Marília Coutinho reconciliou o corpo à mente e transformou sua vida através do esporte

Marília Coutinho sempre foi uma intelectual. Irmã do cartunista Laerte, bióloga ph.D., passou anos lutando contra um distúrbio mental que quase lhe custou a vida. Quando percebeu que sua força poderia ser o remédio, tornou-se uma das maiores halterofilistas do Brasil. E encontrou a sanidade nos limites entre seu corpo a sua mente

Quando o médico acabou de costurar a jugular de Marília Coutinho, lavou as mãos: “Isso é tudo o que eu posso fazer. Na próxima meia hora vamos saber se você sobrevive”. Foram longos 30 min em que ela teve tempo para pensar em muita coisa... Em como sua condição mental havia passado dos limites. Em como os anos de crises, de pesada medicação psiquiátrica, desembocaram nisto: no seu corpo escorado em uma maca de um posto de saúde de Boiçucanga depois de uma tentativa de suicídio de desfecho ainda desconhecido. Durasse ela mais do que a fatídica meia hora, Marília estava certa de uma coisa. TINHA que se controlar. Ela ainda não sabia como, mas sabia que tinha algo a ver com exercício.

A meia hora passou. E pouco mais de um ano se passou. E nessa altura a bióloga de 43 anos, doutorada, já era a campeã brasileira de halterofilismo em sua categoria. “Ninguém entendeu nada”, ela avalia, “não é a coisa mais normal uma mulher de minha idade fazer marcas tão grandes, e tão rápido.” E logo explica: “Eu sou fodona? Não. Sou esquisita”. Uma esquisitice que a acompanha desde a infância.

Ainda na escola, a pequena Marília tinha dificuldades ao se relacionar com outras crianças. Não entendia bem os sutis códigos sociais. Sentia tristeza, medo. E quando sentia medo ela podia ser agressiva com os colegas. Só sossegou, ficou mais centrada, quando descobriu o esporte aos 11 anos. Aos 14, era (parece carma) campeã brasileira de esgrima. Tudo ia bem, até que o espectro do comunismo bateu a sua porta.

Dentro de casa, a família era persuadida pelas lideranças do PCB. E foram eles, os “amigos” da militância, que forçaram a jovem Marília, aos 15 anos, a largar o esporte (“coisa de pequeno-burguês”) e entrar na luta revolucionária. Sem o florete, Marília não havia como se defender de seus fantasmas internos, nem dos monstros do mundo real. Enquanto conspiravam a instalação da ditadura do proletariado, os figurões da esquerda abusavam dela.

Foi estuprada por companheiros em uma das organizações. A politização acabou por tornar Marília o que ela chama de “alienada corporal”. Destruída psicologicamente, e desconectada da paz de espírito que o esporte lhe trazia, ela abusou de drogas. Se auto-mutilava e, mesmo já desligada da militância, quando entrou na faculdade, seguiu assombrada por angústias e súbitas crises.

Descoberta de peso

Teve uma bem construída carreira acadêmica. Mas sempre domando sua condição com cavalares doses de remédios. Até que, depois de sua derradeira tentativa de suicídio, contrariando rigorosas ordens médicas, Marília largou as pílulas. E mergulhou fundo nas atividades físicas, algo que, desde a infância, estava em um segundíssimo plano. Foi quando, ao entrar em uma academia de levantamento de peso na favela de Paraisópolis, teve uma revelação. Soube, na hora, que era ali o seu lugar.

Sua experiência acadêmica, seu gosto por pesquisa, a fizeram uma halterofilista única. Destrichou a literatura, soube ler com sua bagagem de bióloga outras nuances nos músculos que cresciam rapidamente em seu corpo. A rara sofisticação intelectual de Marília a fez uma privilegiada observadora dos significados mais ocultos dos esportes de força. E sua extraordinária performance só não foi mais extraordinária do que a melhora de sua condição mental. Se tornou o exemplo vivo das ideias que defende em sua nova carreira.

Como atleta, professora e escritora (tem três livros a caminho, um sobre treinamento, um sobre saúde e estética e outro sobre os transtornos que superou), ela tenta alertar os outros sobre o grande equívoco, tanto esportivo quanto cultural, que a sociedade carrega: uma separação crônica entre mente e corpo. Algo que aliena tanto atletas quanto cientistas – e turva a visão de médicos e treinadores sobre o enorme potencial da atividade física lúcida como forma de devolver a sanidade a tanta gente que, como ela, é “estranha”. Só não mais estranhas do que o prórpio mundo que vê corpo e mente como entidades separadas.

Marília Coutinho hoje tem 47 anos e pretende ir, em novembro, para seu primeiro mundial de halterofilismo. Como se sua biografia não fosse interessante o suficiente, ela também é irmã do cartunista Laerte. Curioso... Enquanto seu irmão acaba de vir a público travestido, e desafiar de forma tão natural a sociedade a rever suas ideias de limites de gênero, ela, mais discretamente, nos desafia a rever barreiras ainda mais profundas, ocultas e urgentes: onde estão as fronteiras que dividem nossas carnes e nossa psique? O quanto da força de um músculo está, de fato, no cérebro? O que diferencia saúde mental e de física? São perguntas sobre as quais ela joga alguma luz nas respostas a seguir.

Você é uma grande crítica da cultura de fitness, do padrão de treino dominante em academias. Por quê?
Em primeiro lugar, é bom esclarecer. Fitness, no significado do termo, é “aptidão”. E tratar de aptidão, de corporalidade, é muito mais complexo do que se exercitar em aparelhos. A gente vive em uma cultura que aliena nosso corpo. E nesse aspecto a gente falha como sociedade, como família, como instituições que criam um indivíduo que vê a mente em primeira pessoa, mas pensa o corpo em terceira pessoa. E é com essa mentalidade que muita gente entra em uma academia.

Mas o fato de as pessoas estarem buscando mais academias, simplesmente, não é um bom sinal?
Por um lado sim. A gente está vivendo um século com mais consciência sobre questões do corpo. Até pouco tempo atrás a aptidão, o tal fitness, era medido através de capacidade cardiovascular. Depois, aptidão virou capacidade cardiovascular, força e flexibilidade. Depois tudo isso mais coordenação, agilidade, propriocepção. Já está havendo uma visão mais ampla. Mas ainda falta saber a importância e o peso relativo de cada coisa.

E você acha que cérebro deveria estar na conta do fitness?
Boa pergunta. Deveria estar sim, porque é óbvio que ele é parte fundamental disso. Mas ele foi expurgado do exercício do mesmo jeito que a gente expurga o corpo na hora de pensar nossa mente. Quando você vai cuidar do corpo você pendura o cérebro no vestiário. Esse problema se tornou ainda mais sério nas academias quando as máquinas de movimento guiado explodiram. E movimento guiado não precisa ser pensado. Isso é algo muito sério.

Por que é tão sério?
Porque cria uma cultura que impede que se trate doenças psíquicas através do exercícios. No caso de diabetes ou hipertensão, o médico te manda pra academia. Pra depressão, é sempre remédio! Já vi psiquiatra dizer que atividade física jamais pode ser tratamento para depressão. Ao mesmo tempo, você não vai conseguir resultados se “apenas” puxar ferro. Ele precisa se integrar, perceber a si mesmo. O portador de desordem mental tem um rótulo do que ele é. E precisa ter oportunidade de mudar. Uma pessoa, através do exercício, pode construir uma outra identidade.

O quanto sua relação com o levantamento de peso mexeu com a sua identidade?
Aconteceu mais de uma vez. Fui uma criança “problemática”. Tinha pouquíssima capacidade de comunicação, dificuldade de interpretar ações não verbais, medo e depressão. E tinha surtos de violência quando sentia medo. Até que tive a oportunidade de fazer esportes. E foi algo muito disciplinador e ajudou a integrar pedaços de mim que estavam perdidos. Fiz atletismo, vôlei, fui campeã brasileira de esgrima. E isso me deu muita estrutura. Aquilo era a minha vida, até que eu fui arrancada do esporte...

Como assim, arrancada?
Foi quando o Partido Comunista Brasileiro achou que eu tinha que parar com aquele desvio pequeno-burguês. Eu tinha 15 anos...

Mas você já era do partido comunista nessa idade?
Não, mas o meu entorno era. Irmãos, amigos da família. E eles exerciam um poder enorme sobre a gente. E em determinado momento um deles chegou pra mim e disse: “Olha, chegou a hora de você largar essas coisas e entrar na luta. A vida do militante tem que ser exclusivamente a revolução. E acabou”. O discurso era muito persuasivo, principalmente para uma adolescente culta, sob uma ditadura. Aquelas pessoas destruíram parte da minha vida.

Destruíram de que forma?
Eram violentos. Fui muito maltratada dentro das organizações de esquerda. Primeiro no Partido Comunista Brasileiro. Mas pelo menos no Partidão era só tortura psicológica. Bem melhor do que na outra organização da qual eu fiz parte, a Convergência Socialista, hoje o PSTU. Lá eu fui estuprada... E tinha que suportar, porque contar seria traição. A luta era mais importante – e os homens eram mais importantes. As militantes de base eram obrigadas a fazer sexo com os líderes. Tem militantes de uma geração anterior à minha que não sabem se foram mais agredidas pelos torturadores ou pelos companheiros. E eu era uma menina novinha, 16 anos, loira, de olho azul... prato cheio.

E o que aconteceu com você psicologicamente?
Fui separada do meu corpo de todas as formas. Primeiro porque não podia praticar mais esportes. Depois, fui estuprada... E foi aí que as manifestações mais assustadoras da minha desordem ficaram fortes. Automutilação, abuso de drogas...

E você continuou na militância?
Não por muito tempo. Larguei tudo com 19 anos e parti para uma carreira universitária. Fiz biologia, mestrado em ecologia química, doutorado em sociologia da ciência. Mas os sintomas continuavam, com maior ou menor intensidade, e poucos anos depois fui diagnosticada como maníaca-depressiva, uma patologia que hoje seria chamada de desordem bipolar. E fui medicada, muito medicada. Tomei de tudo.

"A gente vive em uma cultura que aliena nosso corpo. o indivíduo vê a mente em primeira pessoa e o corpo em terceira pessoa. É com essa mentalidade que muita gente entre em uma academia"

E quais eram os sintomas?
Eu não tinha estabilidade nenhuma. Uma enorme dificuldade em lidar com situações sociais. Até o momento em que minha convivência com as instituições foi ficando insustentável. E aquela violência que na infância eu descarregava em outra criança ali eu precisava conter, e isso se voltava contra mim. Me levava a ações impulsivas, eu me mutilava, tenho marcas pelo corpo todo.

E a medicação não resolvia?
Já não estava resolvendo. E o que a psiquiatria mainstream faz quando um remédio não resolve? Dá outro em cima. Chegou um ponto em que eu estava tomando 11 medicamentos. Até que um neurologista me receitou um remédio chamado Zyprexa. Uma droga da morte. Dá diabete, hipertensão... Um horror. Eu tomei isso por duas semanas. E tive um conflito com o médico e acabei mandando ele à merda. E foi uma coisa boa, me fez pensar: “Bom, já que eu estou condenada, deixa eu ter um pouquinho de vida legal e depois eu me mato”.

E, aí, deu “certo”?
Por uns dois meses ficou tudo legal. Eu tive que repensar minha vida toda. Parei de tomar todos os remédios. E curti. Pela primeira vez tive a consciência de estar feliz. E foi só aí que eu entrei em uma academia, me fez muito bem. Descobri que as atividades tinham efeitos diferentes em mim. Natação e corrida tinham efeitos agudos de curta duração. Já musculação tinha efeito crônico, bem-estar o dia todo. Foi aí que comecei a levar mais a sério o exercício. Mas veio um mês e meio que foi complicado, acabei sendo relapsa com o treino e voltaram as manifestações. Essa angústia inexplicável ficou crítica até o momento em que peguei meu carro, comprei uma lâmina, fui para uma estrada de terra em uma saída da Rio-Santos e cortei minha jugular.

E o que passava na sua cabeça nessa hora?
Nada. Simplesmente fui. Como todo suicida, eu estava ambivalente. Até o último instante, ficava: “Morro, não morro?”. A dúvida foi até o momento em que cortei a garganta, vi no retrovisor aquilo tudo aberto e pensei “Fiz merda”. Aí tentei segurar, mas não tinha jeito. Jorrava sangue.

E como você sobreviveu?!
Tinha um moço passando, e eu o chamei. Disse que havia sofrido um acidente, ele entrou no carro na hora, me empurrou pro lado e me levou para um posto de saúde. Era um lugar de poucos recursos. Acabaram de costurar e disseram: “a gente fez o que pode. Em meia hora vamos saber se você sobrevive ou não”. Pensei muita coisa nessa meia hora...

O que, por exemplo?
Que, o quer que eu tenha, é muito sério. Então preciso controlar esse negócio, e já sabia que seria com atividade física.

E como foi isso?
Comecei a ler muito sobre o assunto, “descobri” que tinha pernas, glúteos, abdome, e que poderia trabalhar cada um. No começo eu anotava tudo. Se tinha fome, como estava meu humor, se eu gozava ou não... pra correlacionar tudo com o treino e minha condição. Foi aí que mudei de profissão.

Para o que, mais exatamente?
Passei a ser uma profissional do treinamento. Discuti com meu psiquiatra e ele falou que, se eu não topasse ser medicada, não tinha como me salvar, que gente como eu acaba se matando. Deu até prazo, disse que eu me mataria nos próximos meses, em no máximo cinco anos. Mesmo assim parei com os remédios. Fez cinco anos em julho do ano passado, e desde 2006, quando descobri o levantamento de peso, nunca mais tive uma crise.

Nunca?
Nunca. Ainda sou esquisita, mas nunca mais me machuquei. Ainda tenho problemas de relacionamento, me sinto mal em lugares públicos. Odeio que estranhos me toquem. Posso ficar um pouco agressiva. Mas eu aprendi a lidar com o que acontece na minha cabeça com minha corporalidade. Quando encaixei as peças desse quebra-cabeça, meu problema ficou administrável.

E como foi sua evolução no levantamento de peso?
Imediata. No ano que comecei fui campeã brasileira. Mas isso não quer dizer nada. São várias categorias, várias fórmulas para determinar a relação entre seu peso e quanto você levanta... E, de acordo com essas fórmulas, desde que comecei sou uma das melhores do país.

O que determina a sua performance, basicamente?
Além da técnica, tem a ver com o sistema nervoso. Você ser capaz de negociar com o cérebro, fazer ele entender que pode levantar, mandar seu músculo levantar aquele peso, e tudo bem. E a força não está apenas no músculo, ela é produto de um sistema de alavancas que envolve esqueleto e articulações. E existe, nesse sistema, o potencial da força absoluta. Meu palpite é que ela está presente, mas é inibida neurologicamente.

O portador de desordem mental tem um rótulo do que ele é. E uma pessoa, através do exercício, pode construir uma nova identidade

Mas o que você chama de força absoluta?
É a menos estudável e menos conhecida. Até hoje as referências são não científicas. Como a senhora que, de repente, atirou com as próprias mãos um freezer pela janela; ou um senhor idoso que levantou o trator que tombou em cima do neto; uma mãe que abriu o maxilar de um crocodilo para tirar o filho que estava sendo comido. Essa força descomunal só pode ser expressa em momentos de muito stress. E ninguém conseguiu medir isso em laboratório, não sabemos o que acontece no cérebro naquele momento.

Você vê uma interpretação metafísica?
Talvez a gente canalize uma força externa ao corpo? Não. Eu acho que nosso sistema é, pelo menos, dez vezes mais forte.

Por essa lógica, eu poderia levantar mais de 400 kg com esse meu braço destreinado?
Você pode! Mas não vai ser muito legal pro seu osso. A musculatura serve para proteger, dar estabilidade e, claro, força. Mas aumentar a musculatura é muito mais rápido do que treinar o cérebro para executar a força. Tem gente que, sem aumentar 1 kg de massa corporal, consegue, depois um ano, levantar o dobro da carga.

Mas evidente que não é só vontade que convence o cérebro a comandar um levantamento de um peso muito grande...
Tem uma linha de treino, por exemplo, que prega basear a performance no medo, na raiva, emoções fortes. Outra escola, a minha, é focar no prazer. Você está fazendo aquilo porque quer, abriu mão de tudo para isso, e naquele momento é só aquilo que importa. Meus melhores levamentos sempre me trouxeram uma paz interior muito grande. É uma expressão de amor. Aí sai o levantamento perfeito.

Mas o que é um levantamento perfeito?
O levantamento de peso tem uma dimensão técnica. A segunda dimensão é neural. A terceira é mental. Mas existe um quarto passo, quando tudo isso se integra e transcende. Pra mim a execução muito integrada de um levamento é um ato perfeito. Só vivi isso umas três vezes. Já não sou eu, não é o meu corpo, minha mente. Não tem peso na sua mão. Não tem mão! Uma dissolução tão grande que é como se o movimento fosse a única coisa acontecendo. E, por ser movimento, ele passa. Mas naquela hora não há temporalidade. É um momento de iluminação: você entende a natureza do movimento e, ao entender isso, você entende quem você é.

Uma experiência mística?
Sim. Acredito no poder transformador dessa integração. Ninguém compreende como consigo minha performance. Eu sou fodona? Não! Eu sou esquisita. Não é realmente a coisa mais normal do mundo uma mulher com 47 anos executar o que eu faço. Acontece que a minha condição ajuda a iluminar um pouco o que são os reais limites. Minha história é a de alguém que foi obrigada a não acreditar em limite para sobreviver. Os limites que contaram para mim que existiam.

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