mas o povo queria o Caetano e mandou vaia. Ele ficou puto, quebrou o violão e jogou no auditório. No dia seguinte, um jornal deu a manchete: "Violada no auditório". E nego pensou que tivessem comido alguém no auditório: "Como é que é? Curraram alguém?" [Gargalhadas.]

Vamos falar de outros sons, então: a música que rola na Bahia hoje, por exemplo, faz bem para o Brasil? Olha, don, eu acho que a turma da Bahia faz bem para a Bahia. Tirando o Caetano, o Gil, a Bethânia e mais algumas pessoas lá... Olha, Tchan é Bahia, Patrulha do Samba é Bahia. Mas Caetano, Gil são Brasil. Esses caras são poetas. Gilberto Gil, para mim, é o que há.

Você acha que o Gil poderia fazer mais pelo negro?  Não. Vale para o Gil a mesma coisa que vale em relação ao Pelé. Ele está fazendo bem o que se propôs a fazer. Pelé se propunha a fazer gol, e fazia, don. Ele extrapolou, um cara que marcou 1 284 gols!

Tem gente que cobra do Pelé o fato de ele não ser um militante da causa negra. Não tem que ficar cobrando nada, não. Ele fez o que tinha que fazer. Na Bandeira está escrito "Ordem e Progresso", cada um cumpra com seu dever, don. Sou Santista, então sou suspeito. Mas vamos falar do seu Edson, deixando o Pelé de lado: seu Edson é a maior representatividade negra deste país. Podem me pichar, falar o que quiserem, não abro mão disso. Queria eu ter sido tão importante para o Brasil, e para a negrada, quanto o seu Edson. Não tem que levantar bandeira o tempo inteiro, don.

O Pelé, assim como você, foi criticado por ter se casado com uma branca... O meu casamento com a Arlete Salles... Imagina, bicho, casei com uma branca 30 e tantos anos atrás.

Pegou mal até entre os negros? Foi uma parada, né, don? Uma coisa que chocou muito. Aconteceu em 1970 e a Arlete era star. Naquele tempo, ela fazia o programa Alô Brasil, Aquele Abraço, líder de audiência. E ainda era casada com o Lúcio Mauro, o protótipo do casal harmonioso, bonitinho, certinho. Chego eu, um negro desconhecido...

Ela largou do marido para ficar com você? Não. Ela já tinha largado dele, já estavam separados. Quer dizer, não estou também dizendo que respeitei isso. Nos conhecemos e ficamos apaixonadíssimos, cara. Olha, foi um negócio... um negócio muito bonito. E perigoso para a época.

 Essa história chateou você? Me machucou. Os acontecimentos foram um atrás do outro. Teve a Arlete Salles, depois fui cantar num festival numa praia no Espírito Santo e caí em cima de uma mulher.

Caiu mesmo? Tombo? É. Caí do palco. E a mulher machucou a terceira vértebra, quer dizer, torcicolo, né, bicho? Mas engessaram ela toda, foi o maior escândalo. Antes disso, ganhar o festival com “BR-3” já foi foda. Porque ofereci o troféu, o "Galo de Ouro", para a Arlete, aquela loura, na frente do Brasil inteiro, dos negros, do Movimento Black...

Por que você fez isso? Impulso, don. Paixão. Não foi minha boca, foi meu coração que falou. Eu estava apaixonado pela mulher pra caralho. Nós tínhamos um relacionamento amoroso totalmente à parte desse meu lado político. É como dizia o Guevara: Pero sin perder la ternura... Então, quando estava com ela, o guerreiro caía todo. Mas nunca misturei as coisas.

Mas naquele momento você misturou e entregou o troféu para ela, em vez de dedicá-lo aos negros... Não fiz nada para aprontar, não. Acontece que eu fazia uma apologia de uma coisa e, na hora, apresentei outra para eles.

 Ainda cobram você por isso? De vez em quando ainda chegam umas pretinhas e falam: "É, mas você só gosta de loura." O caralho!

Rola aquele preconceito às avessas de que você estava falando. O que é isso, né, don!? Ninguém fala de racismo pra mim. Eu sou autoridade em racismo. Porque morei nos EUA e vivi aqui. Quando vou conversar com alguém, saco tudo, porque tenho sensibilidade.

Então você parou de cantar de vez? Pegou mal. Ainda por cima eu morava com outra mulher, e deu confusão porque ela descobriu que eu estava saindo com a Arlete. Minha mulher e eu tínhamos ido esquiar em Bariloche, e dei umas porradas nela. Saiu no jornal: "Tornado atropela a mulher na neve". Em 1976, 77, gravei outro disco, chamado Deus Negro, que foi recolhido.

Por quê?A igreja se meteu no meio. A letra dizia: "Você teria por Ele esse mesmo amor,/ se Jesus fosse um homem de cor?/ Glória, Glória, Aleluia, o Meu Cristo não tem cor".

 E olha que você falou "homem de cor"... É [ri]. Até "homem de cor" era pesado para a época. Tu vê o cuidado que a gente tinha.

Os negros deveriam voltar para a África, Tony? Não, né, don? Nosso lugar é aqui.

Mas Bob Marley dizia "a gente devia voltar para a terra...” É caô, don. Caô! Pelo seguinte: se fosse bom, ninguém tinha saído de lá, bicho.

Mas eles saíram à força. Sim, mas, depois que nós tivemos a liberdade conquistada aqui, ninguém voltou. Por que ninguém quer ir para o cu da Nigéria, para Angola? Negro quer ter carro importado, viver como o white people. Ele quer ter todos os direitos. E é certo, porra. Até porque o Brasil, isso aqui, é nosso. [Fica indignado.] Ninguém tem coragem de dizer, mas quando o punheta veio rezar a primeira missa, já tinha índio pintado, bicho. E a tradição de pintura não é indígena, é africana. Tinha negrada aqui antes dos índios, don. Ou então viviam junto com eles. Ganga Zumba é de 1670, pô!

Você hoje tem contato com negros atuantes? Conhece os caras dos Racionais MCs, por exemplo? Conheço! Tive o prazer muito grande de encontrar o Mano Brown em Copacabana. Fiquei feliz de saber que, apesar de eles serem todo esse sucesso, conhecem o Tornado. E aí, cara, foi um carinho... Fico muito emocionado, e eles também.

Você gosta do som dos Racionais? Demais, gosto muito. Racionais pra mim é top.

Eles não gostam de falar com a mídia, nem vão à televisão. Sei. Mas é engraçado porque isso vai contra a filosofia do rap. O hip hop é, em sua essência, contestador. Quando o Kurtis Blow, o Ice T., o Snoop Dogg falam é pra peitar as situações, não pra se esconder.

Mano brown deu uma entrevista à TRIP na época em que o Ronaldinho tinha acabado de comprar a Ferrari. Depois, ele foi acusado por parte da imprensa de ter incentivado o seqüestro de jogadores... Ele mandou aquela, eu soube. Pegou mal, né? Mas sabe o que é, don, o Brown é humano e cometeu um deslize. Ele é passível de erro. Agora, ele não pode esquecer que o Ronaldinho foi pobre e batalhou. Tem mais é que ter Ferrari, porra.

Você acha que o negro tem mesmo é que almejar uma Ferrari? É o grande prêmio, don. Para compensar o trem das 6h35, que você encara carregando a marmita. E, quando chega meio-dia, descobre que a comida azedou! Aí, pô, deu essa sorte, ganhou um troco? Compra sim, bicho! Por que não? Até porque estamos falando de Ronaldinho, que tem um trabalho muito bonito com crianças pobres, é um cara sempre pronto a ajudar as pessoas. A gente tem é que bater palma, e deixar ele comprar bastante avião, bastante Ferrari. Não tem que roubar ele porra nenhuma, don. Tem que roubar é o cara lá, o [senador cassado Luiz] Estevão... [risos].

E o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta? Queimou o filme? O Pitta? Não. Se o branco erra, porque o negrão não pode errar? Por que a cobrança tem que ser maior? Nego tá é puto porque ele é carioca, negro e venceu em São Paulo. Isso ficou engasgado na goela dos caras.

Não pode ser porque ele tenha sido ruim como prefeito mesmo? Acho, primeiro, que ele foi muito mal assessorado. Depois, tiveram tantos prefeitos que fizeram merda em São Paulo e não ­foram criticados assim. Acho que a negritude dele pesa. Não sou a favor dele, não, pelo contrário. Mas que pesou, pesou. 

A Globo ajudou a derrubar o Pitta, não foi? A Globo derruba qualquer um. Quando cisma, derruba. Agora a bola da vez é o Eurico [Miranda], o cara lá do Vasco. E derruba, vai derrubar. Estou falando com conhecimento de causa, são 26 anos lá dentro. A Globo só precisa de oito minutos: cinco para fazer alguém, que é mais difícil, e três para acabar.

Já que estamos falando de mídia: o que você acha da repercussão dessa onda do funk carioca? O funk é uma manifestação. Em 1972, fiz sucesso com uma música chamada "Bochechuda" [risos]. Então, meu passado me condena. Hoje escuto "popozuda", "tchutchuca"... Aquela minha música dizia [canta]: "Ontem lá na praia/ quando eu vi você fazer uma bochecha grande,/ botou nego pra correr./ Bochechuda!", com um puta balanço. Era uma apologia safada também!

Na sua opinião, o Bonde do Tigrão tem algum valor artístico? Valor? Como identificação com o público, sim. Não fui eu que inventei, mas, como diz o poeta, "o artista tem que ir aonde o povo está". É só uma manifestação, don. Depois passa. Minha esperança é que o tal do Tigrão se dê conta, depois de ganhar muito dinheiro, e diga "porra, agora posso fazer uma coisa melhor".

Você acha que o funk do morro pode melhorar? É claro. Porque poder de comunicação os caras já provaram que tem. don, eles mexeram com todo o país! Desculpe a comparação, mas o Milton Nascimento não faz um movimento desses [risos]. Edu Lobo também não. Tem que dar na veia da doméstica, don. E o Bonde do Tigrão deu na veia da doméstica.

Como é que é isso? Dar na veia da doméstica? A veia da doméstica é o termômetro em qualquer situação cultural. O doutor, quando quer saber se uma coisa é boa ou ruim para o público, pergunta para a empregada: "O que você acha, Margarida?". Como o Getúlio [Vargas] fazia com o Gregório [Fortunato]: "Tenente, o que o senhor acha desse ministro aí?" E o Gregório respondia: "Olha, presidente, acho que não é legal não." E o Vargas passava a régua.

A doméstica então é que sabe das coisas? Claro. É o termômetro. E não só para o Tigrão. Também para o Caetano, quando ele teve que cantar "Sozinho", depois de todo aquele "Haiti é aqui", bá bá bá, que não pegava. O que estourou foi "Sozinho", do Peninha! Na veia da doméstica, don.

 Mas, para dar na veia da doméstica, precisa ir de "boquinha da garrafa" em vez de uma mensagem mais instrutiva para fazê-la pensar?Mas ela não tem consciência disso, don! Tu vai dar uma parada n’água. Primeiro ela tem que estar pronta para receber a conscientização política. Quando tu salva uma pessoa morrendo de fome, tem que dar primeiro suco. Se der feijoada, ela morre. Dá suco primeiro, depois arroz, feijão...

Você não tem preconceito nenhum com a coisa popular? Não. Porque, artisticamente falando, nossa meta é essa, don. A TV Cultura quase ninguém vê.

E minisséries do tipo Os Maias, por exemplo? [Risos] Até eu dormi nessa porra. “Um troço escuro pra danar”, minha empregada fala. Eu tento explicar pra ela que é uma linguagem nova de televisão, que a luz é meio "feliniana", falo da importância da divulgação da cultura portuguesa, nosso início lingüístico... E ela: "Sei não, seu Tony, tô com sono, amanhã tenho que trabalhar..." Acabou o papo. Ela vai para o quarto dela e liga no Raul Gil.

Mas o que vai sobrar para quem procura uma coisa mais maluca e inteligente? Olha, quando falo esse negócio da minha empregada, digo com o maior pesar. Gostaria que ela já estivesse vendo Os Maias. Mas ela não foi educada para isso. Tem que fazer um trabalho muito forte com ela. Deixa ela ver televisão, depois a gente vai afinando. Passa pelo Faustão, vai indo...

Uma pedagogia estilo SBT? Ah, o Abravanel [verdadeiro nome do apresentador Sílvio Santos] vai na veia, né? Inclusive, ele nem trabalha com as classes A, B e C. Vai direto na veia da doméstica. Ele pensa: "Não vou lá no A, B, C porque esses caras já estão ocupados vendo Os Maias. Não vão se dar ao trabalho de ver o Show do Milhão nem por um cacete. Eles nem ligam lá. Dizem, no máximo, que passaram pelo quarto da empregada e viram. Que, nessa hora, estavam vendo o canal People’n’Arts [risos].

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