por Paulo Lima

Na Trip, a diversidade sempre foi uma palavra levada muito a sério, vivida e declamada em seu mais lato sensu

Corria o ano de 1989, um mundo completamente diferente estava por aí. Nossa personagem de capa, a talentosa Gloria Groove, ainda custaria seis anos para conhecer a luz e a equipe de reportagem da Trip já penetrava nos cortiços de São Paulo cheia de disposição para desvendar como viviam e eram tratadas pela sociedade algumas das criaturas mais estigmatizadas daquele tempo, os travestis portadores do vírus HIV. Chamados de aidéticos e segregados, sem sequer entender o que queriam dizer aqueles sintomas horríveis da morte seca e lenta, aquelas comunidades de figuras com corpos deformados pelas aplicações de silicone industrial tentavam se defender não só da doença avassaladora, mas da mais absoluta e gelada indiferença. O repórter Fernando Costa Netto e a fotógrafa Sandra Martinelli , com os recursos da época, que se resumiam a gravadores cassete toscos e a máquinas fotográficas analógicas e as de escrever mecânicas movidas a dedadas vigorosas, e, claro, ao olhar desarmado e aberto que tentamos alimentar desde sempre nessas páginas, produziram um relato forte e inequívoco da nossa enorme ignorância no que toca a entender os tons diversos que compõem a espécie humana.

Quase dez anos depois, Glorinha Groove talvez já esboçasse seus primeiros traços de personalidade, possivelmente ainda uma espécie de persona embrião, à altura um menininho de 3 anos. Enquanto isso, estávamos ao lado de Edilson Magro, um contador de 27 anos que viria a se tornar, no dia 8 de abril de 1998, a jovem e sensual Bianca, após 3 horas de cirurgia naquela que foi a primeira operação de mudança de sexo realizada dentro da lei no país. A repórter Silvia Corrêa acompanhou Edilson e depois Bianca ao longo de cinco meses numa jornada que revelou o sentimento, as angústias e as alegrias de alguém que lutou bravamente para empreender o que, nas palavras dela, nada mais era que uma reforma da natureza.

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Gloria tinha cerca de 9 anos de idade em 2004 quando um dos maiores nomes da cultura popular brasileira completava 70 e escolhia as páginas da Trip para finalmente assumir pública e amplamente sua homossexualidade até então não expressada e não vivida na plenitude. Numa entrevista memorável a Giuliano Cedroni e em imagens de Christian Gaul, era possível sentir no inesquecível Joãosinho Trinta um misto de orgulho, alívio e cansaço pelo fardo carregado até ali.

2011. Gloria já tinha 16 anos. Possivelmente ainda tímida e confusa diante de uma profusão de possibilidades, hormônios, medos, travas e desejos, ia construindo aos poucos sua identidade. Enquanto isso, a Trip dedicava uma edição inteira ao tema da diversidade sexual. E produzia uma de suas mais memoráveis e contundentes capas. Um casal de homens surfistas fotografado por Caio Cézar na praia, com suas pranchas, calções e corpos abertos no espaço, num belo e tocante beijo na boca. Uma imagem, esta sim, mais forte que quaisquer palavras e principalmente que o mais arraigado dos tabus. Mais potente que a mais potente das ignorâncias. Talvez um dos raros momentos em que praticamente todos os recortes e subgrupos do universo LGBT tenham concordado formando um uníssono emocionante.

Agosto de 2012, Gloria já quase adulta e a caminho da glória. Enquanto isso, Trip escancara suas páginas para a sensualidade exuberante da jornalista Carol Marra, a primeira trip girl transexual da já então longa história da revista, em fotos delicadas e impactantes de Marcio Simnch, fazendo moldura para um depoimento em que a própria Carol se desnudava ainda mais.

Fevereiro de 2017. Depois de brilhar em clipes, dois CDs, em todas as quebradas das redes sociais, em programas de TV aberta e, modéstia às favas, num revelador vídeo no Trip TV, Gloria lacra na capa da Trip, dividindo a glória com Vladimir Brichta e celebrando o auge dos seus 22 anos.

Diversidade por aqui sempre foi uma palavra levada muito a sério, vivida e declamada em seu mais lato sensu. Achou estranho, desconfortável? Melhor prestar atenção naquilo que a gente diz há muito tempo e a própria Gloria entoa reverberando sabiamente numa de suas músicas mais recentes: “Não tem mais jeito, vai ter que mostrar respeito...”

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