por Pedro Só
Trip #258

O homem mais poderoso do humor hoje é um cara low profile. Marcius Melhem, parceiro de Marcelo Adnet em Tá no Ar, jura respirar liberdade na maior emissora do país

O rosto de Marcius Melhem está na TV e nos cinemas do País, mas é seu trabalho nos bastidores do humor brasileiro que ele considera mais importante. Na busca por modernizar um gênero tido como popularesco e preconceituoso, o parceiro de Marcelo Adnet em Tá no Ar e de Leandro Hassum no antigo Zorra Total jura que na Globo é cobrado por ousadia e que respira um ambiente de extrema liberdade.

O homem mais poderoso do humor brasileiro hoje é um cara low profile. Suas aparições na mídia de celebridades são em tons pastel, com espaço escasso para especulações sobre a vida íntima. Casado há 13 anos com a estilista Joana Rosenfeld, pai de duas meninas de 7 anos, ele mede bem as palavras ao falar de assuntos pessoais.

Acostumado a dominar plateias como ator e comediante de stand-up há mais de duas décadas, Marcius Vinicius de Assis Melhem se avalia mal como entrevistado. "Eu tendo a tangenciar algumas questões", admite, depois de conversar por 2 horas em uma casa no Jardim Botânico, zona sul do Rio, perto da sede original da TV Globo.

O imóvel é ocupado pelos redatores de sua mais prestigiosa empreitada, o programa Tá no ar, saudado pela crítica como renovação ousada e inteligente no humor televisivo. Antes da inauguração do escritório, Marcius chamou Carlos Sauer, xamã brasileiro com estudos entre os índios cheyenne, da América do Norte, para "trazer boas vibrações". "Ele veio com índios fulni-ô [de Pernambuco] aqui e fizeram uma pajelança. Cantaram e rodaram pela casa toda."

O humorista jura que não é religioso, mas... "Tenho minhas mandingas. Onde eu vou que tem um templo, tô ajoelhando, tô rezando, tô pedindo." Aparentemente, tem sido atendido. Depois de encerrar, em maio, com recorde de audiência, a terceira temporada, o Tá no ar começa a gravar neste mês as edições que serão exibidas a partir de janeiro de 2017.

Além de atuar e fazer a redação final do programa – creditado como uma obra de Marcius Melhem, Marcelo Adnet e Mauricio Farias –, o ator de 44 anos está por trás de outro projeto de muito sucesso. Zorra, a versão reinventada de Zorra total, sob sua supervisão como redator, ocupa desde maio de 2015 as noites de sábado da TV Globo, também com elogios e bons índices de audiência.

Na pele do Seu Boneco, Marcius também integra o elenco do remake de Escolinha do professor Raimundo, que estreou em setembro no Canal Viva e a partir de outubro será exibido pela Globo aos domingos.  

Que nem criança

À vontade na função tática de escada, à sombra de outros comediantes, ele conquistou espaço atuando em dupla com Leandro Hassum. Vivendo os seguranças Pedrão e Jorginho, os dois depois ganhariam seriado próprio, Os caras de pau (entre 2010 e 2013), e incursão pelo cinema (Os caras de pau em o misterioso roubo do anel, de 2014, que fez 1,9 milhão de espectadores, a despeito das péssimas críticas).

Em decisão arriscada, preferiu largar o Zorra total em 2008 e se aventurar em um papel na novela Caminho das Índias antes de decolar por outro caminho em 2010. Foi então que, ao controlar os aspectos por trás das câmeras de Os caras de pau, aumentou seu cacife na TV Globo.

Nascido em Nilópolis, na Baixada Fluminense, em família de classe média alta, ele se formou em jornalismo pela PUC carioca. O humor foi saída natural para o garoto apelidado de ET. "Eu era baixinho e muito cabeçudo. Pra amarrar o sapato, quase dava uma cambalhota", conta.

Politizado desde a adolescência, Marcius foi brizolista – "fanático" – e sempre exerceu liderança de alguma forma, a partir da capacidade de organização e aglutinação. Fosse campeonato de pelada, viagem de turma ou trote de faculdade.

Ainda no tempo de faculdade, botou em prática o espírito empreendedor. Depois de algumas experiências, inicialmente como estagiário, montou uma empresa de informações voltadas para o mercado financeiro. Foi um sucesso, chegou a empregar 30 jornalistas.

O jovem que circulava de terno e gravata no ambiente corporativo foi o mesmo que, quase que acidentalmente, aos 19 anos, entrou para o curso de atores do Tablado – numa tarde vadia, acompanhando a aula de dois colegas da PUC. "Sempre juntei uma dose de loucura, de correr atrás do desejo sem pensar muito se estava preparado, com um outro lado que dizia pra si mesmo: 'Já que eu me propus a fazer isso, preciso me preparar da melhor forma.’ Eu mandava a flecha, mas tentava pintar o alvo em volta".

No escritório que tem em casa, Marcius escreve cercado de brinquedos que evocam sua infância: Genius, Merlin, um Pula-Pirata... Ele se esforça para não deixar o rigor estragar o prazer da criação em equipe. "Tento honrar o garoto cheio de sonhos que eu era e passar pela vida brincando. Aqui nesta redação volta e meia a gente brinca e pula um em cima do outro que nem criança."

Hoje, com liberdade autoral e reconhecimento após muitos anos de carreira, cita como antiexemplo o gesto de Neymar, xingando um torcedor após ganhar o título olímpico. "Isso não é hora de pisar em ninguém. É preciso ser mais generoso na vitória. Mesmo se erraram com você."

Em um meio – o dos humoristas brasileiros – marcado, nas últimas trocas de guarda, por ressentimentos entre gerações, Marcius busca a reverência e a conciliação. "Eu só existo hoje porque existiram os cassetas; eles existiram porque existiu O Pasquim. E O Pasquim existiu porque houve o Barão de Itararé e outros. O importante é saber que a gente é passageiro. A gente é passageiro na vida. E no humor mais ainda. Eu tenho certeza de que já está aí o cara que vai tomar o meu lugar."

 Trip. O que fazia você rir na infância? Melhem: A Sessão da tarde, com filmes de Jerry Lewis e dublagem do Olney Cazarré! Chico Anysio, Ronald Golias... Depois, um pouco mais velho, Armação ilimitada, TV Pirata... A receita clássica de adolescente dos anos 80.

No início da sua carreira na TV Globo, como você foi ampliando a atuação como redator e ganhando espaço? Eu "vendia" meus textos, e o Mauricio Sherman [diretor-geral do Zorra total] dizia "eu compro"... Fui criando personagens, como o casal Márcia [Maria Clara Gueiros] e Leozinho [Nelson Freitas]. Em 2004, abriram uma vaga na equipe de redatores e fui contratado. Nunca cheguei a ser redator final, fui apenas cabeça de grupo. Mas tive uma estrada incrível, trabalhei com caras de muita experiência. O Gugu Olimecha [(1943-2014), veterano de teatro de revista e programas de humor desde os anos 60] era um oráculo. O Nani, cartunista... E também gente nova, como Elisa Palatnik, maravilhosa, Angélica Lopes, que hoje escreve comigo o Tá no ar. E também o Porchat, que entrou lá garotinho.

O trabalho no Zorra total não era algo que rendesse prestígio intelectual, elogios na imprensa. Como era fazer esse humor popular, porém malvisto? Na época, a gente começou a reverter um pouco isso. Os quadros e os atores novos deram uma boa sacudida. Mas de fato era tido como humor popular, menor. E tinha sempre quadro de exposição da mulher, uma coisa preconceituosa com gays, era uma convivência difícil às vezes. Mas o meu quadro com Hassum era do jeito que a gente queria. Pedrão e Jorginho eram uma coisa à parte, não tinham nem bordão. Também não tinha uma mecânica clara, a gente se libertou dessa fórmula. Tanto que virou um programa próprio. Mas foi um aprendizado incrível, tanto como autor, pela riqueza de pessoas para quem eu escrevi, quanto como ator, pelas pessoas com quem eu contracenei. Era um sonho: eu, um cara lá de Nilópolis, trabalhar com Chico Anysio, Jorge Dória, Agildo Ribeiro, Carvalhinho, Francisco Milani, Ankito, Nair Bello. Eu ficava ali babando.

Como foi que daí você voou solo – na verdade, com Hassum – para fazer Os caras de pau, programa que entrou na grade em 2010? Naturalmente, teve uma hora em que achei que já tinha dado pra mim no Zorra. E fui me embora... O convite para fazer Os caras de pau veio depois. O Manoel Martins, que era o diretor de entretenimento, falou que queria fazer de novo um especial. A gente tinha feito em 2006, mas era com auditório. Eu falei que não queria fazer outro assim, e falei a minha ideia. Ele gostou e pediu: "Escreve cinco, vamos botar no ar em dezembro". Quando foi ao ar o segundo, ele disse: "Deu samba. Vamos botar na grade no ano que vem. Escreve mais 37. Guenta?". Guento. Vambora! Montei uma equipe de redatores. Depois vieram mais 38, foram 117 programas no total... Dessa equipe saiu a Manuela Dias, que faz essa minissérie maravilhosa, Justiça, o Porchat também estava, o Zé Dassilva, que hoje é colaborador das novelas do Aguinaldo Silva. Virou uma turma de amigos. Até hoje estamos sempre trabalhando juntos e todo fim do ano marcamos um almoção.

Como foi o seu crescimento na parte de organizador de programas e equipes? O Leandro sempre foi mais coração, participava das decisões, mas eu é quem ia lá resolver. Os caras de pau me deu o conhecimento da máquina como um todo. Aperfeiçoei trabalhar com prazos, equipe, ser responsável por números de audiência, discutir estratégias de comunicação, minutagem de programa e de blocos. Isso me deu mais cacife pra propor e experimentar. Já no primeiro ano, quis apresentar outro projeto, com o redator Daniel Adjafre, que era o Casos e acasos, com formato de 30 minutos, três histórias entrelaçadas. Foi especial de fim de ano e virou temporada em 2008. Em 2010, aprovei outro projeto, um sitcom de hospital, SOS emergência, estrelado por Ney Latorraca. Fiquei o ano todo escrevendo. Foi uma loucura, minhas filhas eram recém-nascidas. Mas aí você se obriga a aprender em termos de organização, tem que se organizar pra conseguir escrever.

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Você ganhou status na emissora, mas, na dupla com Hassum, sempre ficou mais à sombra. No Tá no ar, Marcelo Adnet toma a frente. Como você lida com isso? Isso nunca me moveu. Eu me dou melhor organizando, nos bastidores, realizando. O trabalho como ator me deu espaço como autor. Eu sei que foi porque Os caras de pau vingaram que pude exercitar o meu lado redator final. O ator Marcius Melhem deu emprego pro autor Marcius. Escrever tem mais a ver com minha personalidade. E é um link com o que lá atrás me levou para o jornalismo. E me possibilita ter controle maior sobre os meus horários, a minha vida. Como ator, você fica à mercê de um roteiro, de que horas vai gravar e onde. Como redator, ainda mais chefe de equipe, tenho mais... vida. Eu brinco com o Leandro que ele vai montar o Leandro Hassum show, programa solo dele, e eu vou ter o prazer de escrever de fora do país, de algum lugar paradisíaco, pra ele gravar lá em Curicica, no Projac. Sempre mandando as fotos de onde eu estiver, na beira da piscina, na capa do roteiro [risos].

Em um ano você chegou a preparar mais de 70 roteiros. Como você consegue dar conta de escrever tanto? Eu basicamente sou muito disciplinado e não tenho problema em dormir pouco. E, claro, sempre tive a sorte – e o mérito também – de me cercar de pessoas muito talentosas. Tenho completa consciência de que meu maior mérito foi juntar gente boa em torno de boas ideias. Eu não suporto estar sozinho em nenhuma etapa do trabalho. Sou assembleísta.

Isso envolve um lado político também? Era um dos seus interesses de adolescência... Cara, eu acredito na democracia. O grande desafio do redator final é esse. A responsabilidade sobre o programa é minha, mas não posso fazer disso uma opressão ao sentimento que os outros redatores têm em relação ao trabalho. Eu tenho que convencer! Pode perguntar a qualquer redator que tenha trabalhado comigo, nesses anos todos, nunca terminei uma discussão com "porque eu quero".

Mas tem esporro? Muito raro. [Pausa.] Tem. Não é esporro. É tudo muito na lata. Nunca levantei a voz, não levanto voz, nunca xinguei ninguém, nunca agredi. Mas digo muito sinceramente o que eu estou achando. Já tirei pessoas das equipes porque achei que não tava encaixando, falando abertamente com elas. Mas, no dia a dia, quando a pessoa me convence, eu dou o braço a torcer.

Qual foi a centelha inicial da criação do Tá no ar? Eu sempre quis trabalhar com o universo da televisão. Um dia acordei pensando nisso e me veio o Adnet na cabeça. Ele estava solto, tinha acabado de fazer O dentista [a série O dentista mascarado, que foi mal de audiência e de crítica]. E era o cara ideal, porque faz tantas vozes, canta, compõe... É um showman tão completo! Adnet tem tudo de televisão e de referências pop na cabeça genial dele. Eu propus pra ele um programa com esse conceito e a gente ficou trabalhando, junto com a Daniela Ocampo e, depois, entrou o [diretor] Mauricio Farias. Eu e Adnet somos amigos há muitos anos. Ficamos amigos no Z.É. zenas emprovisadas [espetáculo de humor com Adnet, Fernando Caruso, Gregório Duvivier e Rafael Queiroga]. Quando as coisas não foram tão bem pra ele na Globo, eu tive essa primeira fagulha de ideia, pensei: ele é o cara pra desenvolver isso. Eu sempre nessa coisa de juntar as pessoas.

Como foi, depois de todos esses anos, graças ao Tá no ar, finalmente ser reconhecido como produtor de humor inteligente e independente? Tá no ar é um milagre. É o programa que sempre quis fazer. Ele tem a crítica do cotidiano, que me interessava no jornalismo, o dialogar com a sociedade. E também é um programa ágil, que me permite fazer centenas de papéis como ator. Eu notei que as pessoas passaram a me olhar diferente depois do programa. Por parte da chamada intelligentsia brasileira, havia preconceito.

Você já mencionou que o novo Zorra não faz piada que exponha a mulher ou que ridicularize a homossexualidade. Existem outros itens proibidos ou tabus? Tabu não tem. Nossa preocupação é estar do lado certo da piada. Em quem a gente quer bater? Se nos interessa botar a colher em um assunto, vamos estimular o debate. Em 99% dos casos, a gente satiriza o gênero, e não a pessoa. Por exemplo, o quadro "Jardim urgente" não é o Datena, é um híbrido de vários apresentadores de programa policial, que fala do universo infantil e do discurso fascista por trás desse modelo de programa.

Fazer humor do bem é possível ou tal conceito já é por si só uma piada? Humor do bem é algo contaminado, visto hoje como algo anestesiado, morno. Não é o nosso caso. O que existe é um posicionamento que o nosso grupo busca – não sou eu nem o Adnet, é a equipe do programa. Em certas coisas, realmente abomináveis, nem deixamos o público deduzir, a gente fala mesmo. Na temporada que vem, por exemplo, temos um quadro muito contundente sobre o preço do plano de saúde pra terceira idade. Quando você mais precisa do plano, ele tem esse custo. Vamos chamar a atenção para esse problema. Quando vou fazer essa piada, não vou sacanear o velhinho que paga R$ 2.500 por um plano cheio de restrições. Eu vou em cima da burocracia, do sistema. Às vezes a piada nasce de um tema. Vamos falar de ocupação das escolas? Vamos. Então tem um musical sobre isso na próxima temporada. A gente dialoga com os temas e ajuda a reposicionar o humor da emissora.

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A partir desse tipo de temas, e de personagens como o Militante Pernambucano, seu trabalho tem essa função assumida? Há um discurso em cima do Tá no ar, dizem que nem parece TV Globo. Muito pelo contrário, ele é bem TV Globo, porque TV Globo é um ambiente riquíssimo. Temos aqui muitos criadores, com visões diferentes. Desde quando diziam "TV Globo aliada da ditadura" você tinha lá o Dias Gomes, as obras do Jorge Amado, uma série de pessoas de todos os matizes ideológicos produzindo conteúdo. Desde que entrei na emissora respiro um ambiente de extrema liberdade. Diálogo e liberdade. Se você conceituar o que quer fazer, disser claramente que deseja falar sobre um assunto e de que forma quer falar, a coisa acontece. Nós não somos tolhidos. Somos cobrados por ousadia, por propostas. Em um universo com tantas opções – a TV Globo nunca teve tanta concorrência –, só a ousadia salvará. A gente tem liberdade total, mas obviamente com responsabilidades.

Como vocês discutem e aprovam as ideias? Ninguém traz quadro escrito já de casa. As ideias são jogadas na roda e sofrem múltiplas interferências. É muito raro um esquete chegar e sair do jeito como veio. A gente tem todo um "e se...". E se mudasse o final, e se a premissa fosse outra? A leitura de mesa é um espancamento, um corredor polonês. E as ideias que sobrevivem são realmente as que valem a pena.

Como se concorre com o noticiário no país da piada pronta, especialmente na política? O site Sensacionalista costuma ser "furado" por notícias reais... É difícil. O mais difícil é a velocidade. Os fatos hoje acontecem e desacontecem muito rápido. Você pensa em falar sobre um assunto porque está quente, no dia seguinte não está mais. Então temos esquemas de emergência. Acontece uma coisa domingo, segunda de manha é escrito, segunda à tarde é gravado. E vai ao ar.

Como você vê o ciclo de vida do humor? Humorista tem prazo de validade? Tem gênios que sobrevivem a carreira inteira. Mas existe isso, sim. O humor tem um brilho no olho, um viço. Se o teu tempo fica diferente, como tem sempre a comparação com o que você mesmo já foi, isso pode ser muito cruel. Eu fico muito atento pra saber quando tenho que sair de cena, a hora em que não é mais engraçado fazer aquela piada.

Créditos

Foto principal: Jorge Bispo

Jorge Bispo

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