por Ricardo Calil
Trip #248

A escritora Tati Bernardi fala sobre neurose, ansiedade, TOC, Rivotril e sua busca por um texto popular, que faça rir e seja inteligente – ao mesmo tempo

Tati Bernardi havia acabado de interromper o tratamento com um antidepressivo chamado Escitalopram – que, ao contrário do que o nome sugere, tinha arruinado sua libido até transformá-la em uma planta, em um nabo assexuado. Sem o remédio no corpo, ela se sentia novamente com o tesão de uma garotinha de 15 anos.

Era verão, casa de amigos, todo mundo lindo, todo mundo inteligente, todo mundo bebendo. E, então, Tati teve uma ideia: provocar uma suruba. Maliciosa, começou brincando com uma amiga: "Deixa eu ver seu ombrinho, vai...". Depois, fez uma gracinha com um amigo. Aos poucos, o pessoal foi se soltando, relaxando. E, quando Tati viu, estava rolando o maior surubão.

De repente, apareceu um convidado indesejado: o cinismo de Tati. Ela começou a olhar para a cena como se estivesse de fora, a rir de si mesma, a narrar tudo ironicamente em sua cabeça: "Então, Fabiana tirou sua delicada bata, deixando os seios perfeitos à mostra...". Tati percebeu o que estava acontecendo e até tentou parar: "Ah, não, não acredito que você está narrando a suruba! Basta!". Mas não adiantou. Tati já não estava mais ali. Acabou vazando à francesa, sem participar da suruba que havia incitado.

Woody Allen do Tatuapé
Tatiane Bernardi Teixeira Pinto, 36 anos, gosta de provocar. E não apenas surubas. Com suas colunas (publicadas primeiro no site da revista Tpm, depois nas revistas VIP, Alpha, em seu site pessoal, e agora na Folha de S.Paulo), a escritora vem despertando o amor de milhares de admiradores – que reproduzem incansavelmente suas frases (e outras atribuídas a ela) pelas redes sociais e a transformaram, ao lado de Clarice Lispector, em uma rainha dos memes. E vem despertando também o ódio de inúmeros detratores com um talento particular para desagradar grupos sociais, políticos e profissionais variados – e, por vezes, opostos. Feministas ("eu só acredito em feminista que fica de quatro") e machistas (que já a chamaram de "rodada"), defensores do PT e do PSDB (nesse caso, por um mesmo texto, "Como continuar petista?"), rea-lizadores do cinema independente (que a chamaram de dinheirista por um texto em que ironizava quem trabalha de graça) e adeptas do parto humanizado ("eu não quero ver sua xota, gata").

Quando não está evocando ternura e fúria com suas colunas, a ex-publicitária é roteirista de sucesso, com um currículo que inclui a franquia Meu passado me condena (que rendeu dois filmes blockbuster com Fábio Porchat e Miá Mello, uma série de TV, uma peça e um livro), o programa Amor & sexo e a novela Sangue bom. Seu objetivo profissional, segundo ela, é ficar rica e famosa e, ao mesmo tempo, "conquistar a admiração da USP", com um trabalho que combine o popular e o sofisticado.

Entrevistar Tati Bernardi é entrar em um filme do Woody Allen passado entre o Tatuapé (onde ela cresceu), o Rio de Janeiro (onde ela surtou) e Perdizes (onde ela mora e recebeu a Trip). Uma conversa entremeada por frases como "eu sou neurótica", "eu sofro de ansiedade", "eu tenho TOC", "eu tomei 0,25 de Rivotril". Um universo habitado por uma hipocondríaca que perdeu a virgindade em um hospital, por namorados com três mamilos, frutas com gosto de vinagre, impostoras que a obrigam a provar que ela é a verdadeira Tati, uma festa de aniversário em que a aniversariante não aparece, um stalker que se decepciona com a altura da mulher que persegue, um almoço inesperado com um prefeito gato, uma secretária gostosa com crise de pânico, uma caixa de e-mail lotada de fotos de xoxota. Bem-vindo ao estranho mundo de Tati Bernardi.

Você colocou uma foto no Instagram hoje de manhã dizendo: "Eu fui essa perua aos 19, mas Woody Allen me salvou". Por quê? Ele te ensinou que a neurose tem seu charme? Exatamente. Estou até escrevendo um livro para a Companhia das Letras chamado Quem ri por último, Rivotril, em que conto que desde criança sou esquisita, neurótica. Sempre fui meio fóbica pra sair, eu não gostava de festa com muita gente, sempre tive mania de doença, de limpeza. Tive um avô que também era muito neurótico. Como meus pais trabalhavam fora, eu passava o dia com ele. Todas as frutas ele colocava pra lavar no vinagre. As pessoas perguntavam se eu preferia uva ou maçã. E eu falava: "Mas tudo tem o mesmo gosto!". Eu era cheia de mania e muito mental. Com 8 anos, eu pensava: "E quando meus pais morrerem? Como vai ser quando eu for mãe? E quando eu precisar trabalhar? Será que eu vou ganhar dinheiro?". Sempre fui ansiosa. Na adolescência, quando comecei a assistir aos filmes do Woody Allen, ele serviu como alívio cômico para a minha existência. Porque ele transformou a neurose dele em uma profissão. Eu pensei: "É isso que eu quero fazer da vida". Sempre achei que minha neurose ia me atrapalhar em tudo. Mas uma hora percebi que meus amigos morriam de rir, que alguns homens viam um charme nisso, que eu podia até ganhar dinheiro. A esquisitice é popular, porque todo mundo tem algo de estranho. E, ao mesmo tempo, se você fala de neurose, já tem um pé no erudito. Esse é um lugar que eu tento conquistar. Fazer um popular que faça rir e que seja inteligente, ao mesmo tempo.

Você fala que gosta de dinheiro. De onde vem esse desejo? Quando eu era criança, eu falava pra minha mãe: "Vou ser rica, vou ser famosa". Mas não era um trauma, nunca me faltou nada. Eu era da zona leste de São Paulo, mas era um brega abastado. Nunca tive o sonho de casar com um milionário. Eu queria muito ser bem-sucedida. Espero ainda realizar esse sonho. Quando eu era adolescente, eu dizia para minha mãe: "Vou trabalhar na W/Brasil, na editora Abril, na Globo e na Folha". E eu trabalhei nesses quatro lugares. Então talvez eu consiga realizar o outro sonho, de ser rica e famosa. Mas eu também quero ser amada pela USP! Quero fazer 6 milhões de público com uma crítica de três estrelas na Folha.

É isso que você sonha para o futuro? Sim, isso e ser mãe. Acho que sou muito angustiada e muito palhaça. Se juntar isso, acho que consigo ter respeito e dinheiro. Sabe aquela música que diz "we’ve come too far to give up who we are" ["Get Lucky", do Daft Punk]? Aliás, peguei um táxi para ir a uma festa outro dia, e o motorista estava escutando essa música no último volume. Aí cheguei numa festa na casa da Marília Gabriela, uma festa cheia de intelectuais, e estava tocando a mesma música. Eu pensei: o que eu quero para minha carreira é essa música, que está tocando no táxi e numa festa de intelectuais.

Como foi sua infância no Tatuapé? Eu fui muito mimada. Apesar de a minha família não bombar de grana, eu era filha única e tive tudo que eu quis. Por outro lado, achava que tinha problemas no coração, gastrite. Dos 5 aos 20 anos, eu fiz uns 30 ecocardiogramas, várias endoscopias. Fui fazer psicanálise aos 20 anos, faço até hoje, e descobri que o que eu tinha era angústia. Para você ter ideia, eu tive sarampo psicológico [risos]! Eu era vacinada, mas vi minhas amigas com sarampo e fiquei toda pintada de vermelho.

Você diz que viveu sua infância num "brega abastado". Você sofria por não ser cool? Eu nem sabia que não era cool. No Tatuapé, todo mundo era parecido comigo. Morar na zona leste era como morar no interior. Tinha um paquerinha que vinha me ver de mobilete. Eu escutava o barulho, ia para o portão da casa do meu avô, e a gente ficava namorando lá com supervisão. Eu estudei num colégio de padres, bom e caro, o Agostiniano São José, no Belenzinho. Nas festas que frequento na zona oeste agora, as pessoas sempre me perguntam: "Você fez Vera Cruz ou Santa Cruz?". E eu brinco: "Eu fiz o Cruz Credo". Com 17 anos, eu entrei em publicidade no Mackenzie. Lá, eu vi maconha e cocaína pela primeira vez na vida. Eu percebi que era uma tonta, tinha gente que já tinha feito três abortos, e eu só fui perder a virgindade com 20 anos. A pessoa fica virgem até os 20 anos e depois vai escrever sobre sexo! No segundo ano da faculdade, consegui meu primeiro emprego, estagiária da W/Brasil. Foi aí que percebi que não era cool. As pessoas eram muito lindas, uma coisa "eu estive semana passada em Moscou", e eu só tinha ido para a Disney. Fiquei uns quatro anos na W, depois fui para Lew Lara, Talent, Leo Burnet, NeoGama. Trabalhei uns nove anos em agência.

Atualmente você tem uma visão crítica da publicidade. O que pegou? Eu fui muito feliz nos primeiros anos na publicidade. Mad Men é minha série favorita. Eu não tinha grana, mas era feliz. Só que no finalzinho eu já estava se saco cheio. Eu tinha ideia, daí eu tinha que ter outras 150 ideias, porque a primeira não era boa, aí levava para o cliente e voltava, eu tinha que ter mais 250 ideias, aí ia para o cliente de novo, eles aprovavam, mas desistiam de veicular, ou o cliente mexia e ficava uma merda. Quando comecei a ter coluna, eu tinha uma ideia, escrevia, postava, bombava. Tudo em 2 horas.

Hoje você tira bastante sarro da figura do publicitário. Durante muito tempo o publicitário foi minha referência para tudo. O cara tinha um apê no Copan, e eu, caipira do Tatuapé, ficava num deslumbramento absurdo. Tive 500 namorados publicitários, era obcecada por eles. Mas uns seis anos atrás eu fiz algumas matérias da pós como ouvinte na USP. Em paralelo, comecei a ter mais amigos jornalistas, roteiristas, um pessoal mais de esquerda. Na minha infância, minha família era muito petista, eu morava em frente à Philco. O Lula ia fazer piquete lá. Minha mãe era obcecada por ele, dizia: "Esse homem vai mudar o país". E eu, pequenininha, ficava na janela ouvindo o Lula falar. Aí virei publicitária e, você sabe, essa galera definitivamente não é petista. Eu continuei votando no PT, mas estava mais preocupada em saber se o Beirut viria tocar em São Paulo. Publicitário é isso, é imagem. A preocupação era: "Você viu o novo comercial da Nike?". Nos últimos anos, comecei a me politizar mais. Aí eu vi, primeiro, que publicitário não sabe escrever, e depois que a galera é mais reaça, mais limitadona, peguei bode.

Você está dizendo que foi fazer aulas na USP e começou a andar com uma galera mais intelectual. Mas você tem um lado anti-intelectual forte, há vários textos seus que batem nessa turma. Explica isso. Acho que esse é o motivo pelo qual estou fazendo terapia há 500 anos. Porque tudo que eu estou fazendo, ao mesmo tempo eu não estou fazendo. Tenho uma piada que sempre conto: "Ah, eu tinha muito potencial para ficar rica escrevendo coisas populares. Abri mão disso para ter o amor da galera da USP, e aí fiquei sem nada". Eu deixei de lado um talento popular em nome de me intelectualizar e fiquei no meio do caminho. As feministas de ciências sociais me olham como uma loira publicitária, e as peruas olham para mim como a menina da zona leste. Eu não pertenço a nada. É um limbo.

Quanto esse desejo não realizado de pertencer ainda causa sofrimento? De ser respeitada como escritora, não mais. Eu já sofri o preconceito de "ah, ela só escreve sobre ela". Eu escrevo para dar conta do tanto de merda na minha cabeça. Estou batendo em mim e, batendo em mim, eu tento falar da humanidade, de coisas que todo mundo sente. Acho que tenho um lugar na literatura. Talvez com esse livro da Companhia das Letras eu o conquiste. Ainda não tive um livro bem resenhado, mas acho que vou ter. No cinema também não rolou. A crítica mete o pau, tem a coisa da comédia, do Fábio Porchat, mas acho que o próximo já vai ficar mais esperto, e o seguinte mais ainda. Minha busca é de a coisa ficar mais esperta, não é uma busca pela grana, embora eu goste da grana. Não quero fazer um filme para o professor da Unicamp me amar, ser visto por 5 mil pessoas e eu ganhar 30 reais.

Você diz que bate em si mesma. Mas você já comprou brigas com muita gente... As feministas fervorosas, com blogs feministas, me odiaram muito quando entrei para a Folha, tentaram me colocar num lugar que não é feminista, que é de direita. E não tinha nos meus textos nada que comprovasse isso. O que deixava claro que elas estavam com raiva de mim por eu ser mulher, o que é muito maluco. Agora parou, já tenho coluna há um ano. Mas, quando eu comecei, entrei com dois pés na porta. Pensei: "Eu quero chamar a atenção". Eu pensei: "Estou na Folha, quero ser vista ali". Eles primeiro me deram um blog. Aí eu escrevi um texto cujo título era: "Gata, eu não quero ver sua xota". Acho a coisa mais linda do mundo parto humanizado, mas botar foto de uma banheira cheia de sangue, mostrando as pernas abertas... Eu não entendo aquilo, acho de um mau gosto absurdo. "Ah, vejam o meu útero no Facebook!" E tem uma contradição nisso. Se gostam de tudo tão natural, pra que digitalizar e colocar no Facebook?

Você sabia que estava comprando briga com um grupo barulhento? Não sabia. Eu sabia que ia incomodar e que isso ia me dar um prazerzinho de estar todo mundo lendo. Mas não sabia que ia ser xingada na proporção que fui. E aconteceu uma coisa engraçada. Durante um mês fiquei recebendo foto de vagina. Elas tiravam foto de vagina e me mandavam, porque elas resolveram que eu era vaginofóbica. Acho que recebi umas 12 fotos de xana. O Sérgio Dávila [editor-executivo da Folha] me ligou e disse duas coisas: "1) Você nunca mais coloque a palavra ‘xota’ num título; e 2) você vai pro impresso porque você é muito boa". Então chamou a atenção que eu queria. Mas não gosto de comprar briga por comprar. Era algo em que eu acreditava.

Tem aquela coluna em que você diz que só acredita em feminista que fique de quatro. Até que eu não apanhei tanto por esse. Eu sou na minha vida, pessoal e profissional, extremamente feminista. Mas, quando vai para um feminismo exagerado e fica chato, eu bato nele. Mas eu bato nele porque eu bato em qualquer coisa que fique muito chata. Quando escrevi que só acredito em uma feminista que fique de quatro, os oito primeiro parágrafos eram apoiando o feminismo. Depois disso é que eu falo que "se a mulher quiser apanhar na hora do sexo, deixa ela apanhar".

Tem um texto anterior, chamado "Ser sexy dá gases e corrimento", em que você escreve sobre "mulheres que se arrumam de forma a dar motivo de punheta para o universo". Uma frase forte, não? Parece o "merece estupro", né? Aí é o limite do humor que eu aprendi. Acho que foi com esse texto que sofri mais. Eu me senti numa semana Rafinha Bastos. Ali eu errei. Como seria o texto que eu faria hoje? "Tentei ser sexy. Fui para o Rio de Janeiro com um salto alto gigante. Caí, bati a cabeça, não consigo." Eu recebi um monte de e-mail dizendo: "É por causa de pessoas como você que mulheres são estupradas". Isso me destruiu. Porque eu estou a vida inteira brigando para as mulheres terem o mesmo salário dos homens, brigando para meus namorados não serem machistas. Tive vários namorados que terminaram comigo dizendo: "Isso que você escreve não dá, não quero ter uma namorada que se exponha assim". Passei uma vida inteira sendo feminista para elas virarem e dizerem que eu não sou. E, se bobear, eu sou mais que elas.

Então foi por esse texto que você mais apanhou? Tem um outro que me fez apanhar muito, em que eu dizia "chega de trabalhar em cinema e não ganhar dinheiro". Eu já vi produtor que tira R$ 5 milhões de um filme, então tem que pagar o roteirista, tem que dar destaque pro nome dele. Eu apanhei porque tirei sarro de quem topa fazer de graça. Falaram que eu era dinheirista. Invertem o que você está falando para te escrotizar.

Como espectadora, de que tipo de filme você gosta? Eu não consumo o tipo de que filme que faço. Que dor dizer isso! Gosto de filme cabeça. Mas filme bom, não aquele que o personagem fica 9 horas olhando pro mar. Eu amo O céu de Suely, O som ao redor, acho o Que horas ela volta? uma obra-prima. Mas o que eu consumo muito e aonde eu quero chegar são os filmes do Judd Apatow [O virgem de 40 anos, Ligeiramente grávidos]. Outro cara que eu amo é o Noah Baumbach [Frances Ha, Enquanto somos jovens]. É comédia inteligente, com situações em que todo mundo se reconhece. Adoro Tina Fey [30 Rock], Jill Soloway [Transparent], Lena Dunham [Girls].

Você olha as outras comédias comerciais brasileiras e reconhece que estão num patamar muito inferior ao dos americanos que você citou? Sim. Por exemplo: eu acho o Paulo Gustavo um fenômeno, eu rio muito com ele. Mas não gosto do roteiro do filme dele [Minha mãe é uma peça – O filme], e é uma gritaria... Eu não consigo mais ver novela, porque as pes-soas gritam demais. Os seriados da Globo têm muito isso. É sempre uma mulher suburbana que tá puta porque o marido dela não pagou alguma coisa ou porque tá traindo. E aí ela grita: "Você vai se ver comigo!". Num guento gritaria!

Você trabalha na Globo há sete anos como roteirista. Como é sua relação com eles? Eu tenho uma boa relação, mas eu não assisto muito à Globo. Minha TV fica o dia inteiro na Globo News, no Netflix e no Now. No começo do trabalho na Globo, eu morei um ano no Rio e detestei. Tive síndrome do pânico, anorexia nervosa. Aquela ditadura da alegria. Eu dizia que estava angustiada, e o pessoal falava: "Toma um banho de mar que passa". Eu dei uma festa de 29 anos, chamei uma galera da Globo, diretores, roteiristas, e eu mesma não fui. Fechei um andar de um restaurante para 50 pessoas, mas não consegui sair de casa. Foi uma fase complicada. Mas hoje eu amo o Rio. Eu sempre chamo carioca para trabalhar comigo. Meu namorado é carioca. E amo também o humor do Rio. Paulistano é muito coxa perto de carioca. Os bons cariocas são melhores que os bons paulistanos. Só que os bons cariocas são os que amam São Paulo e têm um pouco de angústia.

Em que momento a Tati, redatora publicitária, vira uma autora que começa a ser citada na internet? Quando surgiu a Tpm, fui pesquisar a revista, vi o nome Fernando Luna e bati na porta da editora, porque eu já queria ser escritora. Levei três crônicas minhas, ele disse que adorou os textos e me deu uma coluna no site da Tpm. Foi o primeiro lugar em que trabalhei como escritora na vida e foi aí que começaram a me citar nas redes. A primeira coluna que escrevi foi sobre como meu namorado não desgrudava da Trip com a Luana Piovani.

Quais são seus heróis na crônica? Nelson Rodrigues, por todas as vezes que ele achou que falar de sacanagem e de traição era mais importante do que falar de política. O Antonio Prata, porque ele mistura o erudito e o engraçado e todo mundo pode gostar dele. O David Sedaris, porque ele se expõe e tira sarro de si mesmo, um humor autoirônico que jamais vai cair no "ui, falo de mim porque sou um autocentrado blogueiro mala". Woody Allen, pelos mesmos motivos. Não vou falar de Rubem Braga nem do Paulo Mendes Campos, apesar de gostar muito, porque não suporto como alguns cronistas brasileiros copiam deslavadamente o estilo. Ninguém tá muito preocupado em dar a cara pra bater, vão no seguro e bem aceito.

Você começou uma coluna sobre relacionamentos quando ainda era virgem? Quase! Acho que a coluna veio um pouquinho depois. Eu devo ter pensado: "Ah, agora já sou p.h.D". Depois da Tpm, tive coluna na Vip e na Alpha. Tive meu site, que era um sucesso. Até hoje as frases que têm no Google – e 90% do que está lá não é meu – são dessa época. Eu costumo dizer que dei sorte de ser uma escritora na época das redes sociais. Porque aí o boca a boca é mais rápido ainda. Só que às vezes é para o mal. Quando eu escrevia para a Alpha, eu ainda achava que gostavam de mim. Aí um dia me deram um toque sobre uma coluna, sobre rusgas entre mulheres, que tinha ido para o site: "Entra lá para dar uma olhada". Eu dizia o seguinte: "A mulher tá lá no banheiro conversando com a amiga numa boa e pensando ‘olha o cabelo dessa vaca, ah ela emagreceu’". Eu entrei no site e eram 200 pessoas me xingando, achando que eu dizia que toda mulher é falsa. Aí eu entendi que a internet te eleva e te derruba. E começou com a história de gente me deletando no Facebook. Isso aconteceu também quando eu escrevi o texto "Como continuar petista?". Fui deletada por quem é petista, achando que eu estava falando mal do PT. Fui deletada por quem é mais PSDB, achando que era uma ode ao PT. A única pessoa que entendeu foi o [prefeito de São Paulo Fernando] Haddad, que descobriu meu celular e me ligou emocionadíssimo, às 9 da manhã. Me disse que concordava com o texto, me convidou para almoçar.

E como foi o almoço? Eu obviamente fiquei muito nervosa, fingi que estava de regime e pedi só salada [risos]. Ele é muito legal, engraçado, educado. A gente falou de cinema, de seriado. Falei que ele tinha que ver House of Cards, ele disse que não ia ver: "Já vivo isso no meu dia a dia, não quero ver de noite em casa." O Haddad entendeu meu texto, e um monte de petista me deletando no Facebook... É a vontade de ter raiva. Outra coisa muito ruim que rola na internet são os falsos cognatos. Você coloca meu nome no Facebook e tem umas 18 pessoas com a minha foto, o meu nome. Tinha uma que já tinha 50 mil likes. Escrevi para ela: "Você está me dando problemas. Você é você, eu sou eu". Aí ela respondeu: "Você tá maluca? Eu sou a Tati. Me prove que você é a Tati". Uma hora a página dela chegou a quase 1 milhão de likes, e ela começou a ganhar dinheiro com isso, postava publicidade. Aí eu a denunciei pro Facebook, mas tive que mandar meu RG para provar que eu era eu. Aí eles derrubaram a página dela. Nesse dia, o namorado dela me mandou um e-mail dizendo: "Vou te matar. Se eu te encontrar na rua, vou te dar um tiro. Ela tava feliz. Era o emprego dela".

No Fla-Flu que as timelines se tornaram hoje em dia, você se identifica mais com o pessoal que defende a Dilma ou que é crítico da Dilma? Criticar a Dilma faz parte do momento atual. Não acredito em nenhum intelectual ou gente de esquerda ou jornalista ou articulista que não critique a Dilma e o PT hoje. Mas votei nela, votei no PT minha vida inteira e acho triste tudo isso. Tenho bode profundo de quem odeia a Dilma e o PT apenas por uma questão de "gosto", esbanjando sem dó comentários preconceituo-sos, limitados. Horror a quem posta "revoltados on line", xingam e humilham a Dilma. Mas tenho também bode de quem defende a Dilma e o PT sem jamais aceitar que tantos erros foram cometidos ali. Os petistas cegos que acham que tudo é um grande golpe da mídia são tão chatos quanto!

O que você acha dessa história de impeachment? Sou absolutamente contra. Primeiro porque aquelas famílias todas "de bem" que vão às passeatas são completamente desinteressantes, fazendo suas selfies com bandeiras e policiais. Depois porque o Temer, a bancada evangélica e o Aécio não são nenhum sonho de Brasil. Por último, porque a Dilma está oferecendo tantos cargos pra PMDB e opositores que... pra que, né? Já tá tudo dominado, infelizmente.

Muita gente ainda pensa em você como uma colunista de sexo, mesmo não escrevendo sobre sexo regularmente há muito tempo. Por quê? Eu vou até dizer uma coisa perigosa. Eu vi o documentário Hot Girls Wanted, sobre garotas que fazem filmes pornô assim que completam 18 anos e são brutalizadas nas cenas de sexo, e escrevi sobre ele na Folha. Eu chorei sem parar do começo ao fim e continuei chorando horas depois de acabar o filme. Meu namorado falou: "Tá demais, vai ver na terapia o que é isso aí". E eu fiquei pensando nessa coisa de escrever sobre sexo. Em vários momentos da minha vida, eu senti que tinha uma coisa assim: "se você der uma apimentada, a gente dá um destaque na sua coluna, a gente te dá aumento, a gente dá uma página inteira". Eu ouvi muito isso. Vai ser ridículo falar: "Ah, eu fui levada a ter uma coluna de sexo". Não, eu escrevi sobre sexo na Vip, na Alpha, porque quis, ninguém me obrigou a nada. Mas tinha um desejo de fama ali. Com 20 e poucos anos, você tem a von-tade de acontecer, e um texto de sexo chama muito a atenção. Então eu acho que eu fui muito para esse caminho.

Escrevendo sobre sexo. Sim. A comparação com o Hot Girls Wanted é ruim. Nunca fui abusada. Mas, querendo sair de casa no Tatuapé e me sustentar como escritora, devo ter achado que uma coluna que falava de sexo e me expunha levaria a isso. E disso eu ainda não estou curada. Em cada coluna eu me exponho. Isso é uma dor, até hoje. Ao mesmo tempo, é o que me salva. Como eu sou muito neurótica, cheia de mania, cheia de doença, escrevo sobre mim para dar uma acalmada na cabeça. Só que a exposição volta a me deixar ansiosa. Aí eu preciso escrever de novo. É um círcul0 vicioso.

Nessa mesma coluna sobre o Hot Girls Wanted, você fala de sua relação com a pornografia on-line e diz: "O que me dá tesão é ver mulher gozando". Por quê? Apesar de eu ser heterossexual, eu prefiro a mulher do que o homem para uma foto ou para um filme pornô. Devo ter uma porcentagem bissexual, já beijei meninas, mas sou casada com um homem, 90% da minha preferência é para homem. Só que não gosto de ver aquele bombadão pegando aquela siliconadona e falando umas putarias. Quando num vídeo pornô parece que aquela mulher está gozando, parece que de fato aconteceu o sexo. O homem do pornô parece que goza mecanicamente. Então, se a mulher do pornô conseguiu gozar, aí sim parece uma coisa real. Acho que é isso que me excita.

Você já usou Tinder e afins? Nunca. Acho legal pros jovens, acho triste quando rola um desrespeito, tipo tratar a menina com grosserias mesmo que ela esteja ali querendo apenas sexo, e daí? E acho estranho pessoas com mais de 35 anos usando [risos]. Pode ser preconceito meu, mas acho meio deprê. Sério que a pessoa não tem um grupo de amigos que conhece amigos que conhece amigos? Mas é preciso dizer: já paquerei MUITO pelo Facebook. Já agendei muito amor por ali.

Manda nudes? Já mandei foto safada tipo me fotografar de calcinha e sutiã pra um namorado ou enfiar o celular dentro do decote e bater a foto, mas nude frontal e no pelo, não. Por motivos de 1) medo que roubem meu celular e não gosto de dar motivo de punheta por aí; 2) estou sempre ocupada e sou casada; 3) a primeira razão é obviamente uma piada, a segunda é muito mais mentira ainda, então minha resposta na verdade acabou ali no nude frontal e com pelo.

Em vários textos, você fez uma defesa muito forte do fetiche. O único lugar que eu acho o feminismo chato é quando se mete no fetiche. Eu li uma vez uma matéria com uma feminista dizendo que tinham que proibir o homem de falar "eu comi uma mulher", "eu vou pegar aquela mulher". Mas às vezes é tão bom ouvir o cara falando "eu vou te comer". E agora não pode mais? Me irrita quando o feminismo quer jogar álcool gel no sexo. O fetiche me leva para um lugar assim: eu estou com tesão naquele cara que é mais velho, e eu vou ser a menininha dele. Eu passo 90% do meu dia sendo o oposto disso. Mas se à noite eu quiser estar nesse lugar da meiga, o feminismo não tem que se meter nisso.

Quais são os fetiches que você se permitiu realizar? Nunca tive fetiche "três mulheres e não sei o quê", "não sei o quê e um bicho". O meu fetiche era estar apaixonada. Porque o sexo apaixonada é melhor, conversar apaixonada é melhor. Meu fetiche era a sedução, vou conquistar aquela pessoa. Eu era viciada em paixão, aquela coisa de ter taquicardia, de ter enjoo, de ver a pessoa e querer transar dez vezes seguidas. Mas aí dava quatro meses, a paixão caía, a história acabava, eu ia atrás de outra paixão. Porque, acabou a paixão, virou da família. Dá pra ficar dez dias sem transar numa boa, ver um seriado em vez de rasgar a roupa com a boca. Eu tinha pavor desse lugar. Mas, depois dos 34, comecei a ter uma vontade violenta de ser mãe, e agora eu tenho um namorado que é a pessoa que eu mais amei na vida. Às vezes ele viaja, eu fico sozinha, vou jantar com uma amiga para depois ir a uma festa. Na metade do jantar eu já estou com sono. Aos 36 anos eu estou inibindo meus fetiches para poder ser mãe.

Você amenizou essa parte também nas colunas para manter o projeto casamento/maternidade? Eu acho que sim. Faz parte de se tornar adulto, me expor menos. Antes também tinha uma parte divertida de me expor. Eu fui feinha na época da escola, usava óculos, era magrela, usava aquele aparelho extrabucal horroroso. Sofri bullying por um longo período. Então nas colunas eu me vingava um pouco desse passado.

Esse lugar botou você em alguma situação indesejável de abuso sexual? Uma coisa que me marcou foi um texto que escrevi dizendo que depois dos 30 anos meu gosto pra homem mudou. Que antes eu gostava do aventureiro, do drogadinho, do maluco. E que depois dos 30 comecei a querer namorar uns caras mais velhos, bem-sucedidos, estruturados para ser pai. Aí me responderam: "Você já tem 32 anos, tá velha, caída, rodada, o que aparecer você tem que dar graças a Deus". Foram umas 20 pessoas, tudo homem. Esse dia eu senti uma violência, uma coisa machista contra mim. A galera que comenta na internet gosta da palavra "rodada". Ele nem sabe com quantos caras eu transei. Mas, se eu estou ali, num jornal, falando o que eu penso, eu sou rodada, porque senão eu estaria em casa fazendo bolo.

Já teve gente com quem você se relacionou que chegou com a expectativa: "Ah, ela escreve sobre sexo, então sabe tudo, faz de tudo, dá pirueta"? Já aconteceu de um cara que se obcecou em mim, que lia minha coluna e me escrevia. Ele viu minha foto PB, 3 por 4, na revista e disse que estava completamente apaixonado, que ia casar comigo, que ia comprar uma passagem de Porto Alegre pra São Paulo. Ele descobriu em que agência eu trabalhava. Um dia me falaram que ele estava na portaria e que queria me conhecer. Eu fui lá, ele me viu e disse: "Você jura que você é baixinha?". Ele era bem alto. Na fantasia do cara que está lendo a coluna, eu tinha 1,80 m e era uma super-heroína do sexo.

E você perdeu a virgindade com 20 anos... Por que esperou até essa idade? Aí tem a coisa de eu ser neurótica, fóbica. Eu demorei pra transar, mas eu era safada. Tive vários namorados. Tinha pegada no peito, na bunda, sexo oral, me masturbava, masturbava o cara. Eu só tinha medo do sexo, não queria transar. Tentava, doía, eu parava. De repente tive namorados que não souberam me relaxar. Muitas vezes eu dizia: "Vamos pro motel, estou pronta", mas chegava e falava: "Estou enjoada, me leva embora". A minha primeira vez foi com um médico e foi no hospital. Eu era hipocondríaca e ele era urologista. Ele passava o dia pegando em pau e à noite eu era o diferencial na vida dele. Como ele fazia residência, ele morava nuns quartinhos no hospital. Um dia eu fui dormir com ele e falei: "Vou perder minha virgindade. Se der qualquer problema já estou no hospital mesmo. Vamos fazer isso antes que eu vire matéria no Fantástico" [risos].

Essa coisa neurótica com doença atrapalhou o sexo ao longo da sua vida? Não. Isso que é a coisa mais maravilhosa. A única coisa que me liberta da minha mente é o tesão. Eu tenho TOC de arrumação, de higiene, de tudo. Mas, se eu estou com tesão no cara, eu não tenho nojo. É uma libertação. Com 20 anos, o tesão pela novidade da vida me curava de tudo, do medo de avião, de mania de higiene. Agora, mais velha, casada, aquietada, eu me pego um dia inteiro arrumando a casa, tem que pôr tudo retinho. É o preço de dar uma amadurecida. Eu ganho em outras coisas. Ficar adulto é substituir essa coisa da juventude por uma coisa real. Mas eu gosto de estar nessa fase mais tranquila.

Você se revela muito nos seus textos. O que você nunca expôs? Eu não exponho o que eu tenho de normal, tenho pavor de ser normal. Uma vez me convidaram para uma reunião com a equipe da minha primeira novela na Globo. Aí eu chego no apartamento maravilhoso da pessoa lá no Rio, estava todo mundo lá. O que seria o natural? Eu chegar e falar: "Que apartamento mais agradável". Mas eu cheguei e disse: "Não aguento mais arrumar namorado com um terceiro mamilo". Porque, de verdade, na época eu estava saindo com o segundo cara na minha vida que tinha um terceiro mamilo. Sei lá, eu quis falar logo um negócio maluco. Deu aquela descarga de adrenalina, e eu pude ficar relaxada. Falar aquilo acalmou minha mente. Porque ser normal me entedia e me desespera.

Por quê? É isso que eu estou tentando descobrir na terapia há 15 anos.

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