por Lia Bock
Trip #257

Criadora do site Make Love Not Porn, Cindy é a favor de uma visão mais natural do sexo. Para ela, a pornografia, Hollywood e as redes sociais atrapalham a sexualidade

Desde 2006, quando largou o mundo da publicidade, Cindy Gallop já não tem uma equipe gigante como a que comandava na BBH (Bartle Bogle Hegarty), agência inglesa com presença significativa em todo o mundo e onde ela deixou sua marca em campanhas para Coca-Cola, Johnnie Walker, Levi’s e Polaroid, entre outros clientes que atendeu nos 17 anos de casa.

Hoje, seu trabalho é muito mais solitário – e também mais revolucionário e impactante. Depois de 30 anos trabalhando com propaganda, posicionamento de marca e comunicação, ela passou de publicitária a ativista aguerrida na luta por um mundo mais livre e sexualmente responsável. A excentricidade que cultivou nos anos pregressos, Cindy ainda mantém. As roupas de couro e o cabelo platinado são só o cartão de visita. Em sua casa, há móveis pretos e todo tipo de arte contemporânea, como um fuzil AK-47 estampado com o logo da Chanel, um espelho com a frase God is not the only one watching, uma palmatória de bondage em couro preto da Gucci e retratos e pinturas dela mesma, sempre numa postura altiva. Suas festas, que podemos invejar pelo Flickr, têm muita gente fantasiada e corpos seminus.

Solteira, sem filhos e com 56 anos, essa inglesa com ascendência chinesa que cresceu no Brunei transpira liberdade e sexo. É raro que duas frases completas saiam de sua boca sem que fuck esteja nelas. Seu bordão é a palavra fuckingtastic, que ela solta tanto em sua fala no TED (de 2009 e com mais de 1,5 milhão de visualizações) como entre uma caipirinha e outra num boteco do bairro de Pinheiros, em São Paulo. Em maio, ela veio pela primeira vez ao Brasil para liderar o workshop Mesa&Cadeira. Quando, durante o trabalho, alguém sugeriu que fizéssemos um funk falando que sexo é social, ela se levantou num salto de animação, apoiou as duas mãos com os punhos cerrados sobre a mesa e exclamou: “That’s it! Let’s blow shit up”, um equivalente ao nosso “Vamos quebrar a porra toda”.

Cindy comandou por seis dias um grupo de 20 profissionais brasileiros – publicitários, escritores, cineastas e artistas – em um trabalho experimental para lançar o movimento Make Love Not Porn no Brasil. Foi fodástico – para ficar na vibe dela. Mais do que uma jornada contra o mundo irreal do sexo vendido no universo pornô, a missão atual de Cindy e Sarah Beal (sua parceira de trabalho) é por liberdade sexual com informação e responsabilidade. “A impossibilidade de conversar abertamente sobre o assunto está no cerne da cultura do estupro, do abuso e da violência sexual. Está no cerne também de muitos casamentos infelizes”, diz. Cindy quer o assunto sexo na mesa do jantar, nas escolas, na sala de reunião do trabalho e na boca do povo. Sem vergonha, sem tabu e sem a encenação mágica e orgástica de Hollywood. “Falar sobre a diferença entre sexo no mundo da pornografia e sexo na vida real é falar sobre como o sexo é retratado na cultura popular em geral.”

Na entrevista a seguir, Cindy conta as dificuldades de ser porta‑voz do sexo real e livre e conclama os brasileiros a fazerem parte de sua rede social de sexo explícito, na qual paga-se US$ 5 para assistir a casais reais transando sem encenação no site Make Love Not Porn. “A propósito, fazemos parte da economia colaborativa e somos uma resposta coerente para o problema econômico brasileiro…”, diz, gargalhando. Fica o convite.

Trip. O Make Love Not Porn se chama “Faça amor e não pornô”, mas no site está escrito que vocês são a favor da pornografia. Você poderia explicar melhor essa filosofia?

Cindy Gallop. Somos a favor do sexo, a favor da pornografia e a favor de saber a diferença entre os dois, porque o problema não é a pornografia em si, e sim o fato de que não falamos de sexo na vida real. Nosso nome às vezes confunde as pessoas. E a razão para isso, muito honestamente, é que o MLNP nasceu da minha experiência pessoal direta ao sair com homens mais novos e perceber, há dez anos, que essa questão era um problema: a pornografia estava se tornando a educação sexual por definição. Foi quando decidi fazer algo a respeito.

“A impossibilidade de conversar abertamente sobre sexo está no cerne da cultura do estupro, e de muitos casamentos infelizes”
Cindy Gallop

Nessa época, a mídia não estava cobrindo esse assunto, e eu não tinha ideia se o resto do mundo também estava vivendo isso. Pensei: “Tranquilo. Vou montar um pequeno site. Não tenho dinheiro para fazer algo grande, mas acho que devo lançar algo que diferencie o universo do pornô da vida real”. Precisava de um nome e me perguntei: “O que seria curto, marcante e contagiante, algo que pudesse resumir a essência do que eu estou fazendo?”. Pensei em usar Make Love Not War. E então saiu Make Love Not Porn. E fez sentido.

Foi depois da palestra no TED, em 2009, que a coisa explodiu, certo? Sim, depois que viralizou, o projeto tomou proporções que eu não havia previsto. E, verdade seja dita, eu não tinha pensado muito para criar o nome. Mas hoje estou muito feliz com ele. Porque todo santo dia, no Twitter, no Instagram e no Facebook, alguém diz: “Make love not porn” e pensa que é a primeira pessoa a dizer isso. Assim, acidentalmente, somos proprietários do chamado definitivo para a ação nesse mercado. E, se pudermos aumentar nossa dimensão, um dia este nome será tão famoso que pessoas entenderão o que ele significa sem a explicação: a favor do sexo, a favor da pornografia e a favor de saber a diferença entre os dois.

Vamos aos detalhes? Qual é a diferença entre os dois? Para falar sobre a diferença entre sexo no mundo da pornografia e sexo na vida real preciso falar sobre como o sexo é retratado na cultura popular em geral, e não apenas na pornografia. Hollywood, a TV e a literatura têm grande responsabilidade sobre a noção pouco realista que as pessoas têm sobre sexo. Queremos trazer esse senso de realidade. Pra começar, conversar sobre sexo deveria ser algo que se faz com nossos pais, em nossos lares e nossas escolas. E, ao mesmo tempo em que temos esse silêncio onde não deveria, a cultura popular não faz seu papel. Os filmes passam a impressão de que sexo bom é algo que se faz sem falar. E mais incrível: nas telas, na primeira vez que as pessoas se encontram e transam, ninguém conversa sobre o que o outro gosta, o que lhes dá tesão e, de repente, como em um passe de mágica, no espaço de alguns minutos, os dois chegam ao orgasmo juntos! E então já é de manhã e todo mundo está sorrindo. Não é assim que o sexo acontece na vida real, né? Então, peço para que as pessoas pensem no sexo como integrante da cultura popular e no quanto de ilusão há em torno dele. Muitos assuntos não são abordados pela pornografia e, na verdade, nem deveriam, eles devem ser endereçados à sociedade. Não é função da pornografia refletir o sexo na vida real. É nosso trabalho falar com a nova geração, educá-los, inclusive sobre sexo.

Como foi a sua educação sexual? Na escola e em casa. Como para muitos, simplesmente não existiu.

Algumas pessoas acham que já falamos demais sobre sexo. Qual é a diferença entre as conversas que estamos tendo e a conversa que você propõe? Falamos sobre sexo no plano abstrato, de forma geral. Não falamos sobre as nossas próprias experiências, como vivemos o sexo nas nossas vidas cotidianas e como nos sentimos a respeito dele. Conversamos de maneira superficial. E esse é um problema em todos os países. O MLNP tem como missão ajudar as pessoas a falarem abertamente. Ficamos todos excessivamente inseguros. Egos sexuais são muito frágeis. Parece estranho, mas as pessoas acham difícil falar sobre sexo com quem elas fazem sexo e enquanto fazem sexo. Na cama, as pessoas morrem de medo que, caso digam qualquer coisa, algo ruim aconteça. Têm medo de ferir os sentimentos do outro, jogar um balde de água fria, estragar o momento e estragar o relacionamento como um todo.

É como se falar algo tirasse sua carteirinha de “bom de cama”. Exato. E o que é ser bom de cama? Ninguém sabe exatamente o que isso significa. Se as únicas informações sobre sexo que você já obteve vêm da pornografia – porque seus pais nunca falaram com você, sua escola nunca te ensinou, seus amigos não são sinceros, você não fala sobre sexo do jeito que ele de fato é –, então é claro que você vai extrair suas noções da pornografia. É exatamente isso o que não deve acontecer.

Estamos assistindo a uma movimentação política de tendência bastante conservadora, no Brasil e no mundo. Como você vê a sua atuação neste momento histórico? Boa parte do mundo está mesmo andando para trás. E não é só politicamente. Se você olhar para os filmes que foram feitos nos anos 70, eles eram mais sinceros, criativos e desafiadores em relação ao sexo do que os de hoje em dia. O último tango em Paris [de Bernardo Bertolucci, 1972], por exemplo, aborda o sexo de maneira interessante, permitindo que os seres humanos olhem mais profundamente para si próprios. Hollywood se tornou mais puritana, muitos lugares estão se tornando mais conservadores e isso torna nossa missão ainda mais importante, porque esta é uma questão crucial: o MLNP opera no maior mercado de todos, que não é a pornografia nem o sexo, e sim a felicidade humana. E o que é interessante, mas não é percebido pelos políticos conservadores, é que, se em vez de reprimir e censurar o sexo colocássemos o assunto na pauta, se nos dispuséssemos, em nível nacional, a aumentar a discussão sadia sobre o assunto, meu Deus, teríamos uma população com pessoas muito mais conectadas umas às outras. Seríamos mais felizes, a produtividade econômica dispararia e as pessoas não se sentiriam tão frustradas e infelizes. Tratamos o sexo como uma ação, e não se trata simplesmente disso. Quem você é sexualmente é parte fundamental de sua personalidade.

O Brasil é conhecido como um país de costume liberal. Mas no dia a dia o contexto é machista, de repressão da nudez e proibição do topless, por exemplo. Você acha que o nosso caminho nessa luta pela liberdade é mais longo? Na verdade, essa é a realidade da maioria dos países. Acho que será tão difícil para o Brasil como para qualquer outro país do mundo. O que posso dizer é que estamos trabalhando para mudar isso em todos os cantos do globo.

Você fala de uma “revolução sexual social”. Conte um pouco sobre essa revolução que você busca. Isso é obviamente uma brincadeira com o termo “revolução sexual” dos anos 60. Mas, quando as pessoas escutam isso, ficam com a parte errada da frase. A ênfase deve ser no social. A mídia social explodiu e hoje compartilhamos quase todas as partes da nossa vida. Fornecemos uma plataforma para compartilhar esta última área da experiência humana universal que não cabe em nenhuma outra rede. E te garanto: as motivações, as dinâmicas sociais, a satisfação e a realização de quem posta seus vídeos de sexo são exatamente as mesmas presentes nas outras redes.

Vocês têm esse retorno das pessoas? Sim. Nossas “estrelas” nos dizem que compartilhar socialmente o sexo da vida real é tão transformador para elas quanto compartilhar todo o resto. De muitas de nossas estrelas solo, homens e mulheres solteiros, escutamos que enviar vídeos se masturbando sozinhos fez com que amassem mais a si próprios. Esta ação fortalece a autoestima sexual. Os casais que compartilham seus vídeos nos dizem que isso transformou seus relacionamentos, porque, quando você decide se filmar fazendo sexo, você tem que conversar sobre isso, e, quando você conversa, não importa há quanto tempo estejam juntos, vai a lugares aonde nunca foi antes. Por isso que a revolução é social. Estamos mostrando que a habilidade de compartilhar socialmente seu sexo real e de ver socialmente como outras pessoas fazem sexo mudará o mundo. A razão para o maior crescimento no ramo da pornografia ser do setor “amador” não tem nada a ver com pornografia. Tem tudo a ver com o fato de todo mundo querer saber o que os demais estão fazendo na cama sem encenação. E agora estamos mostrando isso.Essa é a revolução sexual social.

Alguns acreditam que ligar a câmera e filmar o sexo faz com que as pessoas alterem suas performances. No fim, não é tudo encenação? Compartilhamento de vídeo é o futuro. A comunicação na internet começou com texto, passou a ser foto e agora é vídeo, então na verdade estamos cada vez mais tranquilos filmando o que fazemos.

“A habilidade de compartilhar socialmente seu sexo e de ver como outras pessoas fazem sexo mudará o mundo”
Cindy Gallop

Com o sexo é a mesma coisa. Mas, de qualquer forma, damos dicas e truques no site para que nossas estrelas fiquem confortáveis filmando a si mesmos e isso se torne algo natural. Para responder diretamente a sua questão: não, não pensamos que é tudo encenação, da mesma forma que nem tudo que envolve pessoas peladas é pornô. E da mesma forma também que o termo “pornô” não designa uma grande massa homogênea. É como dizer “literatura”, como se tudo dentro dela fosse a mesma coisa. Talvez o melhor jeito de entender essa diferença seja lendo os depoimentos de nossas estrelas no blog do site, ali fica bem claro o poder que dividir o sexo da vida real tem e por que não é encenação. Mas, se melhora a performance, é apenas motivo pra comemorar.

Você já postou um vídeo seu? Antes de lançar, em 2012, tivemos uma discussão sobre o assunto e decidimos que, como empreendedores, tendo que lidar com diferentes parceiros, não tiraríamos nenhum benefício de ter vídeos nossos on-line. Foi uma decisão ligada ao business. Começamos um negócio ousado e controverso e nossa batalha diária é grande, não precisamos de mais nada que nos atrapalhe. Mas, mais pra frente, quem sabe.

Quantas pessoas, ou perfis, estão ativos no site? Atualmente, temos cem perfis, a maioria entre EUA e Reino Unido, mas há gente de outras partes do mundo. Temos estrelas mexicanas, peruanas e, claro, estamos esperando nossa primeira estrela brasileira – sim, isso é um convite! E aqui está um fato importante para tranquilizar os interessados: operamos através do modelo de rental stream, ou seja, seu vídeo é visualizável apenas na plataforma e pelos membros que pagaram para vê-lo. Nós passamos anos projetando e construindo um ambiente confiável e seguro.

play

Como as “estrelas” são pagas? O MLNP faz parte da economia colaborativa, assim como Uber e AirBnb. Os associados pagam US$ 5 para alugar vídeos e 50% dessa renda vai para as estrelas. Temos um modelo de compartilhamento de lucros e isso faz parte da minha filosofia. Acredito que, quando criamos algo que dá prazer às outras pessoas, você deve obter um retorno financeiro disso. Nosso modelo de negócio, nesse sentido, é o futuro da economia criativa. As pessoas estão criando coisas incríveis de maneira independente e não estão sendo pagas, porque todos esperam que essas coisas sejam gratuitas. 

Quantos views pagos o MLNP TV tem por mês? Entre 2 mil e 3 mil.

Quanto o site movimenta neste período? Entre US$ 10 mil e 15 mil. Mas é importante ressaltar aqui que trabalhamos com um modelo bem específico, com curadoria humana e laços estreitos com cada estrela. E fazemos isso tendo apenas duas pessoas trabalhando em tempo integral para a empresa, eu e Sarah, e só ela é remunerada.

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Existe uma motivação financeira para que as pessoas postem seus vídeos? Isso ajuda, mas não é a motivação principal. Ainda somos bem pequenos, estamos no estágio inicial, mas algumas de nossas estrelas já estão faturando valores na casa dos quatro dígitos, ou o equivalente a isso em outras moedas ao redor do mundo. Isso permite que façam coisas como pagar pelos estudos, por exemplo. Um casal contou que essa foi a renda extra que permitiu que eles finalmente comprassem uma nova máquina de lavar. Outro casal saiu de férias. Adoraríamos chegar a um estágio em que um vídeo de sexo da vida real atingisse a marca de 1 milhão de aluguéis, que a US$ 5 rendesse US$ 5 milhões. As estrelas ficariam com metade! A propósito, somos a resposta para o problema econômico brasileiro [risos].

Sem querer ofender, você pretende ser o Zuckerberg do sexo? Claramente esta é uma comparação pouco lisonjeira, mas eu adoraria criar os mesmos benefícios para o sexo na vida real, através do compartilhamento social, que o Facebook criou para compartilhar socialmente todo o resto. É óbvio que há muitas coisas para serem criticadas no Facebook, mas ele reuniu o mundo todo de uma forma maravilhosamente benéfica, permitiu todo tipo de conexões diárias, possibilitou que famílias mantivessem contato, que amigos pudessem ver o que os demais estão fazendo. Eu adoraria que pudéssemos fazer exatamente a mesma coisa em relação a essa área de nossas vidas, que é tão importante e tão fundamental para a nossa felicidade, mas que todos, inclusive o Facebook, tratam de maneira tão ridícula. Então, sim, eu adoraria ver o MLNP atingir a mesma escala global do Facebook.

O que você pensa sobre as políticas da maioria das redes sociais sobre sexo, que proíbem mamilos femininos, por exemplo? Fico muito frustrada com as políticas de plataformas sociais em relação a qualquer expressão da nossa sexualidade. Primeiro, considero um problema o fato de eles acharem que isso é um problema. É um enorme elogio para qualquer plataforma social quando sua comunidade se sente confortável o suficiente para se expressar sexual e abertamente. A propósito, o que o Facebook, o Tumblr e o Instagram chamam de pornografia equivale a qualquer nudez, qualquer forma de autoexpressão sexual. Segunda coisa importante é que eu adoro o fato de eles acharem que isso é um problema, porque, assim, as pessoas acabam vindo até nós. Mas, no fundo, não quero que isso aconteça. Essas plataformas não se dão conta do papel enormemente benéfico que elas poderiam desempenhar ao celebrar os corpos humanos, ao normalizar o fato de que é assim que todos nós parecemos sem roupas. Eles poderiam ajudar a acabar com a vergonha e o constrangimento em relação à nudez e à sexualidade. Eles poderiam estar desempenhando um papel fantástico ao mudar a maneira como a nova geração enxerga tudo isso.

Você vê isso como uma possibilidade? Não sei. Eles estão excessivamente influenciados pela antiga ordem mundial e pensam: “Não podemos ofender ninguém”. Eu adoraria, um dia, estar na posição de me reunir com a gerência do Facebook, do Instagram e de todos os demais para termos um tipo diferente de conversa e para olhar para as regras que cercam tudo isso, porque, atualmente, eles estão contribuindo para agravar o problema da vergonha e do constrangimento em relação às coisas que são naturais, normais e saudáveis, como o sexo. E isso não é pouca coisa, pois a impossibilidade de conversar sobre o assunto está no cerne da cultura do estupro, do abuso e da violência sexual. Está no cerne também de muitos relacionamentos e casamentos infelizes. Eu gostaria de ver todas as plataformas sociais unidas repensando a maneira como operamos, porque poderíamos ajudar o mundo a ser um lugar mais saudável e feliz.

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A luta contra a objetificação das mulheres, às vezes, coloca qualquer nudez como um problema. Como você vê essa questão? Acho que as mulheres devem ser livres para expressar sua sexualidade da forma que desejarem – contanto que seja, de fato, da forma que elas querem, e não algo imposto pela lente masculina.

Algumas pessoas gostam da sua proposta, mas não se sentem à vontade para postar um vídeo de sexo. Como elas podem participar desse movimento? Nós existimos para as pessoas que querem compartilhar seus vídeos – e muitas querem. Mas também existimos para pessoas que nem em sonho fariam isso, mas podem se beneficiar assistindo a nossos vídeos. Não temos nada a ver com pornô tradicional, que é simplesmente material para masturbação. Nós somos isso também – e ficamos felizes com isso –, mas mostramos sexo socialmente compartilhável. As pessoas vêm até nós e dizem: “Vocês nos dão tantas ideias sobre o que fazer. Vemos o que outras pessoas estão fazendo e pensamos, ah, podemos tentar isso”. Muitas das nossas estrelas começaram pensando que só iriam assistir, jamais compartilhar. Depois, mudaram de ideia. Porque celebramos a vida real em todos os sentidos: celebramos corpos da vida real, cabelos da vida real, tamanhos de pênis e seios da vida real, curvas da vida real. E, olha, somos todos bonitos quando estamos fazendo sexo real.

O amor faz diferença também, não? Claro. O sexo na vida real é inspirador porque nele celebramos o amor e as emoções. Nossos associados nos escrevem e dizem: “Eu quero algo como o que tal casal tem, o jeito como os olhos se encontraram!”. O fato de que celebramos algo que você não verá em qualquer outro lugar na internet, em que há sentimento, inspira as pessoas a estipular outros padrões para si mesmos nos próprios relacionamentos. Nós também somos a favor do sexo casual e de qualquer outro tipo de sexo, mas sentimentos causam um efeito nas pessoas.

Diferentemente de outras redes sociais, a curadoria de vocês é fundamental aqui. Como funciona isso? Passamos anos concebendo o funcionamento da MLNP, porque sabíamos que se quiséssemos convidar as pessoas a fazer algo que jamais fizeram – compartilhar socialmente o sexo – teríamos que pensar sobre cada possível ramificação. Projetamos uma plataforma em que as pessoas podem se sentir seguras. Primeiro, não é possível completar o processo de envio sem que o seu vídeo seja totalmente consensual, legal e que todos tenham mais de 18 anos. Pedimos duas formas de identificação visual de cada participante do vídeo, nome e endereço residencial. Tudo é mantido em segredo, obviamente. Também assistimos a todos os vídeos do começo ao fim para ter certeza de que é real, autêntico e para saber tudo o que se passa nele.

“As redes sociais poderiam ajudar a acabar com a vergonha em relação à nudez e normalizar o fato de que é assim que parecemos sem roupa”
Cindy Gallop

Nossas curadoras são humanas. Elas marcam uma sessão de Skype para tirar todas as dúvidas. Construímos um relacionamento pessoal com cada uma das nossas estrelas. Se você está preocupado com seu empregador ou com sua faculdade, é totalmente aceitável que fique anônimo. Você pode usar máscaras no vídeo ou ter seu rosto embaçado. Temos um tutorial sobre essa questão em nosso blog. Diria que metade de nossas estrelas escolhe o anonimato e a outra metade não se importa com o fato de mostrar o rosto.

Vocês fazem algum tipo de encontro presencial? Sim! Estamos construindo uma plataforma off-line e, atualmente, organizamos pequenos encontros em bares, para que os associados possam nos conhecer e se conhecer entre si. No momento, estamos restritos por falta de orçamento, mas já organizamos alguns encontros em Nova York, Portland e Londres. Isso é muito importante para a construção da nossa comunidade. As pessoas adoram se conhecer e sempre partem dizendo: “Eu vou assistir ao seu vídeo”. Eles também partem inspirados a filmar novos vídeos. Um dia, gostaríamos de alcançar a dimensão do YouTube, que faz convenções para as suas estrelas.

Hoje você é uma executiva da indústria do sexo. Percebe se há um tratamento diferente para mulheres e homens? Não posso falar por toda a indústria, trabalho especificamente com sextech. Mas o que vejo são mulheres tratadas da mesma forma que em qualquer outra indústria. Porque no topo de qualquer uma delas vemos o mesmo círculo vicioso de homens brancos falando para homens brancos sobre outros homens brancos. Mas o que posso dizer, aí sim, com segurança, é que a maioria das inovações neste setor de sexo e tecnologia estão vindo de mulheres. E, como os desafios são imensos para quem quer empreender no setor, independentemente do gênero, acredito que as mulheres têm uma enorme oportunidade de criar negócios inovadores e disruptivos.

Créditos

Imagem principal: Marcelo Gomes

Marcelo Gomes

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