por Paulo Lima
Trip #263

”A maneira como administramos nosso próprio envelhecimento talvez seja mesmo a maior e mais evidente prova da ignorância que nos vitima”

Mesmo com o interminável desfile da coleção de consequências da ignorância coletiva nacional que tem emergido diariamente nos últimos meses e anos, esta que talvez seja uma das mais cruéis e graves, acaba ficando largada no acostamento.

Sim, pode ser lícito dizer que se trata apenas de uma simples variação ou subpasta da mesma semente que brota na quase unanimidade dos pareceres de quem se põe a analisar a nação: nossa notória miséria educacional.

Mas aqui na Trip, como diriam os geniais filósofos de churrascaria, optamos sempre por fatiar o boi. Há décadas, mesmo sendo percebidos nas mais das vezes como curadores de uma plataforma de comunicação “jovem”, temos os estudos sobre o envelhecimento como foco recorrente em edições, artigos, capas, vídeos e conteúdos de todos os tipos. Para lembrar apenas uns poucos exemplos, não deve haver outra revista que tenha publicado capa e ensaio sensual com uma mulher de mais de 70 anos nua. Nossa capa com a atriz e modelo Vera Barreto é uma espécie de experiência antropológica que levamos a cabo com orgulho já nos idos de 2009. Bem antes disso, em 1998, produzimos nossa primeira edição inteiramente dedicada a analisar o envelhecimento e a forma como ele é tratado no Brasil. É dela aliás, que furtamos nossa chamada de capa deste mês. A lista poderia ir mais longe, mas, infelizmente e a despeito dela, a forma obtusa e estupidamente equivocada com a qual lidamos com a inexorabilidade do tempo, como diriam os eruditos de salão, mudou muito pouco nesses anos todos.

Talvez porque velhos não façam passeatas, não promovam marchas, não saibam (ou não queiram) se organizar nas redes sociais para exigir respeito, oportunidades iguais e tratamento digno... ou simplesmente porque fracassamos enquanto tecido social, o fato é que a maneira como administramos nosso próprio envelhecimento talvez seja mesmo a maior e mais evidente prova da ignorância que nos vitima.

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Entre outras dezenas de sintomas dessa doença social endêmica, está uma espécie de arrebatamento tácito que promovemos lentamente e há muito tempo. É como se tivéssemos destacado o último trecho da nossa própria história. Uma das partes mais importantes da nossa narrativa é seccionada e jogada num cantinho escuro e sujo, lá onde largamos as coisas que não prestam, as que irão a descarte, que viraram lixo. Ser velho, como veremos a seguir por diferentes ângulos e tons, em boa medida, é exatamente como estar vivo em qualquer fase ou tempo. Não é nem um pouco fácil, mas pode ser sublime.

Quando sou convidado a falar sobre o que quer a Trip como entidade que exerce algum papel no tabuleiro do jogo social brasileiro, procuro dizer que o eixo da nossa batalha passa muito fortemente pela tentativa incessante de erguer algumas das réguas que nos definem. E que possamos servir como formuladores das boas perguntas, aquelas que nos tiram dessa letargia que parece nos assolar desde que nos entendemos por sociedade. E, evidente, um entendimento mínimo sobre como lidar com as dores e delícias de cada fase da vida, sem que isso signifique arrancar e destruir a parte final da estrada onde estamos todos, há de ser uma das barras mais relevantes que nos cabe empurrar para cima. Eis aqui mais uma tentativa.

E, numa apropriação legítima de um dos melhores aforismos do inesquecível e sempre presente Nelson Rodrigues, fica a dica: “Jovens, envelheçam...”.

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P.S. Uma das alavancas mais potentes para empurrar a tal barra para o alto nesta edição é a inspiradora entrevista com a fotógrafa e guerreira Claudia Andujar. Ela foi conduzida pelo nosso sócio, parceiro e amigo Fernando Luna que, com esta delicada e precisa última pincelada, assina uma obra importante construída ao longo de 16 anos, se despedindo em grande estilo do posto de diretor editorial da Trip que exerceu de maneira sempre brilhante. A ele desejamos muitos voos tão belos como este que se encerra agora.

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