por Fred Melo Paiva
Trip #73

Quem não gosta dela alega egocentrismo autoritário. Quem gosta frisa o humor e a capacidade de deixar qualquer um se sentindo astro da televisão: Regina Casé de corpo e alma

Regina Casé não se enquadra nem nunca se enquadrou em padrão algum. Quarenta e cinco anos e três casamentos na bagagem, prepara-se para subir (pela primeira vez) ao altar da igreja do Outeiro da Glória, no Rio de Janeiro, e oficializar um relacionamento de três anos com Estevão Ciavatta, diretor de Muvuca, 14 anos mais novo que ela. Planejam fazer diferente: cada um na sua casa, e mais uma terceira “sede” onde podem se encontrar sem a obrigatoriedade de dividir o que não querem. No campo profissional, Regina segue fora da linha. Contratada da Rede Globo, ela só fez uma novela, Cambalacho, de 1986. “Por que não tem papel pra mim? Porque as pessoas me veem como pobre, negra, nordestina, e ao mesmo tempo eu não sou nenhuma dessas coisas.” Regina gosta de se dizer “sister dos negões”, uma personagem do Brasil legal.

Diferente do casting da Globo, tem endereço comercial fora dos domínios da emissora, numa luxuosa casa com vista tanto para o Corcovado como para o Pão de Açúcar (ainda que Muvuca, programa comandado por ela e gravado no local, tenha migrado das noites de sábado para o começo das madrugadas de sexta porque perdia no Ibope para A Praça é Nossa. Mesmo que isso acontecesse em poucas capitais, entre elas estava São Paulo, principal mercado e sede de 80% dos anunciantes da emissora). Há cinco meses, em entrevista à Folha de S. Paulo, Regina Casé teria comparado o estilo de Luciano Huck ao padrão estético dos paulistas em geral. “Você vê o que é o Luciano Huck. Se alguém disser: 'desenhe um paulista, como o paulista se veste, como ele fala, corta o cabelo, como é a casa dele…', o Luciano Huck namora a Eliana! Eu já vi a casa dele na Caras! É um retrato muito claro disso tudo.” Se Regina foi infeliz em suas declarações, ou a mídia exagerada em repercuti-las como uma espécie de agressão ao povo de São Paulo, isso não vem ao caso. O fato é que a polêmica fez com que perdesse a confiança em jornais e jornalistas. Na primeira semana de setembro, no entanto, ela abriu as portas do casarão da Muvuca para Trip e nos concedeu a seguinte entrevista.

Regina Casé: Vamos começar por uma coisa mais alegre?

Trip: Vamos. Vamos começar do começo. Como é que foi a sua infância? Qual a lembrança mais antiga que você tem da vida? Tenho sensações de quando eu era bebê. A minha mãe dizia que era impossível, que eu não estava lembrando aquilo tudo, que era paranormalidade. Eu perguntava pra ela assim: “Onde eu fui, que estava assim, assado, com uma coisa me apertando aqui?”. Uma vez ela me disse que uma descrição minha era o casamento do irmão do meu pai. Eu tinha 2 anos. Então lembro muito de mim pequena. Muito.

Uma coisa que fiquei impressionada quando vi o filme da Madonna, aquele Na cama com Madonna, é que ela diz “eu sempre fui exatamente assim, eu não mudei”. Eu vi e falei: “Eu também”. Depois fiquei pensando se todo mundo não acha isso de si mesmo. Perguntei a vários amigos e descobri que não. Tinha até uma gíria nos anos 70 que era "desbundar". A pessoa era careta, trabalhava num banco, vivia de acordo com a expectativa da família, aí um dia ela desbundava. Ou porque fazia uma viagem à Índia, ou porque tomava um ácido, ou porque conhecia um cara muito louco que levava ela pro outro lado. Daí as pessoas, homens e mulheres desbundavam, né?

Existia essa gíria: “desbunde”, “desbundar”. Pois eu nunca desbundei. Sempre fui igualzinha. Eu lembro como era a minha sensação em relação às coisas. Quando olho assim um mendigo na rua, o que sinto em relação àquilo, as coisas que vêm na minha cabeça são idênticas.

Ficam muitas das sensações de criança… O jeito que eu pensava, opiniões sobre coisas, o tipo de pessoa pela qual me interessava, um lugar que achava legal, é a mesma coisa hoje. Eu me lembro, por exemplo, de estar indo pra Caruaru garota, de férias, porque a minha família é de lá. Eu comprava uma coisa de cada barraca, conhecia todas as pessoas pelo nome, saía no rádio. Tinha 10 anos, a idade de minha filha, e já saía no rádio. Diziam com que roupa eu estava, coisas que falei, o que eu fiz na feira. Guardadas as proporções, é a mesma coisa hoje, sabe? Eu digo assim que eu nunca fui anônima. O círculo é que está aumentando…

Quem foi que te fez assim? Qual a sua influência mais marcante na família? Você pode reagir a isso, pode aceitar, mas que tem uma base enorme que a gente já vem com ela, isso não tem dúvida. Eu posso dizer que nasci com uma capacidade muito grande de comunicação. Isso não tem a ver com ser atriz, apresentadora de TV. Eu podia ser qualquer coisa, dona de casa, trabalhar com moda ou botânica. Com qualquer uma dessas coisas eu teria uma facilidade para me comunicar muito grande. Tinha quando eu era muito pequenininha, adolescente, e depois continuei tendo.

Você não fica minimamente nervosa quando está entrevistando alguém? Eu fico com outras coisas completamente bobas, mas eu não tenho medo de gente. Tenho muito mais medo, por exemplo, de ficar sozinha. Eu sou assim: se chego num lugar, vejo uma coisa muito legal e não tenho alguém para dizer aquilo, é quase como se eu não tivesse visto. Isso é um defeito profundo que eu estou confessando a você. É quase como se eu não existisse se não tiver outra pessoa. Você pode dizer “ah, é porque você ficou famosa e não aguenta ir a um lugar onde as pessoas não te conhecem”. Mas, não: quando era pequena, eu era assim. Hoje o que acontece é que, se eu esqueço cinco minutos que existo, aí passa uma pessoa e acena, dá tchauzinho, aí eu lembro que estou ali, que eu sou eu. 

“Gostaria muito de ter [uma relação homossexual]. Consigo imaginar direitinho como seria, nos mínimos detalhes...”
Regina Casé

Esse assédio fica me redimensionando o tempo todo, entendeu? Então, o meu medo é muito mais pro outro lado do que para esse, assim de multidão, de ter que falar para um monte de gente, palco, entrevistas, gente importante. Me lembro da primeira vez que eu falei com o Boni, há muitos anos atrás. O pessoal do programa ficou perguntando: “E aí, como foi?” e eu “nada… Foi relax…”. Chega a ser estranho…

A sua reação numa entrevista é a mesma com uma pessoa famosa e com uma pessoa comum? A mesma. Mas gosto muito mais de entrevistar pessoas comuns e anônimas, muito mais, não tem nem comparação. Porque eu gosto de perguntar coisas que de fato eu não sei. Fica mais genuíno.

Isso vai um pouco na contramão da tendência Caras da imprensa em geral, de valorizar só o personagem famoso… Vejo que às vezes eu entrevisto essas pessoas famosas que estão nessas revistas e, quando você pergunta, elas têm realces, têm coisas no dia a dia como as outras. Fica parecendo que aquelas pessoas não vão ao banheiro, não dormem, não trepam, não nada. Elas só vão naquelas festas, só fazem aquelas coisas e tal… Mas voltando um pouquinho na sua pergunta de antes, sobre a origem do meu jeito de ser, acho que fui injusta numa coisa: eu devo muito à educação que tive. Agora tem essa moda da inteligência emocional, inteligência não sei o quê. Eu não sou muito de etiquetas, mas acho que tenho uma inteligência afetiva muito boa, e isso é por causa da minha família.

Sua família foi um ambiente onde sempre se falou de tudo? De tudo, e eu vou te dizer o que é mais profundo nisso: eu não conheci só um tipo de gente. Não estou dizendo ir à China. Estou dizendo você conhecer mesmo: se mora em Ipanema, como é que vivem as pessoas que moram na zona norte? Como é que vive quem mora em Ipanema mas mora na favela? Minha família não só não tinha preconceitos como tinha a amizade de pessoas muito diferentes. Falando o português claro: os outros moradores do meu prédio não recebiam negros como visita, e meus pais tinham vários amigos negros, o que até causava problemas com o aposentado do segundo andar, o seu Raimundo.

Seu pai era diretor do Sítio do Pica Pau Amarelo, né? Tenho um orgulho gigantesco disso.

Esse fato fez você despontar para a sua carreira? Quando eu era adolescente, achava que não. Mas você vai ficando mais velha… O Sítio do Pica Pau Amarelo era em Guaratiba, um sítio de verdade. A vaca era de verdade, o boi era de verdade, as cabras, a galinha. O fogão era de verdade, fazia bolo de milho, as pessoas que trabalhavam lá ficavam lá dia e noite. Meu pai tinha uma casa perto, dormia de vez em quando lá, passava o fim de semana. Gente, isso é a Muvuca!

Você frequentava o sítio com o seu pai, né? Isso não quebrava de alguma forma o encantamento? De jeito nenhum, porque era muito legal no sítio. Tão legal quanto na televisão. Se fosse um estúdio com tapadeiras, que você chega lá e não é nada daquilo… Mas não era, era tudo como eu estou te dizendo, de verdade. Lembro do meu pai com cada livro do Monteiro Lobato, em reuniões intermináveis com todos os autores, adaptando, pensando detalhes… Na época não tinha computador, você imagina aqueles efeitos todos, entrarem os besourinhos dentro da caixa, era uma loucura. E tudo funcionava, acontecia. Isso talvez tenha sido uma coisa que aprendi com o meu pai: você tem que tentar realizar no trabalho o máximo de todos os seus anseios, e não fazer uma coisa que você acha xarope, para ganhar uma grana. Você tem que transformar aquilo que a vida está te dando, a possibilidade que você tem de se encontrar com outras pessoas, na coisa mais legal possível.

É um incômodo ser vista como uma pessoa Rede Globo quando, por exemplo, ela faz política? Às vezes é um pouco difícil quando você faz dentro da Globo um produto muito autoral, muito personalizado, e que na verdade não te pertence… pertence à Rede Globo. É muita responsabilidade. Por outro lado, acho muito injusto quando leio uma crítica num jornal, numa revista que, por problemas daquele órgão com a TV Globo, são totalmente injustas e parciais com a qualidade do produto — e não é só o meu caso. Eu digo isso muito na imprensa.

Você já se sentiu constrangida por alguma atitude tomada pela Globo? Não. Mas sabe o que acontece? Durante esses anos todos, talvez esse seja o primeiro em que alguns problemas começam a se esboçar para mim. Porque, de fato, eu não planejei fazer um programa semanal, sempre trabalhei numa coisa mais alternativa. Quando me chamaram para fazer a Muvuca, não foi uma coisa que veio de mim, veio da Globo. Eles queriam que eu estivesse mais presente, então falei: “Bom, vou tentar fazer uma revista semanal, mas o que venho fazendo há anos é livro de capa dura”. Eu não sei ainda se sou capaz disso. Não é ser capaz do resultado, que acho excelente. O mais difícil é eu querer esse tipo de vida. Eu viajava o ano inteiro com o Brasil legal, e isso era mais a minha cara. De qualquer jeito, concordo inteiramente com a Globo: o que segura mesmo o espectador é a assiduidade, é ele saber que todo dia, àquela hora, tem aquilo, igual a um relógio. Acho que a tendência é que quase todos os programas passem  a ser diários.

Quando você tinha 15 anos, seus pais se mudaram para Portugal e você ficou sozinha no Rio de Janeiro. Sem pai nem mãe no Rio de Janeiro, no meio dos anos 70, deve ter sido uma delícia… Não foi assim pelo seguinte: primeiro porque não me sentia nem um pouco tolhida pela minha família e, depois, porque acho que é difícil você se gerir com essa idade. As vantagens eu já tinha antes, entendeu?

E você ficou mais responsável, então? Em vez de ter ficado mais doidona, ficou responsável? É isso, eu acho. Porque ali, se eu tivesse ficado realmente doidona, ninguém nem ia saber o que aconteceu de mim. Como eu sabia que não tinha ninguém, eu tinha medo de ir. Talvez eu tenha ficado um pouco insegura por causa disso…

Em que ano foi isso? Setenta e pouco, eu acho. Fui morar com uma tia, a tia Julinha, que nessa época tinha quase 80 anos. Parecia que ela estava tomando conta de mim, mas eu é que estava tomando conta dela. O grupo de teatro com quem eu trabalhei po 12 anos, o Asdrúbal Trouxe o Trombone, as roupas todas eram feitas na casa dela, todo mundo podia dormir lá, fazer tudo, era um lugar que, provavelmente, se fosse na casa de um pai, uma mãe, não teria sido com aquela cara nem daquele jeito.

Foi por essa época que você fez a sua turma? Foi, e eles estão comigo até hoje. O Luiz Fernando Guimarães, o Evandro Mesquita, a Patrícia Travassos, o Perfeito Fortuna, o Hamílton Vaz Pereira, que trabalha conosco na Muvuca

E vocês não piravam a cabeça da sua tia? Ela adorava. Foi maravilhoso para ela, muito bom. Aconteceu um grande milagre nessa época: essa minha tia, que não tinha nem noção de dinheiro, recebeu uma herança do irmão mais velho, que morreu repentinamente. Esse cara deixou um apartamento que ele morava, um outro que estava alugado, uma pensão razoável, uma grana legal por mês, um monte de coisas. Ela pegou tudo, vendeu, dividiu com uma irmã, e a gente comprou um apartamento na Gomes Carneiro, que era exatamente em frente do píer, em Ipanema — era o auge do píer! O apartamento era térreo, então as pessoas voltavam da praia e entravam pela janela na minha casa. Eu e essa minha tia praticamente casamos. A gente fez todos os móveis, tinha 200 mil móbiles, a única coisa que tinha na sala era uma mesa de totó. Ela saía, fazia compras, voltava cheia de comida, costurava a roupa do Asdrúbal. A gente viajou a Europa toda juntas. Para ela, foi um renascimento. Para mim, a salvação.

Você também fazia parte da turma do surf, do pessoal do píer de Ipanema? Conhecia muito todo o pessoal do Arpoador. Era ótimo, eu era cocota [risos].

Era a mesma turma do Asdrúbal? Mais ou menos. O Evandro já era do Asdrúbal e era meio surfista. Todas essas pessoas, o Rico, o Ato, o Bocão, o Petit, eram as pessoas que iam ver as peças. Todo espetáculo da gente tinha alguém que pegava onda, entrava uma prancha. A gente ia à praia, ficava lá até acabar o sol, eu entrava salgada em cena todo dia. Nunca tomava banho antes, sabe?

Na sua turma de adolescência, todo mundo era doidão? Naquela época ainda existiam coisas como direita e esquerda, doidão e careta — então a gente só andava com doidão, porque quem era careta era careta mesmo! É disso que você está falando, ou de droga?

De droga, de cabeça aberta, tudo… Naquela época era mais fácil ser doidão. Porque um artista, um cabeludo, uma pessoa que fumava maconha ou tomava um ácido, alguém com uma roupa extravagante se confundia com uma pessoa maluca de verdade. Acho que nos anos 80 começou a ficar muito mais difícil ser maluco beleza. A relação da cocaína com o poder, com gente muito rica e com gente muito pobre, sempre foi péssima. Então, eu não sei se você ou o leitor da Trip entendem por doidão a mesma coisa que eu…

Alguma vez você já usou do seu dom de interpretar para resolver algum problema? Num órgão público, por exemplo… Olha, eu não tenho esse preconceito com a mentira, não. Só não pode mentir quando é uma coisa injusta, porque você tá fazendo um mal para alguém. Mas se você acha que aquilo vai resolver melhor ali, não vejo nenhum problema. Se eu vou à estreia de uma pessoa que adoro e, na saída, ela pergunta “e aí?”, e ela está suada, rouca, acabou de sair de cena, eu vou dizer “Olha, achei uma droga, muito ruim”? Não, vou falar “ah, legal, amanhã eu vou na sua casa”.

Mudando um pouco de assunto: nas suas viagens pelo Brasil, principalmente com o Brasil Legal, você tinha de abordar as pessoas nas ruas, entrar na casa delas, abrir o armário. Ficou chato viajar para fazer um turismo mais convencional? Demais. Acho que a experiência de ter viajado tanto e tão intensamente com o Brasil legal chegou a provocar em mim uma alteração de percepção — como uma droga mesmo —, porque é muito artificial você conhecer dez pessoas muito legais num mesmo dia ou mesmo conhecer tão intimamente uma pessoa em dois ou três dias. Abrir gavetas, ouvir confissões que de um amigo você só ouviria com muitos anos de intimidade. Aí eu voltava para o Rio, para casa, e parecia que tudo estava em slow motion.

Quando você descobriu que isso funcionava como uma droga? Você tinha tédio da vida normal? Tinha, mas logo percebi que manter aquele ritmo indefinidamente seria impossível, e que você pode gostar de música rápida e de música lenta. E que não necessariamente qualquer coisa lenta é entediante.

Você faz terapia? Faço análise há algum tempo.

E ajuda? Muito. Eu era totalmente contra, porque eu odeio interpretação, sempre odiei. Achava impossível fazer análise, porque eu ia dizer uma coisa, e ela ia interpretar o que era aquilo, acho muito chato. Mas há uns dez anos, quando minha filha nasceu, eu fiquei muito mal, fisicamente o parto foi complicado, fiquei grave, e ela também. Eu podia ter morrido, ela também. E depois a recuperação disso foi muito difícil, eu fiquei muito fraca…

Você se deprimiu? Não foi aquela depressão pós-parto. A coisa foi mais grave, fiquei muito deprimida. Eu tenho muita energia e eu tinha zero de energia. Não conseguia nem curtir uma depressão só emocional, psíquica ou psicológica. Fisicamente eu não conseguia fazer nada, era fraca, fiquei tonta. Tive hemorragia, tive milhões de coisas…

E o que você pensava nessa hora? Pensava que só existia gente viva e gente morta. Levei um susto quando descobri que existia aquele estado, aquele lugar, que era igual uma a zona fantasma. Não conseguia reagir àquilo. Aquela pessoa não era eu. Foi então que veio o Caetano e me levou para a analista dele. Ele foi um amigo generosíssimo. Eu fiquei meses só quietinha no colo dela, tomando chazinho. Demorei pra começar a fazer análise de verdade. Ela era muito mais uma bruxa, uma velha sábia. Chamava-se Inês Besouchêt. Uma mulher muito bacana, magrinha, chique. Uma grande psicanalista.

Você já experimentou droga, né? Ah, claro que sim! Mas nunca fui a mais doidona. Todos os meus amigos emburacavam muito mais. Até hoje eu sou a que leva o carro pra casa [risos].

Você já experimentou ecstasy? Não, mas acho a onda do ecstasy muito mais parecida com os anos 60, 70.

O que você gosta de fazer nas horas vagas, naquele momento de slow motion que a gente estava falando? Adoro dançar, e danço qualquer coisa. Outra coisa que eu adoro é rezar. Adoro. Você me joga numa sinagoga, todo mundo cantando, eu canto junto, acham que sou uma convertida. Na Bahia, segunda-feira tem uma missa que eu gosto, terça tem uma missa que eu gosto, quarta tem outra. Você me bota num candomblé, qualquer festa, de qualquer santo, qualquer lugar desses, eu me acabo de cantar e dançar. Novena, ladainha, gira, roda, mantra é comigo mesmo.

Você já viu uma missa de igreja evangélica? Nunca, talvez seja até um preconceito, mas acho que a Igreja Universal é muito agressiva com as outras. Já os vi falando horrores do candomblé, dos santos católicos…

Chutaram até a santa… É, a Nossa Senhora Aparecida, a santa mais querida do Brasil!

“Quando me chamaram para fazer a Muvuca, não foi uma coisa que veio de mim, veio da Globo”
Regina Casé

Eu sei que você tem uma coleção de imagens de santos. Essa sua relação com a religião é mais estética, aquela encenação toda, ou é uma coisa espiritual? Tudo na vida é brincadeira e verdade. Você começa a dar um beijo numa pessoa numa festa e, de repente, você pode casar com ela, ter dez filhos. Você nunca sabe, no começo, o que aquilo vai dar. Eu posso entrar numa coisa pelo motivo mais superficial e encontrar naquilo coisas que realmente me envolvam e me toquem muito. Eu já entrei na Igreja de São Lázaro, na Bahia, e vi pessoas do candomblé na fila da comunhão. Eles estão vendo naquele santo o orixá deles. A gente tem que conhecer as diferenças: o preto é diferente do branco, o homem é diferente da mulher, o pobre é diferente do rico. É diferente mesmo!

Agora, isso não significa que você tem de ter medo daquilo. Quanto mais você percebe a diferença, olha pra ela, e saca que pode conviver com aquilo, tudo vai ficando cada vez mais fácil. Senão você só vai querer defender o que é seu, só vai querer se proteger, se cercar. Quanto menos lugares você puder ir, menos pessoas puder conhecer, a vida vai se empobrecendo muito.

Eu vou fazer uma pergunta bem íntima… Um o.b., né?

Sério, vou fazer uma pergunta íntima, você me responde se quiser. Você já teve uma relação homossexual? Não, e acho  uma lacuna no meu currículo [risos]. Gostaria muito de ter, estou te falando sinceramente, não é uma frase de efeito.

Você gostaria de ter ou de ter tido? Ter tido ou ter. Meus amigos morrem de rir quando eu falo isso. Já que estamos falando tanto dos anos 70, hoje em dia nem tanto, mas naquela época era muito mais difícil confessar que você não teve uma relação homossexual do que o contrário. Claro que isso é no meu ambiente de doidões [risos]. Tem gente que diz: “Não consigo nem imaginar!”. Eu não, eu consigo. Consigo imaginar direitinho – nos mínimos detalhes… [risos]

Você tem muitos amigos gays? Eu acho que tenho mais amigos gays até do que…

“Quiseram arrumar uma briga minha com o Luciano Huck, como se eu tivesse xingado ele. Eu só disse que ele é totalmente paulista”
Regina Casé

Regina, por que você só fez uma novela até hoje? Só a Tina Pepper, de Cambalacho, que era uma personagem bem fora do normal, né? Não era preta, nem branca, não era a mocinha da novela, também não era a vilã. Isso de não ser preta, nem preta nem branca, nem boa nem má, talvez explique por que eu só fiz uma novela. Recentemente eu passei quase três meses no sertão fazendo o filme Eu, tu, eles, do Andrucha Waddington. Novamente, a minha personagem era uma mulher casada com três caras, morando com eles na mesma casa, uma mulher que existe e que está viva no Ceará. Novamente um personagem fora do comum, né? Isso me fez pensar que eu sou uma atriz estranha para papéis estranhos, mas existem no Brasil milhares de garotas como a Tina e milhares de mulheres nordestinas como a Darlene. Eu sei porque entrevistei muitas pessoas assim no Brasil legal. O que talvez não exista muito são filmes, novelas ou peças falando dessas pessoas, assim como não existem essas pessoas na TV, a não ser quando o barraco caiu em cima delas ou elas assaltaram alguém.

Você se acha bonita? Quando eu era pequena, não tinha nada de especial, não era nem a bonita, nem a feia, nem nada, normal. Quando começou essa coisa de ser pública, não me achava feia, nem nada. Eu lembro que saiu uma matéria numa revista: “Feiosa, magricela e tímida”. E aí você começa a se defender disso: antes que alguém vá te dizer, você faz. Então, eu chegava numa festa com um laço de fita desse tamanho, uma roupa completamente louca. Mas aí aconteceu uma coisa que me salvou dessa história: eu virei a gostosa. E tanto na praia quanto depois. Mesmo que tivesse uma menina mais bonitinha, eu era mais gostosa. Começou a ficar fácil, eu namorava com as pessoas que eu queria. Fui casada 15 anos com o Luiz Zerbini, que é um artista plástico de São Paulo. Ele é lindo. Era um cara que muita gente queria namorar e, durante muito tempo, eu sentia que havia quase uma raiva geral porque ele me namorava. Até hoje vejo que tem gente que fala, quando vai falar da minha filha, que é incontestavelmente linda: “Você é tão linda, é a cara do pai”. Se eu tinha aquela filha, era porque aquele pai, tão lindo, tinha me comido, né? [Risos.]

Você ficou gostosa porque tinha bunda? Tudo, bunda, peito, gostosa no sentido de que eu sempre tive um corpo bonito na praia, mas também gostosa no sentido de… Gostosa é outra coisa também, é uma pessoa boa de trepar, boa de namorar, boa de beijar, boa de pegar, e que também pega bem, enfim, que tem uma relação boa com o seu corpo e com o da outra pessoa.

Você se acha boa de cama? Olha, eu acho que não tem uma pessoa que é boa de cama pra todo mundo, mas não vou te responder esse clichê. Acho que tem gente que gosta de trepar e tem gente que não gosta. Tem gente que se dedica mais, são mais empenhadas e normalmente são as pessoas consideradas boas de cama. Acho que tem períodos em que você encontra um parceiro ou uma parceira que fazem você ficar bom de cama. Agora, que tem gente que não tem saco, ou que não tem interesse em sexo, isso existe. São as pessoas geralmente chamadas de ruim de cama.

E nesse grupo você não se enquadra… Não. [Risos.]

Você vai se casar na igreja este mês, não é? Vocês vão morar juntos ou separados? A ideia é ficar com a minha casa. Ele vai ficar com a dele também, e a gente vai ter uma sede, que é de todo mundo.

Você tem uma boa relação com seus ex-maridos? É a quarta vez que me caso. E fico muito feliz quando vejo todos eles juntos, com seus filhos, no aniversário da minha filha Benedita. Meu primeiro marido foi Halmílton Vaz Pereira – com quem eu fiz Asdrúbal Trouxe o Trombone, a peça Nardja Zulpério, com quem eu fiz tudo pela primeira vez – e que até hoje trabalha comigo na Muvuca. Meu segundo marido foi o Carlão, era médico acupunturista, e que me ligou ontem mesmo pra dizer que adorou a Muvuca da semana passada. Em seguida, casei com Luiz Zerbini, que é o pai da minha filha Benedita. Ficamos juntos 14 anos. Estamos separados há três, e agora aprendendo a sermos só amigos, e não marido e mulher, aprendendo a criar e educar juntos, mesmo estando separados. É difícil, mas quando a gente consegue é muito legal. Agora vou me casar formalmente pela primeira vez. É estranho pra muita gente. Pra mim também. É que o Estevão, meu namorado, e eu tínhamos quase todos os motivos do mundo pra nos separarmos. Eu sou 14 anos mais velha do que ele. Temos histórias de vida completamente diferentes, eu sou muito conhecida, o que atrapalha pra caramba. A gente bem que tentou não ficar junto, mas não deu… Há três anos a gente tenta e é impossível. É por que é. É bom. Tudo que a gente achava que ia dar errado foi dando cada dia mais certo. E como você viu que eu adoro festa e vou muito à igreja, achamos que ia ser bom casar de verdade. Acho que vai ser legal pra todo mundo.

O seu ex-marido Luiz Zerbini é paulista, não é? Qual seu sentimento em relação aos paulistas? As pessoas me conhecem, eu tenho 25 anos de carreira, sabem quem eu sou. Eu tenho tantos amigos em São Paulo quanto no Rio. Durante muito tempo eu morei meio lá e cá. Não só o Luiz Zerbini é paulista. A Benedita, minha filha, foi feita lá num hotel quase na esquina da avenida Paulista. Então a avó e o avô dela, os primos dela, os tios dela todos são paulistas. Aliás, quiseram arrumar uma briga com o Luciano Huck, como se eu tivesse xingado ele. Pode ler o que eu disse. Eu só disse que ele é totalmente paulista. Como, aliás, os tios da Benedita. Muitos se vestem e falam tudo do mesmo jeito. E eu amo eles todos porque eu sei amar quem é diferente de mim. Se eu dissesse que o Gil é totalmente baiano, estava xingando ele? Ah… tenha a santa paciência… Quando eu penso que estreamos o Sesc Pompeia, o Aeroanta, que eu tenho até hoje o recorde de permanência e de público no Palace com a Nardja Zulpério… Quando eu penso que passo o natal em São Paulo há 15 anos, isso parece uma loucura. Imagina se eu vou lançar um programa em São Paulo e vou pra imprensa falar mal de paulista! Que o leitor fosse muito burro para acreditar nisso, né?

Voltando à história do seu casamento: esse modelo que você vai implantar – uma casa para cada um e mais uma sede onde podem se encontrar – é o ideal? Uma coisa que eu tinha, que eu acho ingenuidade, é de tentar formar uma coisa, você e a pessoa virar uma ameba. Você vai levar a vida junto, um ajudando o outro, tentando facilitar as coisas para o outro, fazer o outro mais feliz, um tentando fazer o outro crescer. Mas não tenho nenhuma vontade de formar um casal. Aliás, acho casal a coisa mais chata que existe no mundo. Você quer ver uma coisa que é um suplício? Você vai jantar com um casal e fica conversando tudo pasteurizado ou empastelado, tentando chegar a um denominador entre duas pessoas que, mesmo que estejam casadas há 40 anos, são duas pessoas diferentes. Hoje em dia eu tenho a impressão de que a coisa é reforçar as individualidades.

Você se sente mais apaixonada quando está no mundo do outro? Quando você vai à casa dele, você é visita. Ele te leva, abre a geladeira e tem coisas que você nunca compraria, os amigos dele, um CD que você não tem. Isso é maravilhoso, só alimenta, eu acho. Isso não só em casamento. Às vezes, você conhece uma pessoa genial numa viagem. Quando vem pra sua cidade, não conhece ninguém, você começa achar aquela pessoa meio chata, parada na sua casa. É diferente.

Se for o contrário, você tende a achar ela legal. É sedutor o mundo do outro? É ótimo, muito bom.

Créditos

Imagem principal: Christian Gaul

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