por Fernando Luna
Trip #259

Ele dirigiu a abertura das Olimpíadas e recebeu oito indicações ao Oscar. Hoje, prefere plantar jequitibás. Leia as Páginas Negras com o cineasta e ambientalista Fernando Meirelles

Prefiro plantar jequitibás”, escreve Fernando Meirelles.

Era a primeira das duas trocas de (longos) e-mails para esta entrevista. Ele respondia a uma pergunta sobre sua participação atual na O2 Filmes, produtora que fundou com Paulo Morelli e Andrea Barata Ribeiro.

“Me envolvo em alguns projetos que gosto, mas não toco mais como fazia”, explica. “Nem tenho mais sala lá.” Seus interesses pessoais vêm conquistando territórios muito além do audiovisual, onde a O2 é reconhecida como a principal usina de criação e produção do país.

Em 25 anos, a empresa assinou mais de nove mil filmes publicitários, seu foco inicial. Depois, também passou a fazer conteú-do para tevê (como as séries Felizes para Sempre?, com a Globo, e Filhos do Carnaval, com a HBO), longas-metragens (como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, cada um com quatro indicações ao Oscar) e digital (Além do Mapa, realizado em realidade virtual com o Google).

Aos 61 anos, o cineasta paulistano participou intensamente de tudo isso. Ele quer mais. Ou quer menos, depende do ponto de vista. Mais desafios ligados ao meio ambiente, menos tarefas com luz, câmera e ação. Nada disso aconteceu de repente.

O jequitibá é uma árvore de crescimento lento e constante, como Meirelles e suas empreitadas. “Não sei por que, há uns 15 anos comprei uma fazenda e, pouco a pouco, vou me ligando mais à terra”, diz. A mesma ligação de seus pais e avós, todos nascidos e criados no interior paulista. Hoje, Meirelles tem três fazendas, uma em Rifaina, São Paulo, e outras duas em Sacramento, Minas.

Arrenda parte delas para cultivo de café e cana, mas reserva a maior área para florestas. Planta mogno em larga escala. Recupera matas ciliares e reservas legais com novas árvores de espécies nativas. E não é por falta de natureza no seu próprio quintal.

Meirelles mora em Carapicuíba, a 20 quilômetros da cidade de São Paulo, em um grande terreno com 800 árvores, bichos e um riacho. Divide o espaço com as casas de quatro amigos dos tempos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “É como ter uma segunda família”, conta.

A primeira, formou há 30 anos com a atriz e bailarina Ciça Teivelis. Com ela, teve seus dois filhos, Carolina – fotógrafa, desenhista e, nos últimos três anos, mãe em tempo integral – e Quico – diretor de filmes, como o pai. Sim, Meirelles continua diretor.

Está trabalhando numa série de ficção para tevê. São dez capítulos de 50 minutos, numa coprodução entre Brasil e Inglaterra. “Fala sobre o nosso futuro”, resume. O pano de fundo da trama, não por acaso, é o aquecimento global e a indústria do petróleo.

A expectativa de vida de um jequitibá chega a 3 mil anos. A da espécie humana é mais incerta.

Trip. Por que fazer esta entrevista por e-mail, e não ao vivo?

Fernando Meirelles. Vaidade. Pareço mais inteligente por e-mail. E também porque já li transcrições de entrevistas dadas ao vivo em que não me reconheci. Parecia ou tolo ou às vezes cabotino. Talvez eu seja, mas doeu constatar.

“Um dia aprendo a lidar com jornalistas”, você já tuitou. Parece que aprendeu. Melhorei, mas ainda cometo sincericídios. Com alguns jornalistas é preciso ser extracuidadoso. Como os roteiristas, eles não estão a serviço da informação, estão a serviço do conflito e do drama.

Onde você está agora, o que vê à sua volta? Se estiver vestindo alguma coisa, pode descrever seu figurino? Estou numa cama com um lençol de cetim marrom-escuro. Do lado direito, sobre o criado mudo, uma taça de um Barbera um pouco ácido mas encorpado. Do outro lado, um abajur de cúpula de pergaminho joga uma luz quente que realça o desenho da minha musculatura rígida. Estou usando L’Eau D’Issey Pour Homme. Nada mais. 

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Parece sexy, daria uma ótima foto. Aliás, por que você não quis fazer uma foto para capa desta edição? Deixo para as celebridades. Não nasci para os holofotes, quanto menos puder ser identificado na rua, melhor. E uma capa joga contra isso. E, juro, você não ia querer ver essa foto.

No seu depoimento para o livro Biografia prematura, você lembra que sentia vergonha do próprio corpo na adolescência.  Fato. Tive uma puberdade tardia, foi muito traumático. Aos 17, meus amigos já transavam e eu era um pirralho impúbere. Isso ferrou minha cabeça, me sentia um freak. Finalmente, quase aos 18 anos, cresci. Hoje parece bobagem, mas só eu sei o quanto sofri.

Era a época do desbunde. Drogas? Meu negócio era desacelerar, nunca fritar. Tomei menos LSD do que deveria. Nunca experimentei cocaína e nunca tive vontade. Cheirador em geral fica muito chato e não percebe. De maconha fui um consumidor de fins de semana, tipo “fumo socialmente”. Uma hora encheu o saco aquele bode na minha vida e parei. 

E as experiências com LSD? Tomei umas dez vezes, sei lá, foi muito bom. O estado de paz é que me deixava feliz, mais do que alguns efeitos especiais que apareciam às vezes, como distorções de perspectiva, mudança de cor e brilhos suspeitos pairando no ar. Sabe quando você está lá, paradão, e não precisa de nada?  Então.

E com sexo? Poderia ter aproveitado mais as oportunidades quando era garoto, mas essa área não me aflige. Espero poder ser sempre um praticante.

Você passa a imagem de uma figura tranquila. É mesmo? Sou, para me tirar do eixo neguinho tem que ser muito bom. Lembro de ter perdido a linha apenas três vezes na vida.

Como foi? Um senhorzinho bateu no meu carro parado num sinal. Nada de mais. Saí do carro para conversar, mas a mulher dele, uma senhora gorda com cara de buldogue, não deixava a gente falar. Ela repetia que eu havia batido e estava sendo desonesto. Uma hora não aguentei e disse que dava para ver como ele era infeliz desperdiçando a vida ao lado daquela bruaca (chamei a mulher dele de bruaca). Senti que fez sentido dentro dele. Só que disse isso aos berros, num fluxo. Sabia que estava dando um piti ridículo no meio da rua. Fui embora assustado comigo mesmo.

E as outras duas? Na filmagem de um comercial em Los Angeles, um bombeiro entrava num prédio em chamas para salvar um engradado de cerveja. À meia-noite fecharam o Santa Monica Boulevard, onde ficava o prédio preparado para ser queimado. Mas o cara do efeito [especial] não me deixava fazer nada. A câmera não podia ficar onde eu queria, o ator não podia atravessar a porta de fogo como combinado, nada podia. Às 3 da manhã, gritei que ele era um pain in the ass etc. Diretorzinho cucaracha histérico, mas funcionou, pude filmar. Entendi ali o que é perder o controle, como alguém pode dar uma facada ou um tiro em alguém. A terceira não conto. Tenho vergonha.

Quando começou a se interessar pela questão ambiental? Sempre gostei de árvores. Em 2006, comecei a refazer uma mata ciliar na minha fazenda. Daí fui picado pelo vírus, planto sem parar. Do interesse por árvores e florestas, cheguei ao clima, a grande questão que temos pela frente. Nada é mais urgente. O problema é que as mudanças climáticas, apesar da velocidade assustadora, são muito lentas pro jornalismo. Os radares das redações não captam esse movimento de décadas.

Mas a mídia está cheia de notícias sobre a catástrofe climática. Será que o problema não é mais nosso imediatismo do que falta de informação? Assim como a indústria do tabaco pagava estudos para provar que o cigarro não fazia mal à saúde, a indústria do petróleo também banca think tanks como Heartland para negar o aquecimento global e sua relação com o combustível fóssil. Fora essa contrainformação criminosa, de fato a maioria das pessoas não pensa a longo prazo. O problema é que o que deveria acontecer em 2030 já está batendo na porta. Até eu que tenho 61 sei que também sambarei miudinho em uma década. Quem tem 20 e poucos anos está literalmente ferrado. No Brasil, as secas são o que mais nos afetará. O desaparecimento da Floresta Amazônica também não será um espetáculo bonito.

Como deixar o discurso ambiental mais atrativo? Contando histórias. Nossa cabeça é desenhada para compreender o mundo por histórias. As religiões ensinam sua moral contando histórias, crianças aprendem o que é o bem, o mal e tudo mais ouvindo histórias.

Como conciliar a agenda de sustentabilidade com a sua O2, a maior produtora de publicidade do país? Não participo mais do dia a dia da produtora, nem tenho sala lá. Me envolvo em alguns projetos que gosto, mas não toco mais como fazia. Prefiro plantar jequitibás.

Gera algum desconforto pessoal ter um negócio que existe em torno da publicidade? O excesso de consumo é um fator determinante na mudança climática. Gera desconforto, e vem crescendo. Mas não estamos parados, só olhando. Vamos gradualmente mudando nosso foco. Publicidade já foi 95% da nossa operação, hoje ainda é uns 35% do faturamento. Viramos uma produtora de conteúdo, mas isso não nos livra do desconforto. Mesmo quando fazemos um programa de tevê, no fundo nosso programa será bancado pelo anunciante, assim como seu salário quando você faz esta entrevista. Não sou inocente de achar que deixarão de consumir se houver menos propaganda. O que pode ser feito é um consumo menos predatório. E, principalmente, mudar a produção de bens e de alimento para formas mais sustentáveis e com menos desperdício. Enquanto isso, cada um que viva com seu barulho.

A O2 tem clientes como empresas de distribuição de combustíveis fósseis, fabricantes de carros e megaprodutores de proteína animal. É possível ter uma grande produtora totalmente alinhada aos seus valores? Possível só em parte. Não fazemos filmes para bebida para não incentivar jovens a beber*, nem para governo porque em geral isso vem com um pedido de repassar até 30% por fora. Mas, sim,  fazemos propaganda de uma rede de postos de gasolina, e nesse caso acho que não faz diferença.  Mesmo sem propaganda, imagino que o consumo de gasolina não cairia nem 1 litro, pois somos reféns de carros e ônibus movidos a petróleo. A propaganda só te faz optar por uma marca ou outra. Aliás, essa é uma parte espinhosa do aquecimento global: não importa eu ter um carro híbrido ou andar de bicicleta, qualquer solução que possa fazer alguma diferença deve vir de políticas de Estado. A única coisa que podemos fazer é pressionar por mudança na política energética e votar nos candidatos que apoiam isso.

O quanto seus hábitos acompanham suas convicções: abandonou o carro, come orgânico? Tenho um carro meio elétrico, e como moro longe não vou me livrar dele tão cedo. Sou vegetariano e procuro comer orgânicos. Tenho uma boa horta em casa. Reformei uma casinha na Vila Madalena, para ter um lugar em São Paulo com minha mulher, e fiz um experimento: a casa tem placas solares para produzir energia elétrica, uso fogão elétrico, aquecimento solar e faço captação de água pluvial. Deque e portões são de um material feito com fralda descartável e garrafa PET. Minhocário para não gerar lixo e piso drenante. Isso não faz grande diferença, mas gosto da ideia de uma casa que não sobrecarrega tanto a cidade.

Mais de 3 bilhões de pessoas assistiram à festa de abertura das Olimpíadas, com várias mensagens ambientais. Que legado você gostaria que a cerimônia tivesse deixado? De concreto, a cerimônia vai deixar a Floresta dos Atletas no Parque Radical [na zona oeste do Rio], onde serão plantadas as 12 mil mudas que os atletas semearam na abertura dos jogos. Mais que essas árvores, gostaria que o legado fosse a mensagem passada nos gráficos que falavam sobre aquecimento global. (Espaço para pergunta, para a resposta não ficar muito longa. Quem sabe, perguntar como as árvores entraram aí.)

Boa ideia: como as árvores entraram aí? Dos gases de efeito estufa, os oceanos absorvem 25% e as árvores e vegetação, outros 25%. Os 50% restantes se acumulam na atmosfera e esquentam o planeta. Replantar florestas é o modo mais rápido, simples, eficiente e barato de trazer de volta o carbono e mitigar o aquecimento global.

E os gráficos? Depois do bailão com o Jorge Benjor, o tom mudou. Mostramos quatro gráficos que contavam uma história de causa e efeito: como o combustível fóssil vai parar na atmosfera, a aceleração do aquecimento do planeta na última década, o derretimento das calotas polares por causa disso e, finalmente, o que vai acontecer com várias cidades por causa da elevação do nível do mar. A projeção terminou com a imagem chocante do Rio de Janeiro sendo invadido pelo mar, o que deve acontecer em algumas décadas. Gostaria de ter sido mais claro, mas não dava para transformar o espetáculo num PowerPoint baixo-astral. Fico espantado com como a maioria das pessoas ignora o risco de não termos futuro. Na minha opinião, já dançamos. Infelizmente.

Além da festa, a cerimônia defendia uma visão do Brasil. Para você, que país é este? Esta era a pergunta de 1 milhão de dólares. Para responder, fomos a algumas pessoas que admiramos: José Miguel Wisnik, Eduardo Giannetti, Caetano Veloso, Gil, Mario Mantovani [do S.O.S. Mata Atlântica] e outros brasileiros que pensam o Brasil. Fechamos em três eixos que nos definem. Nossas florestas e a sua riquíssima  biodiversidade. O fato de sermos um povo misturado, o que, a princípio, nos faz mais tolerantes (embora neste momento a coisa esteja meio feia). E o talento para aproveitar a vida, uma alegria atávica que temos.

O Brasil já foi descrito como um país alegre e um país triste (Gilberto Freyre e Paulo Prado, por exemplo). Por que você considera alegre? Apesar dos motivos históricos para tristeza, como os 300 anos de escravidão, sinto que somos um país com inclinação para ser feliz, e nossos consultores não discordam. Olho pela janela e vejo isso. Simples assim. Não por acaso, usamos Ary Barroso na entrada da delegação brasileira. A imprensa só falava em zika, impedimento, assaltos e cocô na baía de Guanabara. Nossa resposta foi falar “deste Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz”. Foi como usar Ary para dizer “xô, urubu”.

Abertura das Olimpíadas, o filme Cidade de Deus, casamento de mais de 30 anos. Você prefere projetos monumentais? Não é a escala que me move, é o risco da empreitada. Não sei por que sempre me coloco em situações-limite (e aqui excluo o casamento da lista). Criança, enfiava a mão em grade para agradar cachorros que vinham latindo para mim, subia no galho mais alto da árvore... Uma ludoterapeuta na época disse que eu queria me matar, pois me sentia culpado pela morte de um irmão mais velho, que morreu atropelado aos 7 anos [Meirelles tinha apenas 4 anos]. O fato é que me autossabotei muitas vezes na vida, ainda não me livrei disso.

Qual foi sua maior autossabotagem? A primeira que me ocorre é em relação a Cidade de Deus no Festival de Cannes. O filme foi selecionado para a competição. Mas como o Walter Salles, um dos coprodutores do filme, havia sido convidado para o júri, surgiu um conflito de interesses. O Walter fez um lindo gesto e me perguntou se eu queria que ele saísse do júri. Aparentemente, o filme tinha chances de levar algum prêmio, mas respondi que não precisava. E fui sincero. Claro que poderia não ter ganhado nada, mas nem me dei a chance, mesmo estando tão perto.

Da sua geração, quantos casais você conhece que estão juntos há tanto tempo?  Sou cercado por gente casada há 30 anos: meus vizinhos, que são amigos de uma vida, ex-colegas de faculdade, sócio, primos. Viver num mundo de gente casada há muito tempo talvez ajude. Como todo mundo, Ciça e eu tivemos uma crise ao longo do caminho. Para superar, fizemos um pacto em que um deveria respeitar o espaço do outro. Não precisamos estar juntos em tudo, como siameses. Sem essa obrigação, tudo fica mais leve. Ciça é a minha casa, o lugar para voltar toda noite, a referência que dá o meu norte, embora ela nem sempre perceba isso.

Você acha que ela nem sempre percebe isso porque você não demonstra? Lembrei de uma frase do John Banville: “Amor é ação – é o que você faz, não o que sente”. Boa frase. Acho que até faço coisas, o que não faço é propaganda do que fiz para ganhar uns pontos. Talvez devesse dizer: “Olha, fiz o macarrão deste jeito porque sei que é como você gosta”. Mas nunca digo. Apenas faço o que ela gosta mais regularmente do que o que eu gosto. Não para que ela perceba, mas para ver a Ciça satisfeita. Ela também me protege em silêncio, eu percebo.

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Voltou à Cidade de Deus recentemente? Passo às vezes de carro pela Linha Amarela [próxima ao bairro que dá nome ao filme], mas faz muito tempo que não vou lá. Minha ligação com Cidade de Deus se dá pelo Cinema Nosso, uma ONG tocada por alguns atores que participaram do filme. Hoje, virou uma escola e um centro cultural na Lapa, no Rio.

O Cinema Nosso vive do seu investimento? O Cinema Nosso corre atrás de outros apoiadores. Banco apenas o predinho onde estão instalados. Faço outras doações regulares para instituições como Obra do Berço e Lar Santa Terezinha. Tenho vontade de apoiar alguma escola aqui em Carapicuíba, onde moro, para ver em quanto tempo seria possível melhorar os resultados do ensino, mas me falta tempo.

Por que a filantropia ainda é pequena no Brasil? Não temos essa cultura. Vale dizer que nos EUA, onde doações são mais comuns, eles fazem isso não por serem mais bonzinhos, mas por uma questão tributária. Quanto mais rico você for, maior será a mordida do leão americano. As doações que os ricos fazem podem ser abatidas da tributação da herança no futuro. Ou seja, eles preferem decidir em vida como usar seu dinheiro, em vez de deixar o governo decidir depois que eles morrerem.

Você conta que aos 14 anos tinha certeza de que teria uma morte prematura. Agora, aos 61, como encara o fim?  Fato, mas errei. Ainda bem. Aos 14, tinha pavor da ideia da morte, não podia olhar para o céu à noite. Agora, a cada ano que passa, parece menos assustadora. Talvez seja uma das poucas vantagens de envelhecer, fora o cartão de estacionamento para idoso. A tolerância também aumenta com os anos. Me sinto mais paciente com todo mundo. Pessoas são como vinho, descobri: umas azedam quando envelhecem, outras vão apurando sabores e ficando sábias.

Sessenta e um anos pesam? Ô, se pesam.

Por quê? Pesa saber que não há mais um tempo enorme pela frente, para fazer besteira e se meter em roubada. Isso muda sua perspectiva. Tempo passou a ser meu bem mais precioso. Em vez de me encher de atividades o tempo todo, como sempre fiz, tento garantir tempos para não fazer nada de “produtivo”, como ir para a fazenda plantar cambuci, camu-camu e marolo, coisa que farei assim que acabar de responder esta entrevista.

Alguma religião ou superstição? Deus, Nirvana, Boitatá? Oficialmente, não. Se tivesse que escolher, talvez virasse budista. Os budistas que conheço não se acham melhores que ninguém. São tolerantes e em geral bem-humorados. Pelo pouco que conheço do budismo, sei que tentam compreender e trabalhar a favor das leis da natureza, o que me parece sensato.

Se pudesse escrever algo pra que você mesmo lesse aos 20 anos de idade, o que seria? Diria a mim mesmo para não ser tão tímido como fui. Mandaria confiar mais no meu taco, principalmente com as mulheres. Nunca acreditava que elas pudessem estar dando mole para mim, só percebi isso tarde demais. Minha autoestima era muito baixa. Só depois dos 40 deixei de achar que eu era uma fraude. Se é que deixei de acreditar nisso.

Já fez análise? Por pouco tempo, menos do que gostaria. Tive uma depressão fulminante em 2005, sem razão aparente, tudo estava muito bem na minha vida. Pensar em morrer me parecia uma ideia confortável, então procurei ajuda. O processo foi muito intenso. Tive três sonhos apocalípticos, tão reais que até hoje sinto o que senti. Num deles, estava me esfacelando a ponto de perder a sanidade. Fazia um esforço enorme para manter minhas partes unidas, mas elas queriam se romper e, se rompessem, eu enlouqueceria. Parada sinistra. Parei a terapia para viajar e rodar o filme 360, acabei não voltando mais. Até hoje sou grato à minha terapeuta pelas fichas que caíram ali, e que ainda carrego no bolso.

Qual foi a última vez que chorou? Não sou fácil para chorar, mas costumo me emocionar até as lágrimas em cenas em que há relação entre pai e filho. A última vez que chorei foi quando os confetes verdes saíram de dentro dos aros olímpicos, na abertura. Foi como se a ideia que queríamos tanto espalhar estivesse sendo espalhada. A plateia reagiu forte, senti que havia entendido o recado. Chorei.

Como é a relação com seu pai? Comparado com os outros pais, o meu era como ter acertado na loteria. Lembro de ter tomado apenas uma bronca dele na vida, e merecida: fui brincar com um revólver de verdade que ele tinha escondido no armário. Só comecei a trabalhar aos 26, mas ele [José, médico aposentado] nunca me cobrou por isso. Sempre me senti meio em dívida com ele. Ele tem 94 anos, continua lendo como sempre e vive tranquilo. Aliás, ele e minha mãe estão bem. A família é muito unida, os netos almoçam na casa deles diariamente, gostam deles de verdade. Esqueça os suplementos, está provado, o que faz bem para a saúde é amor.

Você é mais de ver filmes ou de ler? Gasto mais tempo lendo. Leio todas as noites antes de dormir. Se vou para cama e não puxo um livro, parece que esqueci de escovar os dentes. Estou lendo Pornopopeia, do Reinaldo Moraes, que havia começado há três anos e parei no meio. Como tenho um emprego na Globo Filmes, recebo links de muitos filmes nacionais, então estou bem por dentro do cinema brasileiro.

Com o conhecimento de quem perdeu a indicação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e no ano seguinte recebeu quatro indicações às categorias principais: que filme você escolheria para disputar a indicação pelo Brasil este ano? Esta pergunta é uma arapuca que, sendo safo, prefiro pular. A resposta poderia aborrecer algum amigo não escolhido. Para quê?

Ora, por que você é o brasileiro que foi mais longe no Oscar, que conhece os bastidores da Academia na prática, não só na teoria. Pois é, mas entre os filmes indicados conheço quase todos os diretores. Prefiro não ter que escolher.

O momento político mais ajuda ou atrapalha Aquarius? O protesto contra o “golpe” nas escadarias do festival de Cannes me pareceu meio fora de lugar, não precisava expor o país daquele jeito. Mas ajudou a dar visibilidade, ainda mais pelo filme falar de resistência, como o protesto. Não achar o protesto oportuno não me impede de admirar o filme nem o seu diretor. Gostei demais de Aquarius. Um filme sem uma trama complexa, que se constrói a partir de pequenos gestos, poucas falas e vai acumulando uma poderosa carga emocional. Um filme muito difícil de ser dirigido. É chover no molhado dizer que o Kleber [Mendonça Filho] é um dos grandes diretores no Brasil.

Você escreveu “golpe”, estre aspas. Tecnicamente, a palavra não se aplica. Golpe é uma tomada de poder fora da lei. No caso da Dilma ou do Collor, houve um longo processo proposto e acatado pelos congressistas. Assim como a presidenta, cada pessoa daquele show de horror da votação do impedimento foi eleita democraticamente, gostemos delas ou não. Houve prazo de defesa, todos os ritos foram cumpridos e o STF (indicado pelo próprio PT) aprovou o processo por 9 votos a 2. Claro que a pedalada fiscal foi usada como pretexto, assim como a mentira do Cunha na CPI e o Fiat Elba do Collor. O diabo está nos detalhes. Não houve golpe, mas uma tremenda trairagem de um grupo, que viu oportunidade no apoio popular (como mostrou a última eleição) e se juntou para sentar na cadeira.

Foi a alguma passeata este ano? Não fui a passeatas pró-impeachment, porque eu era contra o impedimento. E não fui nas passeatas que apoiavam a Dilma, porque preferia que ela deixasse o governo por sua má gestão e visão ultrapassada. Sim, é possível ser contra o impeachment e ser crítico ao governo Dilma ao mesmo tempo. O Brasil não é um long play, com apenas dois lados. Torci para que o TSE impugnasse a chapa Dilma-Temer pelo uso de caixa dois na campanha, agora já comprovado por quem fez doação na base da troca. Uma nova eleição teria sido uma boa saída.

Você já fez campanha política para PT, PSDB, PMDB e, na última eleição presidencial, para Rede. A esperança supera a experiência? Participei dos dois primeiros programas nacionais do PT, ainda nos anos 80, quando o partido começava a mostrar a sua cara. Acreditava na renovação e na viabilidade daquele país de que os programas falavam. Do programa do PSDB e da campanha para governador do Paraná do PMDB, que a produtora [Olhar Eletrônico, que fundou com amigos antes da O2] fez, não participei diretamente. Lembro que foi muito duro para a produtora chegar até o final daquele trabalho. Quando acabamos, decidimos nunca mais fazer programa político.

O que houve? O coordenador da campanha fez uma bagunça no próprio escritório, e nos pediu para gravar dizendo que havia sido uma invasão da oposição. Nos recusamos, fomos ameaçados, deu ruim. A relação azedou de vez, terminamos aos trancos e barrancos. Isso foi nos anos 80. Nunca mais.

Para a Rede, você faz na pessoa física ou com a O2? Quando colaboro com a Rede minha condição é ser voluntário, não um trabalho profissional. A O2 nunca fez nem fará programas para partidos. Dou uma força para a Rede, o único partido que compreende a urgência de mudar nossa maneira de viver, de consumir, de produzir, de gerar energia e até de fazer política. Imagine o que geraria de trabalho e oportunidades mudar nossa matriz energética? O governo Temer vai entregar o pré-sal para empresas estrangeiras, quando o certo seria esquecer o pré-sal. A era do petróleo acabou. Imagine uma agricultura que apoiasse os pequenos produtores, e não só o agribusiness, como fez a melhor amiga da Dilma, Kátia Abreu. Curioso gente que quer mudança e elege candidatos com um modelo de desenvolvimento tão ultrapassado.

Se pudesse voltar e fazer diferente uma única coisa da sua vida, o que seria? Poderia escrever uma lista das coisas que preferia não ter feito ou vivido. Uma vez, estava sentado no peitoril de um terraço no primeiro andar de uma fazenda. Descascava laranja e dava para a minha filha, que tinha 4 anos e estava no meu colo. Não sei como, ela fez um movimento e se atirou lá embaixo. Tentei agarrar pela roupa, mas escapou. A sensação dessa escapada, o barulho dela batendo no chão e a visão dela imóvel foi talvez o pior momento da minha vida. Até levar para um hospital e saber que estava tudo bem, foi um sufoco. O que eu faria de diferente seria não comer laranja naquele dia.

Para terminar: se sentiu mais inteligente e menos cabotino por e-mail? Não me senti mais inteligente, mas acho que pareci mais culto. Sobre como funciona o imposto sobre herança nos EUA, por exemplo, sabia de orelhada. Para escrever, fui buscar a informação mais certeira. Muitos leitores podem ter achado que sou muito mais informado do que sou. [Menos de um minuto depois, envia outro e-mail.] Caiu uma ficha agora: é exatamente esse tipo de coisa que faço o tempo todo e chamo de autossabotagem. Poderia ter deixado o leitor achar que sou muito esperto, mas entrego meu truque. Isso não tem cura.

 

*ERRATA
"Na minha entrevista, me enganei quando disse que a O2 não fazia filmes para marcas de bebidas alcoólicas. Produzimos recentemente uma websérie para a Ambev e estamos fazendo um trabalho em VR para a Heineken. Fui eu que deixei de fazer um trabalho para uma marca de uísque e acabei generalizando a resposta. Apesar de ser sócio da O2, minhas opiniões não são necessariamente as mesmas da produtora em tudo. Viva as diferenças!

Créditos

Foto principal: Ilustração: Adams Carvalho

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